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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Darwin estava errado

por Amato, em 07.01.20

A minha geração, no sentido mais abrangente do termo, é composta por pessoas que passaram todas as suas vidas a assistir, sentadas nos seus sofás e poltronas, a um país, um único país, começar conflitos violentos, guerras sangrentas, uma após a outra, direta ou indiretamente, em cada canto do globo.

 

Síria, Líbia, Iémen, Iraque, Uganda, Irão, Somália, Afeganistão, Sudão, Haiti, Jugoslávia, Bósnia, Líbano, Zaire, Camboja, Bolívia, República Dominicana, Coreia, Tailândia, Vietnam, Congo, Cuba, Laos, Honduras, Palestina, Indonésia, Nicarágua, Chad, El Salvador, Chile, aqui mais vale dizer América latina, poupa trabalho e erra-se por pouco.

 

A maioria são intervenções militares que é termo moderno para se fugir à sujidade da palavra guerra. Outros são golpes de estado, patrocínio de rebelião, formação de exércitos de mercenários, guerra urbana, é coisa mais limpa porque não compromete, esqueci-me da Venezuela que ainda decorre e da Bolívia, também, outra vez. Porque muitos destes são cromos repetidos ao longo dos anos e esta é uma lista amanhada às pressas, assim de repente, com auxílio de uma memória de menos de um século. Muitos ficam por elencar.

 

A minha geração assistiu a cada cena deste filme, ouviu cada desculpa esfarrapada, ou era a democracia ou era a liberdade, normalmente eram estas, mas depois elas mudavam de nome, chamava-se petróleo ou gás natural ou alguma outra matéria prima ou, simplesmente, o mercado livre. A minha geração viu tudo isto, assistiu a tudo isto, ouviu e pôde perceber se assim o quisesse e, todavia, a maioria de nós, acha muito bem e bate palmas a esta atuação, a este modo de agir. A maioria de nós observa com entusiasmo esta enésima iteração do filme cuja rodagem se passa, desta feita, no Irão, uma vez mais.

 

Acho que os Estados Unidos da América são uma nação demasiado jovem para ter uma consciência tão cabalmente manchada de sangue. É certo, porém, que cabe também a cada um de nós, estados serventuários mundo fora, um quinhão de culpabilidade, um quinhão na autoria de cada crime, um quinhão de sangue nas palmas das mãos, pela nossa anuência, pela nossa cooperação, pelo alimentar de cada desculpa de conveniência.

 

Há uma razão pela qual os clubes vencedores têm mais adeptos do que os outros. No fundo, há muito mais que nos une aos vermes sem espinha do que aos macacos. Também nisto Darwin estava errado.

Consciência de si no final de 2019

por Amato, em 27.12.19

O final do ano de 2019 fica marcado por várias notícias que esboçam bem o quadro de profundo surrealismo em que a humanidade se vai mergulhando.

 

A primeira, sobre a qual gostava de me debruçar hoje, é a que diz respeito ao orçamento de estado já apresentado para o próximo ano. Há vários aspetos pertinentes no documento. Por exemplo, perspetiva-se aumentos de salários e de pensões que não acompanham o aumento da inflação o que resultará numa perda efetiva do poder de compra de funcionários públicos e pensionistas. Dentro destes, a esmagadora maioria que dedicou o seu voto ao PS nas últimas eleições e, em simultâneo, menosprezou Bloco de Esquerda e PCP, deve dar-se por satisfeita: tem exatamente aquilo em que votou. Há que ter consciência do que se faz, ser-se crescido e assumir responsabilidade. Isto é a democracia a funcionar no seu esplendor. Parabéns para todos eles.

 

Outra questão interessante é a anunciada dotação extra para o Serviço Nacional de Saúde que, ao que parece, depois de tanto alarido e de tantos foguetes lançados, mais não é do que o valor em dívida que o SNS carrega às costas do ano anterior. Anuncia-se também uma alegórica contratação de novos profissionais mas, nem as contas parecem bater certo para o efeito, nem isso será suficiente para estancar a sangria contínua de profissionais para o estrangeiro a que temos assistido. Portugal parece continuar seriamente dedicado em investir na formação de quadros altamente qualificados para dotar os países mais necessitados como a Alemanha, a Inglaterra, a França, a Suíça, o Luxemburgo ou a Bélgica.

 

No final, com pompa e circunstância, quais arautos da sapiência, foi anunciado também que, para o próximo ano, o país passará a dar lucro com um superavit de 0,2%. Este anúncio foi recebido com entusiasmo, claro. A burguesia rejubila: sabe bem que aqueles milhões têm como destino os seus bolsos, de um modo ou de outro, haja resgates ou antecipações de pagamentos. O povo ignorante, coitado, pensa que o estado é a mercearia da esquina e também rejubila: «se está a dar lucro é porque estará a ser bem gerido». Qual será o seu espanto quando a próxima crise chegar e bater com estrondo, talvez a bordo da bolha imobiliária que cresce a cada dia ou talvez da turística, quem sabe, e verificar que aqueles 0,2% que o estado poupou de nada servem e que o estado, afinal, está ainda mais desprotegido e impreparado para lidar com os sacanas dos bancos e das empresas que dão cabo da economia e fogem daqui com o nosso dinheiro. Qual será o seu espanto? Por ventura, nenhum. Nessa altura arranjar-se-á um qualquer bode expiatório conveniente. Nós somos um povo muito judaico. Arranjamos um bode, carregamo-lo com todos os nossos pecados, matamo-lo e lavamos a consciência. Somos muito judaicos, somos. E também muito estúpidos.

 

É preciso não ter um pingo de vergonha na cara para anunciar a um povo como o nosso que o país vai dar lucro. O regresso ao tempo do fascismo das contas certas de Salazar está inteiramente consumado. É irónico que tenha regressado com uma mão dos partidos mais à esquerda. O povo que trabalha mal tem dinheiro para pôr comida na mesa depois de pagar a renda da casa,  não liga o aquecedor no pino do inverno porque não pode sobrecarregar mais a fatura da luz e anda de carro às pinguinhas por causa do escandaloso preço da gasolina; o povo que trabalha cada vez mais, cada vez com piores condições e até mais tarde, que até pela reforma a que tem direito tem que esperar mais de um ano, que morre devagarinho a desesperar por uma consulta ou por uma operação constantemente remarcada e adiada. A este povo o governo vem anunciar que o país vai dar lucro. O país vai dar lucro à custa do seu povo que trabalha, à custa literalmente do seu sangue. É isso. É desse sangue que são feitos esses 0,2% de lucro que o país vai dar. Não é uma coisa no ar, abstrata. É feita de sangue, do sangue dos trabalhadores que pagam impostos e sustentam este país. E todos achamos bem e rimos de contentamento.

 

O que seria natural era que o povo exigisse que aqueles 0,2% de lucro fossem aplicados no país, na melhoria da saúde e da educação e dos serviços públicos. Ou, para quem tem opinião diversa, que o estado procedesse a imediata redução na tributação dos seus salários, porque os seus impostos não são para o estado andar a lançar foguetes ou dar espetáculo. Devíamo-nos perguntar: para que serve um estado afinal? Para que serve?

 

Claro que é sempre possível contrapor o que escrevi com o aumento do consumo que tem sido verificado e que atingiu o seu clímax com os massivos gastos recorde desta época festiva. Claro que sim. Mas grande parte disso é crédito. Não se enganem. É cartões de crédito para pagar cartões de crédito e o governo tem fomentado essa mentalidade. Diz, por exemplo, aos seus trabalhadores que vão ficar muito melhor com os aumentos que vão ter quando, na realidade, vão perder poder de compra. O que é isso se não um engodo? O que é isso se não dizer às pessoas que continuem a gastar ou que gastem ainda mais por conta de um aumento virtual, irreal, dos seus rendimentos? O que tem sido grande parte da política deste governo se não um incentivo mais ou menos declarado ao crédito? O que é um incentivo ao consumo alicerçado em baixos salários e trabalhos precários?

 

Mas nada do que se passa é muito normal, pois não? A realidade morreu. O que existe agora é a surrealidade. Bem-vindos! Pedir às pessoas que tenham consciência de si, que tenham consciência do que fazem, do chão em que pisam, do mundo que as rodeia é pedir demais, sobretudo quando todos andamos de ombros encolhidos e cabeça baixa enterrada em algum ecrã a emprenhar pelos ouvidos, pelos olhos sonâmbulos adentro.

À sombra do brexit

por Amato, em 15.12.19

O resultado das eleições britânicas não merece grande discussão ideológica. A ideologia está ausente tanto das ilhas britânicas como fora delas. A época dos ideais já passou, ficou para trás. Não se esqueçam disso. O resultado não merece discussão porque venceu o único candidato que colocou como prioridade a resolução do brexit e isso foi suficiente já que foi diferenciador relativamente aos restantes candidatos e partidos políticos e também porque, ao contrário do que os jornais nos impingiam, o povo britânico tem sido inflexível, de facto, na sua decisão de sair da União Europeia. O brexit venceu esta semana, como já havia vencido nas eleições europeias deste ano, confirmando o resultado inicial do referendo de 2016. Ponto final.

 

Boris é, em si mesmo, uma péssima notícia. Trata-se de um inveterado mentiroso, propriedade que estima desde os seus tempos como jornalista falhado e à qual acrescenta uma índole grosseira e inculta. A reboque da sua reles personalidade e muito mais relevante do que a patetice do brexit, que acabará por ter um efeito frívolo nas economias britânica e europeia, parece que se prepara, sobre a égide de Boris, um desmantelamento em larga escala dos serviços públicos britânicos, uma liberalização massiva do país com particular incidência no seu serviço nacional de saúde.

 

Devia ser sobre isto que as ilustres personalidades que dirigem o nosso país deviam dissertar e mover as suas influências ao invés de estarem sempre tão preocupadas com os grandes interesses económicos e com as negociatas da alta burguesia internacional. É que uma boa parte dos emigrantes portugueses em terras de sua majestade são precisamente enfermeiros e médicos, mas também professores, que, durante a última década, emigraram em abundância para as ilhas britânicas e que arriscam-se a perder o emprego ou a verem as suas condições ainda mais agravadas quando comparadas com as condições dos trabalhadores equiparados nativos. Mas adiante, adiante, porque, sem passaportes ao barulho, isto é conversa que não interessa a ninguém.

 

Discutir a atuação política dúbia de Corbyn e do partido trabalhista é, por isso, absolutamente irrelevante. Nem o partido trabalhista, ou qualquer um da família “socialista”, merece qualquer tipo de ensaio de desculpabilização, nem isto quer dizer que, noutras circunstâncias, o partido trabalhista não pudesse ter tido um melhor resultado. Mas as circunstâncias foram estas e não outras. O povo queria o brexit e o brexit será, finalmente, concretizado. O pior será, todavia, o que se está a preparar à sua sombra.

O escape de que precisamos para continuarmos a viver como vivemos

por Amato, em 06.12.19

Guardarei para sempre as palavras de Greta Thunberg à chegada a Lisboa, vinda das Américas, depois de atravessar o Atlântico de barco:

 

Queremos que as pessoas no poder façam o que tem que ser feito.

 

Foi qualquer coisa assim, perdoem qualquer coisa na minha tosca tradução. A sua natureza rudimentar não impede, todavia, a compreensão do seu conteúdo: queremos que as pessoas no poder (the people in power) façam o que tem que ser feito (do what has to be done).

 

São palavras que compõem e se destacam num discurso redondo, que se justifica a si próprio e que não contém rigorosamente nada. Exige-se às “pessoas no poder” que “façam o que tem que ser feito”, seja lá o que isso for, porque alguma coisa tem que ser feita e porque as “pessoas no poder” podem fazê-lo, porque estão no poder, provavelmente. “O que tem que ser feito” não é dito. “As pessoas no poder” são tantas e tantas que confere à afirmação uma generalidade ainda maior. Muitas — das “pessoas no poder” — abraçam Greta e discursam com ela nas muitas ocasiões em que Greta fala. Também vimos isso em Lisboa.

 

Por não dizer nada, este discurso é extremamente poderoso. São palavras que representam milhões e milhões, uma sociedade de inconsequentes, de ignorantes, de gente que fala simplesmente porque pode mas que não acompanha o discurso com qualquer vestígio de conhecimento, de inspeção ou raciocínio lógico. Se o fizessem, havia muita coisa para pôr em causa, muitos inimigos reais ganhariam forma e deixar-se-ia de falar nas “pessoas no poder”. Falar-se-ia deste modo de vida, do consumismo, na sobre produção e sobre exploração dos recursos do planeta, nesta economia de acumulação de lucros e onde as pessoas são apenas ferramentas descartáveis e, enfim, de um momento para o outro, houvesse, repito, um mínimo de células cinzentas a trabalhar em conjunto, e todo o sistema capitalista mundial que governa as sociedades seria posto em causa.

 

Infelizmente, pedir às massas populares que façam um melhor uso do seu intelecto do que o que é exigido para jogar joguinhos repetitivos no smartphone ou no tablet é pedir demais, é almejar a utopia. E, deste modo, Greta Thunberg, em vez de ser o símbolo de uma juventude mais interveniente e que exige fazer parte do pulsar das sociedades, reduz-se simplesmente a uma advertiser, a uma vendedora — uma excelente vendedora — de carros elétricos, ao serviço dos interesses momentâneos do capitalismo, esse mesmo que destrói diariamente os nossos recursos e o nosso planeta.

 

Não tenho nada contra Greta Thunberg. Absolutamente nada. Aliás, ao contrário de alguns que começam agora a desiludir-se com o percurso da jovem, eu nunca esperei nada de uma rapariga de 16 anos que já não frequenta uma escola há sabe-se lá quanto tempo. Eu não espero que uma rapariga de 16 anos, que tem absolutamente tudo a aprender, me ensine a viver a vida, me dê princípios e me diga o que fazer ou o que é certo ou errado. Não. Desculpem lá. Bem sei que isto de pôr a juventude a mandar nos adultos, os filhos a dizer aos pais o que fazer está muito na moda, mas não, não compro. Isto está tudo ao contrário.

 

Mas a aclamação da Greta não se explicará com apenas um argumento, será, antes, uma mistura de duas ou mais coisas. Porque se a Greta gritasse algo muito mais consequente como «Abaixo o capitalismo», a sua epopeia terminaria ainda antes de começar, porque ninguém quer esse tipo de conversa, porque todos gostamos muito do capitalismo, de um telemóvel novo por ano e de todas as outras gadgets e das Black Fridays, das febres de comprar necessidades que não tínhamos ontem. A Greta, no fundo, é aquele escape de que precisamos para nos sentirmos melhor. É completamente segura, não ofende, nada de mal acontecerá, nenhuma revolução a sério surgirá dali, mas faz-nos sentir bem, limpa-nos a consciência, dormimos melhor à noite. Afinal, é uma menina que está a tentar salvar o mundo, não é?

A ascensão do fascismo

por Amato, em 22.11.19

A manifestação de ontem das polícias nacionais em frente ao parlamento provocou em mim sensações estranhas e deixou-me uma angústia agarrada à alma que, antevejo, será difícil de expurgar.

 

Desculpem-me todos os polícias, trabalhadores severamente explorados por sucessivos governos e que, ainda por cima, não dispõem das mesmas armas reivindicativas dos demais, e que, justamente, aderiram à manifestação com a esperança que olhem para eles e para a sua situação. Perdoem-me, mas quando vi André Ventura a ser conduzido e saudado pelo meio dos manifestantes para discursar naquele palanque fez-me lembrar os líderes nazi-fascistas do século XX a serem levados em ombros pelas suas milícias e jagunços que os aplaudiam, também então, em frente dos seus parlamentos republicanos. Fez-me lembrar isso, perdoem-me, e essa memória não me sai da cabeça.

 

Fiquei assustado por perceber que muitos faziam uma saudação neofascista com a mão. Não é a tradicional mão estendida ao alto de braço em riste. É aquele gesto que se faz com a mão direita, as pontas do polegar e do indicador unidas num «o» e os três restantes dedos ao alto e separados em forma de «w». Visto de frente, o gesto apresenta um «w» e um «p», que é o «o» com o tracinho formado pelo braço, que são as iniciais de white power (supremacia branca). É assustador. E é real. A história está a repetir-se diante dos nossos olhos.

 

As forças de segurança de um país apresentam-se sempre como um território fértil para o recrutamento da extrema direita. Portugal não é caso singular. Muito recentemente, no Brasil, aconteceu o mesmo com Bolsonaro, nem é preciso recuperar as experiências clássicas do século passado. Trata-se de uma classe formada, em geral, por cidadãos com poucos estudos, com uma débil formação humanista, em contraposição com uma excessiva cultura do corpo, da virilidade e da força física, pessoas formatadas para seguir ordens, para não questionar lideranças e, por isso, necessariamente com um parco quadro de valores. Não são todos assim, seguramente, claro que não, mas uma parte relevante será. E é essa parte que se torna motriz deste processo. Continuando, é natural, pois, que num quadro de prolongada exploração da classe, que vive o dia a dia em condições de grande precariedade económica, às quais acresce um permanente estado de elevados níveis de stress e ansiedade decorrentes da natureza da sua atividade, que estes cidadãos adiram crescentemente a lideranças populistas que apresentam mensagens simples mas fortes, como os fascistas apresentam.

 

Mas nada disto é novo. Abundante literatura já foi publicada sobre o tema. Todos nós sabemos como as coisas se fazem, como as coisas acontecem, como o fascismo chega ao poder. A manifestação de ontem resultou num exercício de aclamação generalizado de André Ventura do Chega. Foi promovida pelo Movimento Zero que não será representativo do conjunto dos manifestantes? Talvez. Espero que sim. Mas todos contribuíram, de uma forma ou de outra, para aquilo que aconteceu e que foi antecipadamente preparado: a aclamação de um fascista.

 

Temos todos que ter consciência da nossa parte neste processo. No parlamento, a título de exemplo, a “casa da democracia”, André Ventura já tem mais cobertura mediática que o PCP ou que o BE. A ampulheta foi virada ao contrário. As areias escorrem com celeridade. A história ameaça repetir-se, irreversivelmente. As forças políticas, culturais, científicas e sociais colocam-se a favor da corrente, quer pelas suas ações, quer pelas suas abstenções. E o fascismo aí está, subindo, mais rápido do que julgamos, a escada do poder, quase quase a bater à porta.

Descargos de consciência

por Amato, em 21.11.19

Há sempre um irritante que efervesce quando uma pessoa morre. Sabem? É aquele elogio de caráter obrigatório que brota das bocas com facilidade, porque a morte tem este peculiar condão: faz da pessoa mais vil a mais virtuosa num passo de magia, entre um estalar de dedos. Era o “amigo do seu amigo”, era o “grande homem” e outras generalidades que tais.

 

O caso de José Mário Branco não é exatamente este: pessoa generosa, altruísta e solidária, que dedicou a sua a vida à luta por esses valores e por uma sociedade bem diferente daquela onde nasceu e onde, infelizmente, não merecia ter morrido. Estes predicados foram essenciais para catapultar a sua arte na escrita e composição de canções para os sublimes patamares da eternidade.

 

Já o escrevi aqui, algures, que a diferença entre um artista comum e um grande artista é exatamente esta: a existência de um propósito maior que o egoísmo e que a ambição, a presença de valores que superem o próprio artista, que a obra produzida seja mais que um mero exercício de excreção do que vai na alma, masturbatório, egocêntrico. A grande obra é a que se inspira nas gentes e inspira as gentes. A grande obra é a que é a expressão da vida coletiva e não apenas da vida individual. E José Mário Branco tinha exatamente esse ingrediente. Muita gente desconhece, mas várias obras eternizadas na voz de Zeca Afonso e de outros grandes cantores eram da autoria de José Mário Branco. Esta, de Sérgio Godinho, também.

 

Por que comecei, então, do modo como comecei? Porque os elogios que se multiplicam a José Mário Branco são vazios. Porque as palavras não têm correspondência com a realidade. Porque não se pode elogiar a vida de um homem ao mesmo tempo que se vive a própria vida de um modo diametralmente oposto. Ou, se se pode, trata-se de uma autocrítica. Caso contrário, é hipocrisia pura. É oportunismo. É falso elogio. A sociedade que abundantemente elogia José Mário Branco é a antítese dos seus valores, é a razão de ser das suas angústias.

 

Querem elogiar José Mário Branco? Vivam a própria vida como ele viveu a dele. Tomem as opções que ele tomou em cada dia. E, no mais, deixem-se de palavras. As palavras são fáceis. São descargos de consciência.

 

José Mário Branco. Foto tirada de https://vilanovaonline.pt/wp-content/uploads/2019/11/jos%C3%A9-m%C3%A1rio-branco-fb-Webp.net-resizeimage-ec.jpg

 

A democracia a funcionar

por Amato, em 19.11.19

Suprema ironia. Os funcionários públicos que, de um modo ou de outro, votaram no PS elegendo este governo e desprezaram PCP e Bloco de Esquerda, aos quais devem tudo o que reconquistaram com a “geringonça”, recebem agora de presente antecipado de Natal o anúncio de aumentos salariais para 2020 abaixo da inflação. Sem querer generalizar — mas generalizando — os funcionários públicos têm o que merecem. Ou melhor: têm exatamente aquilo em que votaram, tenha sido no PS, PSD, CDS ou outra coisa afim. Isto é que é a democracia a funcionar. Havia de ser assim sempre: as nossas decisões democráticas saírem-nos, ato contínuo, do corpo, caírem-nos imediatamente na cara. Talvez assim a democracia resultasse melhor. Talvez nem assim...

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