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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

A Filosofia vem depois. A Ciência está-nos a estupidificar.

por Amato, em 10.03.19

Tenho a impressão que já partilhei este pensamento, mas ainda assim — demasiado preguiçoso para pesquisar as entradas deste blog — escreverei algumas linhas sobre o tema.

 

A disciplina do pensar, do refletir, do projetar, a Filosofia, nome tomado emprestado dos gregos antigos e que elegantemente significa “amor pela sabedoria”, foi ao longo de milénios um pilar estruturante das sociedades ocidentais, tendo atingido o seu auge durante a civilização helénica. A religião, que dominou fortemente as sociedades pós-clássicas, também não deixa de ter uma componente filosófica vincada, embora segundo uma interpretação pré-definida da realidade. Quero com isto dizer que as sociedades construíam-se segundo uma determinada bússola, chamemos-lhe moral. O que se fazia fazia-se de uma determinada forma, segundo um conjunto de princípios considerados corretos.

 

Descontadas todas as exceções, o que acontece hoje em dia, nas sociedades contemporâneas, é muito diferente. A célebre frase de René Descartes, Penso, logo existo, serviu não como lema para a criação de uma nova Filosofia moderna inserida numa revolução científica mais ampla, como era o original intuito do autor, mas como epitáfio à Filosofia como um todo. Com efeito, a obra do génio francês, o seu brilhante contributo conjunto matemático-filosófico, terá sido aquele ponto singular que, na linha da História, fez com que a Filosofia perdesse toda a sua relevância em favor da Ciência, de uma nova Ciência que, hoje em dia, tudo domina.

 

O resultado de tal transformação tem-se revelado sinistro. Em vez de termos sociedades governadas por conjuntos de princípios, por uma moral e por uma ética, temos sociedades movidas unicamente pelo egoísmo e pela ganância que procuram na Ciência as justificações para o seu modo de agir. A Filosofia que vinha antes, agora vem depois e isso faz toda a diferença.

 

Veja-se o que se passa com o aquecimento global, por exemplo. Desde logo, encontramos grupos de cientistas advogando em sentidos diametralmente opostos sobre a influência humana no processo. E eu pergunto: para que é que precisamos de cientistas e de ciência nesta discussão? Não é óbvio que a poluição está a destruir o ambiente e os nossos recursos? Isso não deveria bastar?

 

Não. Isso não basta.

 

Nesta sociedade globalizada em que vivemos, parece que temos que ter uma figura de bata branca a dizer-nos o que temos que fazer mesmo que o que tenhamos que fazer seja absolutamente evidente. E agora, mais espantoso ainda, um grupo cada vez maior de figuras de bata branca começa a inundar o espaço mediático para nos dizer que, sim senhor, que a poluição está efetivamente a destruir o planeta, como se nós já não soubéssemos disso. Porque o fazem agora? Porque descobriram algo novo com o seu método científico à prova de bala? Algo que não soubessem antes? Não. Fazem-no agora porque os interesses económicos para os quais trabalham têm um grande interesse em fazer uma nova fortuna a vender-nos carros elétricos.

 

Ninguém pergunta se as baterias elétricas são poluentes — são e são muitíssimo perigosas para os nossos lençóis freáticos. Ninguém pergunta se as baterias elétricas são sustentáveis, isto é, se temos capacidade elétrica para sustentar um mercado de carros elétricos — não, não temos, nem que, por artes mágicas, duplicássemos o número de barragens. Ninguém pergunta se, em termos globais, um carro elétrico consome menos energia que um carro a gasolina — não, não consome, consome mais. Ninguém pergunta isto, ou muitas outras pertinentes questões, às figuras de bata branca, porque isso não interessa. O que interessa é ludibriar as populações e fazer negócio para as elites burguesas. Isto é o que se chama Filosofia ao contrário, Filosofia subvertida. Primeiro existe o interesse, depois encontramos a justificação filosófico-científica para legitimar o interesse. Primeiro o interesse, depois a filosofia. A Filosofia vem depois.

 

Outro segmento da sociedade que me desperta o interesse é o da educação e este é particularmente luminoso para o ponto que pretendo passar neste texto. As filosofias educativas parecem ser elaboradas à medida dos objetivos que as sociedades ocidentais pretendem atingir neste domínio. E que objetivos são esses? Ter as melhores estatísticas possíveis relativamente ao abandono e ao sucesso escolares. A educação é um instrumento — o instrumento de eleição — de propaganda das nossas sociedades. O que dizer? Adoramos ser enganados.

 

O que interessa que um aluno médio saia do nosso sistema sem conseguir ler duas páginas de texto consecutivas? O que interessa que não saiba escrever duas linhas de texto inteligível? O que interessa que não saiba a História ou a Geografia do seu país? O que interessa que não saiba fazer uma simples conta aritmética sem a ajuda do telemóvel? Não interessa nada. O que verdadeiramente interessa é que tenha feito o seu percurso de doze anos com as melhores notas possíveis e sem chumbos pelo meio. Isso é que é motivo de regozijo e exaltação bacoca para presidentes e primeiros-ministros.

 

Como este é o objetivo, adota-se uma filosofia educativa conveniente para justificá-lo: uma filosofia que demonize retenções de ano, que veja com maus olhos a disciplina e que carregue sobre o Professor toda a responsabilidade do processo de aprendizagem dos alunos. Se o aluno não aprende, então é porque o Professor não soube explicar bem a lição ou não soube motivar o aluno. Reparem como, neste caso, é apropriada uma filosofia educativa que coloca o aluno no centro do processo educativo, como um ente que contém dentro de si à partida todo o conhecimento necessário e que apenas necessita que alguém externo, o professor, desencadeie nele um processo de revelação. Alternativamente, o aluno é como que um pedaço de lousa limpa a aguardar por uma gravação mágica do conhecimento essencial a giz, pelo professor. Também aqui a Filosofia vem depois. Primeiro vem o interesse, depois vem a filosofia educativa.

 

Qualquer pessoa que tenha estudado, e não apenas passado pela escola, reconhece que disciplina, esforço e dedicação são condições fundamentais para qualquer processo de ensino-aprendizagem. Qualquer pessoa com um mínimo de bom-senso percebe que o Professor é um mero catalisador deste processo, um orientador do estudo. O aluno deve ser o centro das aprendizagens, mas através da responsabilização em todo o processo. Ao aluno deve-se exigir que estude e que seja educado. Estes princípios têm que vir primeiro. É isto que está certo. É isto que funciona para se aprender. O problema é que aprender não é o objetivo do sistema. O objetivo do sistema é passar os alunos pelo próprio para se dizer que a educação é brilhante.

 

Faz-nos muita falta mais Filosofia e menos Ciência. O primado da Ciência sobre tudo o resto está-nos a estupidificar. Já não questionamos. Já não pomos em causa. Já não refletimos. Já não imaginamos. Apenas repetimos o que as figuras de bata branca nos dizem.

A era da pseudociência II

por Amato, em 12.08.18

Temos que ter plena consciência disto: vivemos numa era em que os lideres conseguem justificar, categoricamente, que o problema dos incêndios se deve a alterações climáticas sem que haja qualquer voz que se erga para dizer o contrário. Por ventura, será verdade? Sejam, pois, bem vindos à era da pseudociência que serve de suporte para se levar a cabo a destruição de qualquer conceito de bom senso nas sociedades em que vivemos.

 

Patrocinados pela classe burguesa e com o intuito do exercício do controlo global das massas, a pseudociência estende os seus tentáculos a todas as áreas humanas. Baseia-se em estudos encomendados e pouco sérios, interpretados pelos media de uma forma ainda menos séria, e cujas conclusões enviesadas colhem os frutos desejados na histeria mediática com que são lançadas e na incapacidade de compreensão das massas, que sempre se deixam conduzir mais pela emoção do que pela razão.

 

Nestas matérias, repare-se, os cientistas nunca são ouvidos. Quanto muito, vai-se buscar um qualquer chefe de laboratório, muito versado em comunicação e diplomacia político-económica, que, por vezes até, colhe os louros de toda a equipa que lidera, mas com conhecimento medíocre dos temas. Há uma razão para isto. A pseudociência funciona ao contrário da verdadeira ciência. A ciência procura a verdade das coisas, do funcionamento do mundo, seja ela qual for. Elabora as suas experiências nesse sentido. Já a pseudociência procede exatamente ao contrário: procura as experiências que, de algum modo, conduzam às conclusões que pretende anunciar à partida.

 

Se há área do conhecimento humano onde é mais visível este processo de charlatanice, a ação clara da pseudociência, é a área da climatologia. É que nós vamos sendo conduzidos a conclusões com base numa análise do clima quase ano a ano quando — qualquer cientista da área nos dirá — conclusões sobre o clima têm que ser baseadas em dezenas de séculos, milénios de dados! As alterações climáticas são muito lentas! Simplesmente não existem alterações radicais de um ano para o outro!

 

Serve isto para apontar o dedo à situação. Não, os incêndios em Portugal não se devem a alterações climáticas. Nem estes, nem os do passado, porque os incêndios têm sido uma marca neste país há décadas a esta parte. Se os incêndios fossem resultado de alterações climáticas, então também aconteceriam em Lisboa, nas grandes cidades, nos parques e nos espaços verdes. Mas não acontecem, pois não? Pensemos nisto. E pensemos também nos eucaliptos que crescem aos milhares em Pedrógão, nas terras queimadas, em Monchique e ao longo de todo o país. Lembremo-nos que os incêndios começaram a ser uma constante no nosso país quando aderimos à União Europeia, então Comunidade Económica Europeia. Já lá vai o tempo! Pode ser uma coincidência, eu sei. Nem me atrevo a referir as empresas de pasta de papel que tão importantes são para o nosso querido produto interno bruto. Tenho consciência disto. Vinha já alguém aí do governo defender a honra dessas e doutras empresas, porque são as empresas e os empresários que importam neste país. O PS sabe-o bem, como sabia o PSD. Pode ser que juntem os trapinhos no futuro. Há tanto o que os une... Agora, o que seria positivo era parar de usar as alterações climáticas como desculpa para os incêndios. Agradecia.

 

Nesta problemática, o que é grave é a verdadeira ciência estar a ser engolida, em largas colheradas, pela pseudociência. Não há, neste particular, propriamente grande motivo para espanto. Se retirarmos a liberdade à ciência para explorar o mundo, investigar os seus processos, chegar às suas conclusões livres de pressões e de constrangimentos, e a sujeitarmos, cada vez mais e cada vez mais aceleradamente, ao condicionamento do poder económico e dos seus interesses, então é perfeitamente natural que a verdadeira ciência deixe de existir, pelo menos na sua plenitude, e se converta em pseudociência. É natural: no final de cada dia, todos nós precisamos de pôr comida em cima da mesa.

A era da pseudociência

por Amato, em 21.01.18

É muito comum referirmo-nos à era moderna como sendo a era do primado da ciência sobre tudo o resto. Mas o que o homem comum desde há muito se habituou a identificar como ciência está mais longe de o ser do que a velhinha alquimia que se praticava nos tempos antigos.

 

Aquilo a que convencionámos chamar de ciência não é mais que um ritual pouco sério e pouco credível. Chamam-lhe método científico e a sua criação foi, no seu tempo, revolucionária. Estabeleceu os princípios para se analisar fenómenos, para se isolar fatores e condicionantes e se poder extrair relações de causalidade efetivas. Nasceu das ciências abstratas e puras e o seu sucesso rapidamente alastrou a todas as áreas do saber, inclusivamente às chamadas ciências sociais e humanas que, por isso mesmo, passaram a exibir orgulhosamente o epíteto “ciência” nunca antes a elas aplicado.

 

A questão é que o método científico não garante nem confere rigorosamente nada a nenhum estudo: não garante qualidade, nem causalidade, nem confere autoridade a nenhuma conclusão que deles se retire. O que faz é estabelecer critérios que mais não são do que bases de aplicação teóricas apenas verificáveis e aplicáveis em trabalhos teóricos de ciência pura. Nas ciências práticas e, sobretudo, nas ciências sociais e humanas, o isolamento de qualquer variável ou a escolha de uma amostra equilibrada é manifestamente impossível o que invalida o método e as conclusões de todo e qualquer estudo. Em bom rigor, estes estudos apenas poderão servir para apontar um caminho ou uma tendência. As suas conclusões reduzem-se a meras sugestões. Isso mesmo: sugestões, não leis.

 

Não é por acaso que a sociedade atual vive assolada por estudos frequentemente contraditórios. Não é por acaso que todos os dias surgem conclusões “científicas” que contrariam as que foram retiradas no estudo anterior. Isto é fruto de um uso errado natural mas também abusivo de um método desadequado. Na era atual governada pela burguesia e pelos seus interesses, a ciência é também uma refém natural. Não só faz um uso do método científico para produzir os resultados esperados pelos seus mecenas como, dentro das suas próprias fronteiras, a competitividade desenfreada e obcecada por resultados rápidos resulta normalmente numa manipulação forçada do método, da escolha enviesada das amostras e num tratamento estatístico abusivo da informação recolhida.

 

Na base de todo o processo reside um objetivo fundamental: o controlo e a manipulação das massas e do seus pensamento. A ciência está reduzida a isto na era moderna: uma pseudociência, uma ferramenta para uma tarefa, um meio para se atingir um fim, longe do conhecimento e da verdade onde a verdadeira ciência deveria residir. Muito longe.

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