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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

A prática é o critério da verdade

por Amato, em 09.02.19

Eu sei que esta greve dos enfermeiros às cirurgias tem duplas intenções. Eu sei que é dado quase certo que esta greve esteja a ser financiada por interesses privados e políticos adversos ao sistema público de saúde e a este governo. Eu sei que a presidente da ordem dos enfermeiros, Ana Rita Cavaco, era braço direito do seu saudoso Pedro Passos Coelho e que, nesse tempo de austeridade, nunca abriu o bico para incitar greves na sua classe como agora abundantemente faz. Eu sei de tudo isto e sei de muito mais, acreditem. Mas a forma como a esquerda, particularmente o PCP, está a lidar com esta greve e, mais grave, a forma como está a proteger o governo e a deixar o PS responder à mesma é gravíssima.

 

Podemos arranjar todas as justificações para difamar esta greve mas, no fim de contas, esta greve é uma greve. Deixem que repita: esta greve é uma greve! Entenderam? Quem a faz são os enfermeiros, trabalhadores como outros quaisquer. Não é a ordem dos enfermeiros que a faz, não são as forças da direita, não são os hospitais privados: são os enfermeiros! Os outros podem incitar o que quiserem e o que bem entenderem, podem criar sindicatos oportunistas que deixarão de existir no dia de depois de amanhã, podem financiar, podem preparar merendas, organizar excursões, podem berrar, podem encher jornais e TVs, podem tudo. No fim do dia os únicos responsáveis pela greve são os enfermeiros. Os enfermeiros! A luta é deles e a sua justeza sai-lhes do corpo. As decisões são deles, são eles que decidem e aderem à luta por sua iniciativa e vontade. Ponto final.

 

Estamos, portanto, perante mais um capítulo da história “Este país está de pernas para o ar”. Deveras. Pela primeira vez na vida vejo a esquerda contra uma greve alegando a proteção do sistema nacional de saúde e de seus doentes. Neste particular, escandaliza-me a posição do PCP e do seu líder Jerónimo de Sousa, ele que, há bem pouco tempo, colocava-se ao lado dos juízes quando estes faziam a sua greve. Os juízes, que dão corpo a um órgão de soberania do país, podem fazer greves. Os enfermeiros não. Admirável!

 

Esta argumentação é extremamente incoerente e reacionária. Por esta ordem de ideias, qualquer greve que cause algum dano que se veja na sociedade deve ser proibida. Por esta ordem de ideias, todos os trabalhos devem ser sujeitos a serviços mínimos, sobretudo porque, pelo andar da carruagem, todos os trabalhos têm números de trabalhadores perfeitamente insuficientes e completamente sobrecarregados para serem levados a cabo. É exatamente o que se passa com as cirurgias: listas de espera enormes fazem de todos os pacientes não urgentes pacientes urgentes que deveriam ser operados no dia de ontem.

 

O grave desta posição da esquerda, mais do que a revelação de evidente incoerência e de uma certa ideologia de conveniência sem ponta de ética ou lógica e pela qual pagará nos próximos atos eleitorais, estou certo, é as portas que abre à direita para que coloque a ansiosa unha na lei da greve, subvertendo e limitando a sua aplicação, nem que apenas por simples jurisprudência. Aí está, anunciada neste final de semana, uma inqualificável e injustificada requisição civil sem que nenhuma voz contra ela se erga. O PCP deve julgar, concerteza, que esta requisição civil não se aplicará identicamente às greves marcadas pelos sindicatos da CGTP. Ficará muito admirado quando vir a mesma chapa ser-lhe aplicada, mas aí será tarde para fazer alguma coisa.

 

O PCP precisa urgentemente de se olhar a um espelho. Não é apenas a questão da greve dos enfermeiros. Nestas últimas semanas agudizou-se o ataque do imperialismo à Venezuela e aos seus recursos fósseis, com um conjunto de ações vergonhosas do ponto de vista do direito internacional e do respeito entre os povos. Neste contexto, o PCP apresenta-se como a única força política portuguesa que se apresenta contra o golpe de estado em curso. Deve-se sublinhar e valorizar este facto. Todavia, de que vale todo esse discurso, de que vale toda a argumentação, quando o PCP apoia um governo que, por sua vez, apoia incondicionalmente o golpe? Pergunto diretamente a Jerónimo de Sousa: o que fará o PCP se os Estados Unidos atacarem militarmente a Venezuela com o apoio europeu, incluindo Portugal? Vai continuar a apoiar parlamentarmente este governo? Pois então estará a apoiar indiretamente as forças imperialistas que tanto demoniza nos seus discursos.

 

Este mesmo argumento aplica-se a muitos outros domínios igualmente relevantes: o código de trabalho, a política fiscal, etc. As palavras sem prática são vazias, não valem de nada. O PCP está colado a esta governação e no futuro próximo será difícil descolar-se. Será difícil ouvir o PCP justificar porque não aprova um orçamento de estado; será difícil o PCP fundamentar uma posição contra um aumento de impostos; será difícil ao PCP criticar um governo que apoia uma guerra ou uma ingerência noutro país; será difícil ao PCP defender uma greve; será difícil ao PCP dizer-se o partido dos trabalhadores; será difícil, até, ler no Avante!, no cabeçalho da primeira página, “Proletários de todos os países UNI-VOS!”. Mas quais proletários? Julgam que os proletários não têm olhos na cara? Eles não leem as enfadonhas teses do partido, as toneladas de papel e texto produzido, descansem, mas leem a realidade, leem a prática. Mao Tsé-Tung dizia: a prática é o critério da verdade. Ao entrar para a geringonça o PCP perdeu a prática. A verdade veio a seguir. Preparem-se para colher os frutos disso mesmo.

Ensaio sobre primeiras impressões

por Amato, em 27.01.19

Esta semana que passou, a quarta de janeiro de 2019, ficará para sempre marcada na minha memória. Tomei verdadeiro conhecimento do génio, não de um, mas de dois excecionais compositores: Johannes Brahms e Sergei Rachmaninoff.

 

A verdade é que eu já tinha tido contacto com estes dois vultos gigantes da história da música no passado, porém, nunca lhes tinha dedicado especial atenção. Talvez pela menos avisada juventude desses meus anos, talvez pelas circunstâncias inerentes ao próprio contexto, eram compositores que tinha, de certo modo, rejeitado às primeiras audições. De Brahms havia permanecido, dentro de mim, a ideia de um compositor austero, rígido, revivalista, um pouco contra natura no seio do movimento romântico, de harmonias pesadas e esgotantes, ao passo que Rachmaninoff sempre me soou demasiado complexo, de harmonias e melodias difíceis de interiorizar, carregado e abafado em virtuosismos excessivos que me soavam a exibicionismo bacoco e, até mesmo, pouco musical, mas próprio em meados do século XX.

 

A meio da semana, todavia, dei por mim a enamorar-me por uma obra maravilhosa que ouvi na Antena 2, num programa chamado Véu Diáfano, de Pedro Amaral, uma obra de uma delicadeza melódica, de uma eloquência lírica, um tema inebriante e, no final, não pude crer nos meus sentidos quando ouvi o nome da mesma e do seu compositor: era a 3ª sinfonia de Brahms, aquele mesmo que eu considerava aborrecido e pesadão. A 3ª sinfonia é, com efeito, um exemplo perfeito para ilustrar a entrada enciclopédica obra-prima e o seu terceiro andamento é de uma beleza particularmente tocante.

 

No final da semana, apanhei a meio, na mesma rádio, um programa interessantíssimo chamado Ecos da Ribalta do melómano João Pereira Bastos. Neste último episódio, dedicado à lendária pianista grega Gina Bachauer e a um concerto que esta dera no Tivoli em 1969, enamorei-me de um concerto para piano e orquestra que me fazia lembrar as sonoridades da banda sonora de Lawrence da Arábia, mas, claro, mais requintado, com uma textura mais sólida e robusta, com mais sumo, com mais substância. O concerto era o nº 2 de Rachmaninoff, aqueloutro compositor que eu havia considerado complexo e demasiado virtuoso e, assim mesmo, havia arrumado numa gaveta da memória.

 

Quer num quer noutro caso, tivesse eu tido conhecimento do nome do compositor antes de ter sido exposto à beleza das obras e provavelmente teria desligado a rádio e, com isso, permanecido na minha ignorância. O destino quis que não fosse assim e que hoje eu pudesse ser um ser humano um pouco mais rico, tendo me dado, também, uma importante lição.

 

Isto é exatamente o problema das primeiras impressões e o meu é um bom exemplo para esta sociedade de primeiras impressões que nos envolve, de julgamentos a priori, de pouco juízo, de pouca reflexão e de muita e célere sentença. Chamemos-lhes primeiras impressões que é para não lhes chamar de preconceitos ou de coisa pior. Elas partem de cada um de nós, mas também retornam e atingem-nos de volta. É, assim, uma espécie de bullying psicológico coletivo para o qual todos contribuímos de algum modo. E não serve para nada, se não para nos amordaçar os pulsos e os tornozelos, no que ao conhecimento diz respeito, e para nos impedir de sermos verdadeiramente livres.

 

Gente sem valores, sem princípios e sem ética

por Amato, em 25.01.19

As pessoas têm todo o direito de ser contra o Maduro e o Chavismo. Todo o direito. Eu próprio nunca morri de amores pelo estilo e pela forma quer de um, quer de outro. Também têm todo o direito de apoiar o golpe de estado vergonhoso que se quer impor a todo o custo naquele país soberano. Agora podiam parar é de bater no peito sempre que se fala em democracia. Podiam parar com a hipocrisia de se dizerem democratas. O que essas pessoas são é tudo menos isso.

 

Goste-se ou não, está-se a tentar depor um presidente que ainda no ano passado foi eleito com mais de 60% de votos para o substituir por alguém não legitimado por qualquer ato eleitoral. Sim, e a oposição “democrática”, em dezenas de escrutínios, ganhou apenas um. E sim, a maioria dessas eleições foi observada de perto por agências internacionais e pelas Nações Unidas e isso é muito mais do que o que se passa no nosso país ou noutros ditos “democráticos”. E não, não consta que tenha havido qualquer anomalia nesses sufrágios. Mas o conceito de democracia para o povo é mesmo assim, é plástico, é maleável ao seu próprio interesse.

 

Costumamos pensar que o futebol é um fenómeno emotivo particular dentro da sociedade, que o que vale para o futebol não vale para o resto mas, por ventura, estaremos enganados. É ao contrário. A sociedade em geral é que é um fenómeno particular dentro do futebol, mascarada de hipocrisias e coberta de véus de politicamente correto. Se o nosso clube é favorecido, se infringe as leis, se joga sujo, tudo bem. Ao contrário é o fim do mundo. O mesmo se passa com os nossos interesses. Somos seres muito mais primários do que julgamos. Somos gente sem valores, sem princípios e sem ética. A democracia só serve se servir os nossos interesses. Ponto final.

O clã Bach e a perceção do sucesso

por Amato, em 20.01.19

Pensem no universo de todos os melómanos deste mundo, daqueles com, pelo menos, médios conhecimentos ou razoáveis noções em música clássica. Imaginem que escolhem um elemento deste conjunto, ao acaso, e lhe pedem que enumere os três compositores que considera serem os mais marcantes na história da música, aqueles que, independentemente das suas preferências particulares, considera ser os mais revolucionários, os percursores da técnica, os definidores de um paradigma musical. Se tudo isto fizermos, é muito provável que, entre os três nomes da lista, conste o nome de Johann Sebastian Bach, o mestre dos mestres do Barroco.

 

É natural que assim aconteça. O contrário implicaria que o nosso melómano escolhido não entendesse muito do assunto ou estivesse investido de uma postura sobre o tema intelectualmente pouco séria. Com efeito, Johann é hoje em dia um dos compositores mais tocados, mais estudados e mais reconhecidos globalmente. Sobre a sua obra inúmeros outros grandes compositores nasceram e sobre o seu legado ergueram-se novas linguagens musicais. Não existe um aprendiz de música, seja qual for o seu instrumento de eleição, que não dedique uma considerável parte do seu tempo de estudo às obras originais de Bach ou a adaptações, nos casos em que Bach não tenha composto particularmente para esses instrumentos.

 

É curioso perceber que esta notoriedade contemporânea de Johann, que é extraordinária, não tem qualquer relação com a fama que o compositor (não) gozou em vida. Johann Sebastian Bach foi um dos compositores mais profícuos de toda a história da música. Do acervo da sua obra constam mais de mil composições conhecidas de índole sobretudo sacra, ele que foi mestre de capela das principais catedrais alemãs do seu tempo. Sublinho aqui a palavra 'conhecidas'. Efetivamente, o tempo de Johann era o tempo da improvisação por excelência e não o tempo da escrita e reprodução rigorosas das obras em papel de pauta. Esse tempo é posterior ao de Johann e, por isso, é natural que às tais mais de mil composições que se conhecem, possam ser adicionadas outras tantas, pelo menos, ao número de obras que o compositor terá, de facto, composto ao longo da sua carreira.

 

Como dizia, não perdendo o fio à meada, é curioso perceber que Johann foi, em vida, um compositor de popularidade residual. O povo, o mais ilustrado e o nem tanto, considerava-o um compositor austero, rígido, demasiado ortodoxo, agarrado a um contraponto antigo que já estava a sair de moda e que já ninguém estava interessado em ouvir. Johann, bem entendido, era um reputado professor da arte da improvisação e do contraponto e, enquanto compositor, era bastante considerado nas esferas religiosas onde essencialmente se movia. O que Johann não era, e nunca foi, era um compositor popular. Nenhum nobre encomendava as suas obras para seu entretenimento privado. Nenhum mecenas mostrou interesse na sua música. A isto Johann referia-se com desprezo, não se sabe se genuíno ou se por despeito, dizia qualquer coisa como que a sua música servia para agradar a Deus e a Deus apenas e se acontecesse ser apreciada pelo público, sendo absolutamente indiferente, seria tanto melhor.

 

Johann, fervoroso devoto como era, cumpriu a sua “obrigação” conjugal bíblica a preceito e produziu abundante prole. De entre os seus vinte filhos provindos dos seus dois casamentos, alguns seguiram as pisadas musicais do pai prolongando, aliás, uma tradição que já começara no trisavô de Johann, Veit Bach. Os dois que obtiveram maior sucesso foram Carl Philipp Emanuel Bach e Johann Christian Bach. Ao contrário do pai, Carl Philipp e Johann Christian abraçaram as novas tendências musicais e o novo estilo ao qual se chamaria de Classicismo e que viria a substituir de vez o velho Barroco que já se prolongava por quase dois séculos no panorama musical europeu. Os dois, mas sobretudo Carl Philipp, granjearam incomensurável fama, sendo constantemente solicitados e patrocinados para animar as festas dos nobres e dos abastados da sociedade alemã setecentista. Carl Philipp e Johann Christian eram, assim, as estrelas pop do seu tempo, contrariamente ao pai, Johann, que era, quanto muito, um artista menor conhecido apenas no austero contexto religioso luterano.

 

Passados mais de duzentos anos, falar em Bach é falar de Johann Sebastian Bach. A História dedicou a Carl Philipp e a Johann Christian honrosas notas de rodapé nas páginas que abordam a música na segunda metade do século XVIII. Dedicou-lhes isso e nada mais do que isso, ao passo que ao pai, Johann Sebastian, entregou a imortalidade dentro de uma taça dourada. Carl Philipp e Johann Christian também são estudados e tocados, é certo, mas apenas circunstancialmente e, sobretudo, em certos círculos pelos amantes exaustivos da época. Carl Philipp, inclusivamente, é hoje mais conhecido por um tratado que escreveu sobre como tocar instrumentos de tecla, cravo, clavicórdio e piano forte, leitura obrigatória para todos os pianistas ainda hoje, do que propriamente pelas suas composições musicais.

 

O exemplo do clã Bach não é original e, aliás, vai-se repetindo ao longo da história da música, da pintura, da literatura, da arte em geral, mas também em outros domínios muito diversos da atividade humana, como a ciência. Não raras vezes, o valor das coisas, isto é, a sua relevância, a sua influência na vida, nas sociedades, para as gerações vindouras, parece ser inversamente proporcional ao sucesso que têm e à notoriedade com que são recebidas. As massas parecem atribuir um maior valor àquilo que as entretém, àquilo que é novo, que soa a novo ou que, simplesmente, parece novo, talvez porque o que parece novo melhor entretém. O sucesso é medido na efémera escala do entretenimento. Cada vez mais, os artistas atingem níveis cada vez maiores de sucesso para serem completamente esquecidos no final de uma década.

 

A história do clã Bach faz-me refletir sobre o que me rodeia. Nesta sociedade cada vez mais dedicada ao entretenimento vazio, cada vez mais fugaz, sem memória e sem compromisso coletivo, sem solidariedade, enfim, se acaso nos fosse dado a escolher, creio que a maioria de nós escolheria ser Carl Philipp ou Johann Christian, em vez de Johann Sebastian Bach. O nosso propósito individual e de vida é mesmo esse. Nascemos e morremos para este sucesso sem significado e mais nada. Nascemos e morremos para ter sucesso e ter sucesso, para nós, é ser um contemporâneo bobo de corte, é entreter, é ser ator, cantor, modelo ou jogador da bola. É aparecer. Porquê? Não interessa. O que fazemos com esse sucesso? Não interessa. O sucesso parece ser coisa que é fim em si mesma. E nós sentimo-nos bem sucedidos, orgulhosos de nós próprios.

O primeiro dia do Messias brasileiro

por Amato, em 01.01.19

O ano de 2019 começa, no seu primeiro dia, com a tomada de posse do novo presidente do Brasil, um indivíduo chamado de Jair Messias Bolsonaro. O discurso de tomada de posse do Messias foi a mais horrenda oratória que já ouvi em toda a minha vida. O maior país da América Latina elegeu, de facto, um ignorante, um boçal que não sabe falar, nem tem uma ideia madura no cérebro. O que tem é apenas uma mistura de infantilidade e de egoísmo sobre uma base de baixeza de caráter e de ignorância do espírito. E por isso repete, repete, titubeia, titubeia, os mesmos chavões, os mesmos preconceitos e, claro, invoca o nome de Deus em vão uma, duas, três dezenas de vezes no mesmo parágrafo. O que diz não é nada, mas é tudo.

 

Acho importante sublinhar que este indivíduo não chegou ao poder sozinho. O processo foi dúbio, pejado de ilegalidades e de artimanhas tecidas em conjunto pelo poder judicial e pelo poder político e cantado pelos media, tudo isto é certo e claro. Mas no fim de contas, foi o povo brasileiro, a maior massa popular de entre todas da América latina, que elegeu e legitimou este novo presidente do Brasil. A democracia tem isto. O povo é chamado a votar, vota, escolhe e elege. É limpinho. Uma parte desse povo lá estava, hoje, a bater palmas, sem um pingo de embaraço com aquela boçalidade que jorrava sem controlo da boca de Bolsonaro. Palavra que não sei como é possível não sentir vergonha por se ter elegido um presidente deste calibre. Eu sinto, muita, e não é nada comigo.

 

Isto ainda é o princípio. Foi apenas o primeiro dia do Messias brasileiro. Messias... que nome tão tristemente providencial. O que vem aí será horrível, sobretudo para os brasileiros. Não acreditam? Basta esperar para ver. Lembrem-se do dia de hoje.

O ano-epifania

por Amato, em 29.12.18

Politicamente, o ano de 2018 marcou-me dramaticamente. Foi um ano de revelações, de inequívocas constatações que abalaram definitivamente o chão onde me tenho vindo a suportar desde que me conheço. Foi um ano dramático, repleto de choques com uma realidade intelectualmente e emocionalmente inaceitável, mas também iluminador dessa mesma realidade. A realidade é a realidade. Não é o universo imaginativo que vamos construindo ao longo do tempo, uma mistura de desejos, conceitos e conceções. Não. A realidade é coisa que nos é perfeitamente exterior sendo que, todavia, fazemos parte dela. Quando não percebemos bem isto acabamos por cair como que num encantamento que nós próprios tecemos, o real não é bem o que se apresenta diante de nós, mas é antes aquilo que conseguimos ver com os olhos do coração.

 

Acredito que, para algumas pessoas, o seu mundo conceptual ilusório seja suficientemente robusto para subsistir a uma vida inteira de pouca examinação e introspeção. Para outras, há um momento de revelação que pode ser singular, motivado por um conjunto circunspecto de experiências, ou pode ser um ponto de exaustão de uma acumulação sucessiva de experiências que vão abalando os alicerces desse seu mundo.

 

Para mim, foi um pouco o segundo caso. Politicamente, o ano de 2018 foi o ano de exaustão de muitos anos de acumulação de desilusões e desapontamentos. Transformou-se, assim, num ano-epifania que me permitiu entender porque razão as coisas acontecem e se repetem neste mundo sem que a humanidade consiga encontrar alternativas a esta existência cíclica sem sentido.

 

Em Portugal, a esquerda revelou a sua face de uma forma que nunca tinha tido oportunidade de mostrar, com a transparência de quem efetivamente teve na mão o poder de influenciar políticas e de fazer cair o governo. O que mostrou nestes quatro anos foi exatamente quem são os seus alvos políticos e quais são as suas prioridades e isso foi absolutamente desolador. A esquerda trocou o seu apoio ao governo PS por uma quantidade de medidas vãs, pequenos aumentos, pequenas reposições de direitos, para pequenos grupos de pessoas, pequenas medidas que serão facilmente apagadas por um outro executivo ou por um mero contexto de inflação. A esquerda não conseguiu alterar nada de estrutural numa política de direita, de dramática precariedade no emprego, de permanente insegurança no trabalho, na habitação, na saúde e na educação da mais importante fatia da população neste país, os trabalhadores que vivem somente do seu trabalho, os contemporâneos proletários.

 

A esquerda mostrou indelevelmente que não existe para os trabalhadores deste país. A esquerda confunde as coisas e não entende que os trabalhadores deste país, que são os mais explorados, que são aqueles que tudo têm que pagar, que não têm subsídios para nada e que, com os seus impostos, sustentam as finanças portuguesas, não são necessariamente os mais pobres aos olhos do estado. E como a esquerda não olha para esta falange de homens e mulheres, porque não lhes dedica a sua atenção, estes homens e mulheres orgulhosos, porque vivem do seu trabalho e não de ajudas externas, também não olham para a esquerda. Este grupo de pessoas chama-se a classe média e ninguém quer saber dela. Com efeito, a classe média vive hoje igual ou mesmo pior do que no tempo do ajustamento pois é ela que está a pagar toda a panóplia de impostos indiretos inventada por este governo para cobrir e substituir permanentemente todas as medidas de austeridade passadas.

 

Neste sentido, não é de estranhar o movimento dos coletes amarelos em França. É a classe média trabalhadora que, não se identificando politicamente com nenhuma força política, particularmente com a esquerda, resolve dizer basta e revoltar-se pelos seus próprios meios. Vejam bem a força que o povo trabalhador tem! E vejam bem o perigo que corremos! A esquerda esqueceu-se do proletariado e o proletariado voltou as costas à esquerda. Na falta da esquerda, outras forças tratarão de liderar as massas proletárias. A extrema direita aí está, à espera da sua oportunidade, e a história já começa a repetir-se em muitos países da Europa e do mundo.

 

Em Portugal não há coletes amarelos, mas isso não quer dizer que a insatisfação não exista, não medre e não se manifeste de outros modos. Em Portugal, mais e mais mulheres perdem os seus empregos por ficarem grávidas; mais e mais trabalhadores veem-se expulsos das suas casas e das suas cidades para os subúrbios e para os subúrbios dos subúrbios por não conseguirem fazer face aos aumentos indiscriminados das rendas de casa, ao mesmo tempo que os seus salários ou valores-hora permanecem cristalizados ad aeternum; mais e mais cidadãos abandonam os seus percursos universitários por não terem acesso ao sistema ou não poderem pagar propinas; mais e mais cidadãos veem-se privados de cuidados de saúde pelo facto do sistema não lhes dar resposta razoável e por não se poderem dar ao luxo de faltar ao trabalho uma hora que seja para consultarem um médico.

 

Esta é a realidade e um dia esta realidade vai rebentar.

O que é a felicidade?

por Amato, em 04.12.18

Um dia o menino ergueu a cabeça em direção ao pai e perguntou-lhe: o que é a felicidade, pai?

 

Que pergunta parva... Toda a gente sabe o que é a felicidade! ­— terá pensado o pai. A felicidade é o que nos faz viver. É a procura pelo prazer, pela satisfação do existir. E, por isso, é diferente para todas as pessoas. Para o menino, por exemplo, é um desenho animado, uma banda desenhada, um chocolate, um gelado de morango, um mimo da mãe, um aconchego do pai numa noite fria de janeiro. Para o pai, será coisa diversa. Será comida na mesa, um bom carro e uma boa casa, um sorriso nos lábios da mulher e nos do filho, algum dinheiro no banco, claro, satisfação sexual, claro, mas também satisfação pessoal, sentir-se importante para a família que sente a sua falta, para a comunidade onde vive, no trabalho ao qual dedica a vida e não sentir-se como um trapo qualquer que se usa para alguma conveniência e se deita fora findada a sua utilidade.

 

Não é assim tão simples, claro: a felicidade de uns é a infelicidade de outros. Basta o vizinho comprar um carro novo para que o carro do homem, que era tão bom no dia de ontem, de repente, não parecer tão apropriado e esta dinâmica tem-se desenvolvido e alastrado como uma doença contagiosa com o passar dos anos. A vida do homem ­— olhemos bem para a vida do homem ­— foi tomada por esta espiral sem fim. O que faz o homem correr, nestes dias que passam? O que faz o homem correr hoje? Examinemos a vida do homem que cada vez trabalha mais, mais horas por dia, que quando sai do trabalho mandam-no chamar para terminar hoje um trabalho que surgiu de urgência e que tem que ficar pronto antes que o dia acabe, que quando consegue chegar, finalmente, a casa, já a mulher e o filho dormem há horas, recebe uma chamada para iniciar reunião em videoconferência para acertar uns pontos que ficaram por acertar no trabalho e, depois disso, tem ainda que mandar e-mails para pedir umas coisas e confirmar outras, e deixar uma nota à mulher, não a quer acordar, que amanhã partirá para Lisboa e de lá para Londres e, na volta, passará por Madrid, não interessa especificar, quedar-se-á fora até ao próximo fim-de-semana, faltará, por isso, ao aniversário da sogra e não poderá ajudar o filho com os deveres de Matemática, ele já está habituado a fazê-los sozinho, a última vez que o ajudou foi... não se lembra, mas a vida é mesmo assim, é um parafuso sem fim, quando chegar o Natal haverá muitas prendas para toda a gente, muitos smartphones, muitos tablets, muitos jogos e consolas para o miúdo, televisões novas, carro novo, talvez, não faltará nada, poderá faltar o homem, nessa semana estará algures no norte de Itália e os aviões atrasam-se, às vezes, e as reuniões atrasam-se, tudo isto deixou o homem escrito no post it amarelo que colou ao frigorífico para a mulher ler quando acordar de manhã.

 

Hoje em dia, a felicidade é isto. É por esta vida que o homem corre. Os homens correm por isto. Vidas vazias dedicadas apenas a um consumismo crescente e insaciável mas gratificante no imediato. Estupidamente gratificante. Na vida que o homem leva é perfeitamente indiferente ter aquela companheira ou aquele filho. Podiam ser outros. Ele não os conhece, nem a uma, nem a outro.

 

Não disse isto tudo o homem ao filho, ficou-se pela primeira parte e já foi bom ter tido tempo para dizer isso. Um dia a Madre Teresa de Calcutá, feita santa pela Igreja Católica, disse: É fácil amar os que estão longe. Mas nem sempre é fácil amar os que vivem ao nosso lado. Difícil será amar o próximo. Será, por ventura, por esta razão que escolhemos viver as nossas vidas deste modo. Vidas de gratificação imediata. Vidas destituídas de amor.

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