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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Ensaio de uma compreensão

Sem menosprezo por nada do que foi escrito anteriormente neste blog, bem pelo contrário, abraçando cada declaração, compreendendo cada facto e cada estado de alma, cada um dos quais plenamente justificado, importa tentar perceber a raiz deste estado de coisas. Importa tentar encontrar uma resposta para a pergunta/exclamação produzida há dois posts atrás:

 

“O desfasamento entre as perceções que se tem da realidade é tremendo. É horrível. Volvidas mais umas eleições tão importantes, tão determinantes, para o futuro do país, apetece perguntar onde estão todos os que perderam os seus empregos, todos os que viram os seus salários cortados, todos os da geração dos call center, os dos quinhentos euros, mais todos os que viram os seus filhos e netos partir para a emigração? Onde estão?! Existem?!”

 

Para extrair tal resposta, tal ensaio de compreensão, diminuímos o zoom, observamos o país desde mais atrás através da lente da História.

 

Devemos ser justos: o país está pior, mas não está assim tão pior. E o que é isso de pior? Pior em quê? Digamos que uma secção da sociedade, que se situa algures na classe média, viu os seus rendimentos diminuídos. O mundo do trabalho por conta de outrem pagou a crise com o aumento dos seus impostos ordinários e com outros impostos extraordinários em vias de normalização. Houve, todavia, uma grande aceitação desta austeridade. A propaganda germinou nestas vítimas uma ideia de culpabilidade que é superlativa e poucas foram as vozes que se levantaram. Mesmo o levantar de algumas vozes é operado com base num sentimento de pertença e de propriedade e não com base no sentimento mais sublime de justiça. O resto da sociedade vive sensivelmente do mesmo modo. A geração dos quinhentos euros e dos call center não nasceu, em rigor, com este governo e, novamente, mobiliza-se num sentimento de indignação direcionado não ao sistema mas aos que ainda detêm alguma segurança no trabalho. Esta situação é, em boa verdade, um resultado natural de se ter promovido uma luta social de inveja entre as diferentes classes trabalhadoras. E esta promoção, este estado mental, não é de agora. A classe mais elevada nunca enriqueceu tanto como nestes anos, mas também aqui, existe uma aceitação pelo facto. No fundo, bem lá no fundo, os princípios do capitalismo nunca estiveram tão fortes, tão enraizados, no seio da população portuguesa. O povo indigna-se contra si próprio, o braço indigna-se contra a perna e a perna contra a orelha e a orelha contra a boca. Os olhos, esses, permanecem cegos.

 

Portugal está pior? Está. Mas quem que por cá continua vai-se safando. Os centros comerciais continuam cheios, as estradas continuam apinhadas, os bancos continuam a fazer muito dinheiro à nossa conta. E, no fundo, todos adoram este sentimento, esta ilusão, de liberdade que o sistema capitalista produz. Caminhemos, portanto, alegremente em direção à próxima crise.

publicado às 10:49

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