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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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As impressões que o covid-19 me dá

por Amato, em 18.03.20

Depois de algum tempo de ausência neste espaço, por motivos de certo modo relacionados com as transformações que o covid-19 tem imposto às nossas rotinas, gostava de partilhar com os meus leitores algumas impressões que esta pandemia me tem causado. São impressões pessoais, observações empíricas sem valor científico, e sem quaisquer ambições neste particular, sobre o que me rodeia, sobre o que se tem passado. São reflexões despretensiosas acerca do que nós, cada um de nós, individualmente, e todos, coletivamente, revelamos ou temos sido forçados a revelar, da nossa natureza, da nossa organização, das nossas prioridades, dos nossos valores em face desta crise de saúde pública que tem posto em causa o nosso modo de vida.

 

A primeira impressão é para mim uma evidência: nestes momentos resulta claro o quão ineficaz é o nosso sistema económico. O capitalismo, com a sua pulverização característica de negócios e de empresas, com a sua liberalização das relações, das responsabilidades, mas sempre com o poder económico concentrado em escassos pares de mãos incógnitas e intangíveis vê-se incapaz, impotente até, para operacionalizar uma estratégia coerente e otimizar recursos para combater o flagelo, neste caso chamado de covid-19.

 

Se ao longo dos tempos de moderada ou anémica bonança há sempre justificações com as quais se adorna o sistema e se enganam os menos ilustrados ou os mais distraídos, a verdade é que, neste momento presente, não sobrevivem quaisquer argumentos. Amarrados aos interesses económicos para os quais existem, as nações europeias estrebucham para tentar fechar as fronteiras, para colocar os cidadãos em casa, para impor um estado de quarentena minimamente sério que seja minimamente eficaz.

 

Entenda-se a dificuldade da coisa no contexto estrito do desenho do nosso sistema económico onde a vertigem pela maximização dos proveitos se impõe a tudo e a todos, onde as conexões económicas se estendem a cada canto do globo para fugir ao escrutínio das finanças locais e de uma moralidade de distribuição digna da riqueza e onde, mais e mais, quem não trabalha não ganha. E, se não ganha, não come. Não é, pois, de estranhar a lentidão com que a generalidade dos países europeus atuou perante a ameaça de pandemia que encobria, então, os seus amanhãs. Não é, pois, de estranhar que a generalidade dos países europeus tenha aguardado até ao último instante para começar a agir.

 

Não querendo — longe disso! — ensaiar qualquer apologia ao sistema chinês, compare-se e aprecie-se a diferença entre o que se fez por cá e o que se fez por lá, na China, para controlar o surto de covid-19. É difícil comparar, bem sei, mas essa dificuldade — não se iludam! — favorece-nos enormemente pois é exponencialmente mais difícil gerir um problema de biliões do que um de milhões. Mas é fácil de entender. Foi fácil para a China colocar as pessoas de quarentena em casa — as pessoas trabalham, em regra, para o governo. Foi fácil para a China fechar a sua economia — o governo chinês tem uma posição dominante. Foi fácil para a China agilizar e otimizar recursos — dispõe de mão de obra e de indústria para produzir ventiladores, máscaras, material de hospital e o que quer que seja necessário. Foi fácil para a China desenvolver tratamentos específicos para a doença — dispõe dos meios tecnológicos e científicos para o fazer. Foi tudo fácil para a China. Para nós, europeus, sobretudo para países como Portugal, tão dependente de terceiros para tudo e para nada, depois de ter alienado tudo o que era indústria, agricultura, recursos naturais, depois de se ter submetido voluntariamente a um projeto de economia terciária satélite dos grandes países europeus, tudo é difícil. Para Portugal tudo é difícil.

 

A segunda impressão que queria partilhar é esta. A economia está em crise profunda não por causa das máquinas ou da inovação científica, não devido à falta de matéria prima, mas em razão dos seus recursos humanos estarem a ser afetados. Prestem atenção a este ponto. Contrariamente ao que a lavagem cerebral do costume nos diz, a força laboral é, ainda hoje, o fator mais determinante para a economia e para os países. Esta evidência que o covid-19 coloca a nu é inversamente proporcional com a importância que é dada aos trabalhadores, a uma mais justa retribuição do seu trabalho, a uma mais justa distribuição da riqueza. Pelo contrário, o que tem acontecido, desde os anos desde o fim da guerra fria até aos dias de hoje antes do covid-19, é precisamente uma diminuição de salários e de direitos laborais e uma cada vez mais desigual distribuição de uma riqueza que se tem acumulado cada vez mais nas mãos de uns poucos.

 

Mesmo agora, durante esta crise, serão os trabalhadores aqueles que sairão mais prejudicados no fim do processo. Por exemplo, multiplicam-se os apoios às empresas, apoios esses que os governos lhes dedicam sem quaisquer contrapartidas. Os trabalhadores, esses, veem-se ora forçados a trabalhar sem proteção e a expor-se ao vírus, ora forçados a ir para casa e viver com uma reduzida parte dos seus rendimentos ao mesmo tempo que as suas obrigações se mantêm em regra geral. E estes dão-se por contentes: os precários,  cada vez em maior número no tecido laboral dos países, perdem imediatamente os seus empregos e a estes ninguém lhes vale.

 

A terceira impressão diz respeito à ciência e aos homens e mulheres da ciência que temos entre nós. Considero espantosa a forma como, em momentos destes, a voz da ciência é praticamente inaudível. É caricato como se ouve tão pouco e se valoriza tão pouco aquilo que os homens e mulheres de ciência, especialistas das matérias, têm a dizer. As redes sociais têm um papel catalisador do ruído mediático que os media produzem, é certo, e também é verdade que a própria ciência assume sempre um papel ambivalente nestas matérias, refugiando-se em pareceres especializados e parciais para emitir posições frequentemente contraditórias e favorecer os obscuros interesses que as classes dominantes têm sempre nestes momentos.

 

Faltam hoje, mais do que nunca, talvez, pessoas com um conhecimento abrangente e sólido e não meramente especializado, capazes de analisar os problemas, apoiando-se noutros especialistas, e emitir opiniões fundamentadas no “estado da arte”, consistentes e coerentes que sirvam como um farol para a sociedade à deriva. Fazem falta destas autoridades. Não existem sequer, porque a nossa sociedade não as produz nem as valoriza, obcecada que está no conhecimento especializado que, podendo ser muito bom para produzir software e “tecnologia de ponta”, nestas alturas vale zero.

 

A quarta e última impressão é que nós, coletivamente, estamos muito próximos daqueles povos que acreditavam em virgens prenhas sem pecado, em múmias regressadas à vida, em deuses com cabeças de animais e em outras magias que tais. Somos um povo muito crédulo. Continuamos, neste ano 2020, um povo muito crédulo. A história que nos contam do covid-19 é algo que nos devia deixar em polvorosa e exigir explicações. A forma como este problema se abateu sobre nós e abalou as nossas vidas não devia ser encarada com cançonetas, frases inspiradoras de circunstância ou reflexões pueris e pouco profundas. Dá impressão que podem fazer o que quiserem e nós, povo, arranjamos uma forma de nos adaptarmos, de viver com isso.

 

Que espécie de gente somos nós? Não somos, definitivamente, uma que possa tomar o seu destino com as suas próprias mãos.

Desculpe, disse Luanda Leaks?

por Amato, em 21.01.20

Acho que no passado não havia tanta hipocrisia. Está bem que havia a religião, poderosa, a justificar tudo o que fosse necessário, a condecorar os vencedores como humildes servos de Deus e a julgar os vencidos como hereges, infiéis e outros adjetivos que tais, independentemente do sangue que escorria das armas de ambos os lados. E a religião mais não era, bem entendido, que um pretexto escrito para fundamentar aquela nossa natureza abjeta de louvarmos os vencedores ao mesmo tempo que pisamos os vencidos.

 

Mas no fundo, bem lá no fundo..., não havia tanta hipocrisia no processo. Faziam-se as guerras e aos vencedores era dado tudo, todo o espólio, na mesma proporção em que aos vencidos tudo se retirava. Era a lei tácita que existia e era compreendida e aceite como natural por todos, com um maior ou menor florear da coisa.

 

Hoje a lei que vigora é exatamente a mesma mas há uma coisa que se junta à mistura e que confunde as ideias. Vêm os jornais e os jornalistas, as televisões, as rádios e enchem-nos com teorias, tramas, provas, acusações e julgamentos e, de repente, já não se trata de uma coisa corriqueira, já não é a normal sucessão de poderes, parece que é mais do que isso, como que uma vontade de uma força superior, estado de direito, alta moralidade, coisa que tem que ser assim para que sejamos sérios e respeitáveis, disputa simplista mas superlativa do bem contra o mal. E aí, o pisotear os vencidos adquire uma outra razão de ser porque de vencidos já não trata a questão: os vencidos passam a ser um tipo de gente vil, gente que não presta e que deve ser amputada da sociedade porque infeta e apodrece como gangrena a gente boa, séria e respeitável.

 

É espirituoso assistir a episódios destes, dia após dia. As lutas pelo poder disputam-se no espaço mediático e parece que a lei tácita de que falava já não chega: é necessário convencer as massas. As narrativas que se tecem fazem tábua rasa do que foram os eventos do passado. Os padrinhos, que outrora os ergueram em braços, convertem-se em carrascos. São os mesmos e fazem-no de cara destapada e com moral elevada. E nós? Assistimos com curiosidade, como se não tivéssemos memória do dia de anteontem, e cremos piamente na supremacia de um certo ideal de moralidade, de seriedade, de bem e de justiça. Dormimos bem à noite, assim. Bons sonhos!

Consciência de si no final de 2019

por Amato, em 27.12.19

O final do ano de 2019 fica marcado por várias notícias que esboçam bem o quadro de profundo surrealismo em que a humanidade se vai mergulhando.

 

A primeira, sobre a qual gostava de me debruçar hoje, é a que diz respeito ao orçamento de estado já apresentado para o próximo ano. Há vários aspetos pertinentes no documento. Por exemplo, perspetiva-se aumentos de salários e de pensões que não acompanham o aumento da inflação o que resultará numa perda efetiva do poder de compra de funcionários públicos e pensionistas. Dentro destes, a esmagadora maioria que dedicou o seu voto ao PS nas últimas eleições e, em simultâneo, menosprezou Bloco de Esquerda e PCP, deve dar-se por satisfeita: tem exatamente aquilo em que votou. Há que ter consciência do que se faz, ser-se crescido e assumir responsabilidade. Isto é a democracia a funcionar no seu esplendor. Parabéns para todos eles.

 

Outra questão interessante é a anunciada dotação extra para o Serviço Nacional de Saúde que, ao que parece, depois de tanto alarido e de tantos foguetes lançados, mais não é do que o valor em dívida que o SNS carrega às costas do ano anterior. Anuncia-se também uma alegórica contratação de novos profissionais mas, nem as contas parecem bater certo para o efeito, nem isso será suficiente para estancar a sangria contínua de profissionais para o estrangeiro a que temos assistido. Portugal parece continuar seriamente dedicado em investir na formação de quadros altamente qualificados para dotar os países mais necessitados como a Alemanha, a Inglaterra, a França, a Suíça, o Luxemburgo ou a Bélgica.

 

No final, com pompa e circunstância, quais arautos da sapiência, foi anunciado também que, para o próximo ano, o país passará a dar lucro com um superavit de 0,2%. Este anúncio foi recebido com entusiasmo, claro. A burguesia rejubila: sabe bem que aqueles milhões têm como destino os seus bolsos, de um modo ou de outro, haja resgates ou antecipações de pagamentos. O povo ignorante, coitado, pensa que o estado é a mercearia da esquina e também rejubila: «se está a dar lucro é porque estará a ser bem gerido». Qual será o seu espanto quando a próxima crise chegar e bater com estrondo, talvez a bordo da bolha imobiliária que cresce a cada dia ou talvez da turística, quem sabe, e verificar que aqueles 0,2% que o estado poupou de nada servem e que o estado, afinal, está ainda mais desprotegido e impreparado para lidar com os sacanas dos bancos e das empresas que dão cabo da economia e fogem daqui com o nosso dinheiro. Qual será o seu espanto? Por ventura, nenhum. Nessa altura arranjar-se-á um qualquer bode expiatório conveniente. Nós somos um povo muito judaico. Arranjamos um bode, carregamo-lo com todos os nossos pecados, matamo-lo e lavamos a consciência. Somos muito judaicos, somos. E também muito estúpidos.

 

É preciso não ter um pingo de vergonha na cara para anunciar a um povo como o nosso que o país vai dar lucro. O regresso ao tempo do fascismo das contas certas de Salazar está inteiramente consumado. É irónico que tenha regressado com uma mão dos partidos mais à esquerda. O povo que trabalha mal tem dinheiro para pôr comida na mesa depois de pagar a renda da casa,  não liga o aquecedor no pino do inverno porque não pode sobrecarregar mais a fatura da luz e anda de carro às pinguinhas por causa do escandaloso preço da gasolina; o povo que trabalha cada vez mais, cada vez com piores condições e até mais tarde, que até pela reforma a que tem direito tem que esperar mais de um ano, que morre devagarinho a desesperar por uma consulta ou por uma operação constantemente remarcada e adiada. A este povo o governo vem anunciar que o país vai dar lucro. O país vai dar lucro à custa do seu povo que trabalha, à custa literalmente do seu sangue. É isso. É desse sangue que são feitos esses 0,2% de lucro que o país vai dar. Não é uma coisa no ar, abstrata. É feita de sangue, do sangue dos trabalhadores que pagam impostos e sustentam este país. E todos achamos bem e rimos de contentamento.

 

O que seria natural era que o povo exigisse que aqueles 0,2% de lucro fossem aplicados no país, na melhoria da saúde e da educação e dos serviços públicos. Ou, para quem tem opinião diversa, que o estado procedesse a imediata redução na tributação dos seus salários, porque os seus impostos não são para o estado andar a lançar foguetes ou dar espetáculo. Devíamo-nos perguntar: para que serve um estado afinal? Para que serve?

 

Claro que é sempre possível contrapor o que escrevi com o aumento do consumo que tem sido verificado e que atingiu o seu clímax com os massivos gastos recorde desta época festiva. Claro que sim. Mas grande parte disso é crédito. Não se enganem. É cartões de crédito para pagar cartões de crédito e o governo tem fomentado essa mentalidade. Diz, por exemplo, aos seus trabalhadores que vão ficar muito melhor com os aumentos que vão ter quando, na realidade, vão perder poder de compra. O que é isso se não um engodo? O que é isso se não dizer às pessoas que continuem a gastar ou que gastem ainda mais por conta de um aumento virtual, irreal, dos seus rendimentos? O que tem sido grande parte da política deste governo se não um incentivo mais ou menos declarado ao crédito? O que é um incentivo ao consumo alicerçado em baixos salários e trabalhos precários?

 

Mas nada do que se passa é muito normal, pois não? A realidade morreu. O que existe agora é a surrealidade. Bem-vindos! Pedir às pessoas que tenham consciência de si, que tenham consciência do que fazem, do chão em que pisam, do mundo que as rodeia é pedir demais, sobretudo quando todos andamos de ombros encolhidos e cabeça baixa enterrada em algum ecrã a emprenhar pelos ouvidos, pelos olhos sonâmbulos adentro.

Aviso

por Amato, em 13.12.19

O prato que se está a cozinhar na política portuguesa é perigoso. Preocupa-me que a extrema direita esteja a marcar o ritmo mediático da política. Preocupa-me que esteja constantemente nas primeiras páginas e a abrir os noticiários — e não é só nos órgãos da trupe do Correio da Manhã. Preocupa-me que o parlamento esteja convertido num palco para um conjunto de partidos sem ética nem espinha dar espetáculo, conspurcar o debate e denegrir a república. Do modo que as coisas se apresentam, parece que o que quer que se possa fazer para combater André Ventura e o Chega é virado do avesso e usado em seu favor. Devemo-nos começar a preparar para o que virá a seguir a isto.

As sereias da "ação climática" e da "descarbonização"

por Amato, em 16.11.19

Nesta versão 2.0 do governo PS há um pormenor que me tem preocupado severamente. O ministro do ambiente Matos Fernandes regressou do anterior executivo para este novo figurino com um acrescento ao seu epíteto. Agora, é ministro não apenas do ambiente, mas também da ação climática. Observem que coisa tão moderna e tão na moda! Só lhe falta a menina Greta como conselheira permanente. Tal acrescento tem sido acompanhado de uma abundante retórica sobre a “descarbonização” da nossa economia. Vejam bem que até o meu corretor ortográfico desconhece o palavrão. Repitam lá a palavra, “descarbonização”, seja lá o que isso for.

 

Esta temática preocupa-me porque aparenta ter pouco ou nada de substantivo e muito de propaganda com um fim bem definido: fazer sucumbir o país ao lobby do “elétrico” e dar carta branca à destruição de Montalegre para a exploração do lítio sem ninguém dar muito por isso.

 

Consta que o golpe de estado na Bolívia terá sido perpetrado, não por causa do gás natural, como inicialmente suspeitava, mas por causa, precisamente, do lítio. Não será por acaso, não sejamos inocentes, que as ações da Tesla, aquela empresa dos caríssimos carros elétricos futuristas, subiram em flecha após a deposição de Evo Morales.

 

Em Portugal, claro, não são necessários golpes de estado. As nossas lideranças, democraticamente eleitas pelo nosso povo, estão sempre na linha da frente no que diz respeito ao desbaratar dos nossos recursos em favor das grandes multinacionais burguesas. E neste caso do lítio acontecerá exatamente isso, far-se-á uma concessão a privados, com caderno de encargos escrito a preceito, para no fim ficarmos sem recursos, sem as nossas aldeias, vilas e cidades, e sem o dinheiro.

 

Importa repetir todas as vezes que forem necessárias em todas as oportunidades que se apresentem: em termos de eficácia, o “elétrico” não substitui os combustíveis fósseis, nem com todo o lítio do mundo, nem num milhão de anos. E com que energia iremos alimentar todos esses motores elétricos? Com que energia? De onde? Das barragens? Das eólicas? E conseguem afirmá-lo com certezas absolutas? Acresce que, ao comprarmos o “elétrico”, estamos a substituir um problema por outro, no que à questão ambiental diz respeito. Nós, que temos dificuldade em tratar duma simples pilha de volt e meio, já para não falar de uma bateria de um simples telemóvel, vamos ter de tratar, da noite para o dia, uma quantidade enorme de baterias elétricas de automóveis com vidas úteis de menos de dez anos. Tragédia ambiental em perspetiva? Lençóis freáticos, rios e mares permanentemente contaminados e poluídos? Água potável em risco? Será esse o nosso auspicioso futuro dos carros ultra modernos?

 

A situação é insana. Esta ânsia dos nossos governos em agradar ao capital monopolista está a redundar em demência profunda, porque é uma política de terra queimada, de quem vier a seguir que feche a porta, uma política que condena as gerações futuras e as amarra a opções trágicas. Mas, em simultâneo, esta situação gravíssima é-nos vendida com os cantos de sereia, das sereias da “descabornização” e da “ação climática”. E nós acreditamos. Achamos bem. Soa-nos bem, a moderno. Lava-nos a consciência, até. Parece que somos incapazes de pensar. Esta geração, a anterior e todas as que confluem no presente, no hoje, no agora, parecem todas vítimas de lavagem cerebral. Não olham, não veem, não pensam, não questionam. Tudo aceitam.

 

Tal como no passado com Ulisses, teria sido prudente amarrar o capitão do navio à carlinga e tapar os ouvidos de cada um dos seus marinheiros com a cera do mel para que nada pudessem ouvir, para que não pudessem ouvir as sereias tentadoras. Desgraçadamente, nestes tempos sem fé não há bom senso que impere, não há deusa Circe que nos valha, nem outra divindade qualquer.

Foi exatamente para isto que o muro caiu

por Amato, em 11.11.19

É oficial. Todos os governos de cariz minimamente progressista que, desde o início do século, conquistaram vários países da América latina, foram derrotados. Não interessa os milhões que retiraram da pobreza, da miséria e da iliteracia. Não interessa nada. Todos foram derrotados. O único que ainda resiste é a Venezuela, mas a que expensas? Um país destruído, uma sociedade devastada por uma guerrilha urbana, permanente, de mercenários a soldo do capitalismo monopolista americano, imobilizada por bloqueios económicos vários. Ah, claro, também há a valente ilha de Cuba, mas não a considero para estas contas particulares.

 

Ontem foi a vez da Bolívia. Nesse governo de vanguarda, liderado pelo índio Evo Morales, coisa ímpar em todo o mundo, os números mostravam crescimento económico acompanhado de distribuição de riqueza, de educação e de cultura pelo povo à custa dos lucros das multinacionais do gás natural. Pois era exatamente aí residia o problema de Evo Morales e do seu governo boliviano. Era exatamente por isso que era insultado de ditador e de outros nomes que tais. Foi esse o seu pecado. A receita aplicada nesse país foi o corrompimento dos militares. Trata-se de um presidente que venceu sucessivas eleições e que nem a promessa de novas eleições demoveu os militares na sua ação de deposição do governo. A democracia só interessa quando é favorável ao poder burguês.

 

Antes tinha sido o Equador e a Argentina, estes pela via democrática. Normalmente, a democracia é muito vantajosa para o capital, cuja principal aptidão reside na propaganda apelativa e sedutora. No Brasil, mesmo com toda a propaganda, ainda se reforçaram as hipóteses de vitória — daquela figura sinistra chamada de Bolsonaro — com um impeachment perfeitamente injustificado a um presidente legítimo — até aos dias de hoje absolutamente nenhuma ação judicial foi movida contra a Presidente deposta Dilma Rousseff — e a invenção de um processo criminal ao principal candidato da esquerda, Lula da Silva, que resultou no seu oportunístico e também injustificado encarceramento que o impediu de concorrer às eleições.

 

Cada caso tem uma estratégia própria, adaptada à realidade e ao folclore local. Em todos eles, os media constituíram-se como agentes ativos para os golpes de estado, para a indecência, providenciando argumentário, adjetivação e respaldo para a perpetração das patifarias, com lavagem cerebral em massa da melhor. Outra coisa não seria de esperar. O problema é nosso por esquecermos para quem os jornais e as televisões trabalham, quem são os seus donos e senhores.

 

Tudo isto mostra como o jogo democrático é viciado. Tudo isto mostra como as estruturas são corruptíveis, como é fácil ao capital corromper, perverter, degenerar, adulterar o sistema para seu proveito. Qual estado de direito, qual quê? Onde está a independência dos poderes? Democracia, golpe de estado, propaganda, perseguição judicial, guerrilha urbana. Basta escolher. Este é o fim da história, é o fim da história que as populações humanas escolheram.

 

Há uns anos caiu o muro de Berlim e festejámos, lembram-se? Foi exatamente para isto que o muro caiu. Continuem a festejar, até que o sistema entre pela vossa casa adentro para aumentar os seus lucros às vossas custas e às custas dos vossos filhos.

Uma revolução para os séculos que se apresentam adiante

por Amato, em 12.09.19

O que mais me dói é perceber esta ilusão em que vivo. Acreditem. A minha maior dor é essa. Sabem? A ilusão de que vivemos em democracia, de que somos livres, de que nascemos iguais e de que somos tratados como iguais pela lei e pela justiça. A ilusão de que existe justiça...

 

Essa dor acaba por ser natural, claro, pois o viver é como que um eterno acordar para a realidade, de um sono de ilusão que nos é imprimido desde o berço. E cada um de nós acaba por entender o alcance tangível dessa construção de castelos de nuvens sobre as nossas cabeças. Todos nós, uns mais cedo, outros mais tarde, acabamos por bater de frente com essa parede de fantasia, vítimas dessa mesma quimera que fomos alimentando ao longo da vida.

 

As publicações deste blog têm tratado abundantemente da parte política do problema. Como pode haver, afinal, democracia quando cada escolha é condicionada de antemão e quando quem efetivamente tem o poder de decisão nunca se expõe ao sufrágio popular? Deixemos, portanto, esta vertente de parte.

 

Falemos de justiça.

 

Falemos de justiça, porque a justiça constitui proverbialmente, no contexto da nossa configuração social, a espada definidora das liberdades individuais e coletivas e o escudo que protege o valor mais precioso que urge entre os homens dos nossos tempos: a igualdade. Uma justiça parcial implica, naturalmente, a diferenciação entre os homens no que às suas liberdades diz respeito. Uma justiça parcial é estruturadora de uma sociedade de classes de homens diferenciadas em influência e em poder, umas sobre as outras.

 

Olhemos, pois, para a justiça. Acompanhemos alguns casos, os que afetam as pessoas que nos são mais próximas e os outros, os mediáticos, que nos impingem olhos adentro. Recolhamos informação. Ontem mesmo, surgiu mais uma notícia que ilustra bem o estado da coisa. Uma vez mais, as grandes corporações burguesas do país, saem incólumes dos crimes cometidos e ainda se vangloriam disso mesmo em plena praça pública. Mas os casos sucedem-se em catadupa. Não façamos deste caso exemplar, porque o exemplo é o dia-a-dia da sociedade. O exemplo foi ontem, é agora e será amanhã também, seguramente.

 

Repare-se que não basta à burguesia reinante ditar as regras com que a sociedade se deve reger em seu benefício. Não. Ainda é necessário poder quebrar essas mesmas regras quando convier e garantir que a esponja purificadora dos tribunais passará sobre os seus delitos e os absolverá perante a sociedade. No passado havia a igreja que detinha esse papel de absolvição moral. Hoje, convenhamos, os tribunais prestam um melhor serviço.

 

Pensar que existe justiça na sociedade burguesa é a ilusão das ilusões. Pensar que a lei nos vê a todos como iguais é fantasia, é ficção. A nós, comuns mortais, resta-nos a nossa inteligência e o nosso senso que servem de amarras ao real e ao concreto. E manter bem viva a consciência de que não existem saídas para este sistema corrupto e despudorado dentro do próprio sistema. Não se pode reformar o que detém natureza ímpia, vil e desprezível.

 

A revolução da sociedade é o único e derradeiro caminho que nos resta. Uma revolução para os séculos que se apresentam adiante. Uma revolução que se impõe para nos catapultar para uma modernidade de bem estar, de paz, de cultura e de elevação intelectual. Para construir uma sociedade fraterna de irmãos, colocando a tecnologia ao serviço de todos, e não uma sociedade de inimigos em constante disputa por uma côdea de pão sob o olhar atento de meia dúzia que toma todos os recursos do planeta para seu próprio proveito.

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