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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

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Serviços mínimos

Justamente no seguimento do post publicado no dia de ontem, fiquei a saber que o nosso governo aprontou mais uma das suas malfeitorias. Agindo descaradamente contra a lei vigente, emitiu um despacho governamental decretando serviços mínimos aos trabalhadores da Petrogal/GALP Energia que haviam anunciado uma greve.

 

A ilegalidade desta ação não é discutível por ser demasiadamente grosseira. Nesse sentido, já foram iniciados os procedimentos legais para levar o governo a responder pela sua ação. Note-se que o despacho em causa não apenas viola a Constituição como afronta a autoridade dos tribunais, únicos responsáveis pela definição de serviços mínimos em situação de preparação de greve.

 

Não obstante, o governo consegue o seu intento: intimidou os trabalhadores com serviços máximos disfarçados de mínimos. Veremos se em Portugal o crime vai compensar.

 

O conceito de serviços mínimos é frequentemente utilizado de forma completamente idiota. Com efeito, os serviços mínimos dizem respeito a necessidades sociais impreteríveis e apenas a estas. Transportes em situação de emergência, questões de segurança e afins. Não há muito mais do que isto que alguém com um mínimo de decência intelectual possa incluir no pacote. Todavia torna-se claro que quanto mais lata for a interpretação do que são necessidades sociais impreteríveis mais restrito se torna o direito à greve.

 

Não causa qualquer tipo de espanto, contudo, que este tipo de interpretações abusivas da lei emirja de certos protagonistas da vida política nacional, nomeadamente de alguns que descendem em linha direta de altas figuras do antigo regime. O espírito do fascismo está no meio de nós...

publicado às 12:05

Regresso aos tempos da ditadura

Desenhos da prisão - Álvaro Cunhal

 

A ditadura está a chegar em galope veloz à sociedade em que vivemos e hoje, à hora em que escrevo, manifesta-se densamente no meio de nós, naquilo que fazemos, na forma como pensamos.

 

É errado identificar a ditadura com um ditador. O ditador é apenas um fantoche de um poder sem rosto. A ditadura deve ser identificada com um estado de espírito geral, um estado de espírito que é inveja e falta de solidariedade. É esse estado de espírito, e não outra coisa qualquer, que permite que as políticas repressivas e exploradoras do Homem se possam manifestar. E como se têm manifestado!

 

A ditadura vê-se numa comunicação social monocórdica e hipnotizante, não plural, “fazedora de opinião”, da sua opinião, da opinião do dono.

 

A ditadura vê-se numa tentativa de esvaziamento argumentativo da política, onde se força a ideia da inexistência de diferentes posições, de diferentes lados da mesma questão, ao mesmo tempo que se diabolizam os poucos que os têm, excluindo-os do debate. Tudo é feito porque sim. Tudo é inevitável. Só existe um caminho e esse é o caminho bom.

 

A ditadura vê-se na falta de solidariedade e na inveja do cidadão em geral para com o seu semelhante. Não existe, com efeito, uma ideia de semelhança entre cidadãos semelhantes, pois o forte espírito de competição que os assola torna-se como uma pala negra disposta sobre a fronte. Não existe, portanto, uma visão de conjunto que se traduza, no fundo, em ver nos problemas dos outros os nossos próprios problemas. É a ideia de que os nossos problemas são sempre mais especiais do que os dos outros ou, por outra, de que nós merecemos melhor mas os outros não.

 

A ditadura vê-se em tudo isto e vê-se em muito mais. Vê-se numa aceitação acéfala de uma hegemonia da economia sobre tudo o resto, sem se saber o que é propriamente isso de economia. Uma aceitação do que o patrão, o padre ou o comentador, diz sem um qualquer questionamento. A ditadura é uma subordinação total a poderes externos por uma simples questão de fé.

 

A ditadura vê-se numa existência simples e medíocre, numa existência de manutenção de poderes. Trabalhamos porque a isso somos obrigados, porque é necessário produzir e fabricar lucros que nunca vemos, porque é necessário encher os bolsos de alguém. E devemos trabalhar cada vez mais, mais tempo e por menos dinheiro. Sem parar. E todas as estruturas da sociedade concorrem para esta manutenção de poderes: o fisco, a polícia, a lei...

 

O cidadão médio passa toda a sua vida sem se questionar sobre a sua condição. Acha-a natural. É promotor ativo da mesma. E os seus filhos e os filhos dos seus filhos continuam a rotina, esta rotina de não pensar. Eternamente.

 

A ditadura vê-se até mesmo nos velhos símbolos que retornam: no fado, no futebol. Em fátima.

 

A ditadura está a chegar em galope veloz. Vem a cavalo de uma égua branca chamada de democracia. Quando chegar, ninguém dará por ela.

publicado às 09:22

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