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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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As partes do capitalismo

por Amato, em 29.07.15

 

Tudo no capitalismo é ilusão. Tudo. Do princípio ao fim. A cabeça, o tronco e os membros.

 

Vamos à cabeça.

 

A ilusão começa na ideia de progressão social. Ou melhor: na possibilidade de progressão social.

 

O capitalismo é a ilusão de um sistema de competição pura, livre e justa; é a ilusão de um jogo em que qualquer um pode vencer, não obstante a sua origem e as suas condições aprioristas.

 

A probabilidade de vitória no jogo, a probabilidade real, até pode ser qualquer coisa como de um para um bilião, mas não interessa. A ilusão de vencer na vida, por muito retorcido que seja esse conceito no mundo capitalista, é o suficiente para fazer ferver o sangue e... jogar o jogo.

 

O tronco.

 

Há também uma ilusão obtusa de justiça associada ao jogo capitalista, como se os guetos sociais que resultam evidentes do jogo competitivo, fossem uma mera miragem aos olhos do jogador. Para este, independentemente do seu posicionamento no tabuleiro, tudo é justo e tudo é bom. A ilusão que resulta é que o capitalismo parte e reparte da forma mais honesta possível, mesmo que essa honestidade se manifeste num rácio medonho de distribuição de riqueza: menos de um ponto percentual da população mundial detém cerca de metade da riqueza produzida em todo o mundo!

 

Os membros.

 

E no final de todas estas ilusões emerge a maior de todas elas: a ilusão de que o sistema é consistente, que, de alguma forma mágica, a engrenagem funciona sempre, sem problemas sistémicos ou de outra ordem. Mais: existe agora a ilusão, parida desta última crise financeira, de que, não fora a falibilidade inerente ao ser humano, a máquina capitalista seria perfeita, isto é, nada que com uma dose adequada de “supervisão” não seja corrigido. Esta é a ilusão das ilusões, uma ilusão que persiste, tenaz, não obstante todas as crises recorrentes, sistémicas, que traduzem a evidência de que o capitalismo não é nada mais, nada menos, do que aquilo que em Matemática se chama de um sistema dinâmico que rapidamente converge para o monopólio, para a sobreprodução, para a exaustão de recursos e, ultimamente, para a sua própria implosão.

 

E é assim o capitalismo, um sistema de cabeça demente, iludida, de tronco tenro, débil e raquítico, e membros incapazes, podres como leprosos. Isto é o que podemos sentir, ver, ouvir e cheirar. Mas não há órgão do sentido, seja o tato ou paladar, a visão, a audição ou o olfato, que se sobreponham a um sentido mais íntimo, mais primário, uma ideia de ser, uma ilusão, um sentido que seduz e governa todos os outros. E é nesse sentido, nessa ilusão, que radica o sucesso do capitalismo.

 

Quando essa ilusão se esfuma, o que nem sempre sucede, somos já demasiado velhos e cansados para fazer alguma coisa por isso. E, no processo, tornámo-nos demasiado egoístas para nos preocuparmos, tão materialmente egoístas que nem morrer em paz podemos.

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Amato

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