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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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Um estudo sobre o sound bite

por Amato, em 13.01.15

“Give me a dozen healthy infants, well-formed, and my own specified world to bring them up in and I'll guarantee to take any one at random and train him to become any type of specialist I might select – doctor, lawyer, artist, merchant-chief and, yes, even beggar-man and thief, regardless of his talents, penchants, tendencies, abilities, vocations, and race of his ancestors. I am going beyond my facts and I admit it, but so have the advocates of the contrary and they have been doing it for many thousands of years.”

— John Broadus Watson, in Behaviorism

 

Quando em 1913 John Watson publicou o manifesto comportamentalista, ou behaviorista, com o título “Psychology as the Behaviorist Views It”, estabeleceu as bases para muito mais do que um ramo teórico de uma ciência. E as consequências eram mais do que esperadas e conscientes, acredito.

 

Com efeito, rapidamente as aplicações revolucionárias e ambiciosas que o Comportamentalismo prometia foram tomadas pelo estado natal de Watson com tremendo interesse, de tal forma que rapidamente o ramo substituiu a ciência-mãe em termos de projeção. O que era a Psicologia se não o Comportamentalismo?

 

As aplicações do Comportamentalismo inserem-se num grande saco chamado de propaganda. Propaganda através do condicionamento: frases subliminares, criação orientada de ficção, criação de falsos modelos sociais, cinema, banda desenhada, heróis, séries policiais, anúncios, ... Tudo isto podemos observar todos os dias: basta ligar a televisão, ler o jornal, ver os cartazes na autoestrada ou ouvir um anúncio entre músicas da rádio. E a mensagem passa, ainda que rejeitada inicialmente. Permanece nalguma camada do subconsciente a marinar e a condicionar de alguma forma as nossas opções e as nossas opiniões quando realmente precisarmos de as tomar nas nossas mãos. Nesse momento, as opções que tomarmos já não serão apenas nossas, mas antes um produto de todo este processo.

 

O sound bite é isto mesmo. É algo que inunda os meios de comunicação e abafa tudo o resto. Obriga-nos a concentrar no que os autores pretendem e não necessariamente no que realmente é o mais importante. Como um som, uma mensagem, que fica ali, a martelar continuamente na mente. Faz com que um telemóvel novo seja mais relevante do que um livro, ou com que um jogo de futebol seja mais importante do que um hospital sem médicos, enfermeiros, técnicos e macas.

A história é contada pelos vencedores das guerras

por Amato, em 10.11.14

Houve um tempo em que tive um professor genial. Uma vez, imediatamente antes de uma aula principiar, trocámos dois dedos de conversa sobre literatura. Eu falava-lhe de um romance histórico de cuja leitura havia considerado assaz interessante, ao que o professor retorquiu dizendo que não lidava bem com obras que misturavam ficção com realidade. A minha resposta, contrariamente ao que é comum, escapou-se célere pela boca fora, quase não passando pelo sítio onde é verdadeiramente importante que passe: o cérebro. Disse-lhe, então, que toda a “realidade” é, ela própria, uma ficção. Uma história contada pela boca daqueles que vencem os conflitos e as guerras.

 

Tem sido sempre assim. Olhando em retrospetiva pelo lençol de factos que conhecemos da humanidade comprovamos, facilmente, que sabemos muito pouco das nações vencidas, dos povos dominados e subjugados. E que mesmo esses povos que ainda subsistem, residuais, sabem muito pouco de si próprios. Uma vez vencidas as guerras, o lado que se sobrepõe trata de encetar um processo de afirmação sobre os derrotados que passa por uma propaganda de demonização dos mesmos, com vista à dominação total de consciências. Foi assim com os grandes impérios da antiguidade que, já naqueles tempos, procederam a massivos processos de aculturação das regiões dominadas. Foi assim com boa parte das religiões dominantes que se apropriaram de alguns elementos das anteriores, adaptando-os, e achincalharam outros. Quem não reconhece na figura do diabo do cristianismo vários elementos das divindades pagãs? Os cascos e os chifres de Baco, o tridente de Neptuno, as características de Vulcano ou Plutão? Foi sempre assim. E é assim com os impérios contemporâneos também.

 

Tornámo-nos mais sofisticados. A passagem dos tempos trouxe-nos isso. Criámos a psicologia e do seu ventre nasceu, quase de imediato, o comportamentalismo (behaviorismo). Este segmento da psicologia trouxe-nos uma compreensão mais fina do comportamento não apenas do indivíduo per si mas do indivíduo no contexto social. O comportamentalismo iluminou-nos o entendimento do comportamento das massas e as máquinas de propaganda contemporâneas bebem desse conhecimento como elixir mágico que lhes permite incutir subliminarmente os pensamentos precisos que pretendem e extrair as reações esperadas. Fazem uso também das ferramentas de comunicação que foram desenvolvidas e que tornam capaz uma disseminação rápida e eficaz da mensagem, como nunca havia sido possível. Os povos do mundo contemporâneo constituem-se como verdadeiros ratos de laboratório destas ciências.

 

Surgiu-me esta breve reflexão a propósito do aniversário da queda do muro de Berlim. Não é surpreendente verificar o tratamento jornalístico que é dado ao acontecimento, às suas repercussões e implicações, não somente em termos de geopolítica, mas sobretudo no que à evolução política e social, que tem existido em cada país desde então, diz respeito. Não pensem que me coloco a favor dos regimes de leste que se fecharam atrás daquela “cortina de ferro” simbolizada naquele muro. A sua queda foi, bem entendido, um momento marcante da história do Homem e deve ser recordada como tal. Não obstante, seria importante que a reflexão deixasse, de uma vez por todas, o seu tom marcadamente vexatório e se tornasse um pouco mais ponderada e inteligente. Porque aqueles regimes tinham também as suas virtudes para lá do autoritarismo que nos enubla a visão. Gostava que se falasse um pouco mais delas e não apenas dos pecados cometidos que já sabemos de cor. Gostava que se falasse um pouco da educação e da formação; da irradicação da fome, da pobreza e da mendicidade; da assistência médica e dos recordes muito positivos atingidos nos números da esperança média de vida e na mortalidade infantil; mas também que se referissem os períodos de efervescência na arte e na cultura, em geral, disseminadas por toda a população e não disponíveis somente para as elites. Gostava que se discutisse isso e muito mais com inteligência e bom senso. Porque repito: ninguém quer o pior daquele mundo. Mas acontece que o melhor daquele mundo ainda não foi sequer aproximado pelo melhor que este mundo em que vivemos nos oferece. E a falta desse contraponto, que foi destruído com a destruição do muro de Berlim, retirou-nos essa capacidade de olharmos para nós próprios de forma crítica, com a intenção de nos melhorarmos, de melhorarmos o sistema, de construirmos algo novo. Esse sonho, que animou os povos durante o vigésimo século, foi, em parte, destruído com o muro. Nos dias de hoje, a esmagadora maioria do povo olha para o estado capitalista como algo acabado, como um ponto de chegada, e isso é, realmente, uma tragédia.

 

A história é contada pelos vencedores das guerras. O meu professor parou e refletiu um pouco. Depois, soltou uma gargalhada: «Tens razão».

 

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