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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Que força é essa, amigo?

por Amato, em 13.10.19

 

Vi-te a trabalhar o dia inteiro,

Construir as cidades p'ros outros,

Carregar pedras, desperdiçar

Muita força pra pouco dinheiro,

Vi-te a trabalhar o dia inteiro,

Muita força pra pouco dinheiro.

 

Que força é essa que força é essa que trazes nos braços?

Que só te serve para obedecer que só te manda obedecer?

Que força é essa, amigo?

Que força é essa, amigo,

Que te põe de bem com outros e de mal contigo?

Que força é essa, amigo?

Que força é essa, amigo?

Que força é essa, amigo?

 

Não me digas que não me compr'endes

Quando os dias se tornam azedos,

Não me digas que nunca sentiste,

Uma força a crescer-te nos dedos,

E uma raiva a nascer-te nos dentes,

Não me digas que não me compr'endes.

 

Que força é essa que força é essa que trazes nos braços?

Que só te serve para obedecer que só te manda obedecer?

Que força é essa, amigo?

Que força é essa, amigo,

Que te põe de bem com outros e de mal contigo?

Que força é essa, amigo?

Que força é essa, amigo?

Que força é essa, amigo?

Ensaio sobre primeiras impressões

por Amato, em 27.01.19

Esta semana que passou, a quarta de janeiro de 2019, ficará para sempre marcada na minha memória. Tomei verdadeiro conhecimento do génio, não de um, mas de dois excecionais compositores: Johannes Brahms e Sergei Rachmaninoff.

 

A verdade é que eu já tinha tido contacto com estes dois vultos gigantes da história da música no passado, porém, nunca lhes tinha dedicado especial atenção. Talvez pela menos avisada juventude desses meus anos, talvez pelas circunstâncias inerentes ao próprio contexto, eram compositores que tinha, de certo modo, rejeitado às primeiras audições. De Brahms havia permanecido, dentro de mim, a ideia de um compositor austero, rígido, revivalista, um pouco contra natura no seio do movimento romântico, de harmonias pesadas e esgotantes, ao passo que Rachmaninoff sempre me soou demasiado complexo, de harmonias e melodias difíceis de interiorizar, carregado e abafado em virtuosismos excessivos que me soavam a exibicionismo bacoco e, até mesmo, pouco musical, mas próprio em meados do século XX.

 

A meio da semana, todavia, dei por mim a enamorar-me por uma obra maravilhosa que ouvi na Antena 2, num programa chamado Véu Diáfano, de Pedro Amaral, uma obra de uma delicadeza melódica, de uma eloquência lírica, um tema inebriante e, no final, não pude crer nos meus sentidos quando ouvi o nome da mesma e do seu compositor: era a 3ª sinfonia de Brahms, aquele mesmo que eu considerava aborrecido e pesadão. A 3ª sinfonia é, com efeito, um exemplo perfeito para ilustrar a entrada enciclopédica obra-prima e o seu terceiro andamento é de uma beleza particularmente tocante.

 

No final da semana, apanhei a meio, na mesma rádio, um programa interessantíssimo chamado Ecos da Ribalta do melómano João Pereira Bastos. Neste último episódio, dedicado à lendária pianista grega Gina Bachauer e a um concerto que esta dera no Tivoli em 1969, enamorei-me de um concerto para piano e orquestra que me fazia lembrar as sonoridades da banda sonora de Lawrence da Arábia, mas, claro, mais requintado, com uma textura mais sólida e robusta, com mais sumo, com mais substância. O concerto era o nº 2 de Rachmaninoff, aqueloutro compositor que eu havia considerado complexo e demasiado virtuoso e, assim mesmo, havia arrumado numa gaveta da memória.

 

Quer num quer noutro caso, tivesse eu tido conhecimento do nome do compositor antes de ter sido exposto à beleza das obras e provavelmente teria desligado a rádio e, com isso, permanecido na minha ignorância. O destino quis que não fosse assim e que hoje eu pudesse ser um ser humano um pouco mais rico, tendo me dado, também, uma importante lição.

 

Isto é exatamente o problema das primeiras impressões e o meu é um bom exemplo para esta sociedade de primeiras impressões que nos envolve, de julgamentos a priori, de pouco juízo, de pouca reflexão e de muita e célere sentença. Chamemos-lhes primeiras impressões que é para não lhes chamar de preconceitos ou de coisa pior. Elas partem de cada um de nós, mas também retornam e atingem-nos de volta. É, assim, uma espécie de bullying psicológico coletivo para o qual todos contribuímos de algum modo. E não serve para nada, se não para nos amordaçar os pulsos e os tornozelos, no que ao conhecimento diz respeito, e para nos impedir de sermos verdadeiramente livres.

 

O clã Bach e a perceção do sucesso

por Amato, em 20.01.19

Pensem no universo de todos os melómanos deste mundo, daqueles com, pelo menos, médios conhecimentos ou razoáveis noções em música clássica. Imaginem que escolhem um elemento deste conjunto, ao acaso, e lhe pedem que enumere os três compositores que considera serem os mais marcantes na história da música, aqueles que, independentemente das suas preferências particulares, considera ser os mais revolucionários, os percursores da técnica, os definidores de um paradigma musical. Se tudo isto fizermos, é muito provável que, entre os três nomes da lista, conste o nome de Johann Sebastian Bach, o mestre dos mestres do Barroco.

 

É natural que assim aconteça. O contrário implicaria que o nosso melómano escolhido não entendesse muito do assunto ou estivesse investido de uma postura sobre o tema intelectualmente pouco séria. Com efeito, Johann é hoje em dia um dos compositores mais tocados, mais estudados e mais reconhecidos globalmente. Sobre a sua obra inúmeros outros grandes compositores nasceram e sobre o seu legado ergueram-se novas linguagens musicais. Não existe um aprendiz de música, seja qual for o seu instrumento de eleição, que não dedique uma considerável parte do seu tempo de estudo às obras originais de Bach ou a adaptações, nos casos em que Bach não tenha composto particularmente para esses instrumentos.

 

É curioso perceber que esta notoriedade contemporânea de Johann, que é extraordinária, não tem qualquer relação com a fama que o compositor (não) gozou em vida. Johann Sebastian Bach foi um dos compositores mais profícuos de toda a história da música. Do acervo da sua obra constam mais de mil composições conhecidas de índole sobretudo sacra, ele que foi mestre de capela das principais catedrais alemãs do seu tempo. Sublinho aqui a palavra 'conhecidas'. Efetivamente, o tempo de Johann era o tempo da improvisação por excelência e não o tempo da escrita e reprodução rigorosas das obras em papel de pauta. Esse tempo é posterior ao de Johann e, por isso, é natural que às tais mais de mil composições que se conhecem, possam ser adicionadas outras tantas, pelo menos, ao número de obras que o compositor terá, de facto, composto ao longo da sua carreira.

 

Como dizia, não perdendo o fio à meada, é curioso perceber que Johann foi, em vida, um compositor de popularidade residual. O povo, o mais ilustrado e o nem tanto, considerava-o um compositor austero, rígido, demasiado ortodoxo, agarrado a um contraponto antigo que já estava a sair de moda e que já ninguém estava interessado em ouvir. Johann, bem entendido, era um reputado professor da arte da improvisação e do contraponto e, enquanto compositor, era bastante considerado nas esferas religiosas onde essencialmente se movia. O que Johann não era, e nunca foi, era um compositor popular. Nenhum nobre encomendava as suas obras para seu entretenimento privado. Nenhum mecenas mostrou interesse na sua música. A isto Johann referia-se com desprezo, não se sabe se genuíno ou se por despeito, dizia qualquer coisa como que a sua música servia para agradar a Deus e a Deus apenas e se acontecesse ser apreciada pelo público, sendo absolutamente indiferente, seria tanto melhor.

 

Johann, fervoroso devoto como era, cumpriu a sua “obrigação” conjugal bíblica a preceito e produziu abundante prole. De entre os seus vinte filhos provindos dos seus dois casamentos, alguns seguiram as pisadas musicais do pai prolongando, aliás, uma tradição que já começara no trisavô de Johann, Veit Bach. Os dois que obtiveram maior sucesso foram Carl Philipp Emanuel Bach e Johann Christian Bach. Ao contrário do pai, Carl Philipp e Johann Christian abraçaram as novas tendências musicais e o novo estilo ao qual se chamaria de Classicismo e que viria a substituir de vez o velho Barroco que já se prolongava por quase dois séculos no panorama musical europeu. Os dois, mas sobretudo Carl Philipp, granjearam incomensurável fama, sendo constantemente solicitados e patrocinados para animar as festas dos nobres e dos abastados da sociedade alemã setecentista. Carl Philipp e Johann Christian eram, assim, as estrelas pop do seu tempo, contrariamente ao pai, Johann, que era, quanto muito, um artista menor conhecido apenas no austero contexto religioso luterano.

 

Passados mais de duzentos anos, falar em Bach é falar de Johann Sebastian Bach. A História dedicou a Carl Philipp e a Johann Christian honrosas notas de rodapé nas páginas que abordam a música na segunda metade do século XVIII. Dedicou-lhes isso e nada mais do que isso, ao passo que ao pai, Johann Sebastian, entregou a imortalidade dentro de uma taça dourada. Carl Philipp e Johann Christian também são estudados e tocados, é certo, mas apenas circunstancialmente e, sobretudo, em certos círculos pelos amantes exaustivos da época. Carl Philipp, inclusivamente, é hoje mais conhecido por um tratado que escreveu sobre como tocar instrumentos de tecla, cravo, clavicórdio e piano forte, leitura obrigatória para todos os pianistas ainda hoje, do que propriamente pelas suas composições musicais.

 

O exemplo do clã Bach não é original e, aliás, vai-se repetindo ao longo da história da música, da pintura, da literatura, da arte em geral, mas também em outros domínios muito diversos da atividade humana, como a ciência. Não raras vezes, o valor das coisas, isto é, a sua relevância, a sua influência na vida, nas sociedades, para as gerações vindouras, parece ser inversamente proporcional ao sucesso que têm e à notoriedade com que são recebidas. As massas parecem atribuir um maior valor àquilo que as entretém, àquilo que é novo, que soa a novo ou que, simplesmente, parece novo, talvez porque o que parece novo melhor entretém. O sucesso é medido na efémera escala do entretenimento. Cada vez mais, os artistas atingem níveis cada vez maiores de sucesso para serem completamente esquecidos no final de uma década.

 

A história do clã Bach faz-me refletir sobre o que me rodeia. Nesta sociedade cada vez mais dedicada ao entretenimento vazio, cada vez mais fugaz, sem memória e sem compromisso coletivo, sem solidariedade, enfim, se acaso nos fosse dado a escolher, creio que a maioria de nós escolheria ser Carl Philipp ou Johann Christian, em vez de Johann Sebastian Bach. O nosso propósito individual e de vida é mesmo esse. Nascemos e morremos para este sucesso sem significado e mais nada. Nascemos e morremos para ter sucesso e ter sucesso, para nós, é ser um contemporâneo bobo de corte, é entreter, é ser ator, cantor, modelo ou jogador da bola. É aparecer. Porquê? Não interessa. O que fazemos com esse sucesso? Não interessa. O sucesso parece ser coisa que é fim em si mesma. E nós sentimo-nos bem sucedidos, orgulhosos de nós próprios.

Consciência de si

por Amato, em 23.10.18

Desde muito cedo, quando este blog ainda mal tinha acabado de ser lançado, criei a tag “consciência de si” para classificar as temáticas de alguns dos primeiros posts que ia escrevendo. Volvidos mais de quatro anos sobre esses posts, a tag “consciência de si” é uma das mais usadas neste blog. Parece que quase tudo quanto escrevo acaba por levar esta etiqueta. Não se trata de uma questão estilística, no entanto.

 

Uma das coisas que mais me fascina na humanidade é a frequente falta evidente desta qualidade. Não temos consciência do que somos. Não conseguimos observar a nossa condição desde fora, desde longe. Fruto talvez da nossa ilimitada imaginação, somos capazes de criar qualquer mundo fantástico, qualquer história ficcional, de imaginarmos o que quer que queiramos ser, e, nesse processo, perdemos a noção do chão que pisamos, de onde estamos, do que somos e de para onde vamos.

 

Paralelamente, julgamo-nos sempre de outro modo diverso do que aos outros. Somos diferentes e especiais. O que se diz dos outros não se aplica à nossa pessoa. Porque a nossa pessoa é diferente. Porque a nossa pessoa é especial.

 

Escrevo estas palavras a propósito de umas declarações que li de Bolsonaro, o energúmeno que se prepara para ascender ao poder no Brasil. Disse ele, com todas as palavras, que “vamos fuzilar a pretalhada”, “acabar com os subsídios” [da pretalhada] e que vai imperar “a lei do lombo” [para a pretalhada].

 

Esqueçamos, por ora, para não arruinar a prosa, o caráter ofensivo e racista da palavra. O que mais me fascina no meio disto tudo é pensar que Bolsonaro vai ganhar as eleições num país onde a esmagadora maioria da população é mulata ou negra, o que me leva a admitir o óbvio: quando os negros ou mulatos ouvem a palavra “pretalhada”, devem pensar que é para os outros, para o amigo do lado. Deve haver sempre alguém com a tez mais escura, afinal. Os brasileiros acham que “pretalhada” é para os outros. Cada brasileiro deve considerar-se branco, caucasiano até. Os outros todos é que são negros!

 

Vem-me à memória aquela frase de John Steinbeck:

 

“O socialismo nunca formou raízes na América porque os pobres vêem-se a si próprios não como proletários explorados mas como milionários atravessando um período difícil.”

 

E vem-me também à memória aquele poema de Bertold Brecht:

 

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

 

O ser humano é assim mesmo. Nunca é connosco. É sempre com os outros. Quando reparamos que é connosco é sempre tarde demais. Não temos consciência do que somos.

Regina, memórias de uma atriz

por Amato, em 11.10.18

Uma das atrizes brasileiras pela qual desenvolvi um maior apreço ao longo dos anos foi, indubitavelmente, Regina Duarte. Na sua época dourada, Regina desempenhou múltiplos excecionais papéis em novelas como Rainha da Sucata ou Roque Santeiro. As suas novelas chegavam a Portugal em abundância, sobretudo nos anos oitenta e noventa, e, naturalmente, a atriz criou profundas raízes junto dos portugueses e eu não constituo aqui exceção.

 

De entre todos os papéis da atriz, guardo no coração um em particular: o papel de Chiquinha Gonzaga, personagem principal de uma minissérie homónima que contava a vida da compositora e maestrina Francisca Edwiges Neves Gonzaga. “Chiquinha”, como ficou conhecida, dedicou a sua vida à música brasileira, desenvolvendo e solidificando estilos musicais característicos do Brasil, como o samba ou o choro. Deste último estilo, Chiquinha Gonzaga pode ser considerada como criadora e pioneira, tendo sido a primeira pianista de choro de que há registo.

 

Simultaneamente, Chiquinha Gonzaga foi uma lutadora corajosa e obstinada contra o conservadorismo da sociedade em que vivia, tendo colocado a sua música ao serviço do ativismo pelo abolicionismo da escravatura, pelos direitos das mulheres, pela liberdade cultural.

 

Esta minissérie marcou-me tanto, tocou-me tão profundamente, que me levou a associar Regina, a atriz, pelo excelente papel que aqui desempenhou, às tendências políticas mais progressistas. Não poderia estar mais afastado da realidade.

 

Há uns anos, aquando de uma eleição, já não sei se de Lula ou se de Dilma, ouvi de Regina umas declarações sinistras, de conservadorismo provinciano e bafiento, que me deixaram entre a surpresa e a perplexidade. Dizia, então, Regina, que estava com muito medo da vitória do PT. Agora, Regina sai definitivamente do armário, assim como muitos outros seus conterrâneos, e apoia declaradamente, abertamente, essa figura grotesca que abana o mundo de cada vez que abre a boca e que chamam de Bolsonaro.

 

É preciso que se enfrente a realidade conforme ela se nos é apresentada: há uma grande parte da população brasileira que é a favor da pena de morte, da liberalização do porte de armas, da desigualdade de género, da homofobia, dos baixos salários, da precariedade ou terceirização como se diz no Brasil, da perseguição das pessoas pela sua opção sexual, política ou religiosa. Bolsonaro afirma cada uma destas coisas sem rodeios, sem metaforização. Trata-se de um indivíduo tão reacionário, tão abjeto, que é difícil encontrar justificações ou eufemismos para a coisa ou para quem o está a carregar em ombros até ao poder no Palácio do Planalto.

 

Descansem, todavia, irmãos brasileiros, pois não vos considero espécie única. Por todo o lado se vê uma admiração, mais ou menos disfarçada, pelo personagem. Os chamados media de referência, nomeadamente os portugueses, já têm dificuldade em disfarçar o fascínio que nutrem por Bolsonaro e dedicam-lhe uma redobrada atenção que não dedicam a mais nenhum político brasileiro.

 

Ainda tenho dentro de mim a imagem de Regina desempenhando o papel de Chiquinha Gonzaga e a forma heroica como, com a sua música, com os seus “chorinhos” ao piano, combatia o conservadorismo que impedia o divórcio, o aborto e legitimava a violência doméstica sobre as mulheres. Ainda tenho isso dentro de mim. Agora, volvidas décadas, Regina, a atriz, apoia um indivíduo que personifica o que de mais retrógrado existe na humanidade e no que, em particular, aos direitos das mulheres diz respeito.

 

Se Chiquinha Gonzaga fosse viva, tocaria contra Bolsonaro.

 

Lembro-me do verso de Pessoa: O poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente.

 

Que tolo que sou. Julgava eu, na minha ignorância, que o verso servia apenas para poetas...

O estado da arte em 2018

por Amato, em 15.07.18

Hoje de manhã, ainda mal tinha acordado, dei por mim a percorrer a entrevista do Público ao novo diretor do Museu de Serralves, João Ribas. Foi curiosidade pura para colmatar a minha falta de conhecimento do personagem, mas também para desvendar um pouco, aspirava, do véu da direção artística do museu de arte contemporânea, o que, para a maioria de nós, é sempre de difícil acessibilidade.

 

Não cheguei ao fim da dita entrevista, confesso. Não tive estômago para continuar. Fiquei a saber que, para as entrevistadoras, Inês Nadais e Isabel Salema, as prementes questões sobre o museu, a sua oferta e a sua direção artística, são, por esta ordem, o facto do museu não ter na sua agenda a exibição de obras da Joana Vasconcelos; o facto de não existir paridade na promoção de artistas homens e artistas mulheres em Serralves; e o facto de haver pouca representatividade de corpos negros ou figuras negras.

 

Para mim, é cada vez mais difícil digerir esta realidade em que tudo é reduzido a números perfeitamente artificiais, em que tudo é avaliado por um sistema de quotas que pouca ou nenhuma relação com a realidade tem. Cada vez mais, ao que parece, perde-se o valor intrínseco das coisas. Na arte, em particular, que devia ser o espaço máximo de liberdade, as obras são sujeitas a um escrutínio a montante que nada tem a ver com o seu valor enquanto obra, enquanto objeto artístico.

 

Há tantas obras de mulheres quanto as de homens? As raças estão representadas equitativamente? A obra não é sexualmente ou religiosamente ofensiva, de algum modo? Já agora, o Cristiano Ronaldo está representado no museu? E a obra, é da Joana Vasconcelos?

 

Mas em que é que isto é relevante em termos artísticos? Em quê?!

 

Em nada.

 

Novamente, trata-se da manifestação de um politicamente correto mesquinho e profundamente ignorante que parece invadir todos os domínios da atividade humana. Mas não se enganem: este politicamente correto é parcial, é controlador dos conteúdos, inquina o pensamento e a reflexão das sociedades. É feroz opositor da liberdade. Este politicamente correto é detergente eficaz de lavagem cerebral.

 

É isto que temos. Quem diria que as sociedades ocidentais, apregoadas baluartes da democracia e da liberdade, se revelassem tão eficientemente castradoras da arte e das suas manifestações.

Para quê?

por Amato, em 08.06.18

Thomas Mann

 

O homem não vive somente a sua vida individual; consciente ou inconscientemente participa também da sua época e dos seus contemporâneos. Até mesmo uma pessoa inclinada a julgar absolutas e naturais as bases gerais e ultrapessoais da sua existência e que dá ideia de as criticar tão objectivamente como Hans Castorp, pode facilmente sentir o seu bem-estar moral um tanto diminuído pelos defeitos inerentes a essas bases. O indivíduo pode visar numerosos objectivos pessoais, finalidades, esperanças, perspectivas, que lhe dêem o impulso para grandes esforços e elevadas actividades; mas quando o elementos impessoal que o rodeia, quando o próprio tempo, não obstante toda a agitação exterior, carece no fundo de esperanças e perspectivas, quando se lhe revela como desesperador, desorientado e sem saída, e responde com um silêncio vazio à pergunta que se faz consciente ou inconscientemente, mas em todo o caso se faz, a pergunta pelo sentido supremo, ultrapessoal e absoluto, de toda a actividade e de todo o esforço, então tornar-se-á inevitável, precisamente entre as naturezas mais rectas, o efeito paralisador desse estado de coisas e esse efeito será capaz de ir além do domínio da alma e da moral e de afectar a própria parte física e orgânica do indivíduo. Para um homem se dispor a empreender uma obra que ultrapassa a medida do que é usual fazer-se, sem que a época saiba dar uma resposta satisfatória à pergunta «Para quê?», é indispensável ou um isolamento moral e uma independência, como raras vezes se encontram e têm um quê de heróico, ou então uma vitalidade muito robusta. Hans Castorp não possuía nem uma nem outra dessas qualidades e portanto deve ser considerado medíocre, posto que num sentido inteiramente louvável.

 

— Thomas Mann, A Montanha Mágica

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