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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Uma cultura enraizada

por Amato, em 19.06.21

Começam a vir à tona as contrapartidas gizadas pela União Europeia para nos conceder as generosas verbas previstas para os próximos anos e que compõem a chamada “bazuca”.

 

São de uma estirpe muito particular os inventores destes termos, destes epítetos tão graciosos. Podiam ter chamado de “avença”, “renda” ou, até, “esmola”, mas decidiram-se por “bazuca”, como uma arma potente para destruir qualquer coisa, qualquer coisa de muito mau, no contexto de uma guerra.

 

Como dizia no princípio, começam a vir à tona as contrapartidas para “tanto” dinheiro. Fala-se, por exemplo, num acordo para um plano reformista ao nível do que foi implementado no tempo da troika e no contexto de um plano de continuada liberalização da sociedade. Raquel Varela referia, n'O Último Apaga a Luz, que está prevista, por exemplo, a liberalização das profissões liberais tais como, por exemplo, os profissionais da área da medicina, cuja atividade deixaria de ser regulada pela respetiva Ordem. Já sabemos que, em circunstâncias análogas, só conheceremos os detalhes quando os mesmos estiverem prestes a bater-nos, de modo inevitável, na cara. Para já, ainda é cedo. Quem é que, todavia, precisa deles para ter a certeza do que se está cozinhar?

 

Quando se fala na “bazuca” ou se discutem os dinheiros vindos de Bruxelas notamos uma cultura instalada, solidamente sedimentada ao longo dos tempos, que é de uma falta de patriotismo, de um provincianismo e, fundamentalmente, de uma ignorância aterradores. O pensamento dominante é de que este dinheiro “nos é dado” e, adicionalmente, de que “ainda bem que nos impõem regras, que é para não ser a corrupção do costume”.

 

O que se pode dizer? Que estudem? Adiantará de alguma coisa? Que a nossa posição de submissão económica no contexto da União Europeia nos faz, de facto, credores e não devedores face aos proveitos das grandes economias europeias? Será que adianta dizer isto? E dizer que não se pode defender a democracia para a Bielorrússia num dia e no outro defender a imposição autoritária e não sufragada de políticas decididas por potências externas sobre o nosso povo? Será que adianta? Lamento, mas hoje não me sinto particularmente otimista. Os ignorantes não se cansam em repetir constantemente os seus discos. Eu já me canso rapidamente. E já aí está a religião do povo, prestes a começar com uma homilia cantada tão alto que faz parecer tudo o resto muito pouco importante.

Colhemos hoje o que plantámos ontem

por Amato, em 12.06.21

Foi interessante acompanhar as ondas de choque produzidas pelo comentário semanal de Pacheco Pereira, a propósito daquela convenção protofascista organizada na semana anterior e ironicamente designada por MEL. Cada vez mais reconheço na nossa sociedade um status quo permanente de «o rei vai nu», mas com uma diferença importante para com a história do cancioneiro popular. É que, quando alguém tem a “indelicadeza” de erguer o dedo em riste e chamar a atenção sobre o óbvio, em vez de fazer com que os restantes se desinibam e reconheçam-no também, gera-se a maior e a mais violenta das discussões sociais. Neste caso, foi Pacheco Pereira que apontou o dedo aos simpatizantes, mais ou menos descarados, do fascismo e, dizem eles, dos seus méritos.

 

Há uma tecla em que Pacheco Pereira tem insistido e que tem muita razão. Os tempos da troika criaram e solidificaram uma massa reacionária de extrema-direita muito ativa nos media e nas redes sociais. Ele chama-lhes think tanks, embora a palavra think seja em si mesma demasiado abonatória para aquilo que é, de facto, feito. Trata-se, no fundo, de um conjunto de influenciadores digitais, especificamente dedicados à política, que exercem a sua atividade em todos os domínios da esfera comunicacional como se de uma espécie de bullying se tratasse. Estão nos jornais, na opinião publicada, nos blogs, nas redes sociais e, virtualmente, em todas as caixas de comentário digitais. Estão lá e são sempre os primeiros a chegar. Têm, inclusive, os seus próprios jornais, rádios e canais digitais, para além de terem lugar reservado nos principais canais de televisão.

 

Quando Pacheco Pereira escreveu o óbvio, imediatamente, claro está, surgiram respostas prontas, como se estivessem já preparadas de véspera, escritas pela mão de gente mais ou menos desconhecida, mas, surpreendentemente, ou não, falando do alto da academia, com posições em prestigiadas universidades nacionais ou internacionais. Este é o ponto que considero preocupante. Não é que o acesso à academia devesse ser condicionado às opiniões políticas individuais: nada disso. Trata-se apenas da constatação de um facto empírico: as faculdades parecem, mais e mais, estar inundadas de pessoas com opiniões muito à direita, ultraliberais e reacionárias. Quando no passado se passava um pouco o contrário, com a esquerda a deter alguma preponderância nas universidades, hoje as coisas parecem viradas radicalmente do avesso.

 

Podemos pensar que tudo isto é obra do acaso, mas não poderíamos estar mais equivocados. Retorno ao título deste texto: colhemos hoje o que temos andado a plantar ao longo dos anos, com o favorecimento sustentado de quadros mediante o seu enquadramento ideológico; a contratação de assistentes convidados em detrimento de pessoal de carreira que, longe de ser uma medida simplesmente economicista, também é uma medida política, é o privilegiar de uma escolha discricionária e arbitrária de quadros superiores que, depois, acabam por se eternizar nesses lugares; já para não falar do processo obscuro que se tornou a atribuição de fundos a centros de investigação e de bolsas de estudo de investigação; ou da disseminação, como cogumelos, das faculdades privadas para dar notoriedade e emprego a amigos de partido, hoje modernamente chamadas de business schools; e que, tudo junto, tem produzido o que temos hoje, uma academia abundantemente composta por uma mediocridade intelectual assustadora, especializada, sim, mas que ocupa os lugares não por mérito, essa palavra que, ironicamente, lhes é tão cara, mas sobretudo pelas insígnias inscritas que exibe no respetivo cartão de militante.

 

É confrangedor, pois, ver todo este espetáculo na praça pública, este debate medíocre, sem argumentos que não os constantes ad hominem: de um dia para o outro acordámos para um mundo em que as discussões de café passaram para a opinião pública. Só que não foi de um dia para o outro, estamos a colher o que plantámos ontem. O mais grave, porém, são as outras consequências, a jusante, para a sociedade: a desconfiança na ciência, um relativismo absoluto, a perda de referências morais, a descredibilização da academia. Mas isso, já são outras conversas.

Rockets convenientes

por Amato, em 15.05.21

Há sempre um lançamento de rockets contra Israel quando Israel precisa de estabelecer um novo colonato à força, expulsar palestinianos das suas terras ou, simplesmente, dizimá-los. Há sempre um lançamento de rockets conveniente que serve de pretexto para mais uma atrocidade útil. É um facto. É difícil imaginar como um povo que resiste com pedras e fisgas contra tanques e blindados de um dos mais bem equipados exércitos do mundo consegue encontrar rockets de quando em vez para lançar. É difícil imaginar, mas aí está: mais uma matança gratuita. A nós, no ocidente, só nos interessa o pretexto dos rockets. A história da segunda grande guerra já vai demasiado longe para fazermos as evidentes e irónicas comparações entre um holocausto e outro.

Breves de maio de 2021

por Amato, em 11.05.21

1. Está frio, está um maio que parece inverno. As andorinhas que nidificam sob a proteção do telhado da minha casa parecem arrependidas por não terem adiado a viagem deste ano. Chove copiosamente. Não sei porquê, mas desconfio que não seja o bastante para afastar o alarme permanente de seca no nosso querido país.

 

2. Entre ontem e hoje, nos intervalos dos aguaceiros, tive a sorte generosa de observar três arco-íris. O de hoje de manhã era uma semicircunferência colorida tão perfeita quanto imagino que seja possível.

 

3. Não parece haver nada que abale este governo. Um membro do executivo insulta um programa de jornalismo da televisão pública e nada acontece. É perigoso. É um sentimento de impunidade crescente tão criador de clivagens sociais quanto a promoção de ideários populistas.

 

4. Portugal descobriu, de repente, as falanges de trabalhadores orientais que tem dentro de fronteiras subsistindo e trabalhando em condições miseráveis e sub-humanas. Quanto tempo demorará a esquecer tudo outra vez?

 

5. Jerónimo preocupa-se muito com os trabalhadores da Groundforce e pouco com os da Galp. A refinaria de Matosinhos já parou a produção. O que deixou de produzir e é necessário para o país será importado. O resto será um rombo nas exportações e nos dividendos gerados. Trabalhadores de mãos e pés atados e destino traçado.

 

6. O negócio do lítio começa a ser, lentamente, revelado e começam a esfumar-se as promessas de qualquer tipo de retorno económico ou, até, ambiental, que se veja, para o país. Antes pelo contrário. Ai os nossos rios e cursos de água. Ai as nossas paisagens. O ambiente é um negócio e uma hipocrisia.

 

7. Uma das singelas bandeiras do Bloco, arrancada a ferros do útero contraído do governo PS, o chamado “estatuto do cuidador informal”, revela-se, afinal, uma medida para meia-dúzia, como, aliás, ninguém com dois dedos de memória não poderia deixar de esperar. O governo diz que faz, diz que dá, põe na lei, mas a prática, esse inexorável critério da verdade, é outra. A prática é outra.

 

8. Parou agora de chover. Procurei por um arco-íris, mas não o encontrei. Hoje não tive essa sorte.

A sociedade, segundo Zeca Afonso

por Amato, em 24.04.21

Nas vésperas da comemoração de mais um aniversário da data, deparei-me com este vídeo da Associação José Afonso, excerto de uma entrevista a Zeca Afonso em 1984:

 

 

Os jovens, e digo os jovens de todas as classes, estão um pouco à mercê de um sistema que não conta com eles, que hipocritamente fala deles. O 25 de Abril não foi feito para esta sociedade, para aquilo que estamos a viver.

 

Aqueles que ajudaram a fazer o 25 de Abril não foram só aqueles que o fizeram, imaginaram uma sociedade muito diferente da atual que está a ser oferecida aos jovens. Os jovens deparam-se com problemas tão graves ou talvez mais graves do que aqueles que nós tivemos que enfrentar, o desemprego, por exemplo, e, por vezes, não têm recursos. O sistema ultrapassa-os, o sistema oprime-os, criando-lhes uma aparência de liberdade.

 

Eu creio que a única atitude foi aquela que nós tivemos — nós, eu refiro-me à minha geração — de recusa frontal, de recusa inteligente, se possível, até, pela insubordinação, se possível, até, pela subversão, do modelo de sociedade que lhes está a ser oferecido com belos discursos, com o fundamento da legalidade democrática, com o fundamento do respeito pelos cidadãos, pelos direitos dos cidadãos.

 

É, de facto, uma sociedade teleguiada de longe por qualquer FMI, por qualquer deus banqueiro, que é imposta aos jovens de hoje. Tal como nós, eles têm que a combater, têm que a destruir, têm que a enfrentar com todas as suas forças, organizando-se para criar essa sociedade que têm em mente que não é, com certeza, estou convencido, a sociedade de hoje.

 

José Afonso, 1984

 

Fiquei muito sensibilizado ao ouvir esta entrevista. Primeiro, pela atualidade da mesma, quer pelo conteúdo propriamente dito — uma sociedade governada por um “deus banqueiro” com uma “aparência de liberdade” —, quer pela birra deste ano dos liberais em quererem fazer parte das comemorações do 25 de Abril. Vem, de facto, muito a propósito: “Aqueles que ajudaram a fazer o 25 de Abril não foram só aqueles que o fizeram, imaginaram uma sociedade muito diferente da atual que está a ser oferecida aos jovens”.

 

Segundo, por uma questão de memória. Tal como o capitalismo americano converteu Che Guevara numa marca, em mais um produto lucrativo, identificando-o com uma atitude rebelde genérica e desprovida de conteúdo, também o capitalismo português fez, de certo modo, o mesmo com Zeca Afonso. É normal, hoje, ver os filhos dos que não quiseram o 25 de Abril, os descendentes dos PIDEs, os amantes da “ordem” e da “disciplina” do estado novo e do fascismo, hoje convertidos em “liberais democratas”, cantarolarem as melodias eternizadas por Zeca Afonso e, até, vestirem t-shirts com a sua cara estampada. Tornou-se normal, na nossa sociedade, associar Zeca Afonso a uma atitude rebelde genérica contra o fascismo e dissociar a sua música de uma mensagem e posicionamento políticos concretos.

 

Ainda bem, por isso, que ainda existem estes testemunhos gravados. Se não existissem, eu próprio, na minha senilidade crescente, começaria a duvidar de mim mesmo.

 

 

Sócrates: uma boa oportunidade para nos olharmos ao espelho

por Amato, em 11.04.21

Não tenho a certeza se nestes sete anos que passaram desde a detenção do ex-primeiro-ministro terei escrito alguma coisa sobre o assunto. Lembro-me que comecei a escrever por diversas vezes, mas acho que acabei sempre por não publicar o que realmente pensava sobre o assunto.

 

Ainda hoje, passado tanto tempo, sinto que o assunto não me diz respeito ou, melhor, que não é justo que me incomode ao escrever sobre alguém que nunca mereceu o meu voto ou, sequer, qualquer mero pensamento abonatório. «Quem votou nele, que fale, que escreva, que vocifere». E assim foi. Da minha boca nunca se ouviu, nem ouvirá nada que possa sequer ser confundido com uma defesa de Sócrates.

 

Não posso é deixar de sublinhar a profunda hipocrisia da sociedade portuguesa, uma hipocrisia obscena e transversal a todo um povo que hoje se enfurece e exige em uníssono a cabeça do seu antigo governante.

 

Hipocrisia do povo, em primeiro lugar, que elegeu o personagem por duas vezes, que lhe deu uma maioria absoluta para governar a seu bel prazer quando já se conheciam certos casos obscuros da sua passagem anterior pela pasta do ambiente.

 

Hipocrisia da direita política, em particular, que, durante anos, lhe dedicou Hossanas cantadas, ao escolhido que cumpria no PS a política neoliberal que ela própria, a direita, nunca tinha conseguido implementar no país, perfeitamente extaziada com a privatização dos setores do estado, das autarquias, com a função pública e os sindicatos postos na linha e a destruição do estado social e do código de trabalho.

 

Hipocrisia do PS, também, sempre empenhado em demarcar-se do seu ídolo de outrora, fingindo nada saber ao mesmo tempo que mantém a generalidade dos quadros políticos próximos de Sócrates no governo atual ou em funções de relevo.

 

Hipocrisia hoje da generalidade dos comentadores dos media, muitos deles advogados, ignorando completamente a outrora conveniente “presunção da inocência” e dando como provadas acusações que nem sequer foram a julgamento. Afinal, não há estado de direito: tal como já desconfiávamos, o que há é um estado de emoção, de euforias, de depressões e de cóleras.

 

Acho mesmo que a população, como um todo, não tem dúvidas porque, na realidade, nunca teve dúvidas, sabe bem quem quer e quem não quer e a quem concede a vara do poder.

 

Não há aqui qualquer defesa de Sócrates, nem pode haver. O que há é a constatação de uma evidência, a fixação de uma memória que não se pode perder, um registo que se impõe por uma questão de boa saúde mental: o que nos enfurece não é a corrupção, é o que ela revela de nós mesmos. O que realmente queremos é um bode-expiatório para continuar tudo na mesma. Capitalismo sem corrupção é uma utopia maior do que sociedade sem classes. E nós, no fundo, sabemo-lo bem. Por isso é que precisamos tanto destes momentos catárticos.

Problemas de audição

por Amato, em 06.04.21

Será verdade? Ouvi que o governo, só no último orçamento de estado, terá feito cativações na ordem dos três mil milhões de euros! Terei ouvido bem?

 

Seguramente que não. De outro modo, não estaria a regatear míseros montantes (para cumprir aquilo com que se comprometera) relativos a apoios durante a pandemia.

 

Lei é lei, claro. Decência é que é outra coisa.

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