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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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Debruçando o olhar sobre a situação espanhola

por Amato, em 04.03.16

Entretenho-me a debruçar o olhar sobre a cena política espanhola. É mesmo isso: não lhe dispenso uma atenção desmesurada, nem tenho os números de cabeça. Diverte-me, simplesmente, o imbróglio, o que se diz sobre o imbróglio e o que o povo, o espanhol e o português, pensa sobre o assunto.

 

Os comentadores dizem que o caso espanhol é muito diferente do caso português e talvez tenham razão. Depende sempre do ponto de vista. Na minha perspetiva, há mais do que os une do que o que os separa, sendo que o que os separa reduz-se aos resultados eleitorais. Com efeito, é na correlação de forças do Parlamento que resultou das eleições onde reside a única, mas substancial, diferença.

 

De resto, é tudo semelhante: o PP espanhol é tão conservador e retrógrado quanto o PSD-CDS português; o Mariano Rajoy é um ser tão ignorante e sinistro quanto o Passos Coelho; o PSOE é tão simultaneamente liberal, capitalista e demagogo quanto o PS português; o Podemos e o Bloco de Esquerda são gémeos paridos do mesmíssimo lugar, uma espécie de refundação da social democracia, anticomunista, mas inspirada na verve e na propaganda da extrema-esquerda, a que eu chamo ironicamente de “nova esquerda”, e os seus líderes são paladinos empáticos e bem-falantes; existe a Esquerda Unida em Espanha, irmã da CDU de Portugal; e pelo meio, há um novo partido conservador chamado de “Cidadãos” que é, de facto, como aquelas abjeções popularuchas, que nós também temos por aqui aos magotes, cujas bandeiras são a luta contra a corrupção, a refundação do sistema e o reavivar dos bons costumes com laivos de modernidade. Talvez os representantes do Ciudadanos se vistam melhor e sejam menos brejeiros do que por aqui. Ou talvez nem isso os diferencie.

 

A diferença, como dizia no início, reside na sentença decretada pelos verdadeiros juízes da democracia: os votos das populações. Enquanto que em Portugal, o PS pôde formar maioria parlamentar com duas forças à sua esquerda, tal não é possível em Espanha. O Ciudadanos obteve suficiente força eleitoral para se tornar peça-chave em qualquer solução governativa sem o PP e, então, disso resultou uma equação governativa envolvendo variáveis inversas não conciliáveis.

 

Tal como em Portugal com o Bloco, o Podemos cavalga sobre a onda do seu resultado eleitoral e joga o jogo político como um louco, sem bom senso e sem equilíbrio. A sua estratégia é o tudo ou nada. A diferença aqui reside no peso diferenciado entre os movimentos comunistas. Em Portugal, a CDU obteve suficiente peso para poder influenciar as decisões e equilibrar a estratégia kamikaze do Bloco. Em Espanha o mesmo não se verificou com a Esquerda Unida, pelo que o Podemos prossegue à vontade o seu extasiado foguetório sem qualquer tipo de contraponto.

 

Bastaria que em Portugal se trocasse a votação da CDU pela votação do partido de Marinho Pinto, por exemplo, para estarmos a viver a mesmíssima situação de ingovernabilidade que Espanha experiencia de momento.

 

É por isso que, enquanto outros procuram diferenças, eu encontro semelhanças. O povo português e o povo espanhol são muito parecidos, no seu conservadorismo essencial, nas suas ortodoxia e devoção religiosas, na forma como compreendem o mundo. As diferenças que vão ocorrendo são meros acasos, meros requintes da aleatoriedade.

 

É verdade que em Espanha há uma monarquia e um rei e em Portugal há uma república e um presidente, mas mesmo isso é uma questão meramente formal, é uma questão de estilo e de apresentação do regime. A maioria dos portugueses olha para a sua república como uma monarquia. A maioria dos portugueses entende o seu presidente, o seu primeiro-ministro e demais governantes, como se de tipos de sangue azul se tratassem. E ficam sempre muito admirados quando constatam que, afinal, assim não é.

A forja de coligações

por Amato, em 08.10.15

É preciso um elevado grau de descaramento e de indecência ideológica para se falar na existência de uma maioria de esquerda parlamentar. Mas qual maioria? Mas qual esquerda?

 

Persistimos, inclusivamente todos os intervenientes diretos, em falar de esquerda como se de uma cor clubística se tratasse, como se esquerda ou direita fosse uma convenção sobre quem se senta de um lado ou de outro do presidente da assembleia. Acho que já chega desta hipocrisia.

 

Não há nenhuma maioria de esquerda no parlamento. Dos três partidos de que falamos apenas se vislumbra uma aliança Bloco com CDU, visto que o PS apenas por taticismo político alimenta essa ideia. Pela sua natureza histórica, o PS alia-se mais depressa ao CDS e ao PSD do que a qualquer outro. Alia-se desse modo porque ideologicamente estão todos muito próximos e é aí que se vê o significado de esquerda ou de direita. Mas, neste momento, equacionam-se cenários e estratégias para se ascender ao poder.

 

Do mesmo modo, a CDU e o Bloco parecem querer “entalar” o PS contra a parede com a ideia deste projeto governativo de “esquerda”, encurralando-o politicamente e quebrando, com isso, a máscara de cordeiro que o PS exibe na face.

Coligações

por Amato, em 01.12.14

Neste fim-de-semana de congresso, cujo principal objetivo foi escolher caras e clarificar posições relativamente a poleiros internos, muito se falou em coligações. Disse-se que à direita, nunca!

 

Nunca?!

 

Estaremos assim tão privados das nossas faculdades para aceitar esta retórica? Às vezes, penso que falta-nos muito conhecimento de história contemporânea. O PS já demonstrou ad nauseam quem são os seus aliados políticos, seja em coligação efetiva, seja em acordos parlamentares, para que aceitemos este género de hipocrisia.

 

Depois disse-se: “alianças só à nossa esquerda mas...”

 

Mas isso é o que realmente fica bem dizer-se neste momento. Fica bem dizer-se que se é diferente, enquanto oposição, do que se foi no governo, governo após governo. Regressa sempre aquele comportamento bipolar que normalmente serve de trampolim para os assaltos ao poder.

 

O que seria realmente importante dizer era outro género de coisas. Era dizer com que linhas é que nos devemos coser. Dizer que os cortes na economia vão ser eliminados. Dizer que se vai restruturar a dívida, cada vez mais asfixiante. E dizer mais: dizer que se vão rever os acordos com a UE que nos estrangulam economicamente; dizer que se vai reverter este plano de nos tornar um país improdutivo e um satélite descartável de países como a Alemanha.

 

Nada disto foi dito e, na verdade, nenhuma coligação pode ser construída com base em ilusões. E ainda que se dissesse o que se devia, ainda assim, o PS teria muito crédito a conquistar junto dos outros partidos, daqueles que não ajoelharam perante a troika, devido ao passado que carrega, que também é o seu presente de sempre, e que não se limpa com meras palavras.

 

Claro que ganhar esse crédito nunca esteve no horizonte do PS. O partido sabe que se não obtiver maioria absoluta arranja o apoio de algum dos suspeitos do costume. Pode ser da muleta autodeclarada, pode ser do bloco central, pode até ser de um ou outro deputado dos queijos, como foi no passado. Dêmos asas à nossa imaginação: pode ser de um destes partidos que surgiram cheios de boas intenções, haja inocentes suficientes para votarem neles e contribuírem para a política liberal que está, desde a fundação, no genoma do PS.

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Amato

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