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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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Um roteiro para compreender o resultado das eleições legislativas de 2019

por Amato, em 11.10.19

É muito fácil compreender o resultado das eleições cujo desfecho se veio a conhecer na noite de domingo passado. Basta seguir a linha condutora dos eventos, passo a passo, sem perder o fio à meada.

 

O PS venceu as eleições porque foi-lhe permitido, durante quatro anos, fazer uma governação que agradou, simultaneamente, a gregos e troianos. Passo a explicar.

 

A troco de meia dúzia de políticas de natureza redistributiva da riqueza produzida, PCP e Bloco de Esquerda permitiram que o PS continuasse, aprimorasse e cristalizasse estruturalmente na nossa sociedade a política de austeridade que herdou do anterior governo. Com isto o PS conseguiu duas coisas: por um lado, pôde seduzir uma parte relevante da sociedade — os mais pobres e os que mais dependem do assistencialismo do estado — com medidas como os aumentos de reformas e de salário mínimo ou os passes dos transportes públicos; por outro lado, e mais importante, logrou esvaziar a direita política, que viu na governação do PS aquela que ela própria gostava de ter feito, com os objetivos dos números e das estatísticas, do défice e do crescimento económico, que gostava de ter atingido, e cujo eleitorado capitulou definitivamente para o lado do PS com as ações desse partido no campo laboral e na forma indecente com que este lidou com as greves e com as reivindicações de certas classes de trabalhadores.

 

Não se enganem: o PS ganhou estas eleições porque esvaziou a direita, porque ganhou a direita, porque a direita escolheu votar nele e não por causa das medidas sociais ou redistributivas ou de outra coisa qualquer. Dito isto, PCP e Bloco de Esquerda devem estar de parabéns pois foram, ao longo de quatro anos de governo, os principais obreiros desta vitória do PS.

 

Não é portanto de estranhar, e quem acompanha este espaço não estranhará certamente, o resultado obtido quer pela direita, quer pela esquerda.

 

À direita não sobrava razão para ser merecedora de votos. O PS, afinal, conseguiu melhores resultados e com um clima de paz social nunca antes visto, muito devido ao adormecimento coordenado dos sindicatos afetos à CGTP. Ao CDS acresceu ainda o fardo da anterior governação que este partido decidiu orgulhosamente carregar e que, indelevelmente, resultou no seu regresso ao passado dos tempos do “Partido do Táxi”. Foi isso e terá sido também a atitude incompreensível, sempre carregada de agressividade e de hipocrisia, da sua liderança que tudo criticava na governação, mesmo as políticas que antes, enquanto governo, replicava.

 

À esquerda, creio que há dois fatores importantes a destacar.

 

Em primeiro lugar, um reconhecimento geral da inépcia dos dois partidos, PCP e Bloco de Esquerda, em negociar com o governo quando efetivamente detinham o poder de acabar com a governação do PS de um dia para o outro. Fica a ideia que o PS pouco cedeu, tão escassas e limitadas que foram as conquistas durante este período. Este facto pode ter levado o eleitorado a considerar irrelevante o reforço da votação nestes dois partidos.

 

Em segundo lugar e, para mim, mais importante, há a ideia de subversão ideológica que fica patente destes quatro anos. Sobretudo no que ao PCP diz respeito, é difícil de explicar como se legitimou um governo de direita, que deu mais uma canelada no código de trabalho, que maltratou classes inteiras de trabalhadores como os professores, os enfermeiros ou os motoristas de matérias perigosas, entre outros, incluindo descarados atropelos ao direito à greve, sindicâncias pidescas a ordens profissionais, despachos ministeriais em favor das entidades patronais, etc. Tudo isto se passou sob o nariz de PCP e de Bloco de Esquerda e isto, que para os demais até pode ser de somenos, tem muito peso para o militante de base, aquele que viveu uma vida inteira lutando por um ideal sem lucrar nada com isso, bem pelo contrário, sofrendo na própria pele a devoção para com as suas ideias, e para o qual a honestidade ideológica está acima de tudo. Talvez seja por aqui, acredito, que se possa explicar alguns dos milhares de votos a menos nestes partidos.

 

Relativamente aos partidos mais pequenos, também é muito fácil entender os seus resultados.

 

O PAN, cavalgando a histeria momentânea da emergência climática, cresceu como era esperado. O seu voto é um voto de protesto baseado numa ideia mais ou menos vaga, em convicções mais ou menos genéricas, porque ninguém, em consciência, sabe o que é que o PAN defende, porque o que defende é muito moldável, altera-se de uma hora para a outra, e porque ninguém quer prestar muita atenção a coisas de política. Nesta legislatura o PAN fará exatamente o mesmo que fez na anterior: abster-se-á em tudo o que for discutido e, no meio, fará uma ou duas intervenções mais ou menos apalhaçadas com adereços ou outras coisas que tais. As pessoas votaram nisto: é um voto nulo que elegeu quatro deputados.

 

A eleição de um deputado do Chega era também esperado e, se acaso não ocorresse agora, aconteceria numa próxima eleição. É o voto de protesto contra o politicamente correto e contra uma sociedade cada vez mais desorganizada e doente, sobretudo na capital do país onde há maior concentração populacional. Para muitos, a resposta mais tentadora a problemas concretos que nunca são abordados no espaço público é a extrema direita neofascista e xenófoba, securitista e ignorante. É triste, é desolador, mas era esperado.

 

Quanto à Iniciativa Liberal, o seu resultado até acaba por ficar aquém daquele que podia ter atingido com alguma naturalidade. Repare-se que a IL constituiu-se como o espaço de recolha do “passismo”, dos seus quadros, dos seus think tanks, opinion makers e influenciadores de redes sociais. Toda essa gente, que atingiu patamares de relevância e influência políticas no tempo da troika e de Passos Coelho e Paulo Portas, viu-se, com a constituição da geringonça e, posteriormente, a eleição de Rui Rio no PSD, sem emprego, sem serventia. Santana Lopes ainda tentou chamá-los para a Aliança, mas foi na IL que eles encontraram o seu nicho provisório. Deste processo ter resultado apenas um deputado, parece-me modesto, medíocre mesmo.

 

Por fim, o Livre apresenta, à partida, o resultado talvez mais inesperado de todos, mas que pode ser entendido. No plano nacional, este partido ideologicamente muito vago e algo oportunista com a questão da “esquerda verde”, viu a sua mensagem essencial ser, de certo modo, extinguida. Com efeito, o Livre apresentava-se há quatro anos como o promotor de uma grande coligação de esquerda, algo que veio a verificar-se com a geringonça e sem a sua participação. Volvidos estes quatro anos o Livre não tinha nada de substantivo para apresentar no plano nacional. Mas a questão é que esta eleição da deputada do Livre não se explica pelas propostas nacionais do partido que representa que, aliás, pouca ou nenhuma visibilidade mediática tiveram. Será antes em razão da influência local na área de Lisboa da personalidade notável de Joacine Moreira que, com a sua capacidade dinâmica e mobilizadora de massas, terá congregado suficiente eleitorado para conseguir a sua própria eleição. Não menosprezar também alguns votos perdidos e extraviados da área de Bloco e PCP.

 

Gostava de terminar este texto com uma nota. A vitória do PS não significa necessariamente a conquista de uma governação mais estável, antes pelo contrário. Com o PCP a voltar às ruas, as quais nunca devia ter abandonado, com Rio preso por arames no PSD, com o Bloco sedento, como sempre e mais do que nunca agora depois de perder cinquenta mil votos, por protagonismo, o caminho mais fácil e mais natural para o PS, que é tornar-se mais autista e prepotente na sua governação de direita, pode muito bem vir a tornar-se no prenúncio para um fim precoce e inglório do seu segundo quadriénio governativo.

Coisas que aprendi com esta greve dos motoristas

por Amato, em 13.08.19

1. Podemos fazer greve, mas apenas se esta não incomodar o “bem-estar” dos portugueses e, claro, a economia do país, esse ente primordial. O conceito de “bem-estar” constitui uma novidade e fará, estou seguro, jurisprudência nesta matéria de greves.

 

2. Os serviços mínimos são decretados para que, no contexto estrito acima descrito, os portugueses possam ir e voltar das suas férias descansados.

 

3. Longe vão os tempos em que os serviços mínimos serviam para assegurar as impreteríveis necessidades da sociedade, como as urgências médicas.

 

3. A requisição civil é anunciada para que nem um só cêntimo deixe de ser faturado pelo patronato do setor.

 

4. Para se fazer uma boa greve deve-se encontrar, primeiro, um trabalho que a ninguém incomode a sua falta. Acho que essa procura poderá ter o condão de desmobilizar qualquer intenção de se fazer greve.

 

5. Segundo o governo, os motoristas devem assegurar serviços mínimos entre 50% a 100%. Parece que há aqui uma deficiência qualquer dos nossos governantes, ou na área da Matemática ou na da Linguística.

 

6. Os motoristas devem assegurar 75% do abastecimento de combustível ao setor dos transportes públicos. Já não me lembro, mas acho que na última greve dos transportes públicos não havia 75% dos veículos a circular...

 

7. Não sei como, até ao dia de hoje, foram permitidas greves no setor da saúde ou noutros muito mais essenciais ao “bem-estar” da sociedade.

 

8. Há trabalhadores que, apesar de desempenharem tarefas essenciais para o país, ganham o salário mínimo, ou equivalente, e o resto fora de mão e a troco de horários de dezasseis horas ao estilo dos bons velhos tempos da revolução industrial. O banco de horas foi uma ideia genial! É um milagre não haver mais acidentes com camiões...

 

9. Há tarefas essenciais para o país que não estão na esfera pública.

 

10. O governo exige a trabalhadores que não são seus que trabalhem para empregadores privados contra a vontade dos primeiros pelo facto dos primeiros se sentirem explorados pelos últimos. Isto soa um bocado mal, não?

 

11. As empresas transportadoras pagam grande parte do salário dos seus trabalhadores por debaixo da mesa, para não pagarem contribuições ao estado. Só que não é bem por debaixo da mesa porque o estado sabe bem do que se passa e abençoa a falcatrua. Ai, se fosse o Zé Povinho...

 

12. O governo PS coloca-se no seu lugar de sonho que é ao colo do patronato. Inclusivamente cede-lhe, desta feita e segundo o semanário SOL, um quadro seu para o representar contra os trabalhadores. Nunca visto! Tudo em família!

 

13. PCP, CGTP e Fectrans têm desempenhado um papel absolutamente lamentável neste processo. Custa-me escrevê-lo e apenas o faço por respeito à verdade. O que restará a estas forças políticas e sociais depois disto? Frases feitas? Palavras de ordem vazias?

A História do pensamento único

por Amato, em 08.07.19

Era já domingo há algumas horas. Uma luz trémula amarelava o espaço. Procurava escapar, ainda, ao final do dia anterior e ia, assim, dando clicks aleatórios no ecrã, em busca de não sei bem o quê. O país entrou já no seu período sazonal merecido de estupidificação. Este ano não há campeonato do mundo ou europeu, mas o futebol inunda o espaço mediático. Como sempre. Discute-se o nada, horas a fio.

 

No DN vim a descobrir uma entrevista de Ernest Oberländer Târnoveanu, diretor do Museu Nacional de História da Roménia. A propósito da sua visita ao nosso país para inaugurar uma exposição sobre os principados romenos, patente no Mosteiro da Batalha, Târnoveanu falou ao DN sobre alguns aspetos gerais da história do seu país. O título da entrevista era, desde logo, prometedor: A independência romena não foi um presente dado pelos russos.

 

O que despertou o meu interesse àquela hora avançada era precisamente saber mais sobre esta animosidade, sobre este ódio, que parece visceral, que os romenos nutrem pelos russos. Não é sentimento que seja exclusivo dos romenos, diga-se. Ao longo das minhas viagens, encontrei semelhante animosidade em países como República Checa, Eslováquia, Hungria, Bulgária, Polónia e, também, nos três irmãos do Báltico, Estónia, Letónia e Lituânia.

 

A entrevista tem algumas partes com interesse como não poderia deixar de ser. A história da Roménia está intimamente ligada ao império romano, à sua cisão e, particularmente, à sua metade oriental resultante, o império Bizantino de Constantinopla, mais tarde chamado Otomano aquando da conquista pelos turcos. Como naturais guardiões do Danúbio, avenida que liga as extremidades da Europa, os principados que deram origem à Roménia contemporânea assumiram desde sempre uma relevante importância estratégica comercial e, daí, a história daquele lugar sobre a barriga da Europa é repleta de desventuras e acontecimentos fascinantes.

 

Não desiludindo as minhas expetativas, Târnoveanu é lesto a incluir os russos na conversa. Os russos são pintados como uma espécie de inimigos mortais, as suas ações são revestidas de duplicidade e de infâmia, ao passo que os romenos, investidos de uma certa incapacidade ou inocência, vão sendo permanentemente enganados e roubados. Este quadro atinge o seu apogeu com o comunismo e a era de domínio soviética. Nas palavras de Târnoveanu: “Foi uma pilhagem em larga escala, maior ainda que as pilhagens turcas e mongóis juntas”. Atente-se bem na hiperbolização utilizada, pois ela é marcante no que concerne ao revestimento ideológico da narrativa.

 

Não deixa de ser surpreendente que um país, ou conjunto de principados, permanente sob domínio ou influência de estrangeiros, permanentemente cobiçado e invadido, seja por turcos otomanos, seja por austro-húngaros ou polacos, eleja os russos como alvo, mais que primordial, das suas antipatias e dos seus ódios.

 

Tomo a liberdade de adivinhar o pensamento que assalta agora mesmo o meu caro leitor neste ponto da sua leitura: este Amato, por ser comunista, não consegue ver o quanto o comunismo suprimiu aqueles povos de leste. Adivinhei? Deixem-me assegurar-vos, pois, que a minha posição neste texto não se inspira na ideologia e de ideológica apenas se apossa da lógica para construir pensamento sobre o assunto.

 

Quando me dedico ao estudo e reflexão das páginas da História só uma coisa tem o condão de me arrepiar o ser. Essa coisa é o pensamento único, os factos indiscutíveis e insofismáveis, as verdades evidentes. O tema em questão é um bom exemplo disto mesmo: na Roménia, assim como noutros países, é difícil encontrar uma pessoa capaz de tecer um elogio que seja ao regime pró-soviético que vigorou no seu país. É quase como se houvesse um pacto silencioso entre todos, uma história combinada de antemão. Acreditem que eu dou de barato que em muitos desses regimes foi feita muita coisa desprezível e repugnante, mas é difícil de acreditar que apenas tenha sido feito isso e que nada de positivo resulte quando se olha sobre o ombro para esses tempos. Em seguida, deixo alguns pontos que me fazem duvidar da verdade destes discursos. Centrar-me-ei no exemplo romeno, embora os argumentos possam ser igualmente aplicados noutros contextos.

 

Em primeiro lugar falemos do passado, isto é, do passado anterior ao regime comunista pró-soviético na Roménia. Como já foi dito, a região a que hoje se chama Roménia foi consecutivamente dominada politicamente por poderes estrangeiros. Desses sucessivos domínios resultou uma terra ocupada por uma espécie de camponeses nómadas, que se refugiavam nos bosques, nas montanhas e nos vales dos rios, sempre em movimento, sem nunca se fixarem. Em meados do século XX, a Roménia era pouco mais que um país retirado da idade das trevas, de um cristianismo ortodoxo extremamente conservador, uma sociedade em tudo medieval, pouco evoluída tecnologicamente, pouco civilizada e parada no tempo.

 

É curioso perceber o olhar algo terno que os romenos contemporâneos dedicam a esses tempos e a admiração que especialmente dedicam aos ocidentais que sempre os dominaram. Não se pronunciam grandes críticas, não se apontam dedos. É uma história que é aceite na sua plenitude porque formou o caráter e a identidade comuns a todos os povos romenos.

 

Já é revelador, todavia, perceber que os romenos raramente se referem aos alemães e, particularmente, a Hitler e ao nazismo. Nesta entrevista que dá o mote a esta reflexão, Târnoveanu não os refere uma única vez. Por que é que eu adjetivo o facto de revelador? A Alemanha nazi, na antecâmara para a Segunda Guerra Mundial, começou por invadir e ocupar uma série de países na Europa central e de leste: Áustria, Hungria, Polónia, Roménia e Bulgária, entre outros. Estes países serviram como passadeira vermelha para o Terceiro Reich se colocar às portas da Rússia antes de a invadir sem uma prévia declaração de guerra. Os recursos desses países — e isto, sim, trata-se de um facto indesmentível — foram totalmente usurpados e colocados ao serviço do exército nazi. Admira-me que, na sua entrevista, Târnoveanu não dedique uma única palavra a este assunto. Admira-me que não reconheça a evidência da exploração do seu país pelo regime ideologicamente mais hediondo de que há memória. Adiante.

 

Quando o exército vermelho libertou a Roménia, juntamente com muitos outros países, do jugo nazi, foi instaurado um regime socialista pró-soviético. Durante esse regime a Roménia atingiu os mais elevados índices de bem estar e de desenvolvimento da sua história. Não existe comparação possível relativamente a domínios como a educação, a cultura, a saúde, a habitação, o trabalho ou o aquecimento. Os russos dotaram o país das estruturas necessárias para o catapultar para a era moderna como casas, escolas, universidades, hospitais, canalização ou condutas de aquecimento. Índices como a mortalidade na infância, a esperança média de vida ou a alfabetização falam pelo que foi feito nessa altura e pelo que nunca havia sido feito anteriormente, particularmente pelos admirados ocidentais. A Roménia deixou de ser um país de camponeses incultos para se tornar num país de escritores e cientistas.

 

A independência romena não foi um presente dado pelos russos? Talvez não, Sr. Târnoveanu. O que os russos deram aos romenos foi muito mais do que independência. Por que razão Târnoveanu, ou qualquer um dos conterrâneos que representa, não é capaz de reconhecer qualquer uma destas virtudes? Por que é que, pelo contrário, prefere deixar frases como aquela a propósito dos soviéticos: “Foi uma pilhagem em larga escala, maior ainda que as pilhagens turcas e mongóis juntas”?

 

Já sabemos que, na opinião dos romenos, no tempo dos nazis ou de outros que os precederam não aconteceram grandes “pilhagens”. E hoje em dia, como é? Sim, porque o comunismo já abandonou a Roménia há uns bons trinta anos. Não sabem? Deixem-me que vos diga, então: a Roménia não tem nada de seu, nem empresas, nem recursos, nem serviços; os seus vastíssimos recursos fósseis são drenados para as grandes potências capitalistas mundiais que deixam ficar pequenas migalhas à população romena; o povo vive miseravelmente mas agora pode dizer, com orgulho e propriedade, que tem ricos e que vive em democracia e liberdade. Acresce ainda que encontrei na Roménia as mais obscuras igrejas ortodoxas de toda a Europa, igrejas mal iluminadas, repletas de fieis divididos por género, com um culto perfeitamente retrógrado, com as mulheres tapadas da cabeça até aos pés de onde apenas um singular olhar inquisidor sobre os turistas, desobedientes ao seu código ético, conseguia escapar.

 

Ao mesmo tempo, atualmente a Roménia empenha-se com todas as suas forças para que a acolham na família da União Europeia. A adesão à NATO foi instantânea, mas a União Europeia é mais exigente. Por parte da Roménia, dado o seu quadro histórico, seria de esperar alguma cautela e até aversão à dominação estrangeira, mas tal não se verifica. Pertencer ao clube dos países ricos é uma ilusão muito apetecível. Bem fariam se olhassem com olhos de ver para o exemplo português.

 

Podia ainda falar de Ceausescu e das marcadas diferenças e divergências entre o regime comunista romeno e a União Soviética, que também concorrem para o desmascarar deste discurso parcial e desequilibrado pintado a uma só cor. Podia, mas o texto já se prolongou para além da conta.

 

Termino reconhecendo o quão fácil é, portanto, entender a razão de ser do pensamento único romeno. Como se costuma dizer, o coração quer o que o coração quer. E o que o coração quer é igreja, poucas obrigações de estudar ou trabalhar, pouco trabalho, dinheiro fácil, sonho americano, poder ser rico, ou melhor, poder ter mais dinheiro que o vizinho ao lado. E é por isso que os russos são o demónio. É por isso que o comunismo foi horrível, ao contrário de qualquer outro poder incluindo o nazismo. Ernest Oberländer Târnoveanu é uma personalidade simbólica, porque é mais do que o diretor do Museu Nacional de História da Roménia: é uma espécie de clérigo deste pensamento dominante. Ave ocidente. Ave livre mercado. Ave capitalismo.

Fogos de palha

por Amato, em 11.04.19

Passa quase um mês desde a última entrada neste blog. Esta ausência acabou por se prolongar mais do que esperava. A questão não está tanto na falta de assunto para comentar, nem tão pouco na ausência de tempo para o fazer. Sendo ambos argumentos válidos, não tem sobrado em mim a energia suficiente para me sentar à secretária, ligar o computador, “logar” no blog e escrever. Não tenho tido a paciência para participar desta sociedade de fogos de palha, tomando emprestadas as sempre acuradas palavras de Saramago. Todos os dias há um fogo novo a arder muito, um fogo de altas labaredas enegrecendo os céus que pairam sobre as nossas cabeças. No dia seguinte o céu permanece negro, mas já não é fumo do mesmo fogo, é doutro, entretanto ateado.

 

Tenho a impressão que este estado de coisas, este clima social, nunca terá sido tão carregado como é hoje, mas poderei estar enganado. Para tal clima — nascido da histórica fundação da geringonça que boa parte da sociedade ainda não terá engolido (sem grandes razões, todavia) —, contribuirá decisivamente a ação política do Presidente da República, catalisadora destes fogos que se espalham. O Presidente não se comporta como um incendiário, bem entendido, mas dispondo-se a comentar tudo o que lhe é lançado, mordendo sempre o irresistível isco que lhe é estendido desde a ponta dos microfones, comentando o que é coerente e o que é incoerente, o que é razoável e o que não o é, tem o condão de elevar cada amostra de boato ou mexerico às gordas maiúsculas das primeiras páginas das notícias.

 

Muito se escreveu neste mês que passou sobre o caso dos familiares no governo. Inclusivamente, atribuíram-lhe a pomposa mas não menos patética designação de familygate. Comentar isto? Não, obrigado. Ganhem juízo e, sobretudo, tomem qualquer coisa para a memória, para a coerência e para a hipocrisia. Analisem os governos passados e, mais importante, analisem as nomeações para lugares, esses sim, realmente importantes no mundo dos negócios e das empresas que vivem de mamadas regulares nas tetas estatais. Estudem, tomem atenção e conheçam a árvore genealógica do poder politico-económico em Portugal. No contexto da mais sórdida e imoral promiscuidade entre os poderes político e económico, esta situação não é mais que anedótica. Depois, parem de alimentar o mexerico sem importância e, sobretudo, não se contentem com fingidas alterações à lei para que tudo permaneça como está. Porque é mesmo disso que se trata: um fogo de palha. Amanhã tudo estará esquecido e um novo fogo terá sido ateado para não darmos fé disso mesmo.

"Um comunista deve ser um santo, um não comunista pode ser o que quiser"

por Amato, em 11.07.18

Estava a pensar escrever umas linhas sobre este anedótico assunto do deputado comunista António Filipe ter sido fotografado na sala de espera de um hospital privado lisboeta. Mas estava a custar-me apontar o óbvio: uma parte do nosso povo tem tanta falta de caráter e de ideias coerentes dentro da cabeça que até dói. Felizmente descobri este artigo excelente de Pedro Tadeu sobre o assunto. Obrigado ao autor por me poupar ao aborrecimento da tarefa.

 

Alguns excertos que me parecem preciosos:

 

  • “Esta inferência, se for aceite como verdadeira, leva, dedutivamente, a outras conclusões: um comunista pode lutar toda a vida pelo que acha ser melhor para a sociedade, por melhores salários para os trabalhadores, por mais direitos para os desprotegidos, por serviços de saúde gratuitos e bons para todos. No entanto, o comunista, para respeitar os seus princípios políticos, só pode ter um salário decente, usufruir de direitos básicos ou, simplesmente, escolher o que é melhor para si quando toda a sociedade poder beneficiar dos resultados da sua luta - até lá, em solidariedade para com os mais desfavorecidos, o comunista não pode usufruir do que a sociedade tem disponível...”

 

  • “Com tanta fome no mundo, imagino que um comunista a comer bife da vazia já seja, para esta moral distorcida, um pecado mortal.”

 

  • “Um comunista, pelos princípios desta teoria, é, portanto, um mártir e se não se portar na sua vida privada como um mártir, é um hipócrita.”

 

  • “Claro que ninguém pergunta se um defensor da privatização da saúde deve ir a um hospital público, se um defensor dos PPR privados pode receber pensões do Estado ou se quem quer destruir o ensino público pode meter os filhos nas melhores universidades do país (que, não por acaso e muito graças aos comunistas, são as públicas).”

 

Mais poderia ser acrescentado, claro, mas é desnecessário. Há, todavia, esta ideia recorrente sistematicamente veiculada no mundo capitalista desde os primeiros tempos da propaganda anticomunista da guerra fria: a um comunista deve-se exigir tudo — princípios, moral, prática, coerência, até mesmo santidade —, ao passo que a um não comunista não se tem que exigir rigorosamente nada. “Um comunista deve ser um santo, um não comunista pode ser o que quiser”. As redes sociais só acrescentam esta valência inquestionável: magnificam a estupidez humana, mostram-nos o que temos de mais medíocre.

Alemanha e Europa, extrema direita e história recente

por Amato, em 26.09.17

A Alemanha e a Europa estão chocadas — e bem! — com a ascensão da extrema direita de inspiração nazi (AFD) ao bundestag, o parlamento alemão.

 

Há três anos, em fevereiro de 2014, a mesma Alemanha e a mesma Europa — falar de uma é falar da outra, não é? — apoiaram o golpe de estado na Ucrânia que colocou os nazi-fascistas no poder, derrubando um presidente e um governo democraticamente eleitos.

 

Devemos, portanto, duvidar destes políticos que dizem detestar a extrema direita. Se calhar não detestam. Se calhar são farinha do mesmo grão, mas muito processada em hipocrisia.

 

http://cdns.yournewswire.com/wp-content/uploads/2017/04/Germany-censor-alternative-media.jpg

 

Sobre a maravilhosa coincidência

por Amato, em 18.09.17

A questão que veio cair como fétida nódoa na imaculada reputação política de Fernando Medina é de um assinalável interesse.

 

Desde logo, porque a alvura da reputação política de Medina a que me referia na oração anterior tem tanto de falso, quanto de artificial, pois não é fruto de nenhuma particular evidência mas, pelo contrário, de empenhado labor de há muitos anos a esta parte dos media nacionais. Casos como este são, aliás, assaz frequentes. De entre a panóplia de malfeitorias que lhes são características, os media adoram o tricotar miudinho de santos políticos de pau oco, falsos ídolos impolutos, ao mesmo tempo que ocultam habilmente os respetivos rabos de palha que só se vêm a revelar muito mais tarde numa mistura de incredibilidade, de espanto e de histeria.

 

Mas o que é mais interessante não é a questão em si, isto é e fazendo fé nas notícias que têm vindo a público, a maravilhosa habilidade de Medina para a venda e compra de imóveis com margens de lucro absurdas ao mesmo tempo que adjudica diretamente obras na autarquia de milhões de euros à mesma parte envolvida nos negócios. Não, o que é mais interessante não é esta maravilhosa coincidência que só acontece aos eleitos para governar no meio dos homens. Antes, é a faculdade que o caso nos confere para identificar serventuários do sistema, jagunços da panela de que Medina é a face, agora e por ora, visível. Isto, sim, é deveras interessante.

 

E são tantos, são tantos..., nas televisões e nos jornais, por toda a parte, de tantos e diferentes quadrantes da sociedade lisboeta. Não é por acaso que Medina leva uma tão abundante vantagem nas intenções de voto. Quem defende o indefensável seguramente terá algum interesse concreto na sua eleição.

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