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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Um ano após a tragédia dos incêndios

por Amato, em 18.06.18

Sensivelmente um ano após a tragédia dos incêndios no nosso país, governo e Presidente da República desdobraram-se em ações evocativas, inaugurações de monumentos, discursos emotivos e, claro, aquela distribuição abundante de “afetos” que parece ter vindo para ficar.

 

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Passou um ano dos sessenta e quatro mortos de Pedrógão Grande. Ali mesmo, nas encostas negras já crescem a passo acelerado os jovens rebentos de eucalipto plantados indiscriminadamente. A espécie mais nociva para as terras, drenando-as até à última gota de água, desertificando os solos, a espécie mais inflamável que, aliás, se propaga mais rapidamente pelo fogo, espalha-se já que nem uma praga. Representantes governativos defendem a opção. Dizem que é a única espécie cuja plantação dá lucro. É esta a lógica do país: o lucro.

 

A pretexto do lucro, sublinhe-se que a madeira queimada foi bem vendida e deu um bom negócio; os meios aéreos, de eficácia duvidosa e não comprovada, viram os seus contratos de aluguer revistos bem como as suas margens de lucro ampliadas. Neste contexto, as medidas que o estado propôs para resolver o problema não são mais que anedóticas, como não poderiam deixar de ser.

 

Não existe estado, sobretudo no interior abandonado do país. Não existe estado, ponto. Aquilo que existe, a que chamamos estado, é uma estrutura mal organizada, mas altamente burocrática, dirigida para os fins mais errados e mesmo moralmente discutíveis. O estado, sejamos sérios, não serve para fazer rigorosamente nada que não seja a cobrança de multas ou coimas a quem não tem meios para as poder contestar ou delas fugir.

 

Mas não adianta prolongar muito mais este texto. A realidade está aí, à vista de todos. Cresce pelas encostas queimadas de Pedrógão e de modo igual por todo o país. Aqueles que estiveram por detrás dos fogos florestais, dos de 2017 e dos outros, fizeram o seu lucro e continuam por aí, de cabeça erguida, passeando-se pelas mais altas esferas sociais. O resto é conversa, abraços e beijinhos.

Portugal está entregue

por Amato, em 15.05.18

A China prepara-se para controlar completamente e em simultâneo a produção e a distribuição de energia elétrica em Portugal.

 

Quando acabo de ler aquilo que escrevi sinto arrepios de frio na espinha. Mas pergunto-me: serei o único?

 

Um país estrangeiro, jogando o jogo do mercado, que de livre não tem nada, diga-se, está prestes a colocar ambas as mãos num setor vital para a soberania do nosso país e ninguém se atemoriza com a gravidade da situação. Nenhum dos partidos políticos com assento parlamentar, e entristece-me ter que admitir isto, parece muito preocupado. Pelo contrário, PS e PSD, quais melhores amigos reencontrados volvido tanto tempo de afastamento, rejubilam com esta possibilidade de entrada de capital chinês em Portugal. Costa ri-se, Rio ri-se. Riem-se os dois.

 

Serão débeis mentais? Ou será isto o derradeiro apogeu vitorioso desta linha política mercenária que vê isto como o ambicionado corolário de décadas de delapidação do património e setores estratégicos portugueses?

 

Portugal está entregue. Está vendido. Não tem mais nada de seu. Se a China quiser, desliga-nos a tomada. De um dia para o outro. Se não for a China, é outro qualquer. É isto a nossa política. Foram estas as nossas escolhas democráticas.

Isto é capitalismo!

por Amato, em 01.05.18

De todos os partidos com assento parlamentar, o único que produziu uma reação com um mínimo de interesse ao caso de Manuel Pinho foi o PCP. O caso de Manuel Pinho, dos quinze mil euros que, enquanto ministro, recebia da banca privada e dos favores que recebeu por parte da EDP, é, sobretudo, um caso de polícia e de justiça. É passado. Não é pelo facto de estar na ordem do dia, hiperventilado pelos media, que deixa de o ser. Amanhã, à semelhança de tantas outras notícias do género, tudo estará esquecido nesta nossa sociedade de brandos costumes.

 

Mais importante é averiguar o presente. Fundamental seria, em minha opinião, mobilizar todos os meios disponíveis para investigar o estado atual do presente governo, dos seus ministros e secretários de estado e também de cada elemento do parlamento português, das avenças que cada um usufrui, enfim, expor claramente a teia de promiscuidade que existe — não tenham dúvidas de que existe — entre governo e burguesia, plasmar nestes mesmos ecrãs de computador, de tablet, de televisão, o lobismo não declarado, não assumido, que governa o país. Vá, procurem! De certeza que encontrarão, sem muita dificuldade, quem anda agora a fazer os pagamentos. Uma dica: se calhar vêm de Espanha. Não se concentrem no passado! Foquem-se no presente!

 

Isto, sim!, seria interessante. O grotesco da coisa devia ser exposto com tamanha clareza que até fosse capaz de ser martelado adentro das mais néscias cabeças. Caso contrário, é apenas mais um caso para descredibilizar o sistema ao mesmo tempo que se mantém tudo como está.

 

Isto é capitalismo! É assim aqui e é assim em todo o lado! Mas vocês que leem estas palavras sabem bem disto, não sabem? Uma boa parte do país, atrevo-me a especular, ao mesmo tempo que critica Manuel Pinho não se coíbe de pensar: “Este é que a sabia bem! Estivesse eu no lugar dele e não faria melhor!”. Não procurem mais longe: aqui está a razão de ser do tamanho sucesso deste sistema económico-social que governa os povos. Não é liberdade, não é justiça, não é democracia. Não é, sequer, riqueza ou abundância. Com efeito, o sistema capitalista confere-nos muito pouco de tudo isto e muito em desigualdade. A razão de ser do seu sucesso é reduzir os povos humanos à sua natureza mais primária e retrógrada. Não somos mais que bestas selvagens em luta pela sobrevivência, sem ética, sem moral e sem princípios. E gostamos de viver assim.

Preço da gasolina

por Amato, em 24.04.18

Ontem pus gasolina no carro. Paguei mais de um euro e sessenta cêntimos por litro.

 

Sem mais comentários do que este: assim, qualquer um seria considerado o Cristiano Ronaldo das finanças. Em frente, governo!

Dizem que este governo virou a página

por Amato, em 30.03.18

Dos mesmos produtores de Dizem que este governo é de esquerda, chega-nos agora Dizem que este governo virou a página... da governação, da austeridade, do que quer que seja: aceitam-se sugestões!

 

Se as evidências do embuste não se acumulassem já em quantidades insuportavelmente obscenas, a realidade teima em adicionar mais capítulos à sórdida novela.

 

Desta feita, o mais recente capítulo chama-se Novo Banco. Adivinha-se e anuncia-se a injeção de mais oitocentos milhões de euros para prosseguir o resgate de mais um campo de jogos burguês, porque é exatamente isso que um banco é no quadro económico capitalista: uma plataforma de especulação e de jogo económico.

 

O povo paga a fatura.

 

O povo aceita este escândalo.

 

À parte de uma conjuntura favorável e de uma forma diferente de comunicar e de fazer exatamente as mesmas coisas que eram feitas pelo governo anterior, não há, com efeito, nada de substantivamente novo neste governo. Dizem que este governo virou a página... pois dizem! Aguardamos com entusiasmo as cenas dos próximos capítulos.

 

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O agitar hipócrita de bandeiras

por Amato, em 29.03.18

Hoje o pessoal de cabine da Ryanair está em greve e prolongará a sua luta por três dias. Podia ser mais uma greve, legítima, como tantas outras, mas é mais do que isso. As greves são sempre legítimas, sublinhe-se. Saem do bolso de quem trabalha e de quem precisa do dinheiro para sobreviver. Não é mais dia menos dia. Não é como beber um copo de água, como tantos comentaristas serventuários do poder burguês gostam de apregoar aos microfones que sempre lhes colocam à frente de suas bocarras nestas alturas. E, por isto mesmo, por esta natureza da coisa que é factual, as greves são sempre legítimas. Esta greve, todavia, é dotada de um simbolismo que é dramático.

 

A nossa sociedade adora agitar bandeiras. Ergue-as, agita-as, pousa-as. Nada acontece. Nada se passa. Por exemplo, a nossa sociedade indigna-se perante a falta de tempo para a parentalidade, revolta-se perante a apatia das leis, exige mais tempo e mais direitos para pais e mães. As televisões fazem programas dedicados ao tema. Os jornais publicam secções separáveis. As fundações da “sociedade civil” fazem conferências, às vezes, sobre o assunto.

 

Em simultâneo, acontece esta greve da Ryanair.

 

Os trabalhadores revoltaram-se contra a empresa que se recusa a cumprir a lei no que aos direitos de mães e de pais diz respeito. A Ryanair não só não cumpre a lei como persegue os trabalhadores que tentam fazer uso dos seus direitos, mudando-lhes mesmo o posto de trabalho contra a sua vontade. Mais: perante isto, a transportadora ainda ameaça o país em reduzir o seu negócio nos aeroportos portugueses.

 

Ora, a mesma sociedade que se indigna com o tema da parentalidade e dos direitos de pais e mães, coloca-se do lado da Ryanair nesta questão. Veja-se o que passa nas notícias, a cobertura indigna que este tema tem tido, a falta de solidariedade para com os trabalhadores. Erguer e agitar a bandeira é fácil. O que é difícil é ser consequente. O que é difícil é ser coerente.

 

E, sendo coerente, sendo consequente, impõem-se as seguintes perguntas:

 

  1. Para que precisamos nós de um ministério do trabalho, solidariedade e segurança social?

 

  1. Para que serves tu, José António Vieira da Silva?

 

As respostas são evidentes mas estas perguntas devem ser repetidas várias vezes. No fundo, representam a verdadeira natureza do sistema: um estado que existe para suportar o poder económico e que cria ministérios da treta para entreter e distrair a população, como se de oráculos ou circos se tratassem.

 

Aproveito também para relembrar o caso Autoeuropa: sociedade unida em peso contra a luta dos trabalhadores por um horário digno que lhes permitisse passar tempo de qualidade com as suas famílias e, ao mesmo tempo, preocupada com as indecentes ameaças de deslocalização da empresa. Aí, Vieira da Silva mostrou-se preocupado. Aí, Vieira da Silva falou e apelou ao bom senso dos trabalhadores. Ninguém se indignou com a imposição dos horários aos trabalhadores por parte da Autoreuropa que se seguiu. Agora, toda a gente acha natural que a Autoeuropa esteja parada, pela segunda vez, por falta de peças. Agora, Vieira da Silva não fala. Agora, Vieira da Silva não pede bom senso.

 

Esta hipocrisia é chocante. Mas nós gostamos.

Ninguém compreende Nash

por Amato, em 29.12.17

John Nash foi um matemático brilhante que marcou a ciência sobretudo pelos seus estudos em Teoria de Jogos. As aplicações da sua teoria inovadora valeu-lhe, em 1994, a atribuição do Prémio Nobel em economia. Mas que teoria foi essa afinal?

 

John Nash

 

A Teoria de Jogos é um ramo da Matemática que se preocupa com o estudo de jogos num sentido lato do termo, isto é, por jogo devemos entender uma competição entre duas ou mais partes. Nash dedicou-se particularmente aos jogos não cooperativos, onde, genericamente, cada parte atua individualmente em competição. Ao contrário do paradigma até então que defendia que cada parte competia pelo prémio máximo procurando eliminar os adversários dessa forma retirando-lhes qualquer ganho, Nash defendeu na sua tese de doutoramento que, pelo contrário, as partes tendiam a chegar a um entendimento, ou acordo, que permitisse a todas não perder e a garantir ganhos estáveis e repartidos. Este entendimento é chamado de equilíbrio de Nash e as suas aplicações à economia são evidentes. Mais: a existência do equilíbrio de Nash é natural e espontâneo: chama-se cartel ou cartelização. A título de exemplo, veja-se o que sucede com o preço da gasolina previamente acordado por todas as marcas fornecedoras. É igual, não é? Mas não devia ser. É o equilíbrio de Nash!

 

O problema é que ninguém compreende Nash, verdadeiramente. Ninguém compreende o alcance da sua teoria e do seu equilíbrio, por muitas vezes que vejam Uma Mente Brilhante. O equilíbrio de Nash diz-nos uma coisa tão simples quanto isto: a existência do mercado livre é uma mera abstração. Não tem correspondência com o real.

 

No ano novo que aí vem vamos ser confrontados novamente com uma nova manifestação do equilíbrio de Nash. Face aos aumentos obscenos das tarifas da eletricidade na EDP que se anunciam, os nossos governantes, impotentes e serventuários perante o poder económico, mandam-nos procurar alternativas na concorrência. Vamos, então, ficar muito admirados quando comprovarmos que toda a chamada “concorrência” do mercado da eletricidade vai oferecer preços muito semelhantes aos praticados pela EDP.

 

É o capitalismo no seu esplendor! Nash explica-o.

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