Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

O artista e a sociedade

por Amato, em 09.12.14

A era moderna trouxe na algibeira uma explosão cultural. Essa explosão teve uma forte carga revolucionária: nunca se escreveu tanto, nunca se produziu tanta música, nunca se fizeram tantos filmes, nunca como agora. Contudo, existe uma parte, com precisamente igual peso, que é puro fogo de artifício: fogo para iluminar a vista e distrair o olhar.

 

No sentido de contrariar o potencial transformador desta realidade os órgãos de poder que presidem aos destinos do Homem encontraram uma forma simples e genial: a propaganda e a mediatização de preferências. Estes instrumentos permitem orientar os “gostos” das massas de forma tão eficaz como se de um pastor e seu rebanho se tratasse.

 

Este processo conduziu a uma mutação da forma como se encara hoje o artista. O artista do vigésimo século, aquele que havia chamado a si o papel reflexivo e transformador da realidade que então o rodeava, não existe mais. Nos dias que correm a perceção dominante é a de um homem comum, não necessariamente particularmente dotado, que, abençoado pelo acaso, produz uma obra capaz de entreter.

 

Entreter. O entretenimento é, aqui, a palavra-chave. O artista deve produzir histórias que entretenham, imagens ou sons que regalem os sentidos. Não são bem vistos aqueles que tomam partido por algo que não seja tão trivial como matar a fome ou a sede.

 

Assim, nos dias de hoje, a obra de arte deve ser algo tão inerte como um gás nobre. Deve-nos entreter com algum assunto pseudo-fraturante, tão tenuemente aprofundado quanto possível, que nos permita a emissão de opinião fácil e, em simultâneo, que assim perdure na memória enquanto cliché mas que, enquanto substância, seja objeto de esquecimento imediato.

 

No final de contas, a era moderna produzirá menos grandes artistas do que aquela explosão cultural de que falava faria supor, não porque eles não existam, os verdadeiros, aqueles que colocam em causa os axiomas e os paradigmas desta sociedade, mas porque se encontram tão abafados e escondidos, sob quilos de camadas dos outros artistas que hoje se produzem, que a sua descoberta, daqui por duzentos anos, constituirá uma tarefa de acrescida dificuldade.

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Amato

foto do autor

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D

Mensagens