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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Consistência dos conceitos III

por Amato, em 11.07.17

A característica mais singular, mais inusitada, deste capitalismo forçado nas gentes por esta propaganda constantemente disseminada pelos media é a constante mutação dos conceitos que ele próprio cria. A sociedade que julga o regime cubano de não democrático por não seguir os cânones das democracias representativas ocidentais, é a mesma sociedade que acusa o governo venezuelano, possivelmente o governo mais vezes democraticamente eleito em toda a América latina, de ser uma ditadura. De modo análogo, na Venezuela e na Síria chamam de manifestantes ou lutadores pela liberdade ao que chamam de terroristas em qualquer outro lugar do mundo.

 

O capitalismo é, por isto mesmo, o regime moralmente mais abjeto de que há memória na história da humanidade. A sua bússola moral é o lucro, canibal, autofágico, passando por cima de tudo e de todos. O seu lema é Os fins justificam os meios. A sua vocação é a guerra e a destruição.

 

http://www.emlii.com/images/article/2014/07/53bd296532021.jpeg

 

Mais força que qualquer verdade

por Amato, em 13.12.16

Como o mundo está cravejado de anticomunistas, qualquer coisa que se diga sobre um comunista, por muito estapafúrdio que possa soar, medra. Qualquer mentira que se diga torna-se verdade. Ninguém pensa sobre o que ouve ou sobre o que repete.

 

Noutro dia, ouvi esta barbaridade dita por um amigo meu: “o Fidel comia lagosta diariamente ao almoço, enquanto o povo passa fome”. A barbaridade não era da sua autoria. Leu-a de um adolescente anticomunista que, pelos vistos, trabalha para o Semanário Sol e escreve barbaridades para o Jornal i. Tenho notado que ser-se um ignorante anticomunista faz muito bem em termos de carreira. O adolescente vai muito bem lançado.

 

Em primeiro lugar, ninguém passa fome em Cuba e tão pouco existe mendicidade. Mas não dispersemos, vamos ao busílis da afirmação: a lagosta!

 

Quem tem o privilégio de visitar Cuba, mesmo aqueles que não saem das estâncias balneares de Varadero, todo incluido, mesmo aqueles que têm medo de se misturar no meio da multidão, conseguem vislumbrar, ao longe, no mar, pescadores cubanos, por vezes a bordo de uma simples câmara de ar, a pescar a dita cuja lagosta, em boa verdade, uma espécie de lagostim que existe em grandes quantidades ao largo da costa cubana.

 

https://static1.squarespace.com/static/55ce3521e4b07fb58fa23bd2/t/55d25f8de4b0232c1e4a4f8d/1439850435795/Local+lobsterman+shows+of+the+days+catch,+Jardines+de+la+Reina,+Cuba

 

Quem ouve tamanho disparate de que Fidel comia lagosta todos os dias, pensa que comer lagosta em Cuba é tão precioso como comer lagosta em Portugal. Mas não. É ainda mais comum do que comer sardinhas assadas. Se refletirmos um pouco, todavia, seria altamente improvável que Fidel mantivesse uma tal dieta e conseguisse simultaneamente atingir os noventa anos de idade.

 

Tive eu o trabalho de explicar tudo isto ao meu amigo. Ele, todavia, não ficou muito convencido. Prefere acreditar-se nos disparates do adolescente anticomunista que nunca visitou Cuba. É que na verdade, as barbaridades que se escrevem sobre Fidel e sobre Cuba vão de encontro ao que ele próprio acredita. E isso tem muita força. Tem muito mais força que a força de qualquer verdade ou evidência.

As mentiras repetidas

por Amato, em 01.12.16

Para uma mentira se tornar verdade basta que se repita muitas vezes. Esta é uma daquelas leis da natureza humana que devemos guardar.

 

Ainda a propósito da morte de Fidel Casto, tenho tido conhecimento de algo de natureza absolutamente insólita, para mim que vivi algum tempo em Cuba. Ao que parece, Cuba persegue as minorias, em geral, e os homossexuais, em particular. Parece que o país da alegria, da música e da dança, que faz da salsa um património da humanidade, celebrada todas as noites nas ruas das vilas, no calçadão de Havana, um país repleto de bares gay e com algum turismo vocacionado para o efeito, parece que, afinal, persegue os homossexuais.

 

Faz sentido?

 

Para mim, não faz sentido nenhum. Mas o sentido que faz ou que não faz não interessa aqui para nada. O que interessa é repetir a mentira até à exaustão e ela repete-se, com efeito, passando de boca em boca, pelos lábios vis de cada um dos papagaios do capitalismo com assento permanente — e não eleito, refira-se —, em cada um dos jornais escritos ou falados.

 

Outro dos disparates propalados é o dos “genocídios”, mas esse é já um fadinho a que regimes comunistas, ou simplesmente aparentados, estão condenados a ter que ouvir. De onde vêm os números, não se sabe muito bem. Se faz sentido que Fidel Castro tenha executado um número de pessoas muitas vezes superior à população cubana, também não. Nenhum sentido, aliás. Mas também aqui, a questão não é a conversa ser factual ou ter algum sentido. Também aqui, a questão é passar uma determinada mensagem de demonização da revolução cubana.

 

A questão é repetir a mentira, vezes e vezes sem conta, a toda a hora, a toda o momento, pelo maior número de vozes, para que até os relativamente ajuizados ou, simplesmente, céticos, passem a devotamente acreditar.

Patria o muerte!

por Amato, em 29.11.16

Fidel costumava dizer, em jeito de lema, “Patria o muerte!”. Dizia-o não com a superioridade com que o dizem os fascistas, não. Aquelas palavras não tinham nada de xenofobia ou de racismo. Pelo contrário, fosse qual fosse o momento, fossem quais fossem as circunstâncias, Cuba estava sempre preparada para enviar os seus médicos, os seus engenheiros, os seus quadros em geral, para acudir e ajudar todos os povos do mundo. Assistimos a isso mesmo, catástrofe após catástrofe, emergência após emergência.

 

Aquelas palavras transbordavam sim em amor àquela ilhota a flutuar entre o norte e o sul das Américas, amor pelas pessoas que lá viviam. “Patria o muerte!” significa “tudo pelo nosso país, tudo para sermos melhores, tudo para vivermos melhor, para sermos mais sábios e mais felizes”. Significa “orgulho, princípios e identidade”.

 

Disto temos muito pouco em Portugal. Com a visita dos reis de Espanha a Portugal ficou provado, aliás, que a nossa identidade é tão sólida como pasta de papel. As palminhas, as bandeirinhas espanholas, os “adeus”, a cavalaria da guarda — aliás, devem ter tido que alugar uma meia dúzia de cavalos à pressa para o efeito —, o Rolls Royce, as jantaradas nos palácios, os beija-mão e as vénias, foi tudo um espetáculo demasiado deprimente protagonizado pela nossa República de fingir.

 

De tudo, o mais grave, o mais nojento, pela simbologia, pelo desrespeito para com a nossa História, foi aquele momento de orgasmo incontido em que Rui Moreira, o presidente da Câmara do Porto, oferece as chaves da cidade ao Rei de Espanha! Reparem bem: o presidente da Câmara da segunda cidade de Portugal ofereceu as chaves da cidade ao Rei do país vizinho. Não há noção nem há um pingo de decência.

 

Para gente deste calibre, para gente desta qualidade, as palavras “Patria o muerte!” de Fidel só podem soar a grotesco por serem completamente incompreensíveis.

O que fez Obama?

por Amato, em 03.02.16

Falava há uns dias com uma querida amiga sobre o legado de Obama como Presidente dos Estados Unidos da América. Dizia-me ela: “Obama sempre foi melhor do que Bush...”; ao que eu retorqui: “Foi? O que fez Obama?”. A conversa prosseguiu sem que surgisse uma resposta clara à minha inocente pergunta.

 

“O que fez Obama?”.

 

Foi melhor do que Bush? Eventualmente. Mas será que foi mesmo? Será que, para lá da sua eloquência e superior capacidade oratória, existem diferenças políticas realmente substantivas?

 

Bush ficou marcado pelo onze de setembro e pela sua selvática e idiota reação que empurrou a América e meio mundo para bombardeamentos sem fim no Afeganistão e no Iraque. Mas Obama fez essencialmente o mesmo na Líbia e, agora, na Síria. Pode não ser tão violento nos métodos, preferindo armar e pagar a grupos de mercenários para por ele sujarem as mãos e causarem o caos político nesses países, mas essencialmente trata-se da mesma coisa. No mais, em termos de política externa, são como faces da mesma moeda.

 

Obama veio com a ilusão de ser o primeiro Presidente da América negro e, a reboque, trouxe inúmeras promessas, três das mais relevantes foram: um sistema público de saúde (obamacare), o retirar as tropas do Iraque e do Afeganistão e o encerramento da prisão de Guantanamo (o gulag norte-americano). A pouco tempo de terminar o seu segundo mandato, o saldo de tudo isto resume-se... ao facto de Obama ter sido, com efeito, o primeiro Presidente da América negro. Sim... a lista termina aqui.

 

Há quem diga que enfrentou e derrotou a seríssima crise financeira e económica, a crise do subprime, que assolou a América e que contagiou o resto do mundo capitalista. Teve o azar de ter tido que enfrentar uma destas crises cíclicas que afetam o capitalismo. Tudo isto é verdade, mas também é verdade que resolveu o problema, por ora, à custa de um exponencial aumento de dívida. Acrescente-se que a dívida americana, se já era um monstro incontrolável, com Obama tornou-se numa besta de duas ou três cabeças. Convenhamos que resolver uma crise económico-financeira é muito mais fácil se pudermos proceder a injeções virtualmente ilimitadas de capital no sistema.

 

Há, contudo, uma singular e preciosa ação de Obama que ficará para sempre nos anais da História e que talvez apenas ele pudesse ter levado a cabo e que consistiu no retomar das relações diplomáticas dos Estados Unidos da América com Cuba. Já não sobrava qualquer argumento justificativo para tal atitude e, com o patrocínio do Papa Francisco, bastou a Obama tomar esse evidente passo, todavia ainda grotescamente difícil, enfrentando uma violenta oposição interna. Obama ficará na História política por isto. O facto de ser o primeiro negro a ocupar o cargo tornar-se-á apenas numa mera curiosidade antropológica.

 

Poderemos sempre argumentar sobre o papel de Obama no processo. Terá sido um agente mais ativo ou mais passivo? Ou terá sido simplesmente apanhado pelo discorrer indelével das areias do tempo? Ou do destino?

 

Os Estados Unidos só voltarão a dialogar connosco quando tiverem um presidente negro e quando houver no mundo um Papa latino-americano.

— Fidel Castro, 1973

 

 

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