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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Um olhar no dia do trabalhador

por Amato, em 01.05.20

No momento em que o governo colhe louros e recebe congratulações vindas das mais variadas fontes com respeito à sua atuação face à epidemia, importa separar o trigo do joio, isto é, perceber o que é mérito das instituições e o que é fruto da aleatoriedade fenomenológica.

 

A primeira pergunta a fazer é: foi a atuação do governo português muito diferente da do governo italiano, por exemplo? Segundo o que consta, não, particularmente relativamente aos timings dos encerramentos de aeroportos e fronteiras, de estabelecimentos e dos confinamentos. Aliás, os confinamentos italianos foram muito mais rigorosos do que aqui tendo todo o país sido submetido a regime de quarentena. Por cá, apenas a cidade de Ovar foi submetida a esse regime.

 

Será que a diferença se deveu a uma maior preparação e capacidade de resposta dos nossos serviços de saúde? Não me parece. Não sendo eu um profundo conhecedor do sistema de saúde italiano, resulta evidente o quão mal preparados os nossos serviços estavam. O recente estudo publicado pela Ordem dos Médicos de Portugal aponta exatamente para uma conclusão que qualquer um já esperava: que o número de óbitos no nosso país, quando comparado com o período homólogo do ano passado, disparou muito mais devido à falta de cuidados para doenças comuns do que em razão direta ou indireta do surto de covid-19.

 

Sublinho a não necessidade de um estudo para termos consciência deste facto. Discordo ainda frontalmente de todas as pessoas que defendem o sistema dizendo que nunca seria possível fazer face à pandemia. Isso é a argumentação que importa defender pelo governo e pelo sistema para que responsabilidades sérias não sejam exigidas. A verdade, todos nós sabemos, é que o nosso sistema de saúde já vinha sendo definhado e operava nos mínimos dos mínimos e qualquer desafio extra que se visse obrigado a enfrentar poria em causa a assistência à população como o que veio a ocorrer.

 

Que estas palavras sirvam para refrescar a memória de quem as lê: na viragem de 2018 para 2019, o país enfrentou uma onda excecional de gripes que, na altura, colocou os hospitais portugueses de lés a lés a rebentar pelas costuras. Eram gripes comuns, não vinham da China ou de outro país qualquer. Já ninguém se lembra dos doentes amontoados nos corredores, nas salas repletas de macas com idosos e enfermos? Já ninguém se lembra das desculpas esfarrapadas de Marta Temido, a mesma ministra da saúde, e das promessas de contratação de pessoal jamais concretizadas? Parece que não. Somos gente de parca memória.

 

Mais de três mil milhões de euros foi o valor que o grupo que detém a maior fatia da saúde privada do país fez esta semana com a venda de uma parte da Brisa a poderes estrangeiros. Seguramente que esse valor será colocado ao serviço do povo português. Seguramente. Não percamos a fé.

 

Se há coisa que esta pandemia mostra é o quão insuficiente é o nosso serviço nacional de saúde e, por seu turno, o quão inconsistente é o serviço privado, perfeitamente incapaz de se assumir como a alternativa que sempre apregoa ser e preferindo, como aliás faz parte da sua natureza, a procura desenfreada pelo lucro mesmo no momento mais difícil e delicado da vida dos portugueses.

 

Neste momento, todas as promessas são vãs e oportunistas, mas no dia de depois de amanhã estaremos cá para ouvir se as prioridades do país serão os seus serviços ou se, passada a epidemia como esperamos, esquecidos todos os medos, vamo-nos limitar a uma distribuição de méritos e de condolências, de palavras bonitas, de memoriais carregados de sentimento e prosseguir o caminho de liberalização da sociedade e de destruição do estado e dos seus serviços.

 

Não, o nosso governo não merece todo o crédito que tem recebido: tomou e continua a tomar as mesmas decisões erráticas e tardias que o resto da Europa; abandonou os seus doentes e necessitados para concentrar todos os seus poucos recursos no combate ao covid-19; procedeu a gastos e investimentos desorganizados e apressados — ainda esperamos e desesperamos por ventiladores com instruções em chinês —; desorganizou o país colocando sobre os ombros do povo trabalhador o ónus da pandemia, mais de metade perdeu o emprego ou está em regime de lay-off; e pôs a segurança social a suportar os lucros das grandes empresas com consequências das quais apenas teremos conhecimento quando tudo isto já estiver esquecido e quando se começar a falar novamente em fundos de pensões, em diminuição de reformas e obrigação de trabalhar até mais tarde. Ainda esta semana vimos como a Bosch, a poderosa multinacional alemã apressou-se a colocar os seus trabalhadores em regime de lay-off sem qualquer tipo de justificação ou de necessidade que não a de manter intactos os seus proveitos à conta de todos nós.

 

Não, o nosso governo tem-se limitado a jogar o jogo dos interesses e tem tido sorte. Afinal, sermos um pequeno país tem algumas vantagens no que ao controlo de calamidades diz respeito. Isso e, claro, o facto de que o vírus, vá-se lá saber porquê, não gostar muito dos nossos ares. Sorte a nossa.

 

Sorte a nossa.

Nas sombras da pandemia

por Amato, em 19.04.20

Deixem-me dizer-vos o que aí vem, o que já vai em preparação adiantada nas sombras da pandemia. Deixem que deixe isto aqui escrito, registado para memória futura e correndo o risco de se revelar, mais tarde, depois do desfecho da coisa, estar completamente a leste do paraíso.

 

O que é interessante no capitalismo, esta organização da vida que escolhemos, é precisamente esta sua natureza cíclica mas, simultaneamente, impossível de prever exatamente, impossível de responder ao quando? e ao como? E, em verdade, sabíamos perfeitamente que à crise ou às crises — talvez assim sejamos mais precisos — de 2011 seguir-se-iam outra ou outras. Disso não sobrava qualquer dúvida. Todavia, dando de barato a nossa impotência preditiva para responder à primeira questão, relativamente à segunda era mais expectável que as crises surgissem do rebentar da bolha imobiliária, que vinha enchendo assustadoramente transversalmente no mundo ocidental, associada, no nosso país, à outra bolha que, por aqui, persistia num crescimento que parecia não ter sustentabilidade: o turismo. Pois o que pouca gente esperava era que a próxima crise tivesse origem num mero vírus da gripe.

 

E aí está, os estados, em geral, vão replicando no momento atual as respostas dadas por eles próprios em 2011. Claro que há diferenças, há um estilo, uma linguagem, idiossincrasias e um contexto próprios, mas a substância das medidas é inegavelmente a mesma: injeções de capital nas empresas quer através de linhas de crédito, quer através da torneira da segurança social, sempre abundante para acudir a burguesia. Esqueçam os juros: isto é dinheiro do qual o estado não voltará a ver a cor.

 

A isto acresce a situação de estado de emergência, a verdadeira novidade na atuação do governo, que é como que uma carta branca para o despedimento, para o abuso, para a falcatrua laboral, para a ausência de responsabilidade social no que concerne o trabalho, um verdadeiro regime de exceção à lei e à democracia.

 

Em simultâneo, à promoção de um clima de consumo exacerbado, de histeria mediática impulsionadora desse mesmo consumo, juntou-se uma permissividade grosseira na agiotagem, no inflacionamento dos preços da generalidade dos bens. Todos os institutos, agências e organismos de supervisão criados para o efeito revelam descaradamente o seu papel decorativo no contexto do sistema.

 

Não tenham, todavia, pena do estado. Quando isto começar a dar para o torto, que é como quem diz quando se começar a fazer o rescaldo da pandemia, quando tudo voltar a uma certa normalidade no que ao funcionamento da sociedade diz respeito, então aí o plano será outro. Aí, os holofotes mediáticos concentrar-se-ão nas imparidades, nos buracos orçamentais, nos desequilíbrios das contas públicas e das balanças comerciais e, então, bem convencidos da necessidade dos nossos sacrifícios para a salvação do país, assistiremos a uma nova versão do brutal aumento de impostos de Gaspar, Passos e Portas, a uma sempre renovada necessidade de flexibilizar a economia e o trabalho para gerar mais competitividade e emprego e o resto. Todos nós conhecemos esta ladainha do costume de princípio a fim.

 

Quando erguermos novamente a cabeça veremos um país destroçado em emprego, em custo de vida, em poder de compra; veremos um povo com as suas poupanças delapidadas, com os seus direitos novamente reduzidos, com as suas reformas de novo adiadas e minguadas, com as suas perspetivas novamente revistas. Vamos ver os serviços públicos, em particular a saúde, ainda mais mirrados e isto passar-se-á mesmo após a pandemia nos ter mostrado o quão determinantes e importantes estes são. O povo assistirá a tudo isto, só não sentirá o cheiro daqueles milhões de euros de superavit anunciados no último orçamento de estado. Esse refinado odor terá sido já, por essa altura, exclusivamente aspirado pelas ávidas narinas da burguesia do país.

Um adeus a Bernie, um adeus à esperança

por Amato, em 09.04.20

Estas semanas de confinamento tiveram em mim, como os meus leitores já devem ter notado, um efeito de distanciamento social no verdadeiro sentido da palavra. Distanciei-me da sociedade, dos seus ecos, das suas ilógicas, das notícias, dos jornais, da repetição, do condicionamento.

 

Por um lado, confesso não ter tolerância para este fluxo contínuo e ininterrupto de notícias sobre o covid-19, para este jorro demente de informação sem critério, sem contexto e sem juízo, para esta prova acabada de como a sociedade se converteu num rebanho de doutores tosquiados ao som dos clamores de um pastor histérico.

 

Por outro lado, também não disponho da energia para andar a rebater e a contrariar este movimento universal. Afinal, quem sou eu — no contexto das limitações que também me afligem — para o fazer? Não disponho — nem posso dispor — de provas ou de cabais demonstrações e da autoridade moral que elas conferem para encetar tal demanda. Do que disponho é deste senso comum que persiste em não me abandonar e que vive, por este dias, ofendido, agredido a cada instante, a cada mirada fugidia no jornal, a cada descuido do ouvido com a mudança do canal. E, claro, disponho também da memória do passado que não me permite aquele brilhozinho no olhar, que apenas quem observa as coisas pela primeira vez pode ter, e a mundividência, o ter mundo, o conhecer muitos lugares mais ou menos longínquos e ter sempre presente que não vivemos isolados numa ilha, que o que nos acontece não nos confere uma qualquer qualidade especial.

 

Este texto não serve, pois, para falar do covid-19 nem para beliscar sequer esta loucura à qual estamos todos forçadamente confinados. Deixarei o tempo passar e, no final, se assim o entendermos, poderemos olhar para trás e fazer as nossas avaliações ao que foi feito, ao que nos sujeitaram e, coletivamente, à diferença entre o ponto de partida e o ponto de chegada. Essa avaliação, todavia, nunca é feita. Sei-o bem. Repare-se, a título exemplificativo, como as autoridades de saúde portuguesas diziam no início do mês passado, coadjuvadas pela generalidade da comunidade médica, que o uso de máscaras era absolutamente ineficaz e contraproducente e, agora, essas mesmas pessoas defendem o seu uso generalizado. Não vejo ninguém propriamente indignado com isto. O rebanho vive a histeria do momento e não consegue parar para refletir sobre o que o aflige. São os tempos modernos... são os tempos modernos.

 

Queria escrever, hoje, sobre Bernie Sanders, o quase octogenário que tentava, uma vez mais, ser o candidato presidencial democrata contra Donald Trump em terras do tio Sam.

 

Tive conhecimento das primeiras vitórias auspiciosas de Bernie sobre a sua concorrência, mas depois, a infeção mediática do covid-19 fez com que deixasse de acompanhar a corrida. Em boa verdade, não é que esta encenação democrática tão enraizada no folclore dos Estados Unidos da América me suscitasse um qualquer particular interesse. Não sei, até, se já o escrevi aqui, mas nunca vi em Bernie uma alternativa verdadeira para a América e para os americanos começarem a transformar o seu modo de vida. Acho improvável que alguém que fez toda a sua carreira no establishment, dentro do sistema, possa vir a contribuir para a sua reforma ainda que, na minha opinião, a reforma do sistema capitalista seja atividade perfeitamente infecunda. Para mim, sempre se afigurou muito mais provável que Bernie estivesse a usar essa retórica dita “socialista” como um pretexto para almejar um poder que nunca teve. Todavia, é certo que Bernie se apresentava com uma linguagem rejuvenescedora pela sua assertividade, transportava uma mensagem sem mas e sem ses, abrangente e unificadora de diversos quadrantes e isso parecia constituir um upgrade relativamente à oratória oca e dissimulada de Obama que cavalgou a onda das aspirações da população afro-americana e resultou em coisa nenhuma. Bernie era isso, era uma esperança reforçada em algo que pudesse ser novo ou diferente, que pudesse constituir um passo em frente civilizacional num grande país que persiste em viver de forma tão atrasada, parado ainda antes do início do século XX, organizado de forma tão pouco solidária, sob regras tão pouco humanas, tão primárias. Bernie era só uma esperança e nada mais que uma esperança.

 

Foi, por isso, com grande surpresa e desolação que tomei conhecimento hoje da desistência de Bernie Sanders da corrida à nomeação, deixando Joe Biden sozinho. Não se trata de que Biden, como versão masculina de Hillary Clinton, íntimo dos mais perversos interesses económicos americanos, não terá qualquer hipótese de derrotar Trump. Mesmo que tal, por milagre, acontecesse, e ao contrário do que a maioria infundadamente pensa, isso não traria nenhuma vantagem aos americanos nem ao mundo. A questão é outra.

 

A questão é que, se nem agora, depois de uma década de americanos a amontoarem-se nas valetas das ruas e das estradas e nos parques e debaixo das pontes com as suas tendas, com as suas roulottes, despedidos dos seus trabalhos, despejados das suas casas, e que não vêm qualquer futuro para si e para os seus filhos, sequelas palpáveis da última crise do capitalismo, se nem agora, morrendo mais e mais sem qualquer assistência médica — chegam informações que o número de mortes por pneumonia nos EUA já vinha aumentando exponencialmente desde o ano passado ainda antes do covid-19, para não referir as crescentes mortes de diabéticos e de outros doentes crónicos sem acesso a medicação — se nem depois de tudo isto, e de tudo o resto que podia ser aqui também elencado, os americanos votam numa esperança de mudança, seja ela chamada de Bernie Sanders ou não, então é difícil acreditar se algum dia o farão. A tristeza da coisa é esta.

 

Esta desistência de Bernie é, pois, mais que um adeus ao senador que, com certeza, não deve aventurar-se mais nestas coisas: é, sobretudo, um adeus à esperança. O país bastião do capitalismo no mundo que atualmente vê a sua influência a escapar-se acelerada e irremediavelmente como areia por entre os seus dedos, é, fundamentalmente, um país condenado a um futuro de decadência porque, nele, dentro das suas fronteiras morais e filosóficas, não subsiste um singelo vestígio de esperança.

 

Nota final para o site onde li sobre a notícia da desistência de Sanders. Diz aqui, no Diário de Notícias da Madeira, e passo a citar, que “Bernie Sanders, 78 anos, senador pelo estado de Vermont, tinha começado as primárias do Partido Democrata com três importantes vitórias, apesar das suas ideias radicais de esquerda, sobretudo nas áreas da economia e da saúde.” Reparem bem: para um jornal português as ideias de Sanders, como por exemplo criar um sistema nacional de saúde para os americanos, são “ideias radicais de esquerda”. É elucidativo do panorama que temos.

Infelizmente, não há muito a dizer sobre o covid-19

por Amato, em 01.04.20

No preciso momento em que escrevo, encontramo-nos em pleno ano vigésimo do vigésimo primeiro século do calendário gregoriano. Importa escrever estes números por extenso para sermos forçados a soletrar, para sermos compelidos à interiorização da realidade. No ano dois mil e vinte esse ente coletivo a que chamamos de humanidade pode elencar com orgulho as inúmeras desventuras por que passou, o sem fim de odisseias ultrapassadas pela força, abnegação, sofrimento e, também, imaginação e engenho, enfim, o interminável rol de enfrentamentos por que passou para chegar a este ponto, o ano de dois mil e vinte.

 

Na Ciência, essa construção humana suprema, alicerçada sucessivamente no conhecimento dos nossos antepassados, encontramo-nos a atravessar aquele limiar mitológico aspirado apenas nos sonhos mais loucos dos antigos, aquele limiar que separa a vulgar mortalidade da eternidade dos deuses. Aquilo que era não mais que um intangível sonho, somente descrito na loucura febril da literatura fantástica, é hoje realidade: manipulação do código genético dos animais e dos seres humanos, clonagem de órgãos e seres completos, a internet, um planeta envolvido por uma rede de conexão instantânea, tecnologia robótica microscópica, máquinas que tomam decisões autónomas com algoritmos que conseguem evoluir e aprender com a experiência, a lista continua, não tem fim.

 

Chegámos a este ponto. Tomámos em mãos poderes divinos. E, todavia, não conseguimos ter uma ideia clara sobre um vírus de gripe chamado de covid-19. Decifrámos com sucesso cada proteína do ácido desoxirribonucleico da pessoa humana, mas parecemos ter dificuldades inultrapassáveis com a compreensão da estrutura de um minúsculo ser vivo de umas poucas centenas (?) de nanómetros de diâmetro e que já anda por aí a criar o caos há, pelo menos, quatro meses.

 

Não sei o que vos parece mas, a mim, tudo isto é estranho, é bizarro.

 

Em boa verdade, não há muito a dizer sobre este covid-19, quer dizer, sobre o vírus em si. Podemos dizer muitas coisas sobre o modo como estamos a lidar com ele, sobre a forma como está a afetar a nossa sociedade, o nosso modo de vida, os negócios, os empregos. Podemos perorar sobre a inexorável e definitiva incapacidade estrutural das nossas sociedades em lidar com este vírus ou com situações análogas. Podemos comprovar como um simples vírus põe a nu as assimetrias e iniquidades do sistema que escolhemos para nos organizarmos coletivamente e como, nestas alturas, a validade e atualidade dos conceitos de luta de classes, proletariado e burguesia emerge aos olhos de quem os tem abertos e atentos. Note-se como as grandes empresas, as grandes multinacionais permanecem mais ou menos intocáveis. Para o povo, a luz não vai deixar de ser paga, nem a água, nem os planos de comunicações, de TV e de internet, nem as rendas, nem os impostos. Para as grandes empresas, linhas de crédito, dinheiro de graça, nenhuma PPP ou renda estatal será  suspensa assim, leis escritas à medida incluindo layoff’s de conveniência para se deixar de pagar e para se despedir de forma organizada ao mesmo tempo que se recebem apoios para não se despedir trabalhadores. Tudo isto o covid-19 deixa claro, isto e que os homens não nascem todos iguais particularmente em tempos de crise imbuídos de um espírito de falsa solidariedade.

 

Mas sobre o vírus propriamente dito não, não é possível dizer muito. Este é um vírus que já foi capaz de envergonhar as autoridades nacionais e estrangeiras de saúde que já tiveram que retirar, corrigir e refazer cada afirmação inicial que fizeram sobre ele. Ainda hoje, a multiplicidade de notícias díspares e contraditórias que contaminam o espaço informativo é superlativa. Há notícias que apontam para várias estirpes diferentes do vírus que afetam diferentes geografias. Ao mesmo tempo surgem artigos que ensaiam defesas inequívocas de que este covid-19 tem uma origem natural, que é um produto natural da mãe natureza. Qual é a probabilidade que assim seja? A sério, qual é a probabilidade de um vírus aparecer de modo natural assumindo características tão diferentes em países como o Irão, Itália ou China?

 

Tudo isto é bizarro como é bizarro que países diferentes adotem formas bastante diferentes para lidar com o problema e, aqui, nem me refiro a casos surreais como o do Brasil de Bolsonaro. Não, refiro-me à Suécia ou à Holanda, sempre tidos como exemplos na Europa e no mundo. Tudo isto é bizarro. Tudo isto é estranho. E é, por isto mesmo, que não há muito a falar sobre o covid-19.

 

Sinto-me verdadeiramente próximo daqueles camponeses que viviam algures na idade média sob o jugo de um conde com poder absoluto e da igreja mais obscurantista que dizia que tudo era obra de um deus sempre zangado connosco por muito que vivêssemos e morrêssemos a trabalhar. Sinto-me muito próximo desse camponês. Hoje, não há condes, nem igreja, nem deus. Todavia, vivemos identicamente mergulhados num lodaçal, num vazio de informação e de conhecimento. Temos acesso a muita coisa, a muita informação sem critério, mas não sabemos nada de nada e tudo o que sabemos é-nos plantado na consciência. Sobeja-nos apenas uma noção clara das incongruências, das inconsistências, uma perceção de que estamos efetivamente a ser enganados.

As impressões que o covid-19 me dá

por Amato, em 18.03.20

Depois de algum tempo de ausência neste espaço, por motivos de certo modo relacionados com as transformações que o covid-19 tem imposto às nossas rotinas, gostava de partilhar com os meus leitores algumas impressões que esta pandemia me tem causado. São impressões pessoais, observações empíricas sem valor científico, e sem quaisquer ambições neste particular, sobre o que me rodeia, sobre o que se tem passado. São reflexões despretensiosas acerca do que nós, cada um de nós, individualmente, e todos, coletivamente, revelamos ou temos sido forçados a revelar, da nossa natureza, da nossa organização, das nossas prioridades, dos nossos valores em face desta crise de saúde pública que tem posto em causa o nosso modo de vida.

 

A primeira impressão é para mim uma evidência: nestes momentos resulta claro o quão ineficaz é o nosso sistema económico. O capitalismo, com a sua pulverização característica de negócios e de empresas, com a sua liberalização das relações, das responsabilidades, mas sempre com o poder económico concentrado em escassos pares de mãos incógnitas e intangíveis vê-se incapaz, impotente até, para operacionalizar uma estratégia coerente e otimizar recursos para combater o flagelo, neste caso chamado de covid-19.

 

Se ao longo dos tempos de moderada ou anémica bonança há sempre justificações com as quais se adorna o sistema e se enganam os menos ilustrados ou os mais distraídos, a verdade é que, neste momento presente, não sobrevivem quaisquer argumentos. Amarrados aos interesses económicos para os quais existem, as nações europeias estrebucham para tentar fechar as fronteiras, para colocar os cidadãos em casa, para impor um estado de quarentena minimamente sério que seja minimamente eficaz.

 

Entenda-se a dificuldade da coisa no contexto estrito do desenho do nosso sistema económico onde a vertigem pela maximização dos proveitos se impõe a tudo e a todos, onde as conexões económicas se estendem a cada canto do globo para fugir ao escrutínio das finanças locais e de uma moralidade de distribuição digna da riqueza e onde, mais e mais, quem não trabalha não ganha. E, se não ganha, não come. Não é, pois, de estranhar a lentidão com que a generalidade dos países europeus atuou perante a ameaça de pandemia que encobria, então, os seus amanhãs. Não é, pois, de estranhar que a generalidade dos países europeus tenha aguardado até ao último instante para começar a agir.

 

Não querendo — longe disso! — ensaiar qualquer apologia ao sistema chinês, compare-se e aprecie-se a diferença entre o que se fez por cá e o que se fez por lá, na China, para controlar o surto de covid-19. É difícil comparar, bem sei, mas essa dificuldade — não se iludam! — favorece-nos enormemente pois é exponencialmente mais difícil gerir um problema de biliões do que um de milhões. Mas é fácil de entender. Foi fácil para a China colocar as pessoas de quarentena em casa — as pessoas trabalham, em regra, para o governo. Foi fácil para a China fechar a sua economia — o governo chinês tem uma posição dominante. Foi fácil para a China agilizar e otimizar recursos — dispõe de mão de obra e de indústria para produzir ventiladores, máscaras, material de hospital e o que quer que seja necessário. Foi fácil para a China desenvolver tratamentos específicos para a doença — dispõe dos meios tecnológicos e científicos para o fazer. Foi tudo fácil para a China. Para nós, europeus, sobretudo para países como Portugal, tão dependente de terceiros para tudo e para nada, depois de ter alienado tudo o que era indústria, agricultura, recursos naturais, depois de se ter submetido voluntariamente a um projeto de economia terciária satélite dos grandes países europeus, tudo é difícil. Para Portugal tudo é difícil.

 

A segunda impressão que queria partilhar é esta. A economia está em crise profunda não por causa das máquinas ou da inovação científica, não devido à falta de matéria prima, mas em razão dos seus recursos humanos estarem a ser afetados. Prestem atenção a este ponto. Contrariamente ao que a lavagem cerebral do costume nos diz, a força laboral é, ainda hoje, o fator mais determinante para a economia e para os países. Esta evidência que o covid-19 coloca a nu é inversamente proporcional com a importância que é dada aos trabalhadores, a uma mais justa retribuição do seu trabalho, a uma mais justa distribuição da riqueza. Pelo contrário, o que tem acontecido, desde os anos desde o fim da guerra fria até aos dias de hoje antes do covid-19, é precisamente uma diminuição de salários e de direitos laborais e uma cada vez mais desigual distribuição de uma riqueza que se tem acumulado cada vez mais nas mãos de uns poucos.

 

Mesmo agora, durante esta crise, serão os trabalhadores aqueles que sairão mais prejudicados no fim do processo. Por exemplo, multiplicam-se os apoios às empresas, apoios esses que os governos lhes dedicam sem quaisquer contrapartidas. Os trabalhadores, esses, veem-se ora forçados a trabalhar sem proteção e a expor-se ao vírus, ora forçados a ir para casa e viver com uma reduzida parte dos seus rendimentos ao mesmo tempo que as suas obrigações se mantêm em regra geral. E estes dão-se por contentes: os precários,  cada vez em maior número no tecido laboral dos países, perdem imediatamente os seus empregos e a estes ninguém lhes vale.

 

A terceira impressão diz respeito à ciência e aos homens e mulheres da ciência que temos entre nós. Considero espantosa a forma como, em momentos destes, a voz da ciência é praticamente inaudível. É caricato como se ouve tão pouco e se valoriza tão pouco aquilo que os homens e mulheres de ciência, especialistas das matérias, têm a dizer. As redes sociais têm um papel catalisador do ruído mediático que os media produzem, é certo, e também é verdade que a própria ciência assume sempre um papel ambivalente nestas matérias, refugiando-se em pareceres especializados e parciais para emitir posições frequentemente contraditórias e favorecer os obscuros interesses que as classes dominantes têm sempre nestes momentos.

 

Faltam hoje, mais do que nunca, talvez, pessoas com um conhecimento abrangente e sólido e não meramente especializado, capazes de analisar os problemas, apoiando-se noutros especialistas, e emitir opiniões fundamentadas no “estado da arte”, consistentes e coerentes que sirvam como um farol para a sociedade à deriva. Fazem falta destas autoridades. Não existem sequer, porque a nossa sociedade não as produz nem as valoriza, obcecada que está no conhecimento especializado que, podendo ser muito bom para produzir software e “tecnologia de ponta”, nestas alturas vale zero.

 

A quarta e última impressão é que nós, coletivamente, estamos muito próximos daqueles povos que acreditavam em virgens prenhas sem pecado, em múmias regressadas à vida, em deuses com cabeças de animais e em outras magias que tais. Somos um povo muito crédulo. Continuamos, neste ano 2020, um povo muito crédulo. A história que nos contam do covid-19 é algo que nos devia deixar em polvorosa e exigir explicações. A forma como este problema se abateu sobre nós e abalou as nossas vidas não devia ser encarada com cançonetas, frases inspiradoras de circunstância ou reflexões pueris e pouco profundas. Dá impressão que podem fazer o que quiserem e nós, povo, arranjamos uma forma de nos adaptarmos, de viver com isso.

 

Que espécie de gente somos nós? Não somos, definitivamente, uma que possa tomar o seu destino com as suas próprias mãos.

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