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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

O Leitor, 2008

por Amato, em 21.09.16

Hoje assisti a um filme que me comoveu. Chama-se O Leitor (título original The Reader), original de 2008.

 

Este filme fez-me refletir sobre a hipocrisia das massas. Fez-me pensar que o que buscamos, tanto ontem como hoje, é de um bode expiatório dos nossos pecados e das nossas imperfeições. Se há coisa em que se pode dizer com propriedade que a humanidade não mudou um milímetro ao longo dos milénios da sua existência é isto: conseguimos ver num pueril singular sacrifício a capacidade de redenção das massas, de purificação dos seus pecados coletivos.

 

Ontem, como hoje.

 

O filme fez-me refletir sobre muitas outras coisas, mas esta foi a mais importante.

 

O Leitor, com Kate Winslet soberba (venceu um óscar à conta do seu desempenho neste filme).

 

O Leitor

 

 

Uma reflexão matutina sobre arte e cultura

por Amato, em 12.12.15

Aos sábados de manhã dá-me para pensar em coisas que me surgem do nada. Hoje pus-me a pensar em cinema e em livros.

 

No que ao cinema diz respeito assalta-me a atenção o número crescente de filmes europeus que se intrometem nos cartazes semanais de Hollywood. Gosto de acreditar que esse facto deve-se a um certo enjoo geracional, desta geração mais velha, relativamente a um formato gasto, sem ideias e vazio de conteúdo, vazio de história, que o cinema americano oferece e não parece conseguir oferecer nada mais do que isso, com exceção dos filmes de autor que fogem ao mainstream. Veja-se a quantidade de patéticos remakes e de reruns de sucessos antigos e que atestam o que acabei de dizer.

 

O cinema europeu, sobretudo o francês, também tem um formato cristalizado mas traz consigo algo que será sempre novo: procura contar histórias, foca-se na história e fá-lo numa economia de meios que até tem o condão de se tornar pitoresca. Depois, o processo narrativo é menos presunçoso e mais sensato que o americano, coisa que, segundo julgo, a minha geração agradece e acolhe com satisfação. Estamos um pouco fartos que nos tentem impingir o que pensar. Só nos interessa a viagem.

 

Relativamente a livros, o momento é de contraposição aos pessimistas. Não embarco na corrente que diz que as novas gerações leem menos. Não tenho dados objetivos e, em verdade, ninguém os terá para tecer afirmações categóricas numa ou noutra direção. Como em tudo o resto apoio-me na minha própria experiência e num ou noutro dado objetivo palpável. A minha experiência diz-me que nunca li tanto como hoje. Nunca o acesso a todos os tipos de literatura esteve tão fácil, tão célere e tão barato. Mais: nunca, como hoje, o ato de ler foi tão necessário à vida quotidiana. Claro que podemos argumentar com a qualidade da escrita, com a qualidade da leitura e com a qualidade da oferta literário, argumentos que acolho e reconheço. Mas esses argumentos pertencem a uma discussão distinta desta.

 

A verdade, resulta para mim clara, é que nunca se leu tanto como na atualidade. Nunca se editaram e venderam tantos livros como nos dias correntes. E quando pensamos, quais velhos do restelo, nos dias passados, temos a tendência para valorizar certas minorias que nos são caras nesses tempos idos sem sermos capazes de reter uma imagem global de época mais fidedigna. Se fossemos capazes de o fazer, isto é, se fossemos capazes de comparar fotografias de época com rigor, facilmente constataríamos o óbvio: hoje em dia há muitíssimo mais gente a ler, em muitíssimos mais formatos, de variadíssimas formas diferentes, mas ainda assim a ler. E se quisermos comparar a literatura de qualidade e a leitura de qualidade, seja qual for o nosso referencial nessa matéria, a verdade é que também aí os tempos modernos batem os tempos antigos por goleada. É pelo menos essa a minha convicção.

A prison for your mind

por Amato, em 04.11.15

Morpheus: I imagine that right now, you're feeling a bit like Alice. Hmm? Tumbling down the rabbit hole?

 

Neo: You could say that.

 

Morpheus: I see it in your eyes. You have the look of a man who accepts what he sees because he is expecting to wake up. Ironically, that's not far from the truth. Do you believe in fate, Neo?

 

Neo: No.

 

Morpheus: Why not?

 

Neo: Because I don't like the idea that I'm not in control of my life.

 

Morpheus: I know exactly what you mean. Let me tell you why you're here. You're here because you know something. What you know you can't explain, but you feel it. You've felt it your entire life, that there's something wrong with the world. You don't know what it is, but it's there, like a splinter in your mind, driving you mad. It is this feeling that has brought you to me. Do you know what I'm talking about?

 

Neo: The Matrix.

 

Morpheus: Do you want to know what it is?

 

Neo: Yes.

 

Morpheus: The Matrix is everywhere. It is all around us. Even now, in this very room. You can see it when you look out your window or when you turn on your television. You can feel it when you go to work... when you go to church... when you pay your taxes. It is the world that has been pulled over your eyes to blind you from the truth.

 

Neo: What truth?

 

Morpheus: That you are a slave, Neo. Like everyone else you were born into bondage. Into a prison that you cannot taste or see or touch. A prison for your mind.

 

— The Matrix, 1999.

Entre as estrelas da propaganda

por Amato, em 22.11.14

Sou um apaixonado pela ficção científica. Adoro o género. Nos últimos tempos vi no “grande ecrã” o Interstellar. Acorri o mais depressa que pude, ávido pela viagem ao futuro que me prometia e carregado de esperanças pelo que ia ouvindo dizer sobre o filme. Inclusivamente, ouvi elogios diretamente do programa A Última Fronteira da RTP 1. Elogios sobre a qualidade científica da película ou sobre os muitos aspetos inovadores. Foi grande a minha desilusão.

 

Nota prévia: seguem-se pequenos spoilers.

 

O filme tem um e um só ponto positivo: a qualidade e a beleza das imagens e não apenas relativamente aos dois grandes protagonistas. Refiro-me, obviamente, aos dois buracos, o worm e o negro. Todo o filme é visualmente impecável. E ficamos por aqui em termos de aspetos positivos (a banda sonora não é má de todo, embora não esteja à altura da imagem).

 

Antes de passar a enumerar os muitos aspetos negativos do filme, convém, em jeito de declaração de interesses, atestar aqui o que para mim é um bom filme de ficção científica. Este género cinemático deve cumprir dois objetivos básicos: preencher o vazio existente nos paradigmas científicos e fornecer combustível à imaginação do ser humano, no que ao futuro diz respeito. Claro que esta minha opinião não é consensual. Há quem pense, por exemplo, que o género deve-se limitar a retratar fielmente o estado da arte da ciência e da tecnologia.

 

Posto isto, impõe-se dizer que o filme Interstellar não faz nada disto. No que à ciência se refere, é um desastre, porque em nada inova. Todos os conceitos utilizados no filme são completamente batidos no género e não há absolutamente nenhuma explicação mais profunda sobre os temas: como se processam as viagens espaciais em termos de energia e velocidade; como funciona o processo de hibernação criogénica; como o ser humano consegue controlar o buraco worm e usá-lo para viajar no espaço-tempo. Nada disto é aprofundado em termos de ciência. Pelo contrário, aparecem como dados adquiridos.

 

Depois de atravessar o buraco worm há outras coisas mais ou menos difíceis de engolir. Os aventureiros deparam-se com um sistema de três planetas potencialmente habitáveis orbitando em torno de um buraco negro. Aqui começa o problema: de onde surgiria o calor e a luz para potenciar a existência de vida nesses planetas? O buraco negro possuía um disco iluminado que, contudo, não poderia cumprir a função de uma estrela. Esse disco é retratado como estático, mas na verdade é giratório. Mais tarde, uma nave é sugada para o buraco negro e trespassa o disco o que devia resultar na sua inceneração instantânea, o que não acontece. Por outro lado, a existência de planetas com potencialidade para a espécie humana é altamente improvável, pois aqueles planetas deveriam ser constantemente abalroados por objetos sendo sugados pelo buraco negro à velocidade da luz.

 

A existência do primeiro planeta é também altamente questionável, dado a sua proximidade relativamente ao buraco negro e às forças massivas exercidas. O que também é extraordinário é imaginar como aquela nave que necessitou de tanta energia para ser lançada da superfície da terra, fez o mesmo com tanta facilidade, sem o auxílio de módulos, num planeta com 130% da gravidade terrestre. Antes disso, podemos apenas imaginar aquela nave como construída com um material extraordinariamente resistente, pois aquelas ondas gigantes teriam, obrigatoriamente, que a danificar seriamente.

 

Estes são apenas alguns dos aspetos que mais me chocaram, sobretudo num filme tão caracterizado como cientificamente revolucionário. Podia dizer mais e ainda especular outros, mas fico-me por aqui.

 

Fico-me por aqui, neste domínio, porque para mim o que é realmente triste é a mediocridade da história, da qual apenas achei interessante a menção à encenação dos programas Apolo do século passado. É que tudo é dado como adquirido e não há o mínimo de reflexão filosófica sobre as coisas. A Terra está condenada. Porquê? Que erros foram cometidos? O que se fez para que não se voltem a repetir? É que, segundo o filme, a espécie humana está condenada a ser uma espécie de praga do universo, porque uma vez descoberto o segredo para se poder transportar de um lado para o outro, replicarão os mesmos processos que conduziram ao esgotamento dos recursos da Terra. Mas nada é dito em concreto. A história é tão oca e tão fútil...

 

Depois, há aquele melodramatismo nojento que está tão profundamente espalhado ao longo do filme como um perfume barato de senhora. Concedo que tenha que existir algum, mas ele é tanto, tanto, tanto... Depois de visto o filme compreende-se bem a sua existência. É um velho truque de ilusionismo: quando se quer desviar a atenção de uma coisa, chama-se atenção para outra. Assim, o público não percebe tão bem a falta de substância da película, porque fica muito sensibilizado com aqueles dramas humanos tristíssimos, evidenciados na choradeira copiosa, do primeiro ao último minuto daquelas penosas três horas de filme, de cada um dos personagens. É horrível.

 

Pelo meio, há momentos vários que procuram fazer uma ligação com outros filmes de ficção científica. A referência ao relógio é uma procura descarada em colar este filme ao Contacto, até mesmo pelos personagens representados pelo mesmo ator. E os absolutamente ridículos robôs devem ser referências ao tempo onde não havia capacidade tecnológica para bons adereços em filmes deste género. A mim fez-me lembrar os episódios da série Star Trek.

 

Para terminar em beleza, o filme tenta fazer uma ligação absolutamente arrepiante ao mundo exotérico. O personagem principal é, de forma completamente inexplicável, sugado através do buraco negro para um mundo a cinco dimensões onde se converte numa espécie de Fantasminha Gaspar e envia mensagens para a sua filha na Terra em diversos segmentos temporais do passado e do presente. Nessas mensagens é transmitida uma informação que ninguém percebe o que possa ser mas que permite, ao que é subentendido, subverter os princípios da gravidade na Terra. Depois, incrivelmente, o fantasma deixa de ser fantasma e retorna a um corpo de carne e osso teletransportado de volta para os anéis de Saturno, em pleno sistema solar. Numa palavra: incrível!

 

O filme tinha um evidente potencial mas, no fim de contas, resulta em (mais) um exercício de propaganda da NASA com pouco realismo, muito exibicionismo visual e sem qualquer ponta de profundidade e isto é o mais grave. Fez-me lembrar o Armageddon para pior. É triste que este filme seja incapaz de produzir uma centelha que seja de esperança no futuro da humanidade.

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