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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Povo mole

por Amato, em 14.05.18

Eu não dizia há uns tempos que não valia a pena ficar muito chocado a propósito das crianças do S. João que andam a fazer tratamentos de quimioterapia nos corredores desse hospital do Porto? Eu não disse que não valia a pena alinhar em histerias efémeras? Na altura escrevi: amanhã tudo estará esquecido.

 

E não é que está mesmo?

 

Leio agora esta notícia, com alguns dias de atraso, que refere que este mesmo país destas crianças, pelas quais tanto nos indignámos, e esta mesma cidade deste hospital, em que não há condições mínimas ou verba para obras essenciais, preparam-se para receber uma tal de Climate Change Leadership Porto 2018, uma conferência sobre coisa nenhuma do género daquela Web Summit que se fez em Lisboa há uns tempos, desta feita para discutir gambozinos climáticos sem o mínimo de rigor científico e, para tal, reservaram-se já quinhentos mil euros — 500 000 € — para mandar vir Barack Obama cá dizer que sim, que conseguimos, seja lá o que for que conseguimos.

 

O que ele consegue percebe-se bem, é meio milhão de euros assim, a seco, sem um pingo de suor, basta apresentar aquela cara por cá e dizer duas anedotas para o povo soltar umas risadas. O que nós conseguimos é, talvez, demonstrar o povo mole, mole, mole — mole até dizer basta! — que somos.

 

Sabem qual é o preço de uma selfie com Obama e os nossos vaidosos governantes? Quinhentos mil euros! Sabem quem paga?... Mas esperem pela conferência, esperem pela chegada de Obama! Ainda vamos ver o povo todo em delírio com a coisa, a encher ruas inteiras e a celebrar efusivamente o fenómeno de ter sido roubado.

O partido sem caráter

por Amato, em 05.05.18

Confesso que este PS nunca me deixa de espantar! É como a abertura de uma garrafa de espumante: sabemos bem o que vai acontecer à rolha, já sabemos de cor que a rolha vai saltar, mas isso não evita o susto, não inibe a surpresa!

 

Pois não é que, durante esta semana, o governo do partido socialista encetou uma ação concertada para se demarcar do seu anterior secretário-geral e primeiro-ministro José Sócrates! Foi assim com um punhado de declarações bem afinadas, desde António Costa, passando pela liderança intermédia, até chegar à sargentada, todas, como dizia, bem afinadas pelo mesmo diapasão, o da vergonha, com uma eventual condenação de Sócrates. Creio que António Costa acredita que com isto consegue expurgar a podridão do seu partido, limpá-lo de responsabilidades, lavar-lhe as mãos, os pés e a alma.

 

Desengane-se o leitor, se por acaso julgar encontrar nestas linhas vislumbre de um princípio de manifestação de solidariedade com o senhor engenheiro Sócrates. Não. Nem solidariedade, nem simpatia, nem nada. O que me move é outra coisa: é apontar o dedo à falta de decência, à falta de caráter.

 

Como pode uma trupe composta por ex-ministros de Sócrates, ex-secretários de estado, ex-colegas de governo de Sócrates, ex-defensores acérrimos dos governos Sócrates, ex-vomitadores de elogios bacocos, ex-amigos do peito, virar-se agora contra o homem? Como pode fazê-lo sem que, em simultâneo, assumam a sua própria responsabilidade e conivência com as imoralidades e corrupção que estão em cima da mesa? Os ministros de Costa, ex-ministros de Sócrates, de nada sabiam? De que discutiam nas reuniões e conselhos de ministros? De futebol? Do jogo do dia anterior? E os amigos do peito? Viviam na ilusão? Caíram agora na realidade?

 

Como é que esta sociedade de memórias curtas tolera este tipo de comportamentos? Como é que os jornais não expõem em uníssono esta falta de caráter em gordas de primeira página? Como é que nós, pessoas de bem, somos capazes de olhar mais para a cara desta gente, quanto mais votar novamente no PS? Como permitimos que esta estratégia seja bem sucedida? Como? Acaso seremos feitos da mesma massa? Por ventura, sim. Definitivamente, sim!

Eles dizem descentralização. Eu ouço condenação.

por Amato, em 22.04.18

Em meados do novo milénio iniciou-se um processo célere no nosso país que se consumou numa alteração de estatuto das universidades públicas. Artificialmente constituídas como fundações, as universidades cortaram, mais ou menos conscientemente, com maior ou menor lucidez dos seus reitores, o seu cordão umbilical com o estado que suportava o seu normal funcionamento desde sempre. As dotações diminuíram quase que instantaneamente e as instituições de ensino superior passaram a ter que sobreviver num estado de constante penúria e, sem fundos para sequer suportar a sua própria limpeza, a recorrer ao aumento exponencial de propinas e a outros subterfúgios no limiar da própria lei para garantir serviços e quadros docentes cada vez mais precários.

 

O meu ponto neste artigo não é o reavivar de páginas da história como mero exercício de domingo de manhã. O meu ponto é abordar de uma forma meramente racional esta história da descentralização que o governo PS de mãos dadas com o PSD nos anda a vender ad nauseam ao longo das últimas semanas.

 

É que a história que contava da transformação das universidades públicas em fundações que ocorreu nos primeiros anos de dois mil, não nos foi apresentada inicialmente da forma como eu a descrevi. Não. Surpreendentemente, ou talvez não, o processo foi-nos vendido como uma forma, não de diminuir o financiamento público do ensino superior como se veio a verificar, mas como uma forma de tornar as universidades mais autónomas, mais independentes, capazes de obterem outras e mais formas de financiamento próprio. Esse foi o conto de fadas que os governos da altura nos apresentaram. Já não sei se a palavra descentralização terá sido usada nessa altura, no contexto académico, mas se não foi, bem que poderia ter sido. O conceito de descentralização dos governos burgueses é sempre este: descartar responsabilidades; diminuir o financiamento.

 

Cerca de quinze anos depois, o que está na base deste propalado processo de descentralização que nos tem sido vendido é exatamente isto: o governo central desfaz-se de competências que são suas e que são essenciais às populações e entrega-as às autarquias. Fá-lo com a maior das boas vontades, com uma promessa de autonomização na boca. Mas nós já sabemos o que vai acontecer (lembram-se das universidades?): numa primeira fase, dotará as autarquias das verbas indispensáveis para que estas possam ser capazes de fazer face às suas novas responsabilidades; numa segunda fase, tão breve quanto possível, iniciará uma drástica diminuição das dotações necessárias; finalmente, as autarquias, incapazes de sustentar as suas novas responsabilidades, entregarão, por necessidade ou mesmo por convicção ideológica dos seus líderes de ocasião, essas responsabilidades, esses serviços democráticos, à exploração privada e aos desvarios do lucro empresarial; no final, de um modo ou de outro, ao povo, não restará nada. Se, então, o povo quiser educação, saúde ou transportes, que pague!

 

Os meus leitores que me desculpem, mas isto não é descentralização, nem aqui nem na China, independentemente da perspetiva que se tenha, seja deitado, seja a fazer-se o pino. Descentralização é pegar nos ministérios e nas secretarias de estado e sedia-las no interior e no litoral desabitado. Descentralização é não fechar escolas, centros de saúde, tribunais e correios. Descentralização é levar a cultura a todos os cantos do país e não se contentar apenas com os teatros da capital e com o Centro Cultural de Belém. Descentralização é isto e é muito mais: é, precisamente, o contrário do que todos os governos democráticos têm feito neste país.

 

Pelo contrário, o acordo entre governo e PSD não é mais que a história a repetir-se. É a mais pura baixeza política e sordidez de caráter. Eles dizem descentralização. Eu ouço condenação. Condenação dos serviços públicos, do país e da democracia. Ou do que resta dela.

Os incompetentes não chegam ao poder sozinhos

por Amato, em 27.10.17

Nesta semana o CDS apresentou uma moção de censura ao governo com base nos lamentáveis e dramáticos resultados dos incêndios deste ano. A moção é totalmente justificada e o governo — a sua incapacidade, a sua incompetência — merece toda a censura que é possível tecer. Que esta moção de censura seja esgrimida pelo CDS e pela sua líder Assunção Cristas, isso já é outra história.

 

Enquanto ministra da agricultura e das pescas, Assunção Cristas encarnou o papel da lobista ativa do setor da pasta de papel e da plantação do eucalipto, tendo tido outras responsabilidades diretas na organização da floresta e do território. São absolutamente inequívocas as responsabilidades de Assunção Cristas, enquanto imediatamente anterior ministra, nos fogos deste ano que este governo teve que enfrentar.

 

Pergunto-me como é que a sociedade dá tanto crédito a este CDS e a Assunção Cristas. Não percebo qual a razão que leva as televisões e os jornais a estarem constantemente a dar tempo de antena a um partido com estas inconsistências. Quando era ministra da agricultura, em 2012, Assunção Cristas dizia que ia rezar para que chovesse. Era esta a sua proposta para solucionar o problema da seca que assolava então o país.

 

Se um dia Assunção Cristas chegar ao poder, que não haja histerismos, que ninguém se espante. A sociedade em peso está a contribuir para isso há já algum tempo, desprezando completamente os erros crassos que vão sendo cometidos pela pessoa e a sua incompetência gritante. Os incompetentes não chegam ao poder sozinhos. Levamo-los ao colo.

 

http://maisguimaraes.pt/wp-content/uploads/2017/03/24115015_20461812-1060x594-1038x582.jpg

 

Duas perguntas, uma constatação e uma premonição

por Amato, em 17.10.17

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O que é preciso acontecer para a ministra da administração interna demitir-se?

 

Será que também vai comover-se desta vez?

 

É nestes momentos que vemos como somos um país de faz-de-conta.

 

Tanta falta de responsabilização vai acabar mal, um dia...

O cúmulo da desonestidade política

por Amato, em 09.10.17

Em julho deste ano, portanto há cerca de três meses, a oposição venezuelana convocou ilegalmente um referendo popular que visava colocar em causa a legitimidade política de um governo reiteradamente eleito de forma democrática. O referendo em causa, todavia não seguindo os pressupostos legais, não teve qualquer oposição por parte do estado venezuelano e pôde decorrer com a normalidade possível. Não obstante terem sido violados variados princípios éticos na organização do referendo — as televisões mostravam pessoas a votar nas ruas e sem confidencialidade garantida, por exemplo —, os seus resultados esmagadores contra o governo venezuelano tiveram um eco fenomenal em toda a Europa, particularmente em Portugal e em Espanha.

 

Em síntese, os resultados de um referendo ilegal, mal aplicado, violando princípios básicos de qualquer sistema democrático, foram recebidos com êxtase pelo mundo ocidental e serviram para exigir a demissão a um governo democraticamente eleito, bem como a convocação de eleições antecipadas. Antes de prosseguir, é bom deixar isto bem claro.

 

Volvidos menos de três meses, a Catalunha convocou um referendo sobre a sua independência. O referendo foi, como todos tivemos oportunidade de verificar, fortemente reprimido pelo estado espanhol. Ainda assim, o governo catalão encontrou formas hábeis de conseguir consultar o seu povo.

 

É evidente que, devido à inqualificável ação do governo espanhol, tais resultados não serão representativos, nem o referendo dispôs de todas as condições para ser aplicado com transparência e normalidade. Mas o que é estupendo é que as mesmas forças políticas, as portuguesas e as espanholas, que procuraram legitimar o referendo venezuelano e com base neste exigiram a demissão do governo daquele país chamando-o de “ditadura”, entre outros insultos, são agora lestas a descredibilizar o referendo catalão e a apelidá-lo de “ilegal”.

 

A duplicidade de critérios é absolutamente surreal. Estes políticos — é fácil saber quem são — deviam ser simplesmente proibidos de falar e de exercer atividade pública. São uns crápulas. Ontem ouvi alguns naquele programa de debate, o Eurodeputados da RTP. Houve um que até teve coragem de ensaiar uma resposta indignada perante este mesmo facto que foi apontado pelo eurodeputado comunista.

 

Não há vergonha nem há decência. Não devíamos aceitar este tipo de baixeza na política. Ou sim, ou não. Ou a favor, ou contra. Dizer sim nuns casos e não noutros, ser a favor perante um interesse ou um amigo e contra noutra circunstância, não pode ser. É o cúmulo da desonestidade política.

Cavaco Silva, sem comentários

por Amato, em 06.10.17

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Acontece, até, que eu não votei, porque estava num casamento de um familiar muito próximo na Escócia no próprio dia e por isso só acompanhei já na segunda-feira o que tinha aqui ocorrido.

— Cavaco Silva, 4 de outubro de 2017.

 

Nunca serei capaz de entender perfeitamente como o povo foi capaz de conceder a este personagem vinte anos de poder. Um péssimo exemplo, um horrível exemplo para a nossa “democracia”.

 

Os milhões de portugueses que, eleição após eleição, lhe entregaram o seu voto deviam ser intimados a pedir desculpas públicas ao país pelo que fizeram. Houvesse vergonha...

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Amato

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