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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

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A importância das opções individuais

por Amato, em 15.04.19

As opções que tomamos em cada dia, em cada momento, são importantes. É claro que vivemos mergulhados num contexto social que nos pressiona num certo sentido, que favorece determinadas ações, que condiciona fortemente o rumo que, a cada passo, tomamos. Mas é sobretudo por isso mesmo que as nossas opções individuais assumem uma relevância determinante na fertilidade da nossa vida, isto é, daquilo que podemos e conseguimos gerar ao longo da nossa breve existência.

 

Num destes dias, conversava com uma mulher, uma amiga de uma conhecida. O assunto era a filha, uma jovem adolescente que, segundo o relato, desenvolveu um forte desinteresse pela escola: falta frequentemente às aulas, falha em todos os testes e arrisca-se a perder o ano. No resto, parece ser bastante avançada: proficiente no uso das redes sociais, as virtuais e as reais, sai à noite todos os dias da semana, se lhe apetecer, disfarçando habilmente a maioridade que ainda não tem, bebe, fuma e, com destreza, faz tudo o que um adulto responsável pode fazer. Nestes domínios, a mãe não tem com que se preocupar. A responsabilidade da filha só não se estende à escola.

 

Estou certo que este quadro apresentado configura-se semelhante a muitos outros casos do conhecimento do meu estimado leitor. Asseguro que qualquer semelhança não é pura coincidência. Malogradamente, são muitos os adolescentes que partilham este perfil, sabemo-lo bem. Não podemos afirmar que as consequências deste tipo de comportamento são bem definidas e definitivas. Não. Mas podemos inferir sobre um padrão previsível de comportamentos esperados dos adultos que estes adolescentes serão no prazo de dois, três ou quatro anos.

 

Não é possível elencar organizadamente cada um dos aspetos relevantes a ter em conta, visto estarem todos interligados. Começaria por referir a cultura do ócio, do ócio no sentido mais contemporâneo e negativo do termo, como elemento estruturante do caráter destes jovens, de mãos dadas com um egocentrismo que é genético, que foi codificado desde a nascença por estes pais do último meio século. A procura pelo prazer, o exercício apenas e somente das atividades geradoras do prazer individual, passou a ser não apenas expectável como natural. Longe terão ficado aqueles ditados, estruturantes do Homem de tempos passados, como “O trabalho é formador do caráter”. Mas qual trabalho? Afinal, hoje em dia o lema de cada um é aquele fútil e masturbatório “ser feliz” e o que dá trabalho não traz felicidade, toda a gente sabe disto! Um milénio, quase, de cristianismo na Europa não terá sido suficiente para incutir aquele ensinamento básico: a felicidade está mais nos outros do que em ti, a felicidade está mais em fazer os outros felizes do que na auto-satisfação.

 

Ao conversar com a mulher, a mãe da adolescente, que me dizia não saber mais o que fazer relativamente à filha — esta é uma frase típica dos pais destes adolescentes —, vim a descobrir que se tratava de um alto quadro da nossa sociedade, extremamente bem sucedida do ponto de vista profissional e económico. Boquiaberto de espanto, não pude conter dentro de mim as palavras que disse, desprovidas, reconheço, de algum vestígio de tato ou sensibilidade: “Pois devia pensar em trabalhar menos tempo e dedicar-se mais à filha que tem...”

 

Como escrevia no princípio, é evidente que o contexto em que vivemos influencia as nossas opções de vida e esta sociedade capitalista nos empurra no sentido de sermos os mais bem sucedidos, de acumularmos mais e mais, ainda que sem grande bom senso ou sentido. No fim de contas, todavia, há uma opção essencial que é nossa apenas e que apenas nós tomamos. Aquela mãe prefere dedicar a sua vida a um trabalho, negligenciando a formação intelectual e de caráter da sua filha. É uma opção. Aquela mãe prefere, ainda que inconscientemente, legar à sua filha uma gorda conta bancária, em vez de uma formação intelectual e cultural rica. Por outro lado, aquela mãe também é vítima da sua própria filosofia, vivendo a sua vida em função dos seus interesses, das suas ambições, do seu próprio ego e prazer e relegando, desse modo, o futuro da sua filha para segundo plano, inclusivamente delegando frequentemente a sua função de mãe a terceiros — escola, professores, amigos, etc.

 

Não há aqui uma relação de causalidade. Não há tragédias anunciadas ou definitivas. Aquela filha não vai ser nem isto, nem aquilo. Será aquilo que o seu potencial natural se manifestar devido e apesar dos pais que tem. Quem afirma o contrário não é intelectualmente sério ou honesto. Desenganem-se todos os behavioristas e todos os pais que julgam os seus filhos como os seus projetos pessoais. O que há é o reconhecimento de que nós somos mais do que o contexto que nos envolve. Nós somos também e sobretudo o conjunto das opções que tomamos. São elas que, ultimamente, falam pela vida que vivemos.

Sociedade burguesa

por Amato, em 12.04.19

Temos democracia, temos liberdade, a de expressão e as outras, temos riqueza, temos tudo, segundo apregoam, nesta sociedade capitalista, apogeu da sociedade burguesa. Não falta quem nos repita que não há modelo de sociedade melhor, que chegámos à meta onde havíamos de chegar e que a procura acabou. Este pensamento é-nos gravado na cabeça desde a nascença.

 

E depois há Julian Assange.

 

A mesma sociedade acima descrita, o mesmo modelo político defendido por todos, é capaz de fazer isto a um homem que, simplesmente, ousa dizer a verdade. Passados sete anos de cativeiro forçado, o que sobrava deste grande e corajoso homem foi levado como um animal para um outro tipo de cárcere. Por ele espera um rol de acusações forjadas com vista, anuncia-se já, à pena de morte. Em particular, observem como Assange é tratado pelos seus pares jornalistas! Vejam o desprezo e a indiferença que lhe dedicam!

 

É isto que esta sociedade capitalista burguesa faz a um jornalista que diz o que não convém. É isto o apogeu da liberdade, da democracia e da humanidade. Cai a máscara, revelam-se os contornos da ilusão em que vivemos.

 

Tome cuidado o leitor destas palavras, tome cuidado com os passos futuros que der: poderá tornar-se, sem querer, o próximo alvo a abater. É verdade: pode não tocar só aos outros. Não há honra, nem princípios, nem ética, nem caráter. Vale tudo para a burguesia manter e perpetuar o seu poder.

Fogos de palha

por Amato, em 11.04.19

Passa quase um mês desde a última entrada neste blog. Esta ausência acabou por se prolongar mais do que esperava. A questão não está tanto na falta de assunto para comentar, nem tão pouco na ausência de tempo para o fazer. Sendo ambos argumentos válidos, não tem sobrado em mim a energia suficiente para me sentar à secretária, ligar o computador, “logar” no blog e escrever. Não tenho tido a paciência para participar desta sociedade de fogos de palha, tomando emprestadas as sempre acuradas palavras de Saramago. Todos os dias há um fogo novo a arder muito, um fogo de altas labaredas enegrecendo os céus que pairam sobre as nossas cabeças. No dia seguinte o céu permanece negro, mas já não é fumo do mesmo fogo, é doutro, entretanto ateado.

 

Tenho a impressão que este estado de coisas, este clima social, nunca terá sido tão carregado como é hoje, mas poderei estar enganado. Para tal clima — nascido da histórica fundação da geringonça que boa parte da sociedade ainda não terá engolido (sem grandes razões, todavia) —, contribuirá decisivamente a ação política do Presidente da República, catalisadora destes fogos que se espalham. O Presidente não se comporta como um incendiário, bem entendido, mas dispondo-se a comentar tudo o que lhe é lançado, mordendo sempre o irresistível isco que lhe é estendido desde a ponta dos microfones, comentando o que é coerente e o que é incoerente, o que é razoável e o que não o é, tem o condão de elevar cada amostra de boato ou mexerico às gordas maiúsculas das primeiras páginas das notícias.

 

Muito se escreveu neste mês que passou sobre o caso dos familiares no governo. Inclusivamente, atribuíram-lhe a pomposa mas não menos patética designação de familygate. Comentar isto? Não, obrigado. Ganhem juízo e, sobretudo, tomem qualquer coisa para a memória, para a coerência e para a hipocrisia. Analisem os governos passados e, mais importante, analisem as nomeações para lugares, esses sim, realmente importantes no mundo dos negócios e das empresas que vivem de mamadas regulares nas tetas estatais. Estudem, tomem atenção e conheçam a árvore genealógica do poder politico-económico em Portugal. No contexto da mais sórdida e imoral promiscuidade entre os poderes político e económico, esta situação não é mais que anedótica. Depois, parem de alimentar o mexerico sem importância e, sobretudo, não se contentem com fingidas alterações à lei para que tudo permaneça como está. Porque é mesmo disso que se trata: um fogo de palha. Amanhã tudo estará esquecido e um novo fogo terá sido ateado para não darmos fé disso mesmo.

Como é que o Brexit se tornou num enxovalho à democracia?

por Amato, em 16.03.19

Como é que foi?

 

Quer dizer, fez-se um referendo, fez-se campanha pelo sim, fez-se campanha pelo não, o povo foi chamado a dizer de sua justiça, a maioria disse sim e, passados três anos da consulta popular, nada aconteceu.

 

Bem entendido, o primeiro-ministro demitiu-se, foi substituído, a substituta andou durante a maior parte destes três anos a negociar não se sabe bem o quê — tenho ideia que a ideia será fazer o Brexit mantendo tudo na mesma no que à alta finança diz respeito — e agora anda a tentar aprovar esse deal no seu parlamento onde tem sido objeto de debate por brexiters e remainers que não se entendem — claro que não se entendem! Como é que se haviam de entender? — a não ser em rejeitar continuamente qualquer acordo e qualquer alternativa.

 

Como é que o Brexit se tornou num enxovalho, neste lamentável enxovalho, à democracia?

 

Se o povo britânico decidiu sair da União Europeia, coisa à qual nunca, verdadeiramente, pertenceu, então que saia. A saída devia ser inevitável e inexorável com ou sem acordo entre as partes. Depois, então, negociaria tudo aquilo que entende negociar com a União Europeia assim como o faz com qualquer outro país. Mas não era exatamente isso que era pretendido, autonomia e soberania? Claro que há consequência económicas envolvidas! É natural que as haja: afinal, cada opção política que se toma tem um preço. Podemos não o ver nitidamente — como nós, portugueses, não o vimos quando aderimos à União —, mas ele existe — começamos a vê-lo agora, claramente. Ao invés, a classe política do Reino Unido prefere alimentar este folhetim parlamentar degradante ao mesmo tempo que não dá cumprimento ao desejo expresso do seu povo.

 

Como é que o Brexit se tornou num enxovalho à democracia?

 

É fácil.

 

Primeiro, porque a classe política britânica utilizou o Brexit, e lançou-o no seio das suas populações, como arma populista de jogatana política.

 

Segundo, porque grande parte da população viu no Brexit, muitos de forma verdadeiramente inocente, a solução das suas frustrações sociais legítimas jamais atendidas pelas políticas centrais britânicas.

 

Terceiro, porque o Brexit veio a corporizar um sentimento de inveja, xenófobo e racista latente na sociedade britânica, fruto de muitas transformações que ao longo de décadas mudaram a sua face.

 

Quarto, porque um segmento da sociedade britânica considera absolutamente intolerante esta crescente veia autoritária, prepotente, arrogante e opressora da União Europeia, desta União Europeia germânica que com um banal agitar de dedos faz dançar o patético fantoche francês sobre o seu colo.

 

Quinto, porque a classe política, aquela que no primeiro ponto desencadeou todo este processo, está mais preocupada em assegurar os interesses da sua gorda burguesia do que em cumprir a vontade do seu povo.

 

Conheço várias personalidades — vocês também devem conhecer, estou certo — que gostam de fugir às questões e ao debate apontando a agulha para o chamado “exemplo britânico” no que a uma democracia “madura” diz respeito. Pessoalmente, sempre abominei este provincianismo de se pensar que os outros são melhores do que nós e que é no estrangeiro que se encontra a virtude. A minha resposta é sempre a mesma: viaja! Vai ver o mundo! Porque é mesmo isto: quando não viajamos acreditamo-nos no que nos dizem.

 

No século XV, por exemplo, antes da epopeia dos descobrimentos, dizia-se que o mar abaixo de Marrocos não era navegável, que era repleto de monstros marinhos que engoliam embarcações de uma só vez e que terminava num precipício sem fim. E nós acreditávamos. Foi preciso ir até lá para se ver a verdade. Voltando à questão, nunca tomei lições do que quer que fosse, muito menos de democracia, de um país monárquico com uma câmara de mais de setecentos lordes sustentados a peso de ouro pelo erário público. Sempre me causou impressão. Mas para os outros, aqueles que andam sempre com o “exemplo britânico”  na ponta da língua, a situação atual deve causar algum embaraço.

A Filosofia vem depois. A Ciência está-nos a estupidificar.

por Amato, em 10.03.19

Tenho a impressão que já partilhei este pensamento, mas ainda assim — demasiado preguiçoso para pesquisar as entradas deste blog — escreverei algumas linhas sobre o tema.

 

A disciplina do pensar, do refletir, do projetar, a Filosofia, nome tomado emprestado dos gregos antigos e que elegantemente significa “amor pela sabedoria”, foi ao longo de milénios um pilar estruturante das sociedades ocidentais, tendo atingido o seu auge durante a civilização helénica. A religião, que dominou fortemente as sociedades pós-clássicas, também não deixa de ter uma componente filosófica vincada, embora segundo uma interpretação pré-definida da realidade. Quero com isto dizer que as sociedades construíam-se segundo uma determinada bússola, chamemos-lhe moral. O que se fazia fazia-se de uma determinada forma, segundo um conjunto de princípios considerados corretos.

 

Descontadas todas as exceções, o que acontece hoje em dia, nas sociedades contemporâneas, é muito diferente. A célebre frase de René Descartes, Penso, logo existo, serviu não como lema para a criação de uma nova Filosofia moderna inserida numa revolução científica mais ampla, como era o original intuito do autor, mas como epitáfio à Filosofia como um todo. Com efeito, a obra do génio francês, o seu brilhante contributo conjunto matemático-filosófico, terá sido aquele ponto singular que, na linha da História, fez com que a Filosofia perdesse toda a sua relevância em favor da Ciência, de uma nova Ciência que, hoje em dia, tudo domina.

 

O resultado de tal transformação tem-se revelado sinistro. Em vez de termos sociedades governadas por conjuntos de princípios, por uma moral e por uma ética, temos sociedades movidas unicamente pelo egoísmo e pela ganância que procuram na Ciência as justificações para o seu modo de agir. A Filosofia que vinha antes, agora vem depois e isso faz toda a diferença.

 

Veja-se o que se passa com o aquecimento global, por exemplo. Desde logo, encontramos grupos de cientistas advogando em sentidos diametralmente opostos sobre a influência humana no processo. E eu pergunto: para que é que precisamos de cientistas e de ciência nesta discussão? Não é óbvio que a poluição está a destruir o ambiente e os nossos recursos? Isso não deveria bastar?

 

Não. Isso não basta.

 

Nesta sociedade globalizada em que vivemos, parece que temos que ter uma figura de bata branca a dizer-nos o que temos que fazer mesmo que o que tenhamos que fazer seja absolutamente evidente. E agora, mais espantoso ainda, um grupo cada vez maior de figuras de bata branca começa a inundar o espaço mediático para nos dizer que, sim senhor, que a poluição está efetivamente a destruir o planeta, como se nós já não soubéssemos disso. Porque o fazem agora? Porque descobriram algo novo com o seu método científico à prova de bala? Algo que não soubessem antes? Não. Fazem-no agora porque os interesses económicos para os quais trabalham têm um grande interesse em fazer uma nova fortuna a vender-nos carros elétricos.

 

Ninguém pergunta se as baterias elétricas são poluentes — são e são muitíssimo perigosas para os nossos lençóis freáticos. Ninguém pergunta se as baterias elétricas são sustentáveis, isto é, se temos capacidade elétrica para sustentar um mercado de carros elétricos — não, não temos, nem que, por artes mágicas, duplicássemos o número de barragens. Ninguém pergunta se, em termos globais, um carro elétrico consome menos energia que um carro a gasolina — não, não consome, consome mais. Ninguém pergunta isto, ou muitas outras pertinentes questões, às figuras de bata branca, porque isso não interessa. O que interessa é ludibriar as populações e fazer negócio para as elites burguesas. Isto é o que se chama Filosofia ao contrário, Filosofia subvertida. Primeiro existe o interesse, depois encontramos a justificação filosófico-científica para legitimar o interesse. Primeiro o interesse, depois a filosofia. A Filosofia vem depois.

 

Outro segmento da sociedade que me desperta o interesse é o da educação e este é particularmente luminoso para o ponto que pretendo passar neste texto. As filosofias educativas parecem ser elaboradas à medida dos objetivos que as sociedades ocidentais pretendem atingir neste domínio. E que objetivos são esses? Ter as melhores estatísticas possíveis relativamente ao abandono e ao sucesso escolares. A educação é um instrumento — o instrumento de eleição — de propaganda das nossas sociedades. O que dizer? Adoramos ser enganados.

 

O que interessa que um aluno médio saia do nosso sistema sem conseguir ler duas páginas de texto consecutivas? O que interessa que não saiba escrever duas linhas de texto inteligível? O que interessa que não saiba a História ou a Geografia do seu país? O que interessa que não saiba fazer uma simples conta aritmética sem a ajuda do telemóvel? Não interessa nada. O que verdadeiramente interessa é que tenha feito o seu percurso de doze anos com as melhores notas possíveis e sem chumbos pelo meio. Isso é que é motivo de regozijo e exaltação bacoca para presidentes e primeiros-ministros.

 

Como este é o objetivo, adota-se uma filosofia educativa conveniente para justificá-lo: uma filosofia que demonize retenções de ano, que veja com maus olhos a disciplina e que carregue sobre o Professor toda a responsabilidade do processo de aprendizagem dos alunos. Se o aluno não aprende, então é porque o Professor não soube explicar bem a lição ou não soube motivar o aluno. Reparem como, neste caso, é apropriada uma filosofia educativa que coloca o aluno no centro do processo educativo, como um ente que contém dentro de si à partida todo o conhecimento necessário e que apenas necessita que alguém externo, o professor, desencadeie nele um processo de revelação. Alternativamente, o aluno é como que um pedaço de lousa limpa a aguardar por uma gravação mágica do conhecimento essencial a giz, pelo professor. Também aqui a Filosofia vem depois. Primeiro vem o interesse, depois vem a filosofia educativa.

 

Qualquer pessoa que tenha estudado, e não apenas passado pela escola, reconhece que disciplina, esforço e dedicação são condições fundamentais para qualquer processo de ensino-aprendizagem. Qualquer pessoa com um mínimo de bom-senso percebe que o Professor é um mero catalisador deste processo, um orientador do estudo. O aluno deve ser o centro das aprendizagens, mas através da responsabilização em todo o processo. Ao aluno deve-se exigir que estude e que seja educado. Estes princípios têm que vir primeiro. É isto que está certo. É isto que funciona para se aprender. O problema é que aprender não é o objetivo do sistema. O objetivo do sistema é passar os alunos pelo próprio para se dizer que a educação é brilhante.

 

Faz-nos muita falta mais Filosofia e menos Ciência. O primado da Ciência sobre tudo o resto está-nos a estupidificar. Já não questionamos. Já não pomos em causa. Já não refletimos. Já não imaginamos. Apenas repetimos o que as figuras de bata branca nos dizem.

A prática é o critério da verdade

por Amato, em 09.02.19

Eu sei que esta greve dos enfermeiros às cirurgias tem duplas intenções. Eu sei que é dado quase certo que esta greve esteja a ser financiada por interesses privados e políticos adversos ao sistema público de saúde e a este governo. Eu sei que a presidente da ordem dos enfermeiros, Ana Rita Cavaco, era braço direito do seu saudoso Pedro Passos Coelho e que, nesse tempo de austeridade, nunca abriu o bico para incitar greves na sua classe como agora abundantemente faz. Eu sei de tudo isto e sei de muito mais, acreditem. Mas a forma como a esquerda, particularmente o PCP, está a lidar com esta greve e, mais grave, a forma como está a proteger o governo e a deixar o PS responder à mesma é gravíssima.

 

Podemos arranjar todas as justificações para difamar esta greve mas, no fim de contas, esta greve é uma greve. Deixem que repita: esta greve é uma greve! Entenderam? Quem a faz são os enfermeiros, trabalhadores como outros quaisquer. Não é a ordem dos enfermeiros que a faz, não são as forças da direita, não são os hospitais privados: são os enfermeiros! Os outros podem incitar o que quiserem e o que bem entenderem, podem criar sindicatos oportunistas que deixarão de existir no dia de depois de amanhã, podem financiar, podem preparar merendas, organizar excursões, podem berrar, podem encher jornais e TVs, podem tudo. No fim do dia os únicos responsáveis pela greve são os enfermeiros. Os enfermeiros! A luta é deles e a sua justeza sai-lhes do corpo. As decisões são deles, são eles que decidem e aderem à luta por sua iniciativa e vontade. Ponto final.

 

Estamos, portanto, perante mais um capítulo da história “Este país está de pernas para o ar”. Deveras. Pela primeira vez na vida vejo a esquerda contra uma greve alegando a proteção do sistema nacional de saúde e de seus doentes. Neste particular, escandaliza-me a posição do PCP e do seu líder Jerónimo de Sousa, ele que, há bem pouco tempo, colocava-se ao lado dos juízes quando estes faziam a sua greve. Os juízes, que dão corpo a um órgão de soberania do país, podem fazer greves. Os enfermeiros não. Admirável!

 

Esta argumentação é extremamente incoerente e reacionária. Por esta ordem de ideias, qualquer greve que cause algum dano que se veja na sociedade deve ser proibida. Por esta ordem de ideias, todos os trabalhos devem ser sujeitos a serviços mínimos, sobretudo porque, pelo andar da carruagem, todos os trabalhos têm números de trabalhadores perfeitamente insuficientes e completamente sobrecarregados para serem levados a cabo. É exatamente o que se passa com as cirurgias: listas de espera enormes fazem de todos os pacientes não urgentes pacientes urgentes que deveriam ser operados no dia de ontem.

 

O grave desta posição da esquerda, mais do que a revelação de evidente incoerência e de uma certa ideologia de conveniência sem ponta de ética ou lógica e pela qual pagará nos próximos atos eleitorais, estou certo, é as portas que abre à direita para que coloque a ansiosa unha na lei da greve, subvertendo e limitando a sua aplicação, nem que apenas por simples jurisprudência. Aí está, anunciada neste final de semana, uma inqualificável e injustificada requisição civil sem que nenhuma voz contra ela se erga. O PCP deve julgar, concerteza, que esta requisição civil não se aplicará identicamente às greves marcadas pelos sindicatos da CGTP. Ficará muito admirado quando vir a mesma chapa ser-lhe aplicada, mas aí será tarde para fazer alguma coisa.

 

O PCP precisa urgentemente de se olhar a um espelho. Não é apenas a questão da greve dos enfermeiros. Nestas últimas semanas agudizou-se o ataque do imperialismo à Venezuela e aos seus recursos fósseis, com um conjunto de ações vergonhosas do ponto de vista do direito internacional e do respeito entre os povos. Neste contexto, o PCP apresenta-se como a única força política portuguesa que se apresenta contra o golpe de estado em curso. Deve-se sublinhar e valorizar este facto. Todavia, de que vale todo esse discurso, de que vale toda a argumentação, quando o PCP apoia um governo que, por sua vez, apoia incondicionalmente o golpe? Pergunto diretamente a Jerónimo de Sousa: o que fará o PCP se os Estados Unidos atacarem militarmente a Venezuela com o apoio europeu, incluindo Portugal? Vai continuar a apoiar parlamentarmente este governo? Pois então estará a apoiar indiretamente as forças imperialistas que tanto demoniza nos seus discursos.

 

Este mesmo argumento aplica-se a muitos outros domínios igualmente relevantes: o código de trabalho, a política fiscal, etc. As palavras sem prática são vazias, não valem de nada. O PCP está colado a esta governação e no futuro próximo será difícil descolar-se. Será difícil ouvir o PCP justificar porque não aprova um orçamento de estado; será difícil o PCP fundamentar uma posição contra um aumento de impostos; será difícil ao PCP criticar um governo que apoia uma guerra ou uma ingerência noutro país; será difícil ao PCP defender uma greve; será difícil ao PCP dizer-se o partido dos trabalhadores; será difícil, até, ler no Avante!, no cabeçalho da primeira página, “Proletários de todos os países UNI-VOS!”. Mas quais proletários? Julgam que os proletários não têm olhos na cara? Eles não leem as enfadonhas teses do partido, as toneladas de papel e texto produzido, descansem, mas leem a realidade, leem a prática. Mao Tsé-Tung dizia: a prática é o critério da verdade. Ao entrar para a geringonça o PCP perdeu a prática. A verdade veio a seguir. Preparem-se para colher os frutos disso mesmo.

Ensaio sobre primeiras impressões

por Amato, em 27.01.19

Esta semana que passou, a quarta de janeiro de 2019, ficará para sempre marcada na minha memória. Tomei verdadeiro conhecimento do génio, não de um, mas de dois excecionais compositores: Johannes Brahms e Sergei Rachmaninoff.

 

A verdade é que eu já tinha tido contacto com estes dois vultos gigantes da história da música no passado, porém, nunca lhes tinha dedicado especial atenção. Talvez pela menos avisada juventude desses meus anos, talvez pelas circunstâncias inerentes ao próprio contexto, eram compositores que tinha, de certo modo, rejeitado às primeiras audições. De Brahms havia permanecido, dentro de mim, a ideia de um compositor austero, rígido, revivalista, um pouco contra natura no seio do movimento romântico, de harmonias pesadas e esgotantes, ao passo que Rachmaninoff sempre me soou demasiado complexo, de harmonias e melodias difíceis de interiorizar, carregado e abafado em virtuosismos excessivos que me soavam a exibicionismo bacoco e, até mesmo, pouco musical, mas próprio em meados do século XX.

 

A meio da semana, todavia, dei por mim a enamorar-me por uma obra maravilhosa que ouvi na Antena 2, num programa chamado Véu Diáfano, de Pedro Amaral, uma obra de uma delicadeza melódica, de uma eloquência lírica, um tema inebriante e, no final, não pude crer nos meus sentidos quando ouvi o nome da mesma e do seu compositor: era a 3ª sinfonia de Brahms, aquele mesmo que eu considerava aborrecido e pesadão. A 3ª sinfonia é, com efeito, um exemplo perfeito para ilustrar a entrada enciclopédica obra-prima e o seu terceiro andamento é de uma beleza particularmente tocante.

 

No final da semana, apanhei a meio, na mesma rádio, um programa interessantíssimo chamado Ecos da Ribalta do melómano João Pereira Bastos. Neste último episódio, dedicado à lendária pianista grega Gina Bachauer e a um concerto que esta dera no Tivoli em 1969, enamorei-me de um concerto para piano e orquestra que me fazia lembrar as sonoridades da banda sonora de Lawrence da Arábia, mas, claro, mais requintado, com uma textura mais sólida e robusta, com mais sumo, com mais substância. O concerto era o nº 2 de Rachmaninoff, aqueloutro compositor que eu havia considerado complexo e demasiado virtuoso e, assim mesmo, havia arrumado numa gaveta da memória.

 

Quer num quer noutro caso, tivesse eu tido conhecimento do nome do compositor antes de ter sido exposto à beleza das obras e provavelmente teria desligado a rádio e, com isso, permanecido na minha ignorância. O destino quis que não fosse assim e que hoje eu pudesse ser um ser humano um pouco mais rico, tendo me dado, também, uma importante lição.

 

Isto é exatamente o problema das primeiras impressões e o meu é um bom exemplo para esta sociedade de primeiras impressões que nos envolve, de julgamentos a priori, de pouco juízo, de pouca reflexão e de muita e célere sentença. Chamemos-lhes primeiras impressões que é para não lhes chamar de preconceitos ou de coisa pior. Elas partem de cada um de nós, mas também retornam e atingem-nos de volta. É, assim, uma espécie de bullying psicológico coletivo para o qual todos contribuímos de algum modo. E não serve para nada, se não para nos amordaçar os pulsos e os tornozelos, no que ao conhecimento diz respeito, e para nos impedir de sermos verdadeiramente livres.

 

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