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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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O PAN, a ecologia e a sociedade

por Amato, em 08.06.19

Nas últimas eleições europeias, cento e sessenta e oito mil e quinhentas e uma pessoas decidiram entregar o seu voto ao PAN, o partido chamado Pessoas-Animais-Natureza. Esta expressiva votação terá sido uma mistura entre o voto de protesto, tão costumeiro por altura das europeias, e o consubstanciar da moda do momento que são as alterações climáticas e as preocupações ambientalistas. No PAN, porém, a palavra natureza parece ser secundarizada relativamente à palavra animais e não se trata apenas duma questão de ordem na posição na sigla do partido, uma vez que a palavra pessoas, que aparece primeiro, não parece constar, nem vestigialmente, das preocupações do PAN. É, sobretudo, uma questão de prática e de prática populista.

 

O PAN procura, desde sempre, apelar a uma parte da população urbana, cada vez mais significativa, que vive mais ou menos isolada nos seus apartamentos, e que valoriza de forma exagerada, pouco saudável, a importância da companhia dos seus animais de estimação. Em regra antissociais, muitas vezes desligados da realidade que os rodeia, estas pessoas — que todos nós sabemos identificar — operam sobre os seus cães, gatos e outros uma espécie de humanização forçada, uma “gentificação” grotesca e este partido, o PAN, aproveita-se disto mesmo para medrar e crescer eleitoralmente através de propostas que, por muito irrealistas que sejam, vão de encontro a este eleitorado. Permitir que animais de estimação acedam a restaurantes, a título de exemplo, parece ser um descarado ataque aos padrões mínimos de higiene e salubridade que estruturam a sociedade moderna e que foram tão difíceis de implementar. Mas o PAN corporiza esta aparente erosão de bom senso daquela parte da sociedade que não percebe como nos empurra coletivamente com medidas como esta para as sociedades medievais de promiscuidade entre pessoas e animais.

 

Revelando-se arguto em todo este processo, os dirigentes do PAN não se arriscam a falar muito. Não se alongam nos discursos e nos problemas. Inteligentemente, agarram-se a uma ou duas palavras de ordem e não se comprometem politicamente. Com efeito, em quatro anos de mandato no parlamento português, não se conhece muito acerca do que o PAN e o seu deputado — que acho que é também líder ou porta-voz —, André Silva, pensa sobre o que quer que seja que não seja touradas ou afins.

 

Agora que o PAN vai para o Parlamento Europeu, começa-se a destapar um pouco do véu que o tem envolvido politicamente. Muitas mulheres, por exemplo, que votaram no PAN por causa dos seus Bolinhas, Snoopy ou Rex, têm, por ora, os seus cabelos em pé quando descobriram, pelos jornais, que o PAN quer pô-las a usar copos menstruais em vez dos habituais pensos e tampões. Diz André Silva: “Financeiramente, [o copo menstrual] é mais vantajoso, responde a uma necessidade cíclica feminina e minimiza os danos sobre o planeta”. Não, não responde. Qualquer mulher que tenha um mínimo de padrões de higiene e limpeza dir-lhe-á isso mesmo. Mas para as mulheres que não se acreditam no que escrevo há uma boa solução: experimentem o copo vaginal. É que só experimentarão uma vez. E essa vez que seja ao fim-de-semana, que é para não serem obrigadas a abandonar os trabalhos.

 

Há também as faturas em restaurantes de luxo que servem carne e peixe de categoria, mas isso é entrar numa área que não considero tão interessante. O que me interessa falar é sobre a parte ideológica do PAN. O problema da ecologia e dos perigos que ameaçam a sustentabilidade do nosso planeta não se reduz aos animais, nem se resolve com medidas particulares como copos menstruais. Pelo contrário, os problemas que nos afetam são problemas de fundo, são problemas estruturais que envolvem a organização das nossas sociedades, mas também do ponto de vista económico, e o nosso modo de vida que nos é incutido desde o berço. É irrealista, demagogo e populista pensar que a sobreprodução alimentar, a sobreprodução de plásticos, de bens, a hiperbolização do consumo, transversal em toda a sociedade, e a consequente produção estratosférica de resíduos, quantidades impossíveis de tratar e que vão poluir os nossos rios, mares, os solos e a atmosfera, possam ser controlados através da imposição de hábitos de reciclagem ou da utilização de sacos de papel ou copos menstruais.

 

Um partido ambientalista que seja sério tem, portanto, que tomar posição sobre estas matérias da organização social e económica do país. Porque se o capitalismo se baseia na sobreprodução e no incentivo ao consumo, se essa é a natureza desse sistema, então um partido ecologista tem que ser capaz de rejeitá-lo e de se assumir como antissistema e anticapitalista. Não o fazendo, reduzir-se-á a um partido demagogo e populista que acabará com o fim das febres mediáticas ambientalistas, com o fim das causas de algibeira ou com uma qualquer revelação de faturas em restaurantes de luxo de peixe ou de carne.

 

Mas também isto, de facto, vai de encontro ao eleitorado que vota PAN. O PAN oferece aos seus eleitores um voto livre de responsabilidade, livre de verdadeiras escolhas e repleto de boas e vãs intenções. Por isso mesmo dizia, no princípio deste texto, que o voto no PAN era uma mistura que incluía o voto de protesto, manifestação — acrescento — de uma sociedade repleta de perfeitos incapazes de exercer a cidadania e a democracia, através da educação, da cultura, da participação política e do voto. Em concordância, observe-se aquela tentativa aberrante de pôr os cidadãos a votar a partir dos dezasseis anos de idade. Só por ignorância, ou para tentar capitalizar politicamente dessa mesma ignorância, é que se pode propor algo tão surreal.

 

Neste sentido, mais do que a eleição de André Silva, há quatro anos, para o Parlamento português que, como disse, pouco ou nada acrescentou ao nosso conhecimento da ideologia do PAN, a eleição de um eurodeputado para o Parlamento Europeu tem uma vantagem imediata: vamos saber de que lado do parlamento e em que cadeira se senta esse parlamentar. Sentar-se-á à direita ou à esquerda? De que grupo parlamentar europeu fará parte? Mesmo continuando a dizer nada de nada sobre o essencial, poderemos pelo menos ver quem serão os seus amigos na Europa. E, segundo consta, os amigos europeus do PAN não serão os mais aconselháveis...

Óbvio: João Ferreira!

por Amato, em 24.05.19

Desta campanha eleitoral para o parlamento europeu ficou clara uma coisa para além do óbvio: João Ferreira, da CDU, é, de longe, o melhor candidato e tem-se revelado um nome a ter em conta na cena política futura. Seja pelo brilhantismo com que debate, com que apresenta as suas posições e as defende, seja pela inteligência e rapidez de raciocínio na resposta, seja pela excelente preparação em cada ocasião em que se apresenta, nas sessões públicas, nos comícios, a verdade é que João Ferreira conseguiu assumir uma posição de destaque nesta campanha eleitoral. E conseguiu também colocar em evidência duas coisas fundamentais: primeiro, que a CDU é a única força política com ideias com cabeça, tronco e membros no que à Europa e ao euro diz respeito, e segundo, que as outras forças, são um saco de lugares-comum, de chavões e chicana, muita chicana política, para esconder aquilo que devia ser evidente aos olhos do povo: no essencial — também na Europa — estão sempre de acordo.

 

Os candidatos de PS e PSD são, neste particular, um exemplo flagrante e deprimente, trocando acusações e insultos fáceis em abundância para esconder a sua vida conjugal política não assumida, mas todos os dias consumada, ao mesmo tempo que procuram bipolarizar o debate.

 

O candidato do CDS — o que menos trabalhou no último mandato — acrescenta ao debate a sua falta de educação congénita que já é uma sua imagem de marca, vociferando repetidamente as palavras Sócrates e Venezuela alternadamente. Não consegue articular mais nada porque, francamente, nada tem mais a dizer. É o mais perigoso populista português.

 

A candidata do Bloco de Esquerda é, para mim, o que de pior a esquerda pode oferecer: uma política de frases feitas, de boas intenções, desta vez anda com as alterações climáticas na boca para ver se caça o voto incauto da juventude, mas nada de concreto, nada de substantivo. Tudo muito superficial, sem nunca ir ao âmago das questões. Foge disso mesmo para não se comprometer. Que medidas defende? O que pretende? Ninguém sabe ao certo. Fica tudo a flutuar no ar. E é tudo muito artificial, muita sedução forçada, procurando adaptar à sua campanha a política dos afetos de Marcelo, com muito abraço, muito beijo, muito calor humano encenado. Como a Europa deve enfrentar os seus problemas, não sabe lá muito bem, mas sabe que deve haver muito afeto e bons sentimentos. Lamento, mas não é suficiente. Enquanto eleitor, exijo muito mais a quem me representa.

 

A escolha para o parlamento europeu é, portanto, óbvia. É uma escolha tão óbvia que nem sequer é ideológica. É uma escolha patriótica. João Ferreira é o único que não aprova os tratados que, ano após ano, nos retiram soberania sobre o nosso próprio território, que nos retiram autonomia económica e cristalizam a nossa condição de mendicidade, de joelhos dobrados e mão estendida aos poderes europeus e mundiais. Os outros assinam tudo de cruz. João Ferreira é o único que defende o nosso país e não está comprometido com interesses externos. É o único que tem voz de protesto e proposta para alterar o estado das coisas. E isso devia ser suficiente para a maioria do povo votar nele.

Falta coragem a quem era importante que tivesse coragem

por Amato, em 11.05.19

O que aprendemos com esta crise política?

 

  1. Que a palavra de certos políticos vale zero, que são mentirosos, intrujões, sem caráter e sem escrúpulos. O que aconteceu foi tenebroso. Desde as mentiras descaradas ao povo sobre as “boas contas” à inversão da palavra dada num par de dias, particularmente a quem usa da palavra para influenciar as populações e liderar o país é desprezível. Termos o país entregue a seres humanos tão reles como estes é dramático.

 

  1. Que PS, PSD e CDS — reflexo da sociedade que os elege — não têm um pingo de respeito pelos professores e que, com isto, quer queiramos quer não, moldam o tipo de homens e de mulheres que teremos na sociedade de amanhã.

 

  1. Que BE e PCP, tendo sido coerentes em todo o processo, não conseguem esconder o alívio pela mudança de posição de CDS e PSD e por não terem que enfrentar eleições antecipadas neste momento.

 

A dialética sempre foi, desde a antiguidade clássica, uma disciplina estrutural para se ilustrar os cidadãos. A capacidade de bem falar, de argumentar, de defender uma posição, de seduzir o auditório e o próprio opositor, de ganhar uma disputa através da palavra, era vista como uma ferramenta essencial para o Homem, visto pelos gregos como um animal eminentemente político.

 

Quer-me parecer que temos demasiado disto nos dias que correm. Temos demasiada dialética, demasiada palavra e pouca ação. Demasiada justificação do injustificável. No rescaldo desta crise política, o que se me afigura é uma superlativa falta de coragem, sobretudo a quem importava que tivesse alguma coragem. Perante a ameaça de eleições antecipadas de Costa, do alto da sua posição privilegiada que as sondagens lhe parecem conferir, o parlamento estremeceu de medo, desde a direita até à esquerda. Ninguém enfrentou as ameaças de Costa com força de caráter, com inabalável convicção. Ninguém. Todos tremeram de uma ponta à outra.

 

BE e PCP temem pelo fim de um mísero poder que ninguém sabe muito bem quanto vale exatamente, mas que já toda a gente adivinha que o que vale é muito pouco. Tremem os dois como verdes varas. Dizem que ainda há muito a fazer. Mas quem pensam eles que enganam? Se ainda havia alguma coisa a fazer ou a conquistar a este governo burguês, sempre de mãos dadas com o poder económico, com o resultado desta crise deixou de haver. Aliás, para sermos mais rigorosos, depois da aprovação do derradeiro orçamento de estado, última oportunidade perdida para a esquerda poder afirmar as suas posições, já não restava grande coisa a fazer. Escrevi-o aqui várias vezes e repito-o.

 

Falta muita coragem, sobretudo a quem era importante que tivesse coragem, entenda-se: BE e PCP. E isto é algo que até um cão vadio fareja à distância mais depressa do que a um pedaço de toucinho gorduroso esquecido na soleira da porta de um talho. E é um funesto presságio para as eleições que aí vêm.

Quem se mete com patifes...

por Amato, em 04.05.19

Quando o país foi mergulhado na última crise de tesouraria, motivada por andar a desbaratar dinheiro em obras públicas e em linhas de crédito a bancos a mando da União Europeia, sublinhe-se, os governos recorreram aos mesmos de sempre para sair do poço sem fundo onde se metera. Particularmente, a classe dos Professores, bem como os demais funcionários públicos, viu o seu tempo de serviço congelado durante mais de nove anos para efeitos de progressão das carreiras. Foi à custa desta e de outras extorsões sobre o povo trabalhador que o Estado foi capaz de pagar os seus próprios erros de gestão e os auxílios, sempre abundantes, à banca e ao setor empresarial do país.

 

Teria sido da mais elementar justiça que, tendo o país saído da situação de desequilíbrio de contas e de crise de tesouraria em que se encontrava, tendo invertido a sua trajetória económica — este governo passou os últimos quatro anos a gabar-se disso mesmo —, que os Professores e demais funcionários afetados tivessem exigido o pagamento de todo o dinheiro retirado ao longo da última década. Nada disso foi feito. Para os trabalhadores, note-se, nunca há contratos a cumprir, o que se rouba não se devolve. Ao invés, os Professores exigiram simplesmente a contabilização do tempo de serviço congelado para efeitos de progressão da carreira e que essa contabilização pudesse ser gradual ao longo dos próximos anos. É isto uma reivindicação não razoável? É isto uma posição inflexível? Para o governo parece que é.

 

As voltas e voltinhas que este processo já deu ao longo dos anos que já leva não são de somenos relevância. Primeiro, o governo disse que sim senhora, que ia recuperar o tempo de serviço, só que não era para já, que ficava para o ano. Depois, ficava para o outro, até que os parceiros de esquerda o obrigaram a inscrever a medida no orçamento de estado. Mas quando que o orçamento era para ser cumprido, eis que na recuperação do tempo de serviço o do não era do era de e esse de fazia toda a diferença porque implicava que o governo não tinha que recuperar todo o tempo de serviço congelado mas só algum. Numa guerra facialmente linguística mas visceralmente de caráter, porque é mesmo disto que se trata, de falta de caráter do governo, o executivo, obrigado pelo Presidente da República, finge negociar com sindicatos e aprova unilateralmente um decreto que, dos mais de nove anos de tempo de serviço, recupera apenas cerca de dois.

 

Esta semana, porém, o parlamento obrigou o governo a fazer o que está correto e a recuperar todo o tempo de serviço. Mas esperem: isto não fica assim. Em vez de respeitar a casa da democracia, Costa e Centeno não aceitam a decisão democrática e ameaçam com a demissão no caso do diploma ser aprovado! Como que por artes mágicas, Centeno surge nas televisões afirmando que esta medida faria com que a despesa passasse de duzentos para oitocentos milhões! Notável!

 

A ciência destes números, ninguém percebe. Imagino que a ideia não seja entender. Porque, se entendêssemos, surgiriam de seguida outras questões como: e o dinheiro para resgatar bancos ou para os privatizar? Quanto custam essas operações? Quanto custa ao estado a privatização da TAP e dos CTT? Quanto vai custar, por exemplo, a mais recente brincadeirinha da Lone Star no defunto Banco Espírito Santo? Já foi contabilizada para este ano ou é só para o próximo? Ah, claro, essas matérias nunca entram nas contas do orçamento do estado, nós só sabemos delas porque as pagamos mais tarde.

 

Nada disto me surpreende. Absolutamente nada. Neste meu espaço, discorri copiosamente sobre este governo, sobre a sua natureza e a natureza do PS e o que está a suceder apenas me vem dar razão. Esta solução governativa só chegou onde chegou porque o PCP e o BE fizeram de tudo para a aguentar começando por aceitar apoiar o governo a troco de um conjunto de reivindicações absolutamente minimal. E viu-se, claramente, ao longo da governação, como o governo sempre desprezou abertamente a esquerda nas questões verdadeiramente estruturantes e essenciais e se aliava à direita no fundamental como nas questões europeias e no código de trabalho.

 

PCP e BE tudo fizeram para que o governo chegasse até ao fim, rebaixaram-se tanto quanto podiam, muito mais do que deviam, ao ponto de aceitar que este governo fizesse aquilo que consideravam inadmissível aos outros governos, particularmente ao antecedente de direita. No fim de contas, todos estes esforços revelaram-se inglórios por mero taticismo eleitoral da parte de António Costa, que vê aqui uma oportunidade para tentar uma maioria absoluta.

 

Seria outra coisa de esperar, todavia? Os sinais foram surgindo, um atrás do outro e, a cada um deles, PCP e BE foram fechando os olhos. Foi permitido também que o PS dominasse a agenda, controlasse a geringonça do primeiro ao último dia e dela recolhesse todos os frutos. Sempre aqui afirmei, e afirmarei novamente uma última vez, a minha total estupefação perante o facto do PS, estando completamente dependente do PCP e do BE para governar, conseguir ser a parte dominadora no governo. Como o PS conseguiu dominar o PCP e o BE sendo efetivamente a parte mais fraca na coligação é, para mim, espantoso. Os resultados estão à vista.

 

Não podemos, pelo exposto, ter pena dos partidos de esquerda. Quanto muito, podemos admitir que foram traídos pela sua inexperiência a estes níveis ou por alguma inocência. Com franqueza, porém, esperaríamos nós semelhante complacência se acaso nos envolvêssemos com patifes, oportunistas, miseráveis e acabássemos atraiçoados? Não. Claro que não. E isto é só o início. Vêm aí as eleições.

Um milhão

por Amato, em 29.04.19

Estas últimas eleições espanholas tiveram qualquer coisa como um milhão de novos votantes. Para mim é sempre surpreendente dar de caras com estes números. De algum modo, nunca estou à espera deles.

 

Um milhão de novos votantes.

 

Um milhão.

 

Um milhão para começar a mudar o mundo.

 

Podia ser. Mas não é.

 

Este novo milhão votou nas velhas ideias conservadoras, no nacionalismo fascista bafiento e na hipocrisia charlatã do PSOE. Um milhão de novos votantes que votam como os velhos. Um milhão que podia começar a mudar a Espanha.

 

Mas não.

 

É um milhão para manter tudo na mesma ou, pior, para regressar ao passado.

Estado de desamparo

por Amato, em 18.04.19

As primeiras horas da manhã anunciaram, num misto de alívio e sofreguidão, o fim da greve dos motoristas de matérias perigosas. O sentimento dúplice foi motivado pelo estado de cabal desamparo em que o governo e as entidades patronais se viram fadadas, de pés e mãos atados perante a situação e a irredutível e inabalável determinação dos trabalhadores.

 

Bem entendido, o estado burguês de tudo fez para minar e minorar os efeitos desta greve, incluindo as já habituais abusivas e ilegais requisições civis e determinações de serviços mínimos/máximos. De nada valeram, todavia. A grande lição é esta mesmo: nada é possível fazer contra a união dos trabalhadores. Nada. Não há leis escritas sobre o joelho nem há força bruta que consiga subjugar um grupo de trabalhadores unidos na sua verdade e na sua justiça.

 

Duas notas.

 

À semelhança do sucedido com uma outra greve que também abalou o país — a greve cirúrgica dos enfermeiros —, também esta greve foi liderada por um sindicato relativamente recente, com uma capacidade de mobilização assinalável. O modus operandi destes sindicatos também parece ser diferente: a liderança do processo negocial e comunicacional é entregue a advogados dedicados ao processo e não aos líderes sindicais. Com este sublinhado não pretendo defender uma ou outra forma de atuar, apenas reconheço esta diferença.

 

Não se ouviu reação digna de registo por parte de PCP ou CGTP-IN, as duas grandes forças tradicionais relevantes no que diz respeito ao movimento sindical e à luta dos trabalhadores. À semelhança do que ocorreu aquando da greve dos enfermeiros, a imagem que transparece não é nada boa para estas forças e não se percebe a estratégia política que possa justificar este tipo de conduta.

A importância das opções individuais

por Amato, em 15.04.19

As opções que tomamos em cada dia, em cada momento, são importantes. É claro que vivemos mergulhados num contexto social que nos pressiona num certo sentido, que favorece determinadas ações, que condiciona fortemente o rumo que, a cada passo, tomamos. Mas é sobretudo por isso mesmo que as nossas opções individuais assumem uma relevância determinante na fertilidade da nossa vida, isto é, daquilo que podemos e conseguimos gerar ao longo da nossa breve existência.

 

Num destes dias, conversava com uma mulher, uma amiga de uma conhecida. O assunto era a filha, uma jovem adolescente que, segundo o relato, desenvolveu um forte desinteresse pela escola: falta frequentemente às aulas, falha em todos os testes e arrisca-se a perder o ano. No resto, parece ser bastante avançada: proficiente no uso das redes sociais, as virtuais e as reais, sai à noite todos os dias da semana, se lhe apetecer, disfarçando habilmente a maioridade que ainda não tem, bebe, fuma e, com destreza, faz tudo o que um adulto responsável pode fazer. Nestes domínios, a mãe não tem com que se preocupar. A responsabilidade da filha só não se estende à escola.

 

Estou certo que este quadro apresentado configura-se semelhante a muitos outros casos do conhecimento do meu estimado leitor. Asseguro que qualquer semelhança não é pura coincidência. Malogradamente, são muitos os adolescentes que partilham este perfil, sabemo-lo bem. Não podemos afirmar que as consequências deste tipo de comportamento são bem definidas e definitivas. Não. Mas podemos inferir sobre um padrão previsível de comportamentos esperados dos adultos que estes adolescentes serão no prazo de dois, três ou quatro anos.

 

Não é possível elencar organizadamente cada um dos aspetos relevantes a ter em conta, visto estarem todos interligados. Começaria por referir a cultura do ócio, do ócio no sentido mais contemporâneo e negativo do termo, como elemento estruturante do caráter destes jovens, de mãos dadas com um egocentrismo que é genético, que foi codificado desde a nascença por estes pais do último meio século. A procura pelo prazer, o exercício apenas e somente das atividades geradoras do prazer individual, passou a ser não apenas expectável como natural. Longe terão ficado aqueles ditados, estruturantes do Homem de tempos passados, como “O trabalho é formador do caráter”. Mas qual trabalho? Afinal, hoje em dia o lema de cada um é aquele fútil e masturbatório “ser feliz” e o que dá trabalho não traz felicidade, toda a gente sabe disto! Um milénio, quase, de cristianismo na Europa não terá sido suficiente para incutir aquele ensinamento básico: a felicidade está mais nos outros do que em ti, a felicidade está mais em fazer os outros felizes do que na auto-satisfação.

 

Ao conversar com a mulher, a mãe da adolescente, que me dizia não saber mais o que fazer relativamente à filha — esta é uma frase típica dos pais destes adolescentes —, vim a descobrir que se tratava de um alto quadro da nossa sociedade, extremamente bem sucedida do ponto de vista profissional e económico. Boquiaberto de espanto, não pude conter dentro de mim as palavras que disse, desprovidas, reconheço, de algum vestígio de tato ou sensibilidade: “Pois devia pensar em trabalhar menos tempo e dedicar-se mais à filha que tem...”

 

Como escrevia no princípio, é evidente que o contexto em que vivemos influencia as nossas opções de vida e esta sociedade capitalista nos empurra no sentido de sermos os mais bem sucedidos, de acumularmos mais e mais, ainda que sem grande bom senso ou sentido. No fim de contas, todavia, há uma opção essencial que é nossa apenas e que apenas nós tomamos. Aquela mãe prefere dedicar a sua vida a um trabalho, negligenciando a formação intelectual e de caráter da sua filha. É uma opção. Aquela mãe prefere, ainda que inconscientemente, legar à sua filha uma gorda conta bancária, em vez de uma formação intelectual e cultural rica. Por outro lado, aquela mãe também é vítima da sua própria filosofia, vivendo a sua vida em função dos seus interesses, das suas ambições, do seu próprio ego e prazer e relegando, desse modo, o futuro da sua filha para segundo plano, inclusivamente delegando frequentemente a sua função de mãe a terceiros — escola, professores, amigos, etc.

 

Não há aqui uma relação de causalidade. Não há tragédias anunciadas ou definitivas. Aquela filha não vai ser nem isto, nem aquilo. Será aquilo que o seu potencial natural se manifestar devido e apesar dos pais que tem. Quem afirma o contrário não é intelectualmente sério ou honesto. Desenganem-se todos os behavioristas e todos os pais que julgam os seus filhos como os seus projetos pessoais. O que há é o reconhecimento de que nós somos mais do que o contexto que nos envolve. Nós somos também e sobretudo o conjunto das opções que tomamos. São elas que, ultimamente, falam pela vida que vivemos.

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