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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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SIRESP: o fétido odor a promiscuidade

por Amato, em 17.06.19

1. Estado privatiza empresas bandeira de telecomunicações PT/TMN (hoje Altice/MEO).

 

2. Estado salvaguarda os interesses do país e as funções sociais da empresa com um caderno de encargos impecavelmente redigido, nomeadamente com o Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP).

 

3. Estado conclui, após as terríveis tragédias dos incêndios de há dois anos, que o SIRESP falhou a sua missão sendo a operadora privada a principal responsável.

 

4. Estado decide pelo retorno do SIRESP à esfera pública.

 

5. Estado decide comprar SIRESP à operadora privada por sete milhões de euros.

 

6. Presidente da República bate palmas à decisão do estado: nacionalização seria alternativa demasiado conflituosa. Não queremos conflitos. Somos todos amigos. Uma mão esfrega a outra.

Uma metáfora chamada de lei de bases da saúde

por Amato, em 15.06.19

Esta discussão em torno da nova lei de bases da saúde, que tem marcado a agenda política neste final de quadriénio governativo, compreende, do meu ponto de vista, uma essência que é como que representativa daquilo que foi a ação deste governo e a influência que sofreu em concreto dos seus parceiros parlamentares de esquerda. Passo a explicar.

 

A primeira coisa que é necessário fazer é responder à pergunta: porquê fazer uma nova lei de bases para a saúde? Qual é a motivação das partes e, especificamente, do governo para se alterar uma lei que já existe?

 

Ora, a resposta é muito simples para quem anda mais atento a estas coisas: o governo PS pretende uma nova lei que cristalize o papel dos privados no sistema nacional de saúde. Pretende que este seja o seu último legado ao país nesta legislatura. É claro que não o afirma de forma transparente. É claro que não diz ao que realmente vem. Pelo contrário e como habitual, acena aos seus parceiros de esquerda com medidas mais ou menos insignificantes no panorama geral, facilmente reversíveis, como por exemplo o fim de taxas moderadoras, envolve-as bem na mistura e confunde os paladares.

 

Bem entendido, eu sou completamente contra as taxas moderadoras — e aqui me manifesto — que apenas penalizam quem já é mais castigado pelo aparelho fiscal do país — os trabalhadores, a classe média. Todavia, considerar que tal medida justifica uma lei de bases, e que legitima outras perniciosas e, essas sim, estruturantes, como a institucionalização das parcerias público-privadas como partes integrantes do serviço nacional de saúde, será apanágio apenas de alguém de vistas muito curtas e limitadas. A esquerda devia preocupar-se em colocar na letra da lei questões como a vinculação do estado a uma prestação de cuidados globais e exaustivos no que à saúde dos seus cidadãos diz respeito, com a contratação de profissionais e a disponibilização de meios em variedade e quantidade necessárias à população que serve. Ao mesmo tempo, a lei deveria forçar o estado a acabar progressivamente com este delegar estrutural de competências na esfera privada e que, na prática, se traduz em usar uma parte relevante do orçamento do estado para sustentar os lucros e proveitos da burguesia que opera neste segmento da economia.

 

Esperemos que Bloco e PCP sejam capazes de discernir bem o que está em causa e que, ao contrário do que têm feito até aqui, não aprovem uma grande perda a troco de um pequeno ganho. Como disse, olhando para o caminho traçado nestes quatro anos, as perspetivas não se revelam animadoras. A história da “geringonça” é esta mesma: é uma história de cristalização de políticas nocivas e nefastas para o povo, como o código de trabalho e a política fiscal, a troco de pequenos ganhos, políticas positivas — claro! — mas insignificantes, insuficientes, circunstanciais, naquilo que é o quadro geral do país.

A corrida ao espaço — uma retrospetiva reflexiva

por Amato, em 11.06.19

Hoje dei por mim a folhear documentos antigos e a relembrar alguns momentos da história da corrida ao espaço (Space Race), uma disputa científica que opôs os Estados Unidos da América (EUA) à então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e teve o condão de alimentar a imaginação dos homens e mulheres da época de ilusões e esperanças com o quebrar da derradeira fronteira.

 

O final da Segunda Grande Guerra deixou a geopolítica mundial nas mãos de duas superpotências: os EUA, a nação que mais cresceu e lucrou com as duas Grandes Guerras através das exportações massivas para os vários lados dos conflitos e da dívida gerada no processo; e a URSS, uma nação jovem, fortemente massacrada na pele pelas duas Grandes Guerras, com grandes carências, mas que vinha aproximando-se dos EUA nos domínios da indústria e da economia e ultrapassando largamente os EUA no que diz respeito a todos os índices sociais, de educação e de saúde.

 

A criação da NATO, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, por parte dos EUA, que tinha como objetivo inscrito e declarado o combate ao comunismo, foi o mote para a instituição de um clima de hostilidade entre as duas potências, estes dois regimes tão díspares, tão diametralmente opostos, tão contraditórios do ponto de vista filosófico e de valores, que vigorou até praticamente ao final do século passado, e ao qual se convencionou chamar de “Guerra Fria”.

 

Olhando para a poeira desses tempos passados, uma das facetas mais interessantes e entusiasmantes dessa Guerra Fria foi, sem dúvida, a corrida ao espaço. Na segunda metade do século XX, sobretudo, as duas potências digladiaram-se numa disputa científica pelos maiores feitos no que diz respeito à conquista do espaço. Para os EUA, esta contenda significava uma categórica afirmação de superioridade própria, do país relativamente aos outros e à URSS, mas também uma superioridade dogmática do capitalismo relativamente ao comunismo. Para a URSS, significava a sua afirmação no mundo, do seu projeto e do seu ideal e, claro, também uma vitória da convicção no comunismo sobre o capitalismo.

 

Ao contrário do que muita gente pensa, ou adivinha sem saber, a guerra do espaço foi inicialmente amplamente ganha pela URSS que venceu sucessivas batalhas infligindo aquilo que os próprios media americanos descreveram como duros golpes e tremendas humilhações aos EUA. Em agosto de 1957, a URSS lançou o primeiro satélite no espaço, o Sputnik. Os EUA ficaram incrédulos por terem sido tão completamente ultrapassados pelos seus rivais. Tanto assim foi, que os jornais encheram-se de críticas, chegando mesmo a acusar o sistema educativo americano da culpa daquela derrota pela sua incapacidade ou inépcia em formar bons valores na ciência. Um mês depois, a URSS lançava a Laika no espaço, o primeiro animal a orbitar o planeta, abrindo as portas para o ser humano seguir-lhe as pisadas.

 

Para adicionar escândalo a esta dupla derrota, os EUA apressaram-se a lançar em dezembro de 1957, apenas quatro meses depois do lançamento do Sputnik, o satélite Vanguard que, depois de subir uns poucos metros, explodiu em chamas. A resposta dos EUA à URSS revelou-se patética. O Vanguard ficou conhecido pela alcunha pouco abonatória kaputnik. Mas a história não ficou por aqui.

 

Em abril de 1961, Iuri Gagarin, soviético, tornou-se no primeiro astronauta, ou cosmonauta como os russos chamavam. A bordo da nave Vostok, Gagarin deu uma volta completa em torno do planeta e regressou em segurança. Neste ponto, a URSS superava os EUA em todos os domínios da corrida ao espaço.

 

Completamente derrotados e desacreditados, os EUA lançaram-se num ambicioso objetivo em serem os primeiros a pisar a superfície da Lua, eles que estavam tão ultrapassados e atrasados em tudo o resto. Houve nesse objetivo algo de simbólico mais do que qualquer outra coisa. Na altura, ninguém que fosse minimamente sério na área espacial conseguia perceber muito bem a razão de ser de tamanha empreitada que não fosse simplesmente a capitalização em termos de reputação e glória. Tal veio, com efeito, a consumar-se em julho de 1969. Neil Armstrong, americano, tornou-se no primeiro homem a pisar a face da Lua. As imagens da façanha foram transmitidas em direto pelas televisões. As suas palavras, Um pequeno passo para um homem, um gigantesco salto para a humanidade, ficaram para sempre gravadas nos corações de todos.

 

Hoje em dia, evidências várias apontam para a encenação da expedição: a bandeira esvoaçando com o vento lunar, as sombras suspeitas, as incríveis parecenças com filmes de Hollywood que tinham sido realizados há pouco tempo e muitas outras coisas, mas sobretudo, a incapacidade tecnológica americana na altura para realizar o feito. É claro que o mito ficou e perdurará contra todas as evidências que vão sendo, cirurgicamente, apagadas dos cantos das páginas da História, nem que não seja pelo inexorável desaparecimento das poucas pessoas que, como eu, sabem e têm memória. Não fugindo à regra, a minha vez também chegará. Quando a última voz dissonante deixar de se ouvir e, enfim, desaparecer, entraremos numa consonância perfeita de uma só narrativa dogmática de vozes inconscientes e ignorantes. Porque quem domina o mundo dita também o que os livros de história nos contam.

 

Acredito que os melhores engodos são efetuados a uma audiência com disponibilidade para ser enganada. Todos os sinais indicavam que a caminhada na Lua seria um engodo. Os EUA não tinham capacidade para o fazer. Mas nós quisemos acreditar no que víamos. Os nossos olhos brilhantes, ávidos, como os de uma criança que vê pela primeira vez as luzes do Natal, quiseram acreditar-se. Não há razão, não há verdade, que seja mais forte do que isso.

O PAN, a ecologia e a sociedade

por Amato, em 08.06.19

Nas últimas eleições europeias, cento e sessenta e oito mil e quinhentas e uma pessoas decidiram entregar o seu voto ao PAN, o partido chamado Pessoas-Animais-Natureza. Esta expressiva votação terá sido uma mistura entre o voto de protesto, tão costumeiro por altura das europeias, e o consubstanciar da moda do momento que são as alterações climáticas e as preocupações ambientalistas. No PAN, porém, a palavra natureza parece ser secundarizada relativamente à palavra animais e não se trata apenas duma questão de ordem na posição na sigla do partido, uma vez que a palavra pessoas, que aparece primeiro, não parece constar, nem vestigialmente, das preocupações do PAN. É, sobretudo, uma questão de prática e de prática populista.

 

O PAN procura, desde sempre, apelar a uma parte da população urbana, cada vez mais significativa, que vive mais ou menos isolada nos seus apartamentos, e que valoriza de forma exagerada, pouco saudável, a importância da companhia dos seus animais de estimação. Em regra antissociais, muitas vezes desligados da realidade que os rodeia, estas pessoas — que todos nós sabemos identificar — operam sobre os seus cães, gatos e outros uma espécie de humanização forçada, uma “gentificação” grotesca e este partido, o PAN, aproveita-se disto mesmo para medrar e crescer eleitoralmente através de propostas que, por muito irrealistas que sejam, vão de encontro a este eleitorado. Permitir que animais de estimação acedam a restaurantes, a título de exemplo, parece ser um descarado ataque aos padrões mínimos de higiene e salubridade que estruturam a sociedade moderna e que foram tão difíceis de implementar. Mas o PAN corporiza esta aparente erosão de bom senso daquela parte da sociedade que não percebe como nos empurra coletivamente com medidas como esta para as sociedades medievais de promiscuidade entre pessoas e animais.

 

Revelando-se arguto em todo este processo, os dirigentes do PAN não se arriscam a falar muito. Não se alongam nos discursos e nos problemas. Inteligentemente, agarram-se a uma ou duas palavras de ordem e não se comprometem politicamente. Com efeito, em quatro anos de mandato no parlamento português, não se conhece muito acerca do que o PAN e o seu deputado — que acho que é também líder ou porta-voz —, André Silva, pensa sobre o que quer que seja que não seja touradas ou afins.

 

Agora que o PAN vai para o Parlamento Europeu, começa-se a destapar um pouco do véu que o tem envolvido politicamente. Muitas mulheres, por exemplo, que votaram no PAN por causa dos seus Bolinhas, Snoopy ou Rex, têm, por ora, os seus cabelos em pé quando descobriram, pelos jornais, que o PAN quer pô-las a usar copos menstruais em vez dos habituais pensos e tampões. Diz André Silva: “Financeiramente, [o copo menstrual] é mais vantajoso, responde a uma necessidade cíclica feminina e minimiza os danos sobre o planeta”. Não, não responde. Qualquer mulher que tenha um mínimo de padrões de higiene e limpeza dir-lhe-á isso mesmo. Mas para as mulheres que não se acreditam no que escrevo há uma boa solução: experimentem o copo vaginal. É que só experimentarão uma vez. E essa vez que seja ao fim-de-semana, que é para não serem obrigadas a abandonar os trabalhos.

 

Há também as faturas em restaurantes de luxo que servem carne e peixe de categoria, mas isso é entrar numa área que não considero tão interessante. O que me interessa falar é sobre a parte ideológica do PAN. O problema da ecologia e dos perigos que ameaçam a sustentabilidade do nosso planeta não se reduz aos animais, nem se resolve com medidas particulares como copos menstruais. Pelo contrário, os problemas que nos afetam são problemas de fundo, são problemas estruturais que envolvem a organização das nossas sociedades, mas também do ponto de vista económico, e o nosso modo de vida que nos é incutido desde o berço. É irrealista, demagogo e populista pensar que a sobreprodução alimentar, a sobreprodução de plásticos, de bens, a hiperbolização do consumo, transversal em toda a sociedade, e a consequente produção estratosférica de resíduos, quantidades impossíveis de tratar e que vão poluir os nossos rios, mares, os solos e a atmosfera, possam ser controlados através da imposição de hábitos de reciclagem ou da utilização de sacos de papel ou copos menstruais.

 

Um partido ambientalista que seja sério tem, portanto, que tomar posição sobre estas matérias da organização social e económica do país. Porque se o capitalismo se baseia na sobreprodução e no incentivo ao consumo, se essa é a natureza desse sistema, então um partido ecologista tem que ser capaz de rejeitá-lo e de se assumir como antissistema e anticapitalista. Não o fazendo, reduzir-se-á a um partido demagogo e populista que acabará com o fim das febres mediáticas ambientalistas, com o fim das causas de algibeira ou com uma qualquer revelação de faturas em restaurantes de luxo de peixe ou de carne.

 

Mas também isto, de facto, vai de encontro ao eleitorado que vota PAN. O PAN oferece aos seus eleitores um voto livre de responsabilidade, livre de verdadeiras escolhas e repleto de boas e vãs intenções. Por isso mesmo dizia, no princípio deste texto, que o voto no PAN era uma mistura que incluía o voto de protesto, manifestação — acrescento — de uma sociedade repleta de perfeitos incapazes de exercer a cidadania e a democracia, através da educação, da cultura, da participação política e do voto. Em concordância, observe-se aquela tentativa aberrante de pôr os cidadãos a votar a partir dos dezasseis anos de idade. Só por ignorância, ou para tentar capitalizar politicamente dessa mesma ignorância, é que se pode propor algo tão surreal.

 

Neste sentido, mais do que a eleição de André Silva, há quatro anos, para o Parlamento português que, como disse, pouco ou nada acrescentou ao nosso conhecimento da ideologia do PAN, a eleição de um eurodeputado para o Parlamento Europeu tem uma vantagem imediata: vamos saber de que lado do parlamento e em que cadeira se senta esse parlamentar. Sentar-se-á à direita ou à esquerda? De que grupo parlamentar europeu fará parte? Mesmo continuando a dizer nada de nada sobre o essencial, poderemos pelo menos ver quem serão os seus amigos na Europa. E, segundo consta, os amigos europeus do PAN não serão os mais aconselháveis...

A farsa do dia d prossegue

por Amato, em 07.06.19

Chamo a atenção para um artigo que escrevi há três anos. Nada mudou. Permanece tudo tão na mesma que nem modesto proveito se poderá retirar em ensaiar um outro texto. Entusiasma-se o discurso. Erguem-se as vozes para imprimir nas consciências a mentira. Este ano até se juntou americanos a britânicos e franceses, com aquele triste personagem Macron a inflamar o discurso como é seu timbre. “Os americanos vieram e salvaram a Europa”. Que graça! Está para nascer coisa que os americanos hão de salvar. Mas a farsa do dia d prossegue, mais forte, entranha-se profundamente nas coisas que mexem e, para a maioria de nós, torna-se verdade. Coisa diversa nem sentido fará. A mim, pela minha sanidade mental, pelo respeito que tenho por mim próprio, por tudo o que considero digno e valioso, resta-me resistir.

Agustina e algumas reflexões

por Amato, em 04.06.19

Morreu Agustina Bessa-Luís e a sua morte suscitou em mim um conjunto de reflexões. Procurarei apresentá-las de forma clara.

 

De imediato, o mundo intelectual desfez-se num pranto de elogios. Alguns apontaram mesmo a pena de Agustina como transformadora do panorama literário português e eu dei por mim a pensar... Quem nunca leu Agustina nunca saberá se o que dela por estes dias dizem e escrevem é verdade ou, simplesmente, enfeite. Quem nunca leu Agustina — e, provavelmente, nem sequer se importa com isto de que escrevo — limitar-se-á a repetir ou a contrariar o que é dito, restringido, por uma de duas vias, à pobre condição de condenado: ou a crer numa espécie de religião imposta por sacerdotes externos ou a descrer por mera convicção infundada, num ato de rebeldia meramente ignorante.

 

A morte de Agustina é reveladora, por isso, da condição de grande parte da sociedade. No desenlace das últimas eleições europeias, recordistas em abstenção do povo português, de um povo que se queixa que todos são iguais e de que não há alternativa, mas que, indelevelmente, acaba sempre por eleger os mesmos, e que entrega parte caprichosa, mas relevante, dos seus votos a partidos políticos dos quais pouco sabe, quer-me parecer que na morte de Agustina não poderíamos encontrar melhor metáfora, melhor imagem, para esta sociedade de amblíopes culturais que ora aceitam o que lhes dizem acriticamente, ora rejeitam-no do mesmo analfabeto modo, porque não podem fazê-lo de outra forma, porque têm um espaço vazio onde a cultura e o conhecimento deviam estar.

 

Depois deste pensamento primeiro, aflorou-se-me um outro, sempre recorrente, que tem que ver com o sistema educativo, concretamente no que concerne a disciplina de Português. A falta de promoção da leitura ao nível desta disciplina é absolutamente evidente. A disciplina de Português prefere perder o seu tempo em vãs tentativas de ensinar uma gramática infértil de complementos oblíquos e predicativos de sujeito paridos não sei bem de onde, intercalados com resumos analíticos e secos de um punhado de obras nunca lidas pelos alunos que aprendem a repetir banalidades sobre o realismo e o existencialismo literários para passar nos testes. Aos alunos devia-se dizer, simplesmente, «leiam»! E apontar obras, algumas, relevantes, para que tivessem contacto com pelo menos uma de cada escritor importante. Este devia ser o precioso pretexto que a disciplina de Português devia deixar em cada aluno que tem. Que leiam. Que digam o que entenderam. Que expliquem de que forma é que a obra os transformou por dentro. Isto devia ser o mais importante. Mas não é. Deixo aqui um desafio aos meus leitores para que percam uns minutos do seu tempo para descarregar da internet o último exame de Português do derradeiro ano de escolaridade obrigatória dos nossos jovens aprendizes. Descarreguem e analisem por vós. É surreal: putativos especialistas em linguística que, na prática, não conhecem os autores, não sabem ler, nem escrever.

 

Eu nunca li Agustina. A escola nunca me deu o pretexto de a ler, aquele pretexto de que falava acima. Para além disso, por esta ou aquela razão, nunca segui um caminho que me levasse à sua leitura. Diria que o estilo e a temática da autora nunca me cativaram e preferi ler outros autores. Assim, faço parte daqueles que não podem e não têm o direito de ter opinião sobre a autora. Reparem que neste campo, a política é muito diferente. Quem nada sabe, quem desconhece até o nome dos governantes, tem opinião sobre tudo e de tudo reclama. Por isto mesmo, eu não sei dizer se Agustina foi ou não transformadora da literatura portuguesa. Não sei dizer se cada elogio foi adequado, se pecou por escasso ou por excesso. Não sei. De qualquer modo, se Agustina Bessa-Luís foi efetivamente tudo o que dela dizem hoje, sobre a data do seu falecimento, então uma coisa podemos concluir: trata-se de uma autora muito pouco estimada e valorizada pelo país — pelo estado e pelo povo, não a academia ­— que pouco ou nada a lê e pouco ou nada a conhece.

Óbvio: João Ferreira!

por Amato, em 24.05.19

Desta campanha eleitoral para o parlamento europeu ficou clara uma coisa para além do óbvio: João Ferreira, da CDU, é, de longe, o melhor candidato e tem-se revelado um nome a ter em conta na cena política futura. Seja pelo brilhantismo com que debate, com que apresenta as suas posições e as defende, seja pela inteligência e rapidez de raciocínio na resposta, seja pela excelente preparação em cada ocasião em que se apresenta, nas sessões públicas, nos comícios, a verdade é que João Ferreira conseguiu assumir uma posição de destaque nesta campanha eleitoral. E conseguiu também colocar em evidência duas coisas fundamentais: primeiro, que a CDU é a única força política com ideias com cabeça, tronco e membros no que à Europa e ao euro diz respeito, e segundo, que as outras forças, são um saco de lugares-comum, de chavões e chicana, muita chicana política, para esconder aquilo que devia ser evidente aos olhos do povo: no essencial — também na Europa — estão sempre de acordo.

 

Os candidatos de PS e PSD são, neste particular, um exemplo flagrante e deprimente, trocando acusações e insultos fáceis em abundância para esconder a sua vida conjugal política não assumida, mas todos os dias consumada, ao mesmo tempo que procuram bipolarizar o debate.

 

O candidato do CDS — o que menos trabalhou no último mandato — acrescenta ao debate a sua falta de educação congénita que já é uma sua imagem de marca, vociferando repetidamente as palavras Sócrates e Venezuela alternadamente. Não consegue articular mais nada porque, francamente, nada tem mais a dizer. É o mais perigoso populista português.

 

A candidata do Bloco de Esquerda é, para mim, o que de pior a esquerda pode oferecer: uma política de frases feitas, de boas intenções, desta vez anda com as alterações climáticas na boca para ver se caça o voto incauto da juventude, mas nada de concreto, nada de substantivo. Tudo muito superficial, sem nunca ir ao âmago das questões. Foge disso mesmo para não se comprometer. Que medidas defende? O que pretende? Ninguém sabe ao certo. Fica tudo a flutuar no ar. E é tudo muito artificial, muita sedução forçada, procurando adaptar à sua campanha a política dos afetos de Marcelo, com muito abraço, muito beijo, muito calor humano encenado. Como a Europa deve enfrentar os seus problemas, não sabe lá muito bem, mas sabe que deve haver muito afeto e bons sentimentos. Lamento, mas não é suficiente. Enquanto eleitor, exijo muito mais a quem me representa.

 

A escolha para o parlamento europeu é, portanto, óbvia. É uma escolha tão óbvia que nem sequer é ideológica. É uma escolha patriótica. João Ferreira é o único que não aprova os tratados que, ano após ano, nos retiram soberania sobre o nosso próprio território, que nos retiram autonomia económica e cristalizam a nossa condição de mendicidade, de joelhos dobrados e mão estendida aos poderes europeus e mundiais. Os outros assinam tudo de cruz. João Ferreira é o único que defende o nosso país e não está comprometido com interesses externos. É o único que tem voz de protesto e proposta para alterar o estado das coisas. E isso devia ser suficiente para a maioria do povo votar nele.

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