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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

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A regra

por Amato, em 18.06.15

 

Vale tudo para vender, sobretudo para os “grandes”. Essa é a regra. Passei agora por uma padaria que dizia “Fabrico próprio. Forno a lenha.” quando, na verdade, apenas o processo de cozedura do pão é, eventualmente, ali feito. A massa de pão é produzida, na maioria dos casos, em processo de série de fábrica para, depois, ser distribuída pelas padarias do país. Algumas fazem questão de acrescentar um ou outro ingrediente mas, essencialmente, o pão que comemos vem da mesma fonte, feito com os mesmos ingredientes e na mesma proporção. A frase “Fabrico próprio” é, portanto, publicidade descaradamente enganosa.

 

Isto fez-me pensar que o adjetivo “enganosa” faz parte do substantivo “publicidade” tanto quanto o “branco” faz parte do “cisne”, porquanto da dificuldade manifesta em encontrar espécimes de outras cores. Então, lembrei-me da nomenclatura light tão em voga nos dias de hoje. Para que um produto possa ostentar a nomenclatura light, basta que reduza nuns meros e insignificantes pontos percentuais a quantidade de calorias em algum seu componente, mesmo que resquicial no panorama geral de ingredientes do produto. Algo do mesmo género, imagino, se passará com outras nomenclaturas como bio, agricultura biológica, ou carne do campo, pescado em alto mar, etc. Desconfio de todas elas porque, em última instância, a lei coloca-se do lado do lucro e permite as interpretações mais obscuras dos conceitos por mais estapafúrdias que possam ser. Não interessa, portanto, a interpretação lógica que fazemos dos adjetivos em causa. Estes cumprem primeiramente a missão de nos impingir os produtos que se pretende vender.

 

Mas existe um outro objetivo subliminar nestes rótulos, um objetivo mais geral e profundo. Esse objetivo é fazer crer às massas que este imperfeito sistema, governado pelo lucro e pela premissa do “vale tudo”, poderá ser corrigido com a ideia de que existe supervisão e controlo sobre cada tentáculo emergente. Esse controlo apresenta-se aos nossos olhos sob a forma destes rótulos, destas etiquetas e fazem-nos crer... A realidade, contudo, é menos sofisticada, é mais pragmática. O polvo consome os recursos materiais e humanos até à exaustão e sem precaver a sua sustentabilidade. Do que necessitamos, verdadeiramente, é de uma alteração filosófica de paradigma que governe uma transformação prática da sociedade desde as suas fundações. Apenas então será sensato proceder às afinações do sistema que a evolução da humanidade sugira.

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