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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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As sereias da "ação climática" e da "descarbonização"

por Amato, em 16.11.19

Nesta versão 2.0 do governo PS há um pormenor que me tem preocupado severamente. O ministro do ambiente Matos Fernandes regressou do anterior executivo para este novo figurino com um acrescento ao seu epíteto. Agora, é ministro não apenas do ambiente, mas também da ação climática. Observem que coisa tão moderna e tão na moda! Só lhe falta a menina Greta como conselheira permanente. Tal acrescento tem sido acompanhado de uma abundante retórica sobre a “descarbonização” da nossa economia. Vejam bem que até o meu corretor ortográfico desconhece o palavrão. Repitam lá a palavra, “descarbonização”, seja lá o que isso for.

 

Esta temática preocupa-me porque aparenta ter pouco ou nada de substantivo e muito de propaganda com um fim bem definido: fazer sucumbir o país ao lobby do “elétrico” e dar carta branca à destruição de Montalegre para a exploração do lítio sem ninguém dar muito por isso.

 

Consta que o golpe de estado na Bolívia terá sido perpetrado, não por causa do gás natural, como inicialmente suspeitava, mas por causa, precisamente, do lítio. Não será por acaso, não sejamos inocentes, que as ações da Tesla, aquela empresa dos caríssimos carros elétricos futuristas, subiram em flecha após a deposição de Evo Morales.

 

Em Portugal, claro, não são necessários golpes de estado. As nossas lideranças, democraticamente eleitas pelo nosso povo, estão sempre na linha da frente no que diz respeito ao desbaratar dos nossos recursos em favor das grandes multinacionais burguesas. E neste caso do lítio acontecerá exatamente isso, far-se-á uma concessão a privados, com caderno de encargos escrito a preceito, para no fim ficarmos sem recursos, sem as nossas aldeias, vilas e cidades, e sem o dinheiro.

 

Importa repetir todas as vezes que forem necessárias em todas as oportunidades que se apresentem: em termos de eficácia, o “elétrico” não substitui os combustíveis fósseis, nem com todo o lítio do mundo, nem num milhão de anos. E com que energia iremos alimentar todos esses motores elétricos? Com que energia? De onde? Das barragens? Das eólicas? E conseguem afirmá-lo com certezas absolutas? Acresce que, ao comprarmos o “elétrico”, estamos a substituir um problema por outro, no que à questão ambiental diz respeito. Nós, que temos dificuldade em tratar duma simples pilha de volt e meio, já para não falar de uma bateria de um simples telemóvel, vamos ter de tratar, da noite para o dia, uma quantidade enorme de baterias elétricas de automóveis com vidas úteis de menos de dez anos. Tragédia ambiental em perspetiva? Lençóis freáticos, rios e mares permanentemente contaminados e poluídos? Água potável em risco? Será esse o nosso auspicioso futuro dos carros ultra modernos?

 

A situação é insana. Esta ânsia dos nossos governos em agradar ao capital monopolista está a redundar em demência profunda, porque é uma política de terra queimada, de quem vier a seguir que feche a porta, uma política que condena as gerações futuras e as amarra a opções trágicas. Mas, em simultâneo, esta situação gravíssima é-nos vendida com os cantos de sereia, das sereias da “descabornização” e da “ação climática”. E nós acreditamos. Achamos bem. Soa-nos bem, a moderno. Lava-nos a consciência, até. Parece que somos incapazes de pensar. Esta geração, a anterior e todas as que confluem no presente, no hoje, no agora, parecem todas vítimas de lavagem cerebral. Não olham, não veem, não pensam, não questionam. Tudo aceitam.

 

Tal como no passado com Ulisses, teria sido prudente amarrar o capitão do navio à carlinga e tapar os ouvidos de cada um dos seus marinheiros com a cera do mel para que nada pudessem ouvir, para que não pudessem ouvir as sereias tentadoras. Desgraçadamente, nestes tempos sem fé não há bom senso que impere, não há deusa Circe que nos valha, nem outra divindade qualquer.

Um roteiro para compreender o resultado das eleições legislativas de 2019

por Amato, em 11.10.19

É muito fácil compreender o resultado das eleições cujo desfecho se veio a conhecer na noite de domingo passado. Basta seguir a linha condutora dos eventos, passo a passo, sem perder o fio à meada.

 

O PS venceu as eleições porque foi-lhe permitido, durante quatro anos, fazer uma governação que agradou, simultaneamente, a gregos e troianos. Passo a explicar.

 

A troco de meia dúzia de políticas de natureza redistributiva da riqueza produzida, PCP e Bloco de Esquerda permitiram que o PS continuasse, aprimorasse e cristalizasse estruturalmente na nossa sociedade a política de austeridade que herdou do anterior governo. Com isto o PS conseguiu duas coisas: por um lado, pôde seduzir uma parte relevante da sociedade — os mais pobres e os que mais dependem do assistencialismo do estado — com medidas como os aumentos de reformas e de salário mínimo ou os passes dos transportes públicos; por outro lado, e mais importante, logrou esvaziar a direita política, que viu na governação do PS aquela que ela própria gostava de ter feito, com os objetivos dos números e das estatísticas, do défice e do crescimento económico, que gostava de ter atingido, e cujo eleitorado capitulou definitivamente para o lado do PS com as ações desse partido no campo laboral e na forma indecente com que este lidou com as greves e com as reivindicações de certas classes de trabalhadores.

 

Não se enganem: o PS ganhou estas eleições porque esvaziou a direita, porque ganhou a direita, porque a direita escolheu votar nele e não por causa das medidas sociais ou redistributivas ou de outra coisa qualquer. Dito isto, PCP e Bloco de Esquerda devem estar de parabéns pois foram, ao longo de quatro anos de governo, os principais obreiros desta vitória do PS.

 

Não é portanto de estranhar, e quem acompanha este espaço não estranhará certamente, o resultado obtido quer pela direita, quer pela esquerda.

 

À direita não sobrava razão para ser merecedora de votos. O PS, afinal, conseguiu melhores resultados e com um clima de paz social nunca antes visto, muito devido ao adormecimento coordenado dos sindicatos afetos à CGTP. Ao CDS acresceu ainda o fardo da anterior governação que este partido decidiu orgulhosamente carregar e que, indelevelmente, resultou no seu regresso ao passado dos tempos do “Partido do Táxi”. Foi isso e terá sido também a atitude incompreensível, sempre carregada de agressividade e de hipocrisia, da sua liderança que tudo criticava na governação, mesmo as políticas que antes, enquanto governo, replicava.

 

À esquerda, creio que há dois fatores importantes a destacar.

 

Em primeiro lugar, um reconhecimento geral da inépcia dos dois partidos, PCP e Bloco de Esquerda, em negociar com o governo quando efetivamente detinham o poder de acabar com a governação do PS de um dia para o outro. Fica a ideia que o PS pouco cedeu, tão escassas e limitadas que foram as conquistas durante este período. Este facto pode ter levado o eleitorado a considerar irrelevante o reforço da votação nestes dois partidos.

 

Em segundo lugar e, para mim, mais importante, há a ideia de subversão ideológica que fica patente destes quatro anos. Sobretudo no que ao PCP diz respeito, é difícil de explicar como se legitimou um governo de direita, que deu mais uma canelada no código de trabalho, que maltratou classes inteiras de trabalhadores como os professores, os enfermeiros ou os motoristas de matérias perigosas, entre outros, incluindo descarados atropelos ao direito à greve, sindicâncias pidescas a ordens profissionais, despachos ministeriais em favor das entidades patronais, etc. Tudo isto se passou sob o nariz de PCP e de Bloco de Esquerda e isto, que para os demais até pode ser de somenos, tem muito peso para o militante de base, aquele que viveu uma vida inteira lutando por um ideal sem lucrar nada com isso, bem pelo contrário, sofrendo na própria pele a devoção para com as suas ideias, e para o qual a honestidade ideológica está acima de tudo. Talvez seja por aqui, acredito, que se possa explicar alguns dos milhares de votos a menos nestes partidos.

 

Relativamente aos partidos mais pequenos, também é muito fácil entender os seus resultados.

 

O PAN, cavalgando a histeria momentânea da emergência climática, cresceu como era esperado. O seu voto é um voto de protesto baseado numa ideia mais ou menos vaga, em convicções mais ou menos genéricas, porque ninguém, em consciência, sabe o que é que o PAN defende, porque o que defende é muito moldável, altera-se de uma hora para a outra, e porque ninguém quer prestar muita atenção a coisas de política. Nesta legislatura o PAN fará exatamente o mesmo que fez na anterior: abster-se-á em tudo o que for discutido e, no meio, fará uma ou duas intervenções mais ou menos apalhaçadas com adereços ou outras coisas que tais. As pessoas votaram nisto: é um voto nulo que elegeu quatro deputados.

 

A eleição de um deputado do Chega era também esperado e, se acaso não ocorresse agora, aconteceria numa próxima eleição. É o voto de protesto contra o politicamente correto e contra uma sociedade cada vez mais desorganizada e doente, sobretudo na capital do país onde há maior concentração populacional. Para muitos, a resposta mais tentadora a problemas concretos que nunca são abordados no espaço público é a extrema direita neofascista e xenófoba, securitista e ignorante. É triste, é desolador, mas era esperado.

 

Quanto à Iniciativa Liberal, o seu resultado até acaba por ficar aquém daquele que podia ter atingido com alguma naturalidade. Repare-se que a IL constituiu-se como o espaço de recolha do “passismo”, dos seus quadros, dos seus think tanks, opinion makers e influenciadores de redes sociais. Toda essa gente, que atingiu patamares de relevância e influência políticas no tempo da troika e de Passos Coelho e Paulo Portas, viu-se, com a constituição da geringonça e, posteriormente, a eleição de Rui Rio no PSD, sem emprego, sem serventia. Santana Lopes ainda tentou chamá-los para a Aliança, mas foi na IL que eles encontraram o seu nicho provisório. Deste processo ter resultado apenas um deputado, parece-me modesto, medíocre mesmo.

 

Por fim, o Livre apresenta, à partida, o resultado talvez mais inesperado de todos, mas que pode ser entendido. No plano nacional, este partido ideologicamente muito vago e algo oportunista com a questão da “esquerda verde”, viu a sua mensagem essencial ser, de certo modo, extinguida. Com efeito, o Livre apresentava-se há quatro anos como o promotor de uma grande coligação de esquerda, algo que veio a verificar-se com a geringonça e sem a sua participação. Volvidos estes quatro anos o Livre não tinha nada de substantivo para apresentar no plano nacional. Mas a questão é que esta eleição da deputada do Livre não se explica pelas propostas nacionais do partido que representa que, aliás, pouca ou nenhuma visibilidade mediática tiveram. Será antes em razão da influência local na área de Lisboa da personalidade notável de Joacine Moreira que, com a sua capacidade dinâmica e mobilizadora de massas, terá congregado suficiente eleitorado para conseguir a sua própria eleição. Não menosprezar também alguns votos perdidos e extraviados da área de Bloco e PCP.

 

Gostava de terminar este texto com uma nota. A vitória do PS não significa necessariamente a conquista de uma governação mais estável, antes pelo contrário. Com o PCP a voltar às ruas, as quais nunca devia ter abandonado, com Rio preso por arames no PSD, com o Bloco sedento, como sempre e mais do que nunca agora depois de perder cinquenta mil votos, por protagonismo, o caminho mais fácil e mais natural para o PS, que é tornar-se mais autista e prepotente na sua governação de direita, pode muito bem vir a tornar-se no prenúncio para um fim precoce e inglório do seu segundo quadriénio governativo.

A filosofia da sociedade utilitarista

por Amato, em 24.06.19

Passei há instantes por um cartaz do Bloco de Esquerda — os cartazes do Bloco têm sempre a faculdade de me perturbar intelectualmente — que, em maiúsculas carregadas, dizia: “não há planeta B”.

 

Passemos ao lado da descarada e oportunista usurpação do slogan desta “geração ambiente” por parte do Bloco de Esquerda, esta juventude mundial que anda muito indignada com as questões do meio ambiente, todavia aparentemente insciente do facto de que, ela própria, ao ritmo de um iphone novo, e afins, por ano, consome mais plástico que todas as outras gerações antecedentes à sua todas somadas. Passemos ao lado disto.

 

Coloquemos no centro da discussão a frase “não há planeta B”. Parece que existe a intenção, por parte do Bloco e da juventude que faz uso deste argumento, de apelar a uma mudança de hábitos e mentalidades com respeito ao meio ambiente. O silogismo em causa será mais ou menos este: estamos a destruir o único planeta de que dispomos para habitar e, por conseguinte, tendo plena consciência de que não existe alternativa, devemos alterar, isto é, inverter, a situação.

 

A pergunta que coloco é: e se houvesse alternativa?

 

E se, amanhã mesmo, encontrássemos uma segunda Terra, num outro sistema solar, com todas as condições para replicarmos à sua superfície as vidas que aqui levamos?

 

Existindo planeta B, seria, então, correto prosseguir a destruição deste “planeta A”?

 

Claro que não e, por isso mesmo, o argumento “não há planeta B” é vazio e não faz qualquer tipo de sentido.

 

Bem sei que estou para aqui a esmiuçar a coisa ao limite e que nada disto passará pela cabeça de quem faz uso da catch phrase “não há planeta B”, mas este tipo de slogan é simbólico, pois traduz uma forma de pensar, uma forma de argumentar e de estruturação lógica do raciocínio, uma forma de distinguir o que é correto do que é incorreto e, em última análise, traduz o modo como a própria sociedade interpreta o que é lícito ou ilícito do ponto de vista da lei.

 

Chamei-lhe a filosofia da sociedade utilitarista porque se trata disso mesmo. A utilização do argumento “não há planeta B” só fará sentido numa sociedade utilitarista, isto é, uma sociedade que justifica os meios através dos seus fins pretendidos, em que as atitudes devem ser valoradas em função dos proveitos que delas advenham e não pelo que elas próprias representam ou constituem.

 

Devemos cuidar do nosso planeta porque não há um planeta B? Não. Devemos cuidar do nosso planeta porque isso é o que é correto do ponto de vista dos princípios e da moralidade. Devemos cuidar do nosso planeta do mesmo modo que cuidamos do nosso jardim ou da nossa casa. Devemos cuidar de todos os animais e plantas do mesmo modo que cuidamos dos nossos filhos. E não porque isto ou porque aquilo. Não por causa desta ou daquela consequência.

 

Mas esta é exatamente a forma de pensar desta sociedade despida de qualquer vestígio de princípios éticos ou morais, governada por uma pseudo ciência do “ver pra crer”, que imprime nas mentes a desconfiança por qualquer princípio moral a priori.

 

Falava noutro dia com um professor que, indignado, me contava como um aluno lhe disse que só o respeitava se ele o respeitasse a ele. Reparem bem nos princípios de base que estão aqui em causa: o aluno não respeita o professor porque sim; o aluno respeita o professor se isso lhe convier. Cada um de nós reconhece a situação que descrevo e, inclusivamente, uma grande parte identifica-se com este modo de pensar. Trata-se dos alicerces da sociedade utilitarista, consequência da proposta de sociedade de consumo que nos é promovida pelo capitalismo.

 

Como pode um argumento saído deste quadro lógico-moral ser capaz de transformar o próprio sistema de que é originário?

Triste insígnia

por Amato, em 22.06.19

Discutir uma nova lei de bases da saúde ao mesmo tempo que se encerram rotativamente as urgências das maternidades de Lisboa por falta de pessoal é algo que roça a obscenidade. Faltava dizer isto sobre o tema. Está dito.

 

Os últimos anos já nos habituaram à vergonha que, por altura do verão, afeta os serviços de saúde do país, com hospitais e centros de saúde a funcionar a meio gás com falta de pessoal para trabalhar, com doentes a acumularem-se nos corredores à espera de atendimento ou, simplesmente, esquecidos em rios de macas mal encaixadas umas nas outras. Este ano, acrescenta-se o encerramento rotativo das urgências de obstetrícia de quatro maternidades de Lisboa, a área mais sobrelotada do país.

 

É que — venderam-nos essa brilhante ideia — em Lisboa, como no resto do país, os serviços foram sendo concentrados, os hospitais convertidos em centros hospitalares gigantes servindo áreas cada vez maiores e números de utentes cada vez mais exorbitantes. Era pela qualidade do serviço, diziam-nos então. Hoje vemos que não. Vemos que os serviços perderam qualidade, eficiência e, porque não dizê-lo, higiene. Hoje vemos que a ideia era tão somente reduzir pessoal. O resultado está aí bem à vista de todos, mas nós, povo, ainda vamos acabar revoltados com os médicos e o seu irresponsável gozo sazonal de férias.

 

Mas volto ao meu ponto inicial: discutir uma nova lei de bases da saúde neste contexto é surreal. Para isto, qualquer lei serve. Para destruir e descredibilizar o sistema nacional de saúde qualquer coisa serve. Como escrevi no post anterior, era com isto que PCP e Bloco se deviam preocupar. Ah, mais uma coisa: segundo notícias da manhã, parece que nem a eliminação das taxas moderadoras irá ser conseguida pela esquerda. Nesta questão da lei de bases da saúde, parece que, uma vez mais, o PS prepara-se para se deitar com a amante PSD. Não há nenhum mal nisso, bem entendido: viva o amor! O problema é que, para PCP e Bloco, sobra apenas o papel daquele género de pessoa que não se dá ao respeito e que ninguém respeita, constantemente enganada e traída, mas que sempre volta, que sempre tenta uma vez mais. É uma imagem que ficará como triste insígnia destes quatro anos de “geringonça”.

Brexit: esqueçam o fish and chips

por Amato, em 21.06.19

Em julho 2016, já lá vão três anos, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, renunciou ao seu cargo quando o povo que representava decidiu, em referendo, pela saída do Reino Unido da União Europeia. Do alto da sua sapiência, a velha “democracia” britânica, a mesma que sustenta uma câmara de quase oito centenas de lordes que mais não fazem do que mandar um bitaite aqui e ali, decidiu — David Cameron tinha formado governo há pouco tempo, afinal — nomear o nome que se seguia na hierarquia do Partido Conservador, no caso, uma senhora a fazer lembrar a ignóbil Margaret Thatcher, chamada de Theresa May.

 

May ocupou o seu tempo enquanto primeira-ministra do Reino Unido a negociar um acordo para a saída do seu país da União Europeia procurando, deste modo, cumprir a vontade do povo que representava. Com efeito, podemos afirmar com propriedade que em tudo o resto as ilhas britânicas congelaram: durante três longos anos — e a farsa parece que ainda está para durar — a política daquele país reduziu-se ao brexit. De forma um tanto ou quanto surpreendente, volvidos três anos sobre o referendo, todos os acordos que May conseguiu estabelecer com os seus interlocutores europeus foram sucessivamente rejeitados pelo parlamento britânico que, inclusivamente, rejeitou também a possibilidade de saída do país sem acordo.

 

Não restou, portanto, outra alternativa ao pálido deja vu de Thatcher que não o de apresentar a sua demissão, algo que viria a acontecer em maio passado. Sem vislumbres de querer defender a senhora, a verdade é que por estas horas, Theresa May deve andar a perguntar-se porque cargas de água se meteu nestes trabalhos, porque razão deixou de fazer as suas coisas e levar os seus netinhos à escola, porquanto a sensação que efervesce é que, fizesse o que fizesse, conseguisse o acordo que conseguisse, o resultado final seria sempre o mesmo e o parlamento far-lhe-ia a cama bem feita como, aliás, fez. Foram três anos bastante inúteis, inexoravelmente perdidos, para o Reino Unido.

 

Chegados a este ponto, há uma conclusão que emerge como óbvia e que resulta quer de todo o processo dirigido por May quer dos recentes resultados das eleições europeias que concederam uma incontestável vitória ao partido do brexit formado especialmente para a ocasião: o Reino Unido necessita de uma clarificação política. Não se trata apenas de nomear o próximo na lista de sucessão ao cargo: trata-se de remodelar o parlamento de acordo com a vontade popular e isso só poderá ser feito antecipando eleições e dando voz ao povo britânico.

 

Todavia, a velha “democracia” britânica, seguramente aconselhada de forma superior pela sua câmara de quase oitocentos lordes, prepara-se para ignorar o óbvio e dar lugar ao próximo. Que lição — particularmente dedicada a todos aqueles apaixonados pelo exemplo inglês — que esta democracia nos dá!

 

O próximo a aguardar impacientemente a sua vez parece ser um tal de Boris Johnson, uma imitação infeliz de Donald Trump, que será o que tem sido ao longo da sua oportunista carreira política: uma voz pouco sensata, pouco culta e pouco inteligente no panorama britânico e europeu. Mas, em boa verdade, o nome do próximo em linha de sucessão não é muito relevante aqui para o caso: o impasse parlamentar permanece perene com a mudança de nomes e não parece ter uma resolução à vista caso se mantenha a correlação de forças que existe atualmente.

 

Talvez seja esta a ideia. Talvez a estratégia britânica passe mesmo por uma procrastinação indeterminada da tomada de decisão com respeito à sua saída da União Europeia. Afinal, manter um pé dentro e um pé fora da Europa sempre foi a especialidade britânica. Esqueçam lá o fish and chips.

O PAN, a ecologia e a sociedade

por Amato, em 08.06.19

Nas últimas eleições europeias, cento e sessenta e oito mil e quinhentas e uma pessoas decidiram entregar o seu voto ao PAN, o partido chamado Pessoas-Animais-Natureza. Esta expressiva votação terá sido uma mistura entre o voto de protesto, tão costumeiro por altura das europeias, e o consubstanciar da moda do momento que são as alterações climáticas e as preocupações ambientalistas. No PAN, porém, a palavra natureza parece ser secundarizada relativamente à palavra animais e não se trata apenas duma questão de ordem na posição na sigla do partido, uma vez que a palavra pessoas, que aparece primeiro, não parece constar, nem vestigialmente, das preocupações do PAN. É, sobretudo, uma questão de prática e de prática populista.

 

O PAN procura, desde sempre, apelar a uma parte da população urbana, cada vez mais significativa, que vive mais ou menos isolada nos seus apartamentos, e que valoriza de forma exagerada, pouco saudável, a importância da companhia dos seus animais de estimação. Em regra antissociais, muitas vezes desligados da realidade que os rodeia, estas pessoas — que todos nós sabemos identificar — operam sobre os seus cães, gatos e outros uma espécie de humanização forçada, uma “gentificação” grotesca e este partido, o PAN, aproveita-se disto mesmo para medrar e crescer eleitoralmente através de propostas que, por muito irrealistas que sejam, vão de encontro a este eleitorado. Permitir que animais de estimação acedam a restaurantes, a título de exemplo, parece ser um descarado ataque aos padrões mínimos de higiene e salubridade que estruturam a sociedade moderna e que foram tão difíceis de implementar. Mas o PAN corporiza esta aparente erosão de bom senso daquela parte da sociedade que não percebe como nos empurra coletivamente com medidas como esta para as sociedades medievais de promiscuidade entre pessoas e animais.

 

Revelando-se arguto em todo este processo, os dirigentes do PAN não se arriscam a falar muito. Não se alongam nos discursos e nos problemas. Inteligentemente, agarram-se a uma ou duas palavras de ordem e não se comprometem politicamente. Com efeito, em quatro anos de mandato no parlamento português, não se conhece muito acerca do que o PAN e o seu deputado — que acho que é também líder ou porta-voz —, André Silva, pensa sobre o que quer que seja que não seja touradas ou afins.

 

Agora que o PAN vai para o Parlamento Europeu, começa-se a destapar um pouco do véu que o tem envolvido politicamente. Muitas mulheres, por exemplo, que votaram no PAN por causa dos seus Bolinhas, Snoopy ou Rex, têm, por ora, os seus cabelos em pé quando descobriram, pelos jornais, que o PAN quer pô-las a usar copos menstruais em vez dos habituais pensos e tampões. Diz André Silva: “Financeiramente, [o copo menstrual] é mais vantajoso, responde a uma necessidade cíclica feminina e minimiza os danos sobre o planeta”. Não, não responde. Qualquer mulher que tenha um mínimo de padrões de higiene e limpeza dir-lhe-á isso mesmo. Mas para as mulheres que não se acreditam no que escrevo há uma boa solução: experimentem o copo vaginal. É que só experimentarão uma vez. E essa vez que seja ao fim-de-semana, que é para não serem obrigadas a abandonar os trabalhos.

 

Há também as faturas em restaurantes de luxo que servem carne e peixe de categoria, mas isso é entrar numa área que não considero tão interessante. O que me interessa falar é sobre a parte ideológica do PAN. O problema da ecologia e dos perigos que ameaçam a sustentabilidade do nosso planeta não se reduz aos animais, nem se resolve com medidas particulares como copos menstruais. Pelo contrário, os problemas que nos afetam são problemas de fundo, são problemas estruturais que envolvem a organização das nossas sociedades, mas também do ponto de vista económico, e o nosso modo de vida que nos é incutido desde o berço. É irrealista, demagogo e populista pensar que a sobreprodução alimentar, a sobreprodução de plásticos, de bens, a hiperbolização do consumo, transversal em toda a sociedade, e a consequente produção estratosférica de resíduos, quantidades impossíveis de tratar e que vão poluir os nossos rios, mares, os solos e a atmosfera, possam ser controlados através da imposição de hábitos de reciclagem ou da utilização de sacos de papel ou copos menstruais.

 

Um partido ambientalista que seja sério tem, portanto, que tomar posição sobre estas matérias da organização social e económica do país. Porque se o capitalismo se baseia na sobreprodução e no incentivo ao consumo, se essa é a natureza desse sistema, então um partido ecologista tem que ser capaz de rejeitá-lo e de se assumir como antissistema e anticapitalista. Não o fazendo, reduzir-se-á a um partido demagogo e populista que acabará com o fim das febres mediáticas ambientalistas, com o fim das causas de algibeira ou com uma qualquer revelação de faturas em restaurantes de luxo de peixe ou de carne.

 

Mas também isto, de facto, vai de encontro ao eleitorado que vota PAN. O PAN oferece aos seus eleitores um voto livre de responsabilidade, livre de verdadeiras escolhas e repleto de boas e vãs intenções. Por isso mesmo dizia, no princípio deste texto, que o voto no PAN era uma mistura que incluía o voto de protesto, manifestação — acrescento — de uma sociedade repleta de perfeitos incapazes de exercer a cidadania e a democracia, através da educação, da cultura, da participação política e do voto. Em concordância, observe-se aquela tentativa aberrante de pôr os cidadãos a votar a partir dos dezasseis anos de idade. Só por ignorância, ou para tentar capitalizar politicamente dessa mesma ignorância, é que se pode propor algo tão surreal.

 

Neste sentido, mais do que a eleição de André Silva, há quatro anos, para o Parlamento português que, como disse, pouco ou nada acrescentou ao nosso conhecimento da ideologia do PAN, a eleição de um eurodeputado para o Parlamento Europeu tem uma vantagem imediata: vamos saber de que lado do parlamento e em que cadeira se senta esse parlamentar. Sentar-se-á à direita ou à esquerda? De que grupo parlamentar europeu fará parte? Mesmo continuando a dizer nada de nada sobre o essencial, poderemos pelo menos ver quem serão os seus amigos na Europa. E, segundo consta, os amigos europeus do PAN não serão os mais aconselháveis...

Óbvio: João Ferreira!

por Amato, em 24.05.19

Desta campanha eleitoral para o parlamento europeu ficou clara uma coisa para além do óbvio: João Ferreira, da CDU, é, de longe, o melhor candidato e tem-se revelado um nome a ter em conta na cena política futura. Seja pelo brilhantismo com que debate, com que apresenta as suas posições e as defende, seja pela inteligência e rapidez de raciocínio na resposta, seja pela excelente preparação em cada ocasião em que se apresenta, nas sessões públicas, nos comícios, a verdade é que João Ferreira conseguiu assumir uma posição de destaque nesta campanha eleitoral. E conseguiu também colocar em evidência duas coisas fundamentais: primeiro, que a CDU é a única força política com ideias com cabeça, tronco e membros no que à Europa e ao euro diz respeito, e segundo, que as outras forças, são um saco de lugares-comum, de chavões e chicana, muita chicana política, para esconder aquilo que devia ser evidente aos olhos do povo: no essencial — também na Europa — estão sempre de acordo.

 

Os candidatos de PS e PSD são, neste particular, um exemplo flagrante e deprimente, trocando acusações e insultos fáceis em abundância para esconder a sua vida conjugal política não assumida, mas todos os dias consumada, ao mesmo tempo que procuram bipolarizar o debate.

 

O candidato do CDS — o que menos trabalhou no último mandato — acrescenta ao debate a sua falta de educação congénita que já é uma sua imagem de marca, vociferando repetidamente as palavras Sócrates e Venezuela alternadamente. Não consegue articular mais nada porque, francamente, nada tem mais a dizer. É o mais perigoso populista português.

 

A candidata do Bloco de Esquerda é, para mim, o que de pior a esquerda pode oferecer: uma política de frases feitas, de boas intenções, desta vez anda com as alterações climáticas na boca para ver se caça o voto incauto da juventude, mas nada de concreto, nada de substantivo. Tudo muito superficial, sem nunca ir ao âmago das questões. Foge disso mesmo para não se comprometer. Que medidas defende? O que pretende? Ninguém sabe ao certo. Fica tudo a flutuar no ar. E é tudo muito artificial, muita sedução forçada, procurando adaptar à sua campanha a política dos afetos de Marcelo, com muito abraço, muito beijo, muito calor humano encenado. Como a Europa deve enfrentar os seus problemas, não sabe lá muito bem, mas sabe que deve haver muito afeto e bons sentimentos. Lamento, mas não é suficiente. Enquanto eleitor, exijo muito mais a quem me representa.

 

A escolha para o parlamento europeu é, portanto, óbvia. É uma escolha tão óbvia que nem sequer é ideológica. É uma escolha patriótica. João Ferreira é o único que não aprova os tratados que, ano após ano, nos retiram soberania sobre o nosso próprio território, que nos retiram autonomia económica e cristalizam a nossa condição de mendicidade, de joelhos dobrados e mão estendida aos poderes europeus e mundiais. Os outros assinam tudo de cruz. João Ferreira é o único que defende o nosso país e não está comprometido com interesses externos. É o único que tem voz de protesto e proposta para alterar o estado das coisas. E isso devia ser suficiente para a maioria do povo votar nele.

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  77. N
  78. D

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