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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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A história é contada pelos vencedores das guerras

por Amato, em 10.11.14

Houve um tempo em que tive um professor genial. Uma vez, imediatamente antes de uma aula principiar, trocámos dois dedos de conversa sobre literatura. Eu falava-lhe de um romance histórico de cuja leitura havia considerado assaz interessante, ao que o professor retorquiu dizendo que não lidava bem com obras que misturavam ficção com realidade. A minha resposta, contrariamente ao que é comum, escapou-se célere pela boca fora, quase não passando pelo sítio onde é verdadeiramente importante que passe: o cérebro. Disse-lhe, então, que toda a “realidade” é, ela própria, uma ficção. Uma história contada pela boca daqueles que vencem os conflitos e as guerras.

 

Tem sido sempre assim. Olhando em retrospetiva pelo lençol de factos que conhecemos da humanidade comprovamos, facilmente, que sabemos muito pouco das nações vencidas, dos povos dominados e subjugados. E que mesmo esses povos que ainda subsistem, residuais, sabem muito pouco de si próprios. Uma vez vencidas as guerras, o lado que se sobrepõe trata de encetar um processo de afirmação sobre os derrotados que passa por uma propaganda de demonização dos mesmos, com vista à dominação total de consciências. Foi assim com os grandes impérios da antiguidade que, já naqueles tempos, procederam a massivos processos de aculturação das regiões dominadas. Foi assim com boa parte das religiões dominantes que se apropriaram de alguns elementos das anteriores, adaptando-os, e achincalharam outros. Quem não reconhece na figura do diabo do cristianismo vários elementos das divindades pagãs? Os cascos e os chifres de Baco, o tridente de Neptuno, as características de Vulcano ou Plutão? Foi sempre assim. E é assim com os impérios contemporâneos também.

 

Tornámo-nos mais sofisticados. A passagem dos tempos trouxe-nos isso. Criámos a psicologia e do seu ventre nasceu, quase de imediato, o comportamentalismo (behaviorismo). Este segmento da psicologia trouxe-nos uma compreensão mais fina do comportamento não apenas do indivíduo per si mas do indivíduo no contexto social. O comportamentalismo iluminou-nos o entendimento do comportamento das massas e as máquinas de propaganda contemporâneas bebem desse conhecimento como elixir mágico que lhes permite incutir subliminarmente os pensamentos precisos que pretendem e extrair as reações esperadas. Fazem uso também das ferramentas de comunicação que foram desenvolvidas e que tornam capaz uma disseminação rápida e eficaz da mensagem, como nunca havia sido possível. Os povos do mundo contemporâneo constituem-se como verdadeiros ratos de laboratório destas ciências.

 

Surgiu-me esta breve reflexão a propósito do aniversário da queda do muro de Berlim. Não é surpreendente verificar o tratamento jornalístico que é dado ao acontecimento, às suas repercussões e implicações, não somente em termos de geopolítica, mas sobretudo no que à evolução política e social, que tem existido em cada país desde então, diz respeito. Não pensem que me coloco a favor dos regimes de leste que se fecharam atrás daquela “cortina de ferro” simbolizada naquele muro. A sua queda foi, bem entendido, um momento marcante da história do Homem e deve ser recordada como tal. Não obstante, seria importante que a reflexão deixasse, de uma vez por todas, o seu tom marcadamente vexatório e se tornasse um pouco mais ponderada e inteligente. Porque aqueles regimes tinham também as suas virtudes para lá do autoritarismo que nos enubla a visão. Gostava que se falasse um pouco mais delas e não apenas dos pecados cometidos que já sabemos de cor. Gostava que se falasse um pouco da educação e da formação; da irradicação da fome, da pobreza e da mendicidade; da assistência médica e dos recordes muito positivos atingidos nos números da esperança média de vida e na mortalidade infantil; mas também que se referissem os períodos de efervescência na arte e na cultura, em geral, disseminadas por toda a população e não disponíveis somente para as elites. Gostava que se discutisse isso e muito mais com inteligência e bom senso. Porque repito: ninguém quer o pior daquele mundo. Mas acontece que o melhor daquele mundo ainda não foi sequer aproximado pelo melhor que este mundo em que vivemos nos oferece. E a falta desse contraponto, que foi destruído com a destruição do muro de Berlim, retirou-nos essa capacidade de olharmos para nós próprios de forma crítica, com a intenção de nos melhorarmos, de melhorarmos o sistema, de construirmos algo novo. Esse sonho, que animou os povos durante o vigésimo século, foi, em parte, destruído com o muro. Nos dias de hoje, a esmagadora maioria do povo olha para o estado capitalista como algo acabado, como um ponto de chegada, e isso é, realmente, uma tragédia.

 

A história é contada pelos vencedores das guerras. O meu professor parou e refletiu um pouco. Depois, soltou uma gargalhada: «Tens razão».

 

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Amato

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