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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Para quê?

por Amato, em 08.06.18

Thomas Mann

 

O homem não vive somente a sua vida individual; consciente ou inconscientemente participa também da sua época e dos seus contemporâneos. Até mesmo uma pessoa inclinada a julgar absolutas e naturais as bases gerais e ultrapessoais da sua existência e que dá ideia de as criticar tão objectivamente como Hans Castorp, pode facilmente sentir o seu bem-estar moral um tanto diminuído pelos defeitos inerentes a essas bases. O indivíduo pode visar numerosos objectivos pessoais, finalidades, esperanças, perspectivas, que lhe dêem o impulso para grandes esforços e elevadas actividades; mas quando o elementos impessoal que o rodeia, quando o próprio tempo, não obstante toda a agitação exterior, carece no fundo de esperanças e perspectivas, quando se lhe revela como desesperador, desorientado e sem saída, e responde com um silêncio vazio à pergunta que se faz consciente ou inconscientemente, mas em todo o caso se faz, a pergunta pelo sentido supremo, ultrapessoal e absoluto, de toda a actividade e de todo o esforço, então tornar-se-á inevitável, precisamente entre as naturezas mais rectas, o efeito paralisador desse estado de coisas e esse efeito será capaz de ir além do domínio da alma e da moral e de afectar a própria parte física e orgânica do indivíduo. Para um homem se dispor a empreender uma obra que ultrapassa a medida do que é usual fazer-se, sem que a época saiba dar uma resposta satisfatória à pergunta «Para quê?», é indispensável ou um isolamento moral e uma independência, como raras vezes se encontram e têm um quê de heróico, ou então uma vitalidade muito robusta. Hans Castorp não possuía nem uma nem outra dessas qualidades e portanto deve ser considerado medíocre, posto que num sentido inteiramente louvável.

 

— Thomas Mann, A Montanha Mágica

Pensamento do dia

por Amato, em 08.10.17

https://i.ytimg.com/vi/kQhm9IYbHgo/maxresdefault.jpg

 

A melhor forma de evitar que um prisioneiro escape é assegurarmo-nos que nunca saiba que se encontra numa prisão.

— Fiódor Dostoiévski

Cavaco Silva, sem comentários

por Amato, em 06.10.17

https://1.bp.blogspot.com/-Y1H1gFiDs_I/Tmjj7aNYviI/AAAAAAAAAH0/PNioVhun5Io/s1600/vciuieyi.jpg

 

Acontece, até, que eu não votei, porque estava num casamento de um familiar muito próximo na Escócia no próprio dia e por isso só acompanhei já na segunda-feira o que tinha aqui ocorrido.

— Cavaco Silva, 4 de outubro de 2017.

 

Nunca serei capaz de entender perfeitamente como o povo foi capaz de conceder a este personagem vinte anos de poder. Um péssimo exemplo, um horrível exemplo para a nossa “democracia”.

 

Os milhões de portugueses que, eleição após eleição, lhe entregaram o seu voto deviam ser intimados a pedir desculpas públicas ao país pelo que fizeram. Houvesse vergonha...

Sobre o caminho a seguir

por Amato, em 28.09.17

https://oss.adm.ntu.edu.sg/xtan060/wp-content/uploads/sites/1805/2017/08/2108-cheshire-cat-alice-in-wonderland.jpg

 

— Podes dizer-me, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui?
— Isso depende muito de para onde queres ir — respondeu o gato.
— Preocupa-me pouco aonde ir... — disse Alice.
— Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas — replicou o gato.

 

Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas

Silly season — a façanha

por Amato, em 14.08.17

Em 1998 Donald Trump terá dito, a propósito de uma possível candidatura à Casa Branca, que se se candidatasse, fá-lo-ia pelos republicanos. É que, segundo ele, constituíam o grupo mais estúpido de votantes, que se acreditavam em tudo o que a cadeia de notícias Fox News dizia, mentiras incluídas.

 

If I were to run, I'd run as a Republican. They're the dumbest group of voters in the country. They believe anything on Fox News. I could lie and they'd still eat it up. I bet my numbers would be terrific.

— Donald Trump, 1998, People Magazine

 

Quando sou literalmente assaltado pelas sempre extensivas e pormenorizadas coberturas mediáticas da Festa do Pontal, pergunto-me se Pedro Passos Coelho e o PSD não estarão em proporção para Donald Trump e para o Partido Republicano. É como se não existisse memória. É como se fossemos todos peixinhos de aquário para os quais quase tudo é novo a cada instante.

 

Entretanto mudei rapidamente de canal e perdi o paralelismo sem interesse.

 

Todavia, gostava de ver as televisões, os jornais, os comentadores, tentarem a inédita façanha de colocar um burro, um asno mesmo, uma besta sobre quatro patas, na posição de primeiro-ministro deste país. É que eu acho que conseguiam! E o povo aplaudia! A sucessão histórica no cargo também concorre para o meu otimismo. É só mais um pequeno passo! Coragem e perseverança!

 

https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/236x/29/a3/06/29a306b776dd1d16f932cbd76fd9f426--victorian-gentleman-exquisite-corpse.jpg

 

Não seja um verbo-de-encher

por Amato, em 07.08.17

A vida tem coisas curiosíssimas. Ainda há três dias comentava com um amigo o quão repulsivo considerava o Jornal i pela sua vocação profundamente reacionária, pela ausência permanente de um mínimo de contraditório, pelos conteúdos absolutamente enviesados do ponto de vista político, embebidos de uma ignorância crónica.

 

Parece que quanto mais cedo tivesse eu tido esta conversa, mais depressa teria surgido este brilhante artigo de opinião. Eu, “antidemocrata” me confesso é um texto de Nuno Ramos de Almeida que aborda concretamente a situação da Venezuela mas fá-lo com uma clarividência e com um bom senso notáveis. Coloca as coisas em contexto: compara o que por lá se passa e o que se diz sobre o que por lá se passa com o que se passou também aqui em Portugal no período revolucionário e o que a imprensa também dizia sobre isso; mas também compara o presente com o passado recente da Venezuela. Baseia-se em factos tão claros que os de boa memória abdicarão do seu direito de confirmação. Do início ao fim, trata-se de um texto belíssimo.

 

De seguida, destaco algumas partes que considero importantes.

 

Adorei a bofetada intelectual dada na insciente face de Francisco Assis (de cada vez que abre a boca, sinto que uma destas é necessária):

Embora o termo democracia esteja enevoado pelas meninges dos Assizes desta vida, democracia quer dizer “poder do povo”. E este só consegue ter poder quando oitenta por cento dele não está na miséria.

 

Sobre a Venezuela antes de Chávez:

Pouco anos depois na Venezuela, em 1989, a população pobre de Caracas revolta-se contra as medidas ditadas pelo FMI e impostas pelo governo de Carlos Andrés Pérez, político da Internacional Socialista. As medidas seguem o chamado “Consenso de Washington”, com redução dos gastos sociais, privatização de empresas públicas e desregulamentação do mercado laboral, aumento dos produtos de primeira necessidade.

 

(...)

 

O país vivia numa imensa miséria com 80% da população abaixo do limiar da pobreza. Nesse dia 27 de fevereiro de 1989, o presidente suspendeu os artigos das Constituição que garantia as liberdades democráticas e mandou a tropa disparar. Segundo os números oficiais morreram 277 pessoas. Segundo observadores independentes e organizações de direitos humanos, mais de 2000 pessoas foram assassinadas, muitas delas depois de terem sido presas e torturadas pelas forças da ordem.

 

O país (...) vivia supostamente em democracia há mais de 31 anos. Mas grande parte da população estava excluída de facto do processo democrático. Não tinha nem voto no que faziam os governos, nem tinha direito à vida. O país tinha uma espécie de rotativismo, entre partidos ditos de centro esquerda e centro direita, que garantiam o poder das elites do costume, e sobretudo os negócios das grandes companhias petrolíferas estrangeiras. Tudo estava bem para a Europa e os EUA.

 

Sobre a Venezuela de Chávez:

A subida ao poder de Hugo Chávez, eleito em 1998, e tomando posse em 1999, veio alterar os dados da situação. O novo poder colocou a companhia petrolífera nas mãos do Estado e usou os rendimentos desta para fazer um conjunto de programas sociais que permitiram às populações dos bairros pobres aceder à saúde, educação e saírem do limiar da pobreza. Esta política de redistribuição dos petrodólares, não alterou a estrutura de propriedade de poder económico do país, mas retirou dezenas de milhões de venezuelanos da pobreza e permitiu que muitos deles começassem a participar no processo político.

 

E a evidência que parece que não importa ou que não existe:

Em 20 eleições democráticas realizadas, os chavistas ganharam 18. Grande parte com enormes vantagens. Nas restantes duas, Chávez foi derrotado com margem mínima num referendo para um novo texto constitucional que pressupunha a possibilidade de voltar a candidatar-se, e, mais recentemente, Maduro, depois de ter ganho as presidenciais, num país em que o poder executivo é do presidente, perdeu as eleições legislativas em que o PSUV teve 41% e a oposição do MUD, 56%.

 

Sobre o papel da comunicação social no processo:

Este processo conta com uma autentica campanha mediática, que tem muito pouco a ver com jornalismo, cujo objetivo é multiplicar o número de mortos entre os manifestantes e esconder os atos de violência da oposição. Só assim se percebe que a maioria dos jornais espanhóis publiquem a fotografia de uma explosão, dizendo que é violência chavista, quando foi um atentado numa esquadra. As televisões afirmem que foram assassinados candidatos, “esquecendo-se”, que eram chavistas que se candidatavam à Constituinte. Que a comunicação social não divulgue notícias sobre chavistas queimados vivos por opositores. E que os média garantam que os números da consulta popular realizada pela oposição são verdadeiros, sem que os registos dos votos e cadernos eleitorais sejam públicos, enquanto contestem a legitimidade da eleição da Constituinte, dizendo-a ilegal, sem se darem ao trabalho de ler o artigo 348 da Constituição, que a regulamenta.

 

Destaco também o parágrafo final:

Aquilo que os EUA e as oligarquias locais e mundiais contestam na Venezuela não é serem dirigidas por um incapaz, ou até o crescente autoritarismo do governo de Caracas: os EUA e os seus aliados europeus dão-se muito bem com regimes, como o da Arábia Saudita, que condenou, recentemente, à morte 14 pessoas pelo crime de se manifestarem contra a monarquia, e onde não há nem oposição, nem órgãos de comunicação social contrários ao governo. O que esses poderes mundiais nunca perdoaram ao chavismo foi a tentativa de promover uma maior igualdade económica e colocar os pobres no centro da ação política. É isso que é imperdoável para quem manda neste mundo. Como disse Assange, se a Venezuela tivesse a constituição da Arábia Saudita, tudo estaria bem para Washington e o petróleo em “boas mãos”.

 

Termino este post com uma nota. As últimas publicações deste blog não têm como intenção que não se debata o que quer que seja. Antes pelo contrário. O objetivo destas publicações é informar o leitor e dizer-lhe, muito claramente, o seguinte:

 

É uma opção sua dizer o que diz e defender o que defende. Faça-o porque realmente acredita no que diz. Não o faça por ser um papagaio da burguesia que controla os países, os jornais, o poder económico e o poder político. Assuma-se. Não seja um verbo-de-encher.

Dias desinteressantes

por Amato, em 25.06.17

Estes dias têm sido desinteressantes. Entre o histerismo com a tragédia de Pedrogão, histerismo pueril porque se extingue rapidamente sem que nada daí resulte, e o histerismo com o futebol, esse verdadeiro ópio do povo, e com a seleção, já não tenho paciência para ouvir ou ler as notícias. Não tenho mais paciência para esta sucessão bipolar de histerismos, de masturbação mediática da tragédia. Desculpem-me a frontalidade mas a comunicação social mete-me nojo e revolta-me ainda mais a forma como nós nos prestamos tão bem a este papel de marionetas desmioladas dos media.

 

Vem-me sempre à memória aquela citação de Saramago que já aqui coloquei uma vez no blog.

 

   Este país preocupa-me, este país dói-me. E aflige-me a apatia, aflige-me a indiferença, aflige-me o egoísmo profundo em que esta sociedade vive. De vez em quando, como somos um povo de fogos de palha, ardemos muito, mas queimamos depressa.

 

   — José Saramago, Jornal de Letras, Artes e Ideias (1999)

 

Entre outras notícias menores, há a astróloga que foi eleita deputada em França pelo “partido” da meritocracia de Macron. Não somos só nós que somos néscios aqui por Portugal. Também os franceses, os franceses da França de Descartes e Voltaire, o são!

 

Por cá, parece que o PCP começa a cair na real e a apontar o dedo às políticas deste governo que, afinal, nunca deixaram de ser de direita, ao que parece. Não sei se o PCP vai a tempo de se descolar da geringonça. Esperemos, para bem do país, que esteja enganado.

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