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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Um dia mais que passa

por Amato, em 12.07.16

Hoje viveu-se mais um episódio da novela de terceira categoria que roda em torno das sanções da União Europeia aos estados soberanos da Península Ibérica. O fim da novela parece estar longe, cada vez mais longe, à medida que esta se desenrola. O propósito da novela é eternizar-se para se eternizar, assim, deste modo, a ingerência declarada do eixo franco-alemão sobre a política e a gestão de todos e de cada um dos estados membros da União Europeia.

 

Desmonta-se, portanto, a charada. Cai a máscara a esta União de estados canalhas que, de um lado e de outro, se escudam por detrás de tratados, escondem dos seus povos a verdadeira batalha que está a ser travada, não em campo aberto, não segundo o ponto de vista dos vértices das lâminas desembainhadas ou do cheiro a pólvora explodida, mas dentro de gabinetes de imprensa sob declarações encharcadas em hipocrisia.

 

Nada disto é novo. Este processo de submissão dos povos pela dívida é uma réplica, talvez mais sofisticada, do que se passou na América latina no século XIX na sequência dos respetivos processos independentistas. Então, como agora, os países tomados na sua autodeterminação e na sua soberania pelos credores só puderam quebrar as suas grilhetas confrontando diretamente, frente a frente, olhos nos olhos, os seus credores, munidos de inabalável convicção. Aconselho a leitura deste artigo de Eric Toussaint para se saber o que não vem, nem nos livros de História, nem nos meios de comunicação do capitalismo ocidental.

 

Cada dia que passa em que Portugal permanece na União Europeia e no Euro é um dia mais que se perde para o país tomar nas suas mãos o seu próprio futuro, é um dia mais que passa de submissão aos poderes que nos espezinham.

O caso Reino Unido - União Europeia, ou o ciclo de vida da libelinha

por Amato, em 05.03.16

As recentes negociações da União Europeia com um seu estado membro não aderente ao euro, o Reino Unido, são de uma relevância extraordinária. Como todos os acontecimentos de extraordinária relevância, o resultado de tais negociações foi genericamente ignorado pela comunicação social.

 

Nem comentadores, nem ninguém. A notícia, dada como subestimada nota de rodapé de enfadonho jornal, mereceria outro tratamento, outra análise e aprofundada discussão.

 

Assume particular relevo, no contexto dos tratados assinados no seio da União, considerados ao extremo de suas literais interpretações para países de marginal importância como Portugal, que um estado membro possa garantir, por acordo, o incumprimentos desses contratos e reverter a lógica de poder que reina para todos os outros, isto é, que possa subjugar todas as decisões europeias ao crivo do seu próprio parlamento, da sua própria autonomia, da sua própria lei.

 

Resulta desde logo lúgubre que discutamos este ponto desta forma, quando deveria ser a norma e não a exceção que qualquer estado formalmente soberano pudesse discutir as decisões conjuntas europeias no seu parlamento através dos representantes do seu povo. Miseravelmente, assim nos encontramos a discutir o natural como se o natural fosse absurdo, visto a União Europeia ser este castelo de absurdos que é para não lhe chamar outra coisa pior, do género, império autoritário e despótico contemporâneo, ou uma versão de quarto Reich que se impõe e domina todos os outros não pelo poder das armas mas pelo poder do capital e da dívida.

 

A questão que se coloca, contrariamente ao que foi sendo timidamente suscitado, não é por que razão se obsequia aos Britânicos tais privilégios, mas antes pelo contrário, por que razão não usufruem todos os estados membros da União Europeia, formalmente pares iguais, de tais prerrogativas que deveriam ser naturais e ordinárias porque se constituem, afinal, como os eixos da soberania de qualquer estado.

 

As parcas vozes que tocaram com acanho no assunto esforçaram-se por esquadrinhar — imagine-se! — justificações desconexas em favor de tal tratamento desigual. Entre outros, referiram a situação dos refugiados, que hipoteticamente atinge com maior gravidade Inglaterra, e invocaram um certo estatuto singular do arquipélago britânico face ao continente europeu.

 

Acresce ainda em pertinência tal discussão pelo contexto económico atual de países como Portugal, verdadeiros escravos de tratados que, como grilhões e grilhetas, impedem o seu crescimento económico e os amarram a um serviço de dívida insustentável, indefensável, absurdo.

 

No final do dia, entende-se bem as razões porque tal discussão nunca teve lugar, de todo, ou por falta de lucidez, ou por falta de capacidade, ou até por falta de seriedade: convém ao poder burguês que governa a Europa a não discussão do assunto, convém que este passe despercebido.

 

Agora, volvidas uma ou duas semanas sobre o resultado das negociações, já ninguém fala sobre o assunto. A coisa aconteceu e morreu em pouco mais que um dia, qual fugaz ciclo de vida da libelinha, abafada já pela retórica capitalista de cumprimento do serviço da dívida que continua pujante, como sempre, jactante em cada jornal, em cada rádio, em cada televisão, megafones do sistema.

A nódoa política

por Amato, em 15.07.15

Devo reconhecer que me enganei redondamente. No meu último artigo sobre a Grécia dizia eu:

 

“Para mal dos seus pecados, o povo grego mostra ser dono de uma coragem de ferro, de uma vontade de aço, e obriga o Syriza a continuar a lutar.”

 

É espantoso verificar que assim não foi. O Syriza, sem nada que o fizesse prever e desbaratando vergonhosamente o capital de confiança depositado em si pelo povo após o referendo, capitulou em todos os domínios e ajoelhou-se, como todos os outros que criticou, perante o imperialismo capitalista vigente na Europa do euro. Fica a pergunta: por que razão o Syriza promoveu o referendo, afinal? E mais: será que o Syriza, defendendo o não, estaria na verdade à espera de um sim? Pensar sobre o assunto chega a ser doloroso. As minhas críticas ao Syriza pecaram por escassas: o Syriza mostrou uma total ausência de espinha dorsal.

 

Dizer que o Syriza é uma nódoa política, particularmente no espectro da esquerda, é pouco ou, por ventura muito. Passo a explicar.

 

Por um lado é pouco: é impossível respeitar um partido ou governo que se demonstra tão incapaz, tão desprovido de ideias e de ação própria para o seu próprio país que não apenas uma oratória oca. Neste tempo, nestes largos meses, que o Syriza já leva de governação, não se vislumbra uma ação governativa que não meramente dialética e moralista na negociação com a Europa, uma ação que lhe permitisse alavancar o seu próprio país da situação em que se encontra, que lhe permitisse, enfim, poder traçar um caminho autónomo à margem das negociações. Sem tal estratégia, o governo grego fragilizou progressivamente a sua posição negocial tendo ficado muito claro, a partir de um determinado momento, que a única ideia deste governo Syriza seria a obtenção de um acordo de financiamento que, em todo e qualquer caso, seria sempre desastroso para a Grécia. O Syriza acabou por capitular em toda a linha, submetendo-se a um acordo que vai depauperar o seu país, os seus instrumentos económicos, os seus recursos, e, mais importante, que renova a subordinação da economia grega à política de dívida e de dominação hegemónica alemã/europeia.

 

Por outro lado, vista a coisa de outro prisma, chamar nódoa política ao Syriza é demais. O povo grego, à semelhança do resto do mundo, não se enganou na sua escolha. Escolheu democraticamente aquilo que quis. E o que escolheu foi um partido que se dizia contra a austeridade mas absolutamente contra a saída do euro. O povo grego escolheu o paradoxo e depositou as suas esperanças nesse paradoxo que, agora, resulta por demais evidente. O povo grego não escolheu, bem entendido, quem, ali ao lado, repetindo a primeira parte do discurso, defendia a saída do euro como fundamental para que a Grécia se pudesse ejetar desta espiral de dívida e de dominação estrangeira. O povo grego tem, por isso, exatamente o que escolheu.

 

A questão da confiança

por Amato, em 04.07.15

Antonio Fernandez - Restauração de Portugal e Morte de Miguel Vasconcelos

Ouvimos esta frase dita de forma desgarrada: “conquistámos a confiança dos mercados”. Ouvimos e aceitamo-la como se de uma conclusão óbvia se tratasse. Ouvimo-la sem que na nossa mente burile qualquer princípio de interrogação, sem que germine o que quer que seja que não seja uma aceitação dogmática que surge não se percebe bem de onde.

 

Há mais frases como esta, “conquistámos a confiança dos mercados”. São frases que aparecem e se repetem à exaustão, qual sound bite, e de tanto repetidas conquistam uma credibilidade que é de plástico, que é não é orgânica, que, em verdade, não é nada. Nada.

 

A montante da questão é importante perceber o que é isso de “mercados”. É importante que se conheçam os rostos que agem confortavelmente a coberto da palavra. A existência sem rosto torna-se mais fácil. É uma existência que transcende o mundo dos homens, daqueles que todos os dias saem de casa à procura de trabalho e de sustento para si e para os seus. E, por isso, parece que não é de pessoas como nós, iguais a nós, de que falamos. Parece que estamos a falar de semideuses. Muitos desses vivem mais perto de nós do que pensamos. Estão mesmo aqui ao lado. Todavia, escondendo-se atrás da palavra “mercados”, que mais não é que uma palavra que representa o corporativismo burguês contemporâneo, parece que podem e que mandam mais do que realmente podem e mandam. Parece que são mais importantes do que o resto, mais importantes do que o sol, o vento e a chuva. Parece que são mais importantes do que os homens que todos os dias se levantam à procura de trabalho e de sustento. E, então, resulta natural a existência de governos totalmente colaboracionistas com os interesses e o proveito destes tais de “mercados”.

 

A jusante da questão vem o conceito de “confiança”. De que confiança estamos a falar? E o que fizemos nós para conquistar tal confiança? Ninguém pergunta? Ninguém questiona a moralidade da coisa? Que confiança é esta de “Só te empresto dinheiro se cortares o teu braço esquerdo”? O que é isto? Destruímos a nossa economia de uma forma dramática, sem precedentes, numa política de terra queimada declarada. Remetemos uma boa parte da nossa mão de obra a um destino de emigração. Desbaratámos de forma irremediável cada instrumento de influenciação económica de que dispúnhamos. Desequilibrámos descaradamente o mercado laboral e a balança distributiva de rendimentos no seio da nossa economia de tal forma que diminuímos dramaticamente as condições de vida de um português médio e condenámos assustadoramente as retribuições para o estado de qualquer eventual laivo de crescimento económico. Neste processo multiplicou-se a dívida, prolongando-se um estatuto a todos os níveis de estado-escravo ou estado-servo ao nosso país. A isto se chama ganhar a confiança dos mercados. A isto eu chamo de mediocridade moral, baixeza política.

 

A questão da confiança é crucial. É crucial para percebermos quantos como Miguel de Vasconcelos temos no meio de nós, quantos é necessário não arremessar da janela do paço real onde nos desgovernam a mando de alemães e afins, mas arremessar para uma cela escura ou, melhor, para fora das nossas fronteiras, com o correspondente pontapé no traseiro, para irem morrer longe, bem longe, das nossas praias.

Negociação entre uma parte e o todo

por Amato, em 23.06.15

Quando alguém negoceia o que quer que seja não há um lado bom ou um lado mau. Não há um lado justo e outro injusto. Mais: não há moral e imoral. Quando duas partes negoceiam sobre algo há apenas isso: duas partes com interesses necessariamente distintos, embora podendo ser mais ou menos convergentes aqui e ali, que procuram assegurar o melhor acordo possível. Mas este melhor acordo não é algo vago, não permanece etéreo numa espécie de dimensão da justiça e da moralidade. Não: este melhor acordo é aquele que melhor serve as partes. Em geral, quanto melhor se revelar para uma, pior será para a outra.

 

Neste sentido, torna-se numa experiência plena de surrealidade a de assistir às continuadas declarações do Primeiro-ministro português sobre as negociações com a troika. Chega a ser absurdo, mesmo. Como pode um líder de um país dizer que o que os credores querem é o melhor para nós? Como pode? O desenvencilho deste aparente absurdo apenas se faz se percebermos que, afinal, não existem duas partes a negociar, mas apenas uma. Trata-se de uma negociação de uma só pessoa consigo próprio ou com uma parte de si, entre uma parte e o todo.

 

No momento em que a Grécia, bem ou mal, procura um melhor acordo para o seu financiamento, estando totalmente no seu direito, vem o Primeiro-ministro português tecer rasgados elogios aos credores e veladas críticas a esta política natural dos gregos, tão natural quão surreal tem sido a ação do governo português. Tudo isto é surreal ou, talvez, elucidativo.

 

No filme Django Libertado há uma ideia que permaneceu no meu espírito. O principal obstáculo à liberdade dos escravos não eram os seus donos. Os grandes inimigos dos escravos eram os próprios escravos, seguidistas, delatores, invejosos dos que ousavam levantar a cabeça, não obstante partilharem o mesmo destino. Pensavam eles, iludidos, cair nas boas graças dos senhores esclavagistas para daí retirar algum proveito. Lamentavelmente, no plano da política internacional, o Primeiro-ministro português age exatamente do mesmo modo.

 

 

Guerra contemporânea

por Amato, em 09.06.15

 “Existem duas formas de conquistar e escravizar um país. Uma é através da espada. A outra é através da dívida.”
  — John Adams (segundo presidente e primeiro vice-presidente dos estados unidos da américa)

Uma vénia envergonhada para a Grécia

por Amato, em 05.02.15

Impõe-se uma vénia para a Grécia.

 

Ainda longe de saber como vai resultar a estratégia do novo governo grego, uma coisa é certa: agora a Grécia caminha de cabeça erguida. A Grécia comporta-se como um entre iguais na Europa. Tem a sua voz e eleva-a tão alto quanto a dos mais poderosos. E o resultado parece materializar-se claro no horizonte mais próximo: se a Grécia cedesse de imediato aos desígnios da troika teria para si condições excecionais muitíssimo mais vantajosas do que as inicialmente propostas na cartilha, apenas pelo facto de se ter feito ouvir, de não ter aceitado os ditames externos de orelhas baixas.

 

Pelo contrário, Portugal, “o bom aluno”, teve e tem as condições mais adversas de todos os que foram igualmente resgatados. Facto.

 

Por isso, e por muito mais, concretamente por 877 anos de orgulhosa história, o povo português deve, àqueles que não se submetem à abjeção da dívida, uma vénia carregada de uma grande dose de vergonha por não ter sido capaz ou não ter tido a coragem de agir de modo análogo.

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