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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Se tudo é, então nada é

por Amato, em 02.07.20

No início de uma madrugada igual a tantas outras, entretive o espírito com um poema que me chegou ao olhar. Era um conjunto de frases elegantes, construídas com belas palavras. Falava de amor — claro, o omnipresente amor! —, dois amores, em verdade, que se confundiam: um amor carnal e um amor mais abstrato do que o primeiro, incorpóreo, por ter como objeto de afeição, nada mais, nada menos, que uma cidade. Isso mesmo: dois amores que se misturavam num só numa efervescência de palavras belas.

 

A leitura deste poema produziu em mim aquele sentimento de satisfação incompleta, um certo contentamento imperfeito, tão familiar, tão banal nos dias de hoje. Deem-me um desconto: já sou suficientemente velho para habitar em mim uma permanente impressão de que nada é novo e que tudo são variações mais ou menos descaradas de temas já amplamente tratados no passado.

 

A minha curiosidade prendeu-se, pois, não no conteúdo mas na forma do poema, mais precisamente na ausência de forma ou estrutura, sem métrica ou qualquer tipo de regularidade silábica ou a nível da rima. Aquele poema seria, assim, uma espécie de construção em verso livre. Sim: desta maneira não nos comprometemos e estamos sempre certos.

 

O que é certo é que a coisa fez germinar em mim uma dúvida fundamental: deste modo, sem regularidade que me valesse, sem estrutura para me dar um chão, como poderia eu, um leigo, qualificar o que havia lido como poesia? É que hoje em dia já ninguém escreve sonetos ou odes, ninguém perde tempo a contar sílabas, a acomodar rimas interpoladas ou cruzadas, nem a submeter-se a qualquer tipo de estrutura ou forma. O verso livre é a expressão, na poesia, desta filosofia de liberdade que alcança todas os braços da arte e se liberta com violência das restrições da forma, num culminar de toda uma evolução iniciada desde o Renascimento. Expressões similares encontramos também na pintura, na escultura, no bailado ou na música.

 

Liberdade, liberdade, liberdade! Liberdade! Foi este o caminho.

 

Ou não?

 

O problema é este: se tudo é passível de ser considerado como poesia, se tudo é poesia, se tudo é poema, então… nada é. Pensem nisto.

 

Quase tudo é definido por negação. Sabemos o que as coisas são, não através de uma epifania qualquer que nos bate nos sentidos da alma mas através do que não é. O que não é define o que é. Se tudo é poesia, então nada é poesia, esvazia-se o conceito, deixa de ser relevante a qualificação. Se qualquer sarrabisco numa tela é pintura enquanto arte, então nada é pintura. Se qualquer conjunto aleatório de sons é qualificado como música contemporânea, então até o barulho produzido pelos automóveis na hora de ponta pode ser qualificado como música e, portanto, nada mais é música porque tudo o é. Se qualquer aglomerado de pedras é escultura, então nada mais é, nada mais é escultura. É tudo uma expressão subjetiva da atividade humana de valor relativo às impressões e não à técnica que, mais não é que o domínio da forma que perece, que deixa de existir.

 

A forma é, pois, importante. As regras são importantes. As restrições à liberdade, também na arte, são determinantes para dotar o ser humano de liberdade, precisamente, na criação. A arte mostra-nos como a liberdade sem limites é um método infalível para coartar a própria liberdade, por paradoxal que isto possa soar. Se quisermos matar a criação humana, basta dar-lhe toda a liberdade, destruir as estruturas, matar as formas. Veja-se como é infértil a arte contemporânea, sobrevivendo, envergonhada, sem o assumir, à custa das formas célebres do passado. O verso livre é infértil, assim como as expressões contemporâneas da música, da pintura ou da escultura, perfeitamente incompreendidas por um público sem norte. Porque sem forma, não há arte. Sem restrições à liberdade, não há liberdade. Porque se tudo é, então nada é.

Esquerda, esquerda, luta de classes, luta de classes…

por Amato, em 18.06.20

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image: images.squarespace-cdn.com

 

Mais um orçamento, mais um voto de confiança, mais uma carta branca, mais uma fé absolutamente infundada num amanhã venturoso. A esquerda continua a segurar este governo burguês com unhas e dentes. Dizem que não é assim tão mau, que podia ser pior e, sobretudo, mantêm uma esperança juvenil numa discussão na especialidade que venha a acolher algumas das suas sugestões. A esquerda acha que são medidas desconexas e avulsas que justificam um orçamento de estado, isto depois de mais de quatro anos de cativações assumidas sem pudores que vieram a declarar toda e qualquer discussão em sede de orçamento de estado não mais que um engano, uma fantochada, um fingimento, um brincar ao faz-de-conta.

 

Não é preciso, sequer, estudar os relatórios de contas e de execução orçamental para se perceber que o significado prático dos orçamentos de estado é confrangedor e que os textos anunciados sempre com tanta pompa são, afinal, histórias de encantar. Mas a esquerda persiste, faz-se personagem principal do golpe de teatro, critica mas apoia, diz que não é bom mas também não é muito mau, diz que não se avança mas também não se anda para trás, que se abstém mas que, se fosse mesmo preciso, votaria a favor — esta última não disse, mas ninguém disso duvida nem por um segundo apenas. Nem um, nem outro percebeu muito bem o que o seu eleitorado quis dizer nas últimas eleições, tragédia das tragédias.

 

E foi mais um orçamento aprovado — isso é que conta —, suplementar como lhe chamam, um orçamento que pode muito bem vir a ser recordado como o orçamento que permitiu ao grande capital monopolista preservar os seus lucros em tempos de pandemia e confinamento à custa diretamente dos salários, dos rendimentos e das poupanças do povo trabalhador.

 

Ai!, luta de classes, luta de classes…

 

Será que a esquerda terá a coragem de assumir a sua parte ativa nas consequências que aí vêm ou vai continuar a fingir que não é nada com ela e que este governo governa por si próprio sem pecado e sem maioria? É que quando as responsabilidades chegarem serão divididas por todos, irmãmente, e elas são como a sujidade, como o lodo, mancham e se impregnam nas roupas e nos corpos. E de nada valem as oratórias de algibeira, as cassetes e os discursos ensaiados. Estão esvaziados. Sem prática, as palavras não valem nada.

Suprema ironia

por Amato, em 04.06.20

Nestes tempos de pandemia assistir aos liberais, aos que são avessos ao estado limitador das liberdades, de mão estendida por uma esmola desse mesmo estado, exigindo até como se fosse seu direito, é a revelação da suprema ironia, da ironia das ironias.

 

Todos exigem.

 

Todos procuram melhor posição às cavalitas da detestável máquina estatal, agarrados às famigeradas e desprezíveis gorduras do bicho.

 

Querem livre mercado. Querem o mercado a funcionar e a regular-se a si próprio. Menos quando dá para o torto. Nesse momento, querem estado e querem estado à fartazana!

 

Que lindo mundo este em que é possível andar de cabeça levantada e continuar a tentar convencer os outros a fazer aquilo que não se faz quando a oportunidade aparece. E como apareceu a oportunidade! Fica o registo para memória futura.

 

A fatura não tardará a chegar mas para os mesmos do costume, aqueles que têm que trabalhar para sobreviver. Luta de classes ao rubro... só que não. Infelizmente.

Estado de direito?

por Amato, em 30.05.20

Esta semana trouxe-nos um primeiro desfecho do caso do ataque à Academia do Sporting. Não me vou pronunciar sobre o caso, nem emitir qualquer opinião pessoal sobre o mesmo. Não o fiz há dois anos, nem o farei agora.

 

Fico muito preocupado, contudo, em perceber cabalmente que vivo numa sociedade em que se pode acusar alguém de algo de tão grave como terrorismo e, através disso, prender preventivamente e reduzir os seus direitos de arguido ao mínimo possível para, após dois anos de processo, escassa ou nenhuma prova ser produzida ou apresentada, nada ser provado.

 

É assustador observar a facilidade com que algo deste género pode ser posto em marcha e é ainda mais assustador quando se percebia que os fundamentos iniciais para uma tipificação de terrorismo eram, quanto muito, dúbios. A partir daqui as especulações legítimas que podemos tecer enquanto observadores independentes da “coisa” são múltiplas e perigosas.

Uma história de sobrevivência

por Amato, em 22.05.20

Julio Anguita (1941-2020)

image: www.lavanguardia.com

 

Maio de 2020 fica marcado, na semana que agora termina, pelo desaparecimento físico de Julio Anguita, líder histórico do Partido Comunista Espanhol (PCE) e, mais tarde, da Esquerda Unida (Izquierda Unida - IU).

 

A história da vida e da morte de Anguita confunde-se, a traços largos, com a história do movimento comunista internacional: é uma história de luta e de sobrevivência desde a primeira aurora. Como Angeles Maestro nos conta, foi a história de alguém que lutou até ao limite das suas possibilidades contra as forças corruptivas que, quer externas, quer internas, minavam o movimento comunista espanhol, procurando, no pós queda do Muro de Berlim, a sua institucionalização, o seu afastamento das ruas e dos interesses do proletariado, o seu estabelecimento, enfim, como muleta da social-democracia espanhola ao serviço do poder burguês.

 

A derrota de Anguita neste processo de esvaziamento ideológico do PCE - IU, culminada no final de 1999 e que coincidiu com a sua substituição na liderança do movimento, veio a ditar o definhamento acelerado do comunismo espanhol o qual, desacreditado, incoerente, ideologicamente enfraquecido, foi perdendo a sua então relevante presença parlamentar, eleição após eleição, não obstante as tentativas de colagem ao PSOE, os ensaios de coligações e, mais recentemente, a junção ao Podemos — uma força política inconsistente, nascida do mediatismo das redes sociais —, com a criação do Unidos Podemos/Unidas Podemos, que hoje apoia o governo PSOE, liderado por essa personificação da hipocrisia e da dissimulação que é Pedro Sánchez.

 

Tal como Angeles Maestro escreve, as principais figuras oposicionistas a Anguita e promotoras da “renovação” no seio do PCE e da IU estão hoje — surpresa das surpresas! — bem colocados em lugares governativos, parlamentares ou institucionais sob a bandeira e tutela do PSOE. A “renovação” operada está bem à vista e não carece de legendagem. As sucessivas transformações do movimento comunista marxista espanhol — PCE, IU, Unidos Podemos, Unidas Podemos — conduziram ao desaparecimento do comunismo não apenas da sigla dos movimentos mas sobretudo das ideias políticas dos mesmos. É verdade que, hoje, a Unidas Podemos suporta parlamentarmente a solução governativa, mas... e depois? O que é que isso quer dizer? O que é que isso significa? O que é que este governo PSOE tem de progressista? Qual é o contributo da Unidas Podemos e, a existir, que palavra teve o Partido Comunista Espanhol, no seio da Izquierda Unida, nesse contributo? E, nessa palavra, subsistirá alguma sílaba de comunismo?

 

Se a intenção era apenas a obtenção de um vislumbre de poder pelo poder, então devemos felicitar as forças de “renovação” comunista. Conseguiram o que pretendiam. Conseguiram, finalmente, um suporte governativo para o PSOE poder mais facilmente dançar o tango da governação com o PP. Quando esse suporte desaparecer — porque, a continuar por este caminho, desaparecerá seguramente — terá sido desimpedido o caminho para a tão ambicionada bipolarização política espanhola à direita.

 

Face ao exposto, é impossível não traçar paralelismos com a situação portuguesa, não obstante as diferenças de contexto: o Partido Comunista Português (PCP), a Coligação Democrática Unitária (CDU), os movimentos de renovação externos e internos, o aparecimento do Bloco de Esquerda (BE), o suporte parlamentar do PCP/CDU e do BE ao governo burguês PS, o consequente definhamento generalizado e acelerada perda de influência eleitoral e social do comunismo marxista em Portugal.

 

Em boa verdade, não precisávamos do exemplo de Anguita para percebermos isto, que a sentença de morte do comunismo é assinada no momento exato em que os seus valores e princípios começam a ser moldados ao sistema, objeto de infindáveis compromissos com o poder burguês e de um permanente enquadramento nas instituições capitalistas, e quando se vai deixando ficar esquecida a palavra revolução ora na gaveta, ora em discursos incredíveis devido à prática incoerente dos partidos e dos seus dirigentes. Mas a vida de Julio Anguita aí está, bem presente após a sua morte, a reforçá-lo, não adianta o que digam agora que se foi, não adianta o que escrevam sobre a sua memória: será sempre como um fantasma pairando sobre todos aqueles que permanentemente nos pretendem convencer do contrário.

O marxismo pelas ruas da amargura

por Amato, em 15.05.20

Há já muito tempo — há tempo demais — que o marxismo revolucionário é coisa varrida das ruas, às quais devia pertencer por natureza, sendo apenas tema de predileção de uns poucos de intelectuais da academia.

 

O pós guerra fria teve um impacto dramático na generalidade dos partidos comunistas europeus, a esmagadora maioria dos quais renovou-se, reformulando e renegando os seus princípios, submetendo-se ao capitalismo vitorioso, convertendo-se à ideologia da propriedade privada. Como consequência óbvia, cada um deles desapareceu e desapareceu inclusivamente mais depressa do que se esperava não deixando rasto que se veja nos dias de hoje.

 

Em seu lugar surgiram forças políticas à esquerda de natureza bastante indefinida e com proposta inconsistente, alicerçadas numa certa intelectualidade de uma nova geração nascida num seio de direitos adquiridos, estranha e avessa a conceitos tão transformadores e fundamentais como a luta de classes e perfeitamente incapaz de recuperar a organização de massas, o entranhamento popular tão característico das forças marxistas tradicionais. As escassas vitórias destas novas forças políticas apenas tiveram como serventia a confirmação inequívoca de todas as suspeitas acima elencadas, sendo que, em cada caso, observou-se um total alinhamento e subserviência para com o sistema capitalista, as suas estruturas e os seus processos e nem um mero resquício de prática e ação políticas revolucionárias da sociedade.

 

Da ausência de consistência política, de marxismo revolucionário, as consequências para as ruas, para o movimento sindical, para o convencimento das massas trabalhadoras foram dramáticas. Os direitos conquistados após a segunda grande guerra através da luta de classes quer localmente, pela disputa em cada país entre proletários e burgueses, quer internacionalmente, na concorrência entre superpotências, foram sendo rapidamente suprimidos às populações com — o que é mais grave — o pleno consentimento destas. É fácil pedir a um europeu médio que olhe para si próprio e, em seguida, para os seus pais e avós e avalie a diferença, mas é difícil, contudo, fazer com que esse mesmo europeu perceba o quanto a sua qualidade de vida recuou em 30 anos, tão entretido que está com o consumismo inebriante instalado.

 

Em Portugal o partido comunista local adotou uma estratégia diferente, conseguindo manter-se fiel durante muito tempo ao seu ideário apesar de todas as pressões e o resultado foi diametralmente oposto. Não só o PCP não desapareceu do panorama político como se manteve com uma relevante votação e uma particular influência a nível autárquico e sindical e assumindo-se, a nível internacional, como uma voz preponderante.

 

Esta opção do PCP não foi, claro está, fácil. Não mudando, o PCP teve que enfrentar externamente uma poderosa corrente de propaganda anticomunista e fê-lo através de um processo de acantonamento, fechando-se sobre si próprio, blindando-se com a sua interpretação própria dos eventos históricos e isolando-se em torno de uma narrativa e uma linguagem suas. Combatendo divisões internas, tentativas recorrentes de “renovação” do partido que mais contribuíram para um certo afunilamento, a narrativa passou a valer mais do que as ideias, a disciplina partidária, a obediência à organização piramidal do partido, passaram a ser os valores primeiros quando, em boa verdade, a sua promoção foi devida à necessidade de proteger o ideário marxista da ação corruptiva por parte da sociedade e dos poderes capitalistas.

 

Como é vulgar nestas circunstâncias — já todos tivemos oportunidade de ler histórias e fábulas com esta lição de moral implícita —, o guardião facilmente se torna no carrasco do valor que é suposto proteger e relativamente ao PCP não foi diferente. Assistir à atuação política do PCP na última legislatura e, agora, nesta que decorre é verdadeiramente confrangedor. Em tantos anos de vida nunca esperei ver o partido tão subjugado ao poder burguês, comportando-se como um fiel cão de guarda do governo PS, desculpando cada enormidade, justificando cada ato de incompetência, dando respaldo a cada escândalo que este governo vai aprontando e permitindo que prossiga numa governação que, no essencial, é extraordinariamente lesiva dos trabalhadores e do povo. Pior do que tudo, é ver o marxismo pelas ruas da amargura, traído, derrotado pelos seus supostos guardiões, assistir a décadas de história de um partido atraiçoadas, a pergaminhos valiosos rasgados, aos sindicatos adormecidos, aos proletários completamente abandonados a sucessivos ataques do capital.

 

Vemos bem como os grandes grupos económicos são protegidos por este governo, assistimos a negociata atrás de negociata à custa do dinheiro da segurança social e dos trabalhadores, às injeções de milhões na banca e na TAP que se preparam, aos layoffs fraudulentos patrocinados,  por um governo que apenas o é, que apenas faz o que faz, porque o PCP o permite, porque o PCP, não sendo o único, é certo, assim o viabiliza.

 

O definhamento do PCP é assustador mas natural num partido que passou a valorizar mais o militante cumpridor de regras e respeitador da estrutura do que o militante conhecedor e fiel aos ideais marxistas. Consequentemente, os representantes do partido são, com honrosas exceções, medíocres, medíocres na apresentação, medíocres na oratória, medíocres na defesa intelectual que deles se exige dos valores marxistas, porque não são essas as características que são valorizadas. Antes, valoriza-se o seguidismo e a obediência.

 

O autismo dentro do partido atinge, por isso, níveis que tocam o absurdo. Em entrevista ao Porto Canal, esta semana, o secretário-geral coloca isto mesmo a nu quando se refere ao caso do funcionário e militante Miguel Casanova. O partido que, supostamente, faz da defesa dos direitos dos trabalhadores a sua bandeira porta-se desta forma, que nem me atrevo a descrever ou a qualificar, com um funcionário seu arrastando um processo de despedimento sem justa causa em sucessivos recursos. Trata-se, pois, de um partido que, claramente, já não sabe o que representa, quem representa, nem tem sequer a noção do que lhe fica bem perante a sociedade. Se o PCP tivesse um mínimo de consciência coletiva, este processo nunca teria chegado a tribunal. E tudo isto porquê? Ao que tudo indica, porque o funcionário não concordava com a linha política do partido.

 

Noutros tempos, seguir-se-iam a esta entrevista títulos de jornais acusando o partido de autoritarismo descarado, comentadores profissionais vários teriam tema para discorrer durante dias e dias. Os tempos, todavia, são outros. Também aqui se nota a simpatia com que os canais de informação tratam o PCP, os mesmos órgãos de propaganda da burguesia. Também aqui se vê como algo de muito errado se passa com o Partido Comunista Português. Não interessa denegrir o partido como era hábito no passado, porque o partido não faz mal a ninguém. Pelo contrário, o PCP é peça importante na solução governativa que serve a burguesia e, por isso, o que interessa é preservá-lo como está.

 

O XXI congresso do PCP que se prepara para o final deste ano surge, portanto, num quadro verdadeiramente dramático. Dramático porque, se dele não emanar uma radical mudança com resoluto alinhamento marxista revolucionário, o partido prosseguirá o seu caminho de definhamento, de perda de quadros, de distanciamento do povo com consequências devastadoras para a sociedade e para o futuro de todos. Dramático, também, porque não é minimamente expectável que tal mudança venha a acontecer.

 

Não escrevo estas linhas para dizer mal por dizer. Muito tenho deixado por escrever. Muito tenho deixado esquecido na gaveta, tal é a quantidade de material que, infelizmente, a atual conjuntura fornece. Escrevo, simplesmente, pela ténue esperança que estas palavras possam servir de inspiração para que a mudança necessária aconteça, que fiquem registadas como uma singela contribuição para um congresso no qual o PCP possa renascer, menos obcecado com o aqui e o agora, com o preservar dos pequenos poderes adquiridos e, antes, com os olhos apontados ao amanhã, ao futuro que é preciso construir, deixando de lado esse embuste da “política patriótica e de esquerda” e recuperando os valores do marxismo tão necessários, tão fundamentais, para a transformação que a sociedade clama.

Um partido por um fio

por Amato, em 13.02.20

Há uma força dentro do PCP, prestes a atingir a maioridade, que está investida em empurrar os comunistas para fora do partido. Dentro do partido, o pensamento comunista está subordinado àquilo que parece ser um pensamento utilitarista de sobrevivência, o pensamento progressista rendido a uma interpretação dogmática da realidade. Não existe justificação teórica ou prática. Não há filosofia política. O que há é um conjunto de diretivas arbitrárias que os militantes devem seguir.

 

Para um comunista há uma questão interna e individual que começa a impor-se por muito que dela fujamos: porque é que voto no PCP? Em que é que o PCP me representa?

 

A atualidade apresenta-nos a aberração diária de vermos o PCP, partido de comunistas anti-capitalistas, a apoiar com todas as forças um governo minoritário burguês de um partido social-democrata.

 

Os representantes do PCP no parlamento e pelo resto do país são, em regra geral, figuras deprimentes. Leem todos — e mal — os mesmos textos escritos pela mesmíssima pena. Alguns, parece que assumem os cargos para aprender a ler. As suas prestações nos debates é paupérrima, capacidade argumentativa sofrível, bagagem intelectual medíocre. Há honrosas exceções como João Ferreira, claro que há, mas são oásis no seio do partido. A liderança do partido é causa de permanente embaraço e não satisfaz quem exige uma defesa intelectual consistente dos ideais comunistas.

 

Os proletários deste país não veem o PCP como a vanguarda da defesa dos seus direitos. Estão demasiado habituados a propostas redistributivas da riqueza, taxas e impostos que, de uma forma ou de outra, acabam sempre por ir ao seu bolso para benefício de quem não trabalha e não contribui. O PCP, aos olhos dos proletários, daqueles que efetivamente trabalham, que são explorados pelo seu trabalho e, muitos, empobrecem trabalhando, é o partido do funcionalismo público e de quem não quer trabalhar. Tragicamente para o PCP, o funcionalismo público e a massa de indigentes do nosso país não vota, em regra, no PCP.

 

Esta nuvem difusa de ideias só poderia ser combatida assumindo uma direção revolucionária, intelectualmente justificada, cientificamente defendida, superiormente argumentada. Mas o PCP há muito deixou este caminho, o caminho dos comunistas, e optou por um caminho de sujeição às regras e às estruturas do sistema, o caminho da social-democracia. Nenhum comunista percebe ou aceita isto. E ninguém consegue vislumbrar que vantagens para o partido justificam tal opção.

 

E depois, pelo meio, surgem questões como a eutanásia e, então, é a confusão instalada: será que PCP é a sigla de alguma seita religiosa ou de algum movimento pró-vida? A argumentação é a mesma. Será que andámos distraídos todo este tempo? Reparem como o posicionamento do partido relativamente à eutanásia é tomado de forma perfeitamente autista: autista relativamente à sua matriz ideológica, porque não existe qualquer justificação teórica para suportar a sua posição de contra; e autista relativamente aos seus militantes, pois nenhum processo de debate interno ou de auscultação das bases foi promovido sobre o tema. A decisão veio de cima e as bases devem seguir as orientações e defendê-las porque sim.

 

Dois argumentos continuam a suportar o voto no PCP: o peso do hábito e o facto de não existir alternativa marxista minimamente organizada no quadro político português. É pouco sobretudo para alguém que se dá ao respeito do ponto de vista ideológico e político. E vai sendo um pouco cada vez mais poucochinho a cada ano que passa e que vai consagrando o PCP como um partido não de comunistas lutando por um ideal mas de funcionários lutando para manter um posto de trabalho. Um posto de trabalho que se vai mantendo por um fio.

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