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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

A era do politicamente correto

por Amato, em 21.07.17

No período medieval e pré-medieval o pensamento público era controlado pela igreja em articulação com a aristocracia. No Vaticano fizeram-se mesmo emendas ao longo dos tempos, alterações e acrescentos ao texto dos evangelhos — e esta prática prolongou-se por muitas centenas de anos — para que a palavra de Deus se adequasse na perfeição aos comportamentos e pensamentos que se pretendiam incutir nas massas de população a dominar.

 

Em eras anteriores sabemos que práticas semelhantes eram adotadas, fosse por intermédio de sacerdotes e textos sagrados de outras religiões, fosse por intermédio de figuras endeusadas e mistificadas como os faraós, fosse pelo método que fosse. O objetivo foi sempre o mesmo: controlar os pensamentos e as ações das populações. Controlar cada elemento do povo como se de uma marioneta se tratasse.

 

Com o desenvolvimento da imprensa escrita e, sobretudo, dos meios de comunicação globalizados, que se foram sofisticando constantemente — rádio, televisão, internet, redes sociais — também o modo como se procede à lavagem cerebral das massas se sofisticou. Não descartando o papel que a igreja ainda hoje tem, por ser importante sobretudo nos meios mais pequenos, hoje em dia o grosso do processo é operado através da televisão e da internet.

 

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E não há como negar a elegância da sofisticação da coisa. Hoje em dia ninguém é forçado a frequentar a missa nem a ouvir a homilia do padre, nem uma outra qualquer similar encenação. O processo não se desenvolve mais de cima para baixo, antes pelo contrário. Hoje o povo busca, ele próprio, os conteúdos e busca os comentadores, escolhe o canal ou a página de internet com uma falsa sensação de liberdade de escolha porque todos dizem essencialmente o mesmo, ouve-os e lê-os com atenção, por opção própria, e, no fim, este procedimento de auto-lavagem-cerebral conduz a uma identificação com a mensagem que é muito robusta e eficaz.

 

A mensagem, repetida à exaustão por diferentes intérpretes, de modos diferentes e em diferentes canais de comunicação, inclusivamente discutida em debates artificiais, para esconder a sua natureza não contraditória, é incorporada com sucesso. Corpo acabado de pensamento único, a derradeira e superior forma de controlo das massas, apresento-vos: o politicamente correto.

 

O politicamente correto está em todo o lado, como entidade omnipresente na sociedade. Há alguns temas onde é perfeitamente evidente, nomeadamente no que diz respeito a grupos religiosos, étnicos ou sexuais. Se a conversa meter um negro, um cigano ou um gay reduz-se a meia dúzia de chavões e acaba rapidamente. Caso contrário, termina de forma deselegante. Porquê? Porque não se pode discutir. O que há para discutir sobre o tema já foi discutido (por alguém?) e encontra-se sistematizado no politicamente correto.

 

Com efeito, o politicamente correto é a censura dos tempos modernos, esvazia qualquer conversação e, nos temas que mais lhe importam, vem sempre acoplado de um rótulo insultuoso, ou com esse intuito, pronto a ser utilizado: “homofóbico”, “racista”, “ateu”, “comunista” ou “fascista” são bons exemplos. Cola-se o rótulo mais apropriado na testa do parceiro de conversa e, ato contínuo, termina-se o debate com vitória por KO. Não interessa a validade do argumento. Não interessa para nada. Isto é o politicamente correto.

 

Mas em tudo o resto também existe um politicamente correto. Existe um politicamente correto na política, por exemplo, que conduz o povo a votar sempre em partidos análogos. Existe um politicamente correto na educação das crianças, que nos está a brindar com a geração mais mal educada e irresponsável que este país jamais viu. Agora, até existe um politicamente correto face às tragédias que se traduz em inundar as vítimas de donativos, que é como se fossem esmolas, independentemente de serem necessários, desproporcionadamente, assim, por descargo de consciência, para no dia seguinte se deixar de pensar no problema e ficar tudo na mesma.

 

O problema é que, depois, há coisas que o politicamente correto diz que não batem muito certo com a realidade. Há coisas que o cidadão comum vê, estão ali, diante de si, e o politicamente correto não lhe diz nada sobre isso ou o que diz é desadequado. E depois há um tipo que mete o dedo na ferida e diz as coisas como elas são. Não interessa que não tenha bom senso, nem cultura, que seja grosseiro, que se esteja perfeitamente a marimbar para tudo isto e que apenas queira seduzir o eleitorado para chegar ao poder. Não importa nada. Como esse indivíduo quebra o politicamente correto e tem a capacidade de dizer que o rei vai nu, é o suficiente para se destacar do status quo hipócrita veiculado pelo politicamente correto e granjear reconhecimento popular.

 

Nós, sociedade, não discutimos os temas, não falamos abertamente dos assuntos, sem tabus, sem preconceitos, sem falsas vitimizações. E porque não discutimos, porque não refletimos, este processo vai transformando sucessivamente o politicamente correto para formulações piores, mais conservadoras, mais reacionárias e mais castradoras das liberdades.

A revolução educativa que é mais necessária

por Amato, em 05.01.16

Cada vez me convenço mais da imbecilidade superlativa dos indivíduos apologistas da superioridade das ciências exatas face às demais ciências ou áreas do saber.

 

Cada vez percebo mais claramente da importância do domínio da língua e da dialética para o saber pensar e para o saber imaginar.

 

Cada vez mais observo claramente como grandezas diretamente relacionadas e diretamente proporcionais: a Filosofia e a Sociedade. O declínio da primeira relaciona-se diretamente com o declínio da segunda, nos seus princípios, na sua estrutura e nos seus valores.

 

Antes de começarmos a espingardar com o método científico convinha sabermos expor argumentos, pensar sobre o que expomos, saber falar, saber escrever, saber... pensar. E, resulta para mim muito claro, esta sociedade parece usar com destreza de gráficos e de ferramentas estatísticas, de testes de hipóteses e de grupos de controlo para provar isto e aquilo e não pensa, muitas vezes não sabendo o que faz. O que devia vir primeiro não vem nunca. Não existe a reflexão sobre o que se faz ou sobre o que se pretende fazer e essa reflexão quando existe é reprimida porque ameaça colocar em causa mais um batalhão de testes. Mais vale fazer os testes, então.

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Pensa-se pouco, raciocina-se pouco, reflete-se pouco. Faz-nos falta. Estuda-se Matemática, Física, Biologia e Química a mais e estuda-se Português e Filosofia a menos. As ciências exatas têm feito de nós, direta ou indiretamente, robôs, macacos treinados, animais de circo amestrados.

 

Esta é a revolução educativa que é mais necessária: uma revolução sobre o objeto de ensino. O que é determinante é “letrar” os cidadãos, isto é, dotá-los das ferramentas da leitura e escrita com destreza, do saber pensar e refletir. O resto também é importante mas não é o mais importante. O resto, para quem sabe ler, escrever e pensar... encontra-se ao alcance de uma mão.

A prison for your mind

por Amato, em 04.11.15

Morpheus: I imagine that right now, you're feeling a bit like Alice. Hmm? Tumbling down the rabbit hole?

 

Neo: You could say that.

 

Morpheus: I see it in your eyes. You have the look of a man who accepts what he sees because he is expecting to wake up. Ironically, that's not far from the truth. Do you believe in fate, Neo?

 

Neo: No.

 

Morpheus: Why not?

 

Neo: Because I don't like the idea that I'm not in control of my life.

 

Morpheus: I know exactly what you mean. Let me tell you why you're here. You're here because you know something. What you know you can't explain, but you feel it. You've felt it your entire life, that there's something wrong with the world. You don't know what it is, but it's there, like a splinter in your mind, driving you mad. It is this feeling that has brought you to me. Do you know what I'm talking about?

 

Neo: The Matrix.

 

Morpheus: Do you want to know what it is?

 

Neo: Yes.

 

Morpheus: The Matrix is everywhere. It is all around us. Even now, in this very room. You can see it when you look out your window or when you turn on your television. You can feel it when you go to work... when you go to church... when you pay your taxes. It is the world that has been pulled over your eyes to blind you from the truth.

 

Neo: What truth?

 

Morpheus: That you are a slave, Neo. Like everyone else you were born into bondage. Into a prison that you cannot taste or see or touch. A prison for your mind.

 

— The Matrix, 1999.

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