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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Alis Ubbo

por Amato, em 28.02.20

Estreou esta semana um filme-documentário chamado Alis Ubbo de Paulo Abreu. Por razões de ordem diversa pouca gente assistirá a este filme. Desde logo, porque o filme encontra-se em exibição numa única sala de cinema do país, a Cinema City Alvalade, em Lisboa. Depois, porque o tema não é — como direi? — muito sexy nos dias de hoje e convém que não seja muito falado.

 

Alis Ubbo é o nome que os fenícios deram a uma cidade que fundaram nas margens do Tejo, antepassada direta da cidade de Lisboa. Quer dizer Porto Seguro. Com o passar dos anos o topónimo terá evoluído para Lisboa. Neste filme-documentário homónimo, Paulo Abreu segue com a sua câmara a rotina de um condutor de tuk tuk para turistas e regista o estado atual da cidade que é capital deste país chamado Portugal. Particular virtude da película é não conter juízos de valor. Esses, são posse exclusiva nossa e são também da nossa única responsabilidade. O que o filme contém é um retrato em que o dedo do retratista é mínimo ou menosprezável. Os juízos de valor cabem-nos a nós.

 

O turismo em massa está a transformar as nossas cidades, é um facto, e Lisboa é apenas um exemplo. O turismo, no entanto, não é o problema. O problema somos nós, é a nossa sociedade governada pelo lucro, pela ganância, pela exploração de tudo o que mexe para benefício próprio de uns poucos. O problema é o capitalismo. O turismo é apenas um pretexto, como o vírus mais oportuno a aproveitar-se das debilidades do organismo.

 

Toda a gente se lembra da disseminação cancerígena das lojas de compra de ouro que poluíram a face das nossas cidades por volta do ano de 2011. Passada a febre, restam uma ou duas abertas. As outras estão ao abandono ou foram entretanto reconvertidas para o turismo.

 

As consequências da exploração desenfreada do turismo estão aí à vista de todos e nem todas são necessariamente desprimorosas. Mas a verdade é que, a troco de uma cara lavada nos centros históricos degradados das cidades, essas cidades deixaram de ser dos seus habitantes, um a um desalojados, deslocados para os subúrbios e para os subúrbios dos subúrbios. Temos cidades renovadas mas repletas de alojamento local, Airbnb's, hostels, pensões e hotéis, lojinhas de souvenirs que reduzem a nossa história e património a um embaraço de caricatura, segways, tuk tuk's, ubers, camionetas turísticas, serviços com preços para bolsas de turista, menus em inglês, etc., a lista continua.

 

De que vale termos cidades que não são nossas? Cidades que não habitamos, que raramente visitamos porque não temos tempo ou dinheiro, e que existem assim, como que alugadas a render sabe-se lá a quem e para quê?

 

Não se trata de sermos um país com história e belezas naturais diversas que atrai a visita do turismo mundial. Não é bem disso que se trata. Trata-se, antes, de um país que deixa de viver por si, de ter existência própria, para viver para os outros, para alugar as suas terras e cidades, as suas casas e os seus carros à visita estrangeira. Trata-se de um país que deixou de fazer história, a sua história, para começar a viver da história que fez ao mesmo tempo que essa mesma história da qual vive é compactada e corrompida em versões ocidentalizadas de consumo rápido.

 

Revolta-me particularmente os que argumentam que “antes do turismo era pior” e “mais vale assim do que dantes”, como se a alternativa a isto seja a degradação do parque imobiliário das cidades, como se não fosse possível um modelo de desenvolvimento que cuidasse do restauro das suas cidades, que tivesse gente que nelas vivesse e, ao mesmo tempo, que acolhesse um turismo sustentável e rentável. Para a maioria das pessoas parece valer a lógica do 8 e do 80.

 

Como será quando o boom turístico entrar em declínio? E se esta paranoia do corona vírus tiver exatamente esse efeito de retração? O que será das nossas cidades sem gente viva lá dentro? O que será das nossas cidades sem este turismo de massa, sem essas massas virtuais de pessoas com as quais nos habituámos a conviver mas que, na verdade, não são bem reais, tanto estão cá como não estão, são tanto daqui como de outro lugar qualquer? O que dirão, então, os nossos governantes? Que desculpas encontrarão?

 

Bem sei que Portugal segue apenas o exemplo de todos os países europeus e que se encontram em situações semelhantes no que ao turismo diz respeito. A diferença, todavia, é que nós só temos isto. Lembram-se? A nossa indústria é residual, a agricultura inexistente. O que nos restará quando o turismo se for?

Comentário à aprovação da eutanásia

por Amato, em 25.02.20

Os cinco projetos-lei sobre a eutanásia foram aprovados. Todos os progressistas devem-se congratular e, por uma vez que seja, admirar o parlamento que temos. É de assinalar, todavia, a dificuldade que existe e persiste em fazer aprovar uma lei que visa unicamente dar uma liberdade às pessoas, liberdade essa, sublinhe-se, que não influi, nem belisca minimamente, a liberdade dos demais. Quem quer fazer uso da eutanásia faz, e sob circunstâncias extremamente específicas. Quem não quer, não faz. Ninguém é obrigado a fazer. É tão simples quanto isto e, contudo, tão difícil foi fazer aprovar a lei.

 

Sobre a eutanásia gostaria de destacar ainda o seguinte.

 

Primeiro, claro, a argumentação absolutamente detestável do ponto de vista lógico por parte dos oposicionistas à medida. Foi uma mistura entre um discurso utópico, da defesa de um mundo idílico onde tais práticas não teriam lugar, e um discurso moralista religioso que nos dias de hoje, por esta ou aquela razão, ninguém leva muito a sério.

 

Segundo, notar como os níveis de hipocrisia, nesta discussão, bateram todos os recordes desde que há registos. Destacam-se, neste particular, as ordens profissionais dos médicos e dos enfermeiros, representantes dos cidadãos que estão na primeira fila do auditório desta dramática e terrível película que passa todos os dias, a todas as horas, em todos os hospitais deste país, onde “eutanásias” informais são aplicadas a cada instante. Não há juramento de Hipócritas, perdão, Hipócrates, que lhes valha. O que nos vale, a nós, é que estas ordens não representam, nesta matéria, a maioria dos seus profissionais, estando mais preocupadas em fazer a defesa de um certa ordem social-religiosa que ainda vigora do que fazer a representação dos seus membros.

 

Terceiro, observar a incoerência ideológica da direita política em geral, com exceção parcial da Iniciativa Liberal, sempre tão obcecados na liberalização da sociedade, na defesa de uma suposta liberdade individual do cidadão, na implosão de um estado controlador das liberdades mas que, quando há uma medida concreta, agarra-se com unhas e dentes ao mais bafiento conservadorismo religioso e esquece-se do que anda a apregoar nos outros trezentos e sessenta e quatro dias do ano.

 

Quarto, apontar a inexorável desilusão com a posição já esperada do Partido Comunista Português, posição essa absolutamente injustificada do ponto de vista ideológico ou de qualquer outro. Sublinha-se também o embaraço, a vergonha de ver o PCP, partido histórico, sólido e coerente, a levar uma ensaboadela monumental, mas justificada e merecida, do líder do PAN, essa abstração parlamentar, essa inexistência política. O PCP atingiu, na passada semana, o ponto mais baixo da sua existência em democracia. E o mais dramático é que ninguém, dentro do PCP, deu por isso.

 

O processo não acaba aqui, bem entendido. Segue-se a fase da elaboração de um texto comum que seja sólido e robusto, mas antevê-se, também, alguma luta que se prepara adiante e que pode ser algo de relativamente sério ou, simplesmente, um estrebuchar final dos derrotados. Nessa fase, o Presidente da República poderá assumir-se como uma figura chave para forçar um referendo de circunstância que vise atrasar ou, no pior cenário, bloquear o processo.

 

Na antecâmara de um debate

por Amato, em 09.02.20

“Julgo que nenhum sistema pode avançar com a eutanásia sem garantir que opera cuidados paliativos de modo irrepreensível.”

 

Começa assim um artigo de opinião intitulado A eutanásia assinado pelo escritor Valter Hugo Mãe no Jornal de Notícias. O título é enganador. Parece que se refere a uma eutanásia em especial, ou a uma particular forma de aplicação da mesma, mas não, refere-se à eutanásia em geral. O artigo não é longo e tem outras frases, ideias ou conceções que deviam ser discutidas ao detalhe mas façamos o esforço e quedemo-nos nesta primeira frase. Leiamos outra vez:

 

“Julgo que nenhum sistema pode avançar com a eutanásia sem garantir que opera cuidados paliativos de modo irrepreensível.”

 

Os escritores têm, frequentemente, a obsessão das primeiras frases que abrem os seus livros, que apresentam as suas histórias. Nelas, perdem muitos dos seus dias e, já depois de concluída a obra, a elas retornam para limá-las, para alindá-las. A primeira frase é como que uma primeira impressão. Não existe uma segunda primeira impressão. Não existe uma segunda primeira frase. Daí a sua importância para um escritor.

 

Pelo exposto, e descontadas a rotina e a pressão de ter que produzir opinião regular num jornal, devemos valorizar esta primeira frase do artigo de opinião de Valter Hugo Mãe e não menosprezá-la, não menorizá-la, não desculpabilizá-la, pois o autor terá, seguramente, investido muito de si próprio na sua construção e conceção.

 

Passemos, pois, uma vez mais, os olhos sobre a dita:

 

“Julgo que nenhum sistema pode avançar com a eutanásia sem garantir que opera cuidados paliativos de modo irrepreensível.”

 

A frase encerra em si dois argumentos essenciais. O primeiro é que não devemos legislar em função da sociedade real mas, pelo contrário, em função do nosso ideal de sociedade, da sociedade que coletivamente almejamos, se é que isso seja coisa com existência definida. O segundo é que a eutanásia se esvazia de sentido para o indivíduo que a reivindica se este tiver acesso a uma excelência de cuidados paliativos.

 

Estes dois argumentos não têm nenhum sentido.

 

Reparem que o primeiro argumento, o da sociedade idílica, pode ser aplicado a qualquer lei que se aprova. Pode ser aplicado ao aborto, por exemplo, querem ver?

 

Julgo que nenhum sistema pode avançar com o aborto sem garantir que todas as mulheres detêm as melhores condições económicas para ter as suas gravidezes não desejadas e sem garantir que, por terem esses filhos, não serão prejudicadas nos seus trabalhos, nas suas carreiras ou nas suas vidas pessoais.

 

Veem? É fácil. Outros exemplos:

 

Julgo que nenhum sistema pode avançar com penas de prisão sem garantir que todos os cidadãos nascem iguais, têm as mesmas oportunidades ao longo das suas vidas e são tratados com equidade pelo governo e pelo sistema de justiça.

 

Julgo que nenhum sistema pode avançar com lares de terceira idade sem garantir que todas as famílias têm as condições económicas e de flexibilidade laboral para tratar e cuidar dos seus idosos e permitir que estes vivam o resto das suas vidas com os seus.

 

Julgo que nenhum sistema pode avançar com creches sem garantir que todas as famílias têm as condições económicas e laborais para poder ter os seus filhos em suas casas até aos quatro, cinco anos, idade em que devem começar a ir à escola.

 

Julgo que nenhum sistema pode penalizar ou julgar um indivíduo que agride por desespero um médico no hospital sem garantir que não há filas de espera de mais de três horas e de que há médicos de várias especialidades para atender todos os utentes.

 

Podia continuar com isto o resto do dia. O argumento é parvo. Já deu para perceber. E isto, vindo de mim, um utópico inveterado, é dizer muito. É que a questão não está na utopia, esse horizonte que existe simplesmente para nos ajudar a caminhar e a existir, como dizia Galeano. A questão está na realidade, numa realidade à qual necessitamos de responder no dia de hoje e não no dia de depois de amanhã. De que valem os nossos mais bem intencionados ideais, níveos de moralidade, quando as mulheres, às centenas, morriam em vãos de escada a tentar abortar sem condições e sem apoio? De que valem os ideais de como as coisas deviam de ser se, todos os anos, centenas de pessoas morrem na maior das agonias, dores que não conseguem ser aliviadas, ceifando lentamente toda a humanidade que detinham, deixando uma última imagem de desespero e de definhamento brutal sobre vidas inteiras vividas com orgulho e coragem, feitas em ossadas mirradas e desfiguradas? De que valem os nossos conceitos ideais perante isto? Não valem nada.

 

Sim, devemos avançar no sentido que consideramos correto, mas também temos o dever de tentar corrigir, remediar, minorar o que, por ora, parece ser inevitável. Esse é também o nosso dever e devemo-lo assumir sem rodeios e sem nos refugiarmos em conceções idílicas. Os ideais existem para servir os povos e não, não estão acima das pessoas.

 

O segundo argumento, o que dá a entender que a defesa da eutanásia apenas existe devido à inexistência de cuidados paliativos, tem ainda menos sentido. Quando se fala em cuidados paliativos o cidadão médio imediatamente imagina um conjunto de tratamentos ministrados ao doente que resulta na remoção ou num minorar considerável da sua dor e providencia um final de vida calmo e em paz. É importante que se diga ao cidadão médio que tal conjunto de tratamentos não existe, que esse unicórnio chamado de cuidados paliativos é precisamente isso: um ser imaginativo plantado na sua consciência.

 

A um doente terminal administra-se morfina para as suas dores, aumentam-se as doses até ao ponto em que não é possível aumentar mais, porque o corpo não aguenta, e, a partir desse momento, o doente sofre das dores mais insuportáveis que é possível imaginar porque não há mais nada a fazer. É uma descrição simplista, eu sei, mas é a realidade. A realidade é simples. Que os hospitais deviam ser dotados de mais meios para providenciar um melhor fim de vida a estes doentes, claro que sim. Que os cuidados paliativos não são nenhuma panaceia que resolva o problema de muitos doentes, claro que não, claro que não são.

 

A discussão sobre a problemática da eutanásia que se avizinha parece estar lançada sobre estes dois pilares: conceções idílicas que em nada concorrem para a resolução do problema e conceitos imaginativos que prometem o que não podem fazer. Para entender isto, todavia, seria necessário uma sociedade mais religada, mais próxima dos seus e dos seus vizinhos, mais familiarizada com a dor, com a doença, com a morte e com o fim. Mas não é bem essa a sociedade que temos. Vejam bem: julgam-se eternos aqueles que mandam e que ditam as leis e aqueles que os seguem também. Julgam-se eternos todos eles. Viverão para sempre!

Desculpe, disse Luanda Leaks?

por Amato, em 21.01.20

Acho que no passado não havia tanta hipocrisia. Está bem que havia a religião, poderosa, a justificar tudo o que fosse necessário, a condecorar os vencedores como humildes servos de Deus e a julgar os vencidos como hereges, infiéis e outros adjetivos que tais, independentemente do sangue que escorria das armas de ambos os lados. E a religião mais não era, bem entendido, que um pretexto escrito para fundamentar aquela nossa natureza abjeta de louvarmos os vencedores ao mesmo tempo que pisamos os vencidos.

 

Mas no fundo, bem lá no fundo..., não havia tanta hipocrisia no processo. Faziam-se as guerras e aos vencedores era dado tudo, todo o espólio, na mesma proporção em que aos vencidos tudo se retirava. Era a lei tácita que existia e era compreendida e aceite como natural por todos, com um maior ou menor florear da coisa.

 

Hoje a lei que vigora é exatamente a mesma mas há uma coisa que se junta à mistura e que confunde as ideias. Vêm os jornais e os jornalistas, as televisões, as rádios e enchem-nos com teorias, tramas, provas, acusações e julgamentos e, de repente, já não se trata de uma coisa corriqueira, já não é a normal sucessão de poderes, parece que é mais do que isso, como que uma vontade de uma força superior, estado de direito, alta moralidade, coisa que tem que ser assim para que sejamos sérios e respeitáveis, disputa simplista mas superlativa do bem contra o mal. E aí, o pisotear os vencidos adquire uma outra razão de ser porque de vencidos já não trata a questão: os vencidos passam a ser um tipo de gente vil, gente que não presta e que deve ser amputada da sociedade porque infeta e apodrece como gangrena a gente boa, séria e respeitável.

 

É espirituoso assistir a episódios destes, dia após dia. As lutas pelo poder disputam-se no espaço mediático e parece que a lei tácita de que falava já não chega: é necessário convencer as massas. As narrativas que se tecem fazem tábua rasa do que foram os eventos do passado. Os padrinhos, que outrora os ergueram em braços, convertem-se em carrascos. São os mesmos e fazem-no de cara destapada e com moral elevada. E nós? Assistimos com curiosidade, como se não tivéssemos memória do dia de anteontem, e cremos piamente na supremacia de um certo ideal de moralidade, de seriedade, de bem e de justiça. Dormimos bem à noite, assim. Bons sonhos!

Uma lâmina de dois gumes

por Amato, em 19.01.20

A vitória de Rio nas últimas eleições internas do PSD constitui um alívio para todos aqueles que fazem gosto em alguma decência no panorama político nacional. É benéfico que se entenda a oposição a Rio como ela deve e merece ser entendida e não como uma natural disputa democrática no seio de um partido político.

 

Montenegro não se perfilava apenas como um mero salteador do poder. Esta contenda não brotou apenas de uma inexorável sede de poder feita indómita pelo oportunismo da ocasião que se proporcionou após as eleições legislativas. Não. Montenegro, qual general fiel ao seu imperador caído, corporizava o regresso ao passado mais sinistro do PSD, o partido da troika, da austeridade como elemento definidor e formador de uma espécie de caráter coletivo, da ignorância das ideias acabadas e de uma arrogância concomitante. Para além disso, seria também o regresso da histeria, da crítica fácil a tudo o que acontecesse, de uma oposição desprezível e tóxica. Rio, com todas as falhas que tem, com todos os “defeitos” ideológicos de que é portador na perspetiva da esquerda é, pelo menos, alguém respeitável e sério, avesso a espalhafatos e a folhetins. Rio é, pelo menos, alguém com quem se pode falar e isto não é de somenos importância.

 

Todavia, como parece ocorrer com todas as coisas da vida, não há bela sem senão, nem feia sem sua graça, a vitória de Rio transporta manchas negras nas suas margens, manchas cujo alcance contaminador parece ser de difícil previsão a esta distância à qual nos situamos mas que, porém, ali escorrem e se vão acumulando manifestas e inequívocas. A que manchas me refiro?

 

O contexto político português é, ao contrário do que possamos pensar, de uma delicadeza preocupante. Com efeito, politicamente falando, vivemos um tempo de poderes virtualmente indisputados: a presidência da república é ocupada por uma das figuras mais universalmente aceites de sempre e que se prepara para uma reeleição sem opositores; no parlamento, uma coligação informal, mas concreta, de partidos parece ter concedido ao PS eterna carta branca para formar executivo, independentemente deste lograr um maior ou menor número de votos, e governar a seu bel-prazer, ainda que ninguém consiga perceber bem a razão de ser da coisa, o que ainda a mantém viva e a sustenta.

 

Este aparente unanimismo que tomou a política portuguesa, e para o qual a reeleição de Rio, por constituir um tipo de oposição responsável, indiretamente concorre, é dissimulador da existência de uma massa concreta de pessoas que ideologicamente não se reveem no status quo, que não se sentem representadas politicamente ou que simplesmente já não conseguem suportar mais o “politicamente correto” perfeitamente desencaixado com a realidade que todos os dias enfrentam. Estas pessoas tendem, tragicamente, a confluir para uma espécie de saco político que, avidamente, as recolhe e cresce no panorama nacional: o Chega de André Ventura.

 

Existem vários sinais preocupantes que não devemos deixar escapar. O Chega tem tido mais tempo de antena nos canais mediáticos que toda a esquerda junta. O seu líder marca a agenda política e a imprensa estende-lhe um palco permanente para plasmar as suas palavras de ordem populistas e demagógicas. Nada, nenhuma evidência do passado, nenhuma contradição, nenhuma incoerência, nenhum defeito de caráter parece afetar a crescente popularidade de Ventura que, à semelhança do que Trump dizia há um tempo, podia dar um tiro a alguém no meio da rua que, ainda assim, continuaria a crescer nas intenções de voto. Com o PSD com uma liderança moderada, o CDS defunto e a Iniciativa Liberal a assumir-se cada vez mais como uma espécie de nado-morto político, com a putativa candidatura “única” de Marcelo à presidência da república que se avizinha — dificilmente PS, PSD e CDS apoiarão outros candidatos e dificilmente a esquerda encontrará uma figura alternativa a Marcelo que seja simultaneamente coerente com o passado recente da “geringonça” —, Ventura prepara-se para capitalizar sobre a sua própria candidatura, sobre o seu próprio movimento, todo o voto divergente e obter uma votação expressiva que pode ajudar a catapultar o Chega no panorama nacional como uma relevante força política de extrema direita.

 

É neste sentido que a reeleição de Rio pode constituir-se como uma espécie de lâmina de dois gumes. Se Montenegro tivesse vencido, talvez isso fosse pior para Ventura que, assim, teria que dividir o espaço mediático populista com um concorrente de peso, com experiência e provas dadas na matéria. É verdade, também, que a derrota de Montenegro parece ser apenas uma antecâmara adequada para uma reentrada triunfal de Passos Coelho na cena política, reentrada essa que já anda a ser preparada ao detalhe. Ainda assim, é tempo demais que se dá a Ventura que se vai alimentando, todos os dias, até ao ponto de não podermos deixar mais de o ignorar ou, simplesmente, de mudar de passeio quando o encontramos de frente na rua.

Uma epifania em janeiro

por Amato, em 09.01.20

O anúncio do sentido de voto do Partido Comunista Português relativamente ao orçamento de estado deste ano é uma desilusão e, como todas as desilusões, tem a potencialidade de se tornar numa espécie de epifania, uma revelação.

 

O parlamento português está agora dividido, PCP incluído, entre partidos sociais-democratas e partidos liberais, uns mais populistas do que outros. A palavra comunista no PCP passa a valer tanto como a palavra socialista no PS. Valem o mesmo, ou seja, nada.

 

Nenhum partido comunista apoiaria um orçamento deste género que literalmente rouba o povo para gerar lucros para entregar à banca e aos mercados monopolistas. O líder parlamentar do PCP diz que o partido vai-se abster, é certo, mas isso é verbalismo, é brincar com as palavras. Se fosse necessário, votaria a favor. Não existe retórica suficiente no mundo da dialética para nos convencerem do contrário.

 

O insólito da coisa, ao que consta, é que este apoio terá sido dado a troco de um aumentozinho extraordinário de pensões. Prossegue, portanto, a confirmar-se o boato, esta linha miserabilista, este contentamento, esta satisfação com as migalhas lançadas por Costa sejam elas quais forem. Prossegue esta falta de respeito pela sua ideologia, que é o mesmo que dizer por si próprio, porque só um partido sem um pingo de amor próprio persiste em estender a mão a quem reiteradamente o desrespeita e desvaloriza, como ficou bem patente antes, durante e após as últimas eleições legislativas, com o desenvolver da “geringonça” e com o fim da mesma.

 

Mas isto tudo é demais, tudo isto é demasiado para que o leitor não desconfie, de si para consigo, que tanta incapacidade, que tanto defeito não seja apenas uma mera causalidade de um espírito mais ou menos inocente ou mais ou menos incapaz. A verdade encontra-se no princípio deste texto. O meu erro está em continuar a assumir certas premissas sobre o PCP como verdadeiras quando elas, claramente, já o deixaram de o ser. Porque se o comunista cair da denominação do partido, então deixa de haver qualquer problema e passa a valer tudo como, de facto, vale para qualquer outro partido onde a ideologia é coisa incerta, é coisa do passado. Se considerarmos a palavra comunista como simples adereço de sigla, então qualquer decisão é tão válida como outra qualquer e cada opção poderá ser justificada com maior ou menor dificuldade.

 

Já não há desculpas que subsistam. A troika partiu do país há mais de quatro anos. O medo que a direita, a direita assumida, retome o poder nas suas mãos existirá sempre e é um medo imbecil, infecundo, porque estamos fadados, neste sistema político de alternância, a que, mais cedo ou mais tarde, isso aconteça. E, todavia, o governo PS prossegue uma política de incrível sobrecarga de impostos, de subjugação do país ao poder económico, de destruição dos serviços públicos, de condenação das gerações mais jovens de proletários a vidas de trabalho precário, sem direitos, sem perspetivas, sem futuro.

 

Como pode um partido comunista apoiar um governo destes? A resposta é simples: não pode.

Consciência de si no final de 2019

por Amato, em 27.12.19

O final do ano de 2019 fica marcado por várias notícias que esboçam bem o quadro de profundo surrealismo em que a humanidade se vai mergulhando.

 

A primeira, sobre a qual gostava de me debruçar hoje, é a que diz respeito ao orçamento de estado já apresentado para o próximo ano. Há vários aspetos pertinentes no documento. Por exemplo, perspetiva-se aumentos de salários e de pensões que não acompanham o aumento da inflação o que resultará numa perda efetiva do poder de compra de funcionários públicos e pensionistas. Dentro destes, a esmagadora maioria que dedicou o seu voto ao PS nas últimas eleições e, em simultâneo, menosprezou Bloco de Esquerda e PCP, deve dar-se por satisfeita: tem exatamente aquilo em que votou. Há que ter consciência do que se faz, ser-se crescido e assumir responsabilidade. Isto é a democracia a funcionar no seu esplendor. Parabéns para todos eles.

 

Outra questão interessante é a anunciada dotação extra para o Serviço Nacional de Saúde que, ao que parece, depois de tanto alarido e de tantos foguetes lançados, mais não é do que o valor em dívida que o SNS carrega às costas do ano anterior. Anuncia-se também uma alegórica contratação de novos profissionais mas, nem as contas parecem bater certo para o efeito, nem isso será suficiente para estancar a sangria contínua de profissionais para o estrangeiro a que temos assistido. Portugal parece continuar seriamente dedicado em investir na formação de quadros altamente qualificados para dotar os países mais necessitados como a Alemanha, a Inglaterra, a França, a Suíça, o Luxemburgo ou a Bélgica.

 

No final, com pompa e circunstância, quais arautos da sapiência, foi anunciado também que, para o próximo ano, o país passará a dar lucro com um superavit de 0,2%. Este anúncio foi recebido com entusiasmo, claro. A burguesia rejubila: sabe bem que aqueles milhões têm como destino os seus bolsos, de um modo ou de outro, haja resgates ou antecipações de pagamentos. O povo ignorante, coitado, pensa que o estado é a mercearia da esquina e também rejubila: «se está a dar lucro é porque estará a ser bem gerido». Qual será o seu espanto quando a próxima crise chegar e bater com estrondo, talvez a bordo da bolha imobiliária que cresce a cada dia ou talvez da turística, quem sabe, e verificar que aqueles 0,2% que o estado poupou de nada servem e que o estado, afinal, está ainda mais desprotegido e impreparado para lidar com os sacanas dos bancos e das empresas que dão cabo da economia e fogem daqui com o nosso dinheiro. Qual será o seu espanto? Por ventura, nenhum. Nessa altura arranjar-se-á um qualquer bode expiatório conveniente. Nós somos um povo muito judaico. Arranjamos um bode, carregamo-lo com todos os nossos pecados, matamo-lo e lavamos a consciência. Somos muito judaicos, somos. E também muito estúpidos.

 

É preciso não ter um pingo de vergonha na cara para anunciar a um povo como o nosso que o país vai dar lucro. O regresso ao tempo do fascismo das contas certas de Salazar está inteiramente consumado. É irónico que tenha regressado com uma mão dos partidos mais à esquerda. O povo que trabalha mal tem dinheiro para pôr comida na mesa depois de pagar a renda da casa,  não liga o aquecedor no pino do inverno porque não pode sobrecarregar mais a fatura da luz e anda de carro às pinguinhas por causa do escandaloso preço da gasolina; o povo que trabalha cada vez mais, cada vez com piores condições e até mais tarde, que até pela reforma a que tem direito tem que esperar mais de um ano, que morre devagarinho a desesperar por uma consulta ou por uma operação constantemente remarcada e adiada. A este povo o governo vem anunciar que o país vai dar lucro. O país vai dar lucro à custa do seu povo que trabalha, à custa literalmente do seu sangue. É isso. É desse sangue que são feitos esses 0,2% de lucro que o país vai dar. Não é uma coisa no ar, abstrata. É feita de sangue, do sangue dos trabalhadores que pagam impostos e sustentam este país. E todos achamos bem e rimos de contentamento.

 

O que seria natural era que o povo exigisse que aqueles 0,2% de lucro fossem aplicados no país, na melhoria da saúde e da educação e dos serviços públicos. Ou, para quem tem opinião diversa, que o estado procedesse a imediata redução na tributação dos seus salários, porque os seus impostos não são para o estado andar a lançar foguetes ou dar espetáculo. Devíamo-nos perguntar: para que serve um estado afinal? Para que serve?

 

Claro que é sempre possível contrapor o que escrevi com o aumento do consumo que tem sido verificado e que atingiu o seu clímax com os massivos gastos recorde desta época festiva. Claro que sim. Mas grande parte disso é crédito. Não se enganem. É cartões de crédito para pagar cartões de crédito e o governo tem fomentado essa mentalidade. Diz, por exemplo, aos seus trabalhadores que vão ficar muito melhor com os aumentos que vão ter quando, na realidade, vão perder poder de compra. O que é isso se não um engodo? O que é isso se não dizer às pessoas que continuem a gastar ou que gastem ainda mais por conta de um aumento virtual, irreal, dos seus rendimentos? O que tem sido grande parte da política deste governo se não um incentivo mais ou menos declarado ao crédito? O que é um incentivo ao consumo alicerçado em baixos salários e trabalhos precários?

 

Mas nada do que se passa é muito normal, pois não? A realidade morreu. O que existe agora é a surrealidade. Bem-vindos! Pedir às pessoas que tenham consciência de si, que tenham consciência do que fazem, do chão em que pisam, do mundo que as rodeia é pedir demais, sobretudo quando todos andamos de ombros encolhidos e cabeça baixa enterrada em algum ecrã a emprenhar pelos ouvidos, pelos olhos sonâmbulos adentro.

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