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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Nós-outros

por Amato, em 21.08.20

O castelhano é uma língua com uma verdadeira preciosidade que pouca gente nota, assim, como um tesouro escondido. Enquanto que na maioria das línguas o pronome pessoal da primeira pessoa no plural refere-se a uma espécie de grupo do qual fazemos parte, em português, por exemplo, o pronome é nós, nós o nosso grupo, nós a nossa equipa, nós a nossa família, nós o nosso partido, nós o nosso país, em castelhano o pronome é nosotros, ou seja, nós-outros.

 

Não faço a menor ideia se esta diferença foi intencional ou fruto de um feliz acaso, mas o pronome nosotros, assim modificado em comparação com os seus irmãos das outras línguas, é carregado de um forte sentido de comunidade. Nós-outros não diz respeito unicamente ao nós. Pelo contrário, nós-outros inclui os outros, juntando o eles também na equação do nós. Numa sociedade tão vocacionada para o apontar dos próprios defeitos aos outros, para o divisionismo, o elitismo e divisões artificiais por castas ou classes, a ideia do nós-outros podia assumir aqui um papel terapêutico simbólico. A eficácia desse papel nos países hispânicos carece, todavia, de avaliação, mas há coisas que não têm que ser científicas para serem boas, justas e belas.

 

Lembrei-me do nós-outros ao ouvir algumas reações àquela barbaridade que está a ocorrer no Brasil de Bolsonaro. Uma menina de dez anos apenas, violada, decidiu abortar e está, ela e a sua família, a ser violentamente atacada e ameaçada, com multidões de extremistas religiosos pró-vida perseguindo-os ao ponto da menina e família terem sido forçadas a mudar de identidade e de cidade para poderem continuar a viver. Os comentários não deixam de revelar a tal separação que existe entre o nós e o eles. Mas o nós é o nós-outros, lembram-se? O que vemos nos outros também existe entre nós e a intolerância, o extremismo, o pensamento atrasado, a falta de humanidade são características presentes, por vezes à espera de um qualquer rastilho para poderem arder livremente entre nós.

 

A quem tiver boa memória, basta lembrar o que foi a dificuldade em fazer aprovar a lei da interrupção voluntária da gravidez neste país chamado Portugal, como foram os debates e a argumentação usada então. Esses movimentos pró-vida não desapareceram, continuam por aí, identicamente inspirados, identicamente iluminados e voltarão agora em força com a legislação sobre a eutanásia. E, agora, têm mais força e representação no nosso parlamento.

 

Nós-outros: nós somos os outros e os outros somos nós.

Andamos a pregar aos peixes e ainda não demos por isso

por Amato, em 13.06.20

Sermão de Santo António aos Peixes

image: oamarense.b-cdn.net

 

De tempos a tempos retomo o pertinente tema da educação e da instrução dos nossos jovens. Será que temos consciência do que andamos a ensinar? Melhor: será que temos consciência da “bagagem” cultural com que um jovem sai do sistema educativo de que tanto nos orgulhamos? Esqueçam as pedagogias. Concentrem-se na essência. Sejamos muito pragmáticos, tanto quanto seja humanamente possível. Temo que é demasiado o tempo em que vivemos alimentando uma mentira,  dentro de uma bolha de ilusão que, mesmo que queiramos genuinamente dela sair, rebentar a bolha para observar o real com os nossos próprios olhos, não seremos capazes de distinguir a verdade da mentira, a realidade da ilusão.

           

Falava ontem com amigos estrangeiros sobre os atos de vandalismo que mancharam o final da semana, particularmente os estragos que fizeram à estátua do nosso Padre António Vieira no Rossio. Julgaram eles inicialmente esses atos na mesma proporção com que observaram os outros, mundo fora, particularmente nos Estados Unidos da América, e foi preciso que lhes explicasse que não era exatamente a mesma coisa. Sendo certo que todos estes atos de vandalismo partilham uma aguda irracionalidade, sendo certo que procuram qualquer símbolo do colonialismo e da opressão como bode expiatório para o despejar de uma fúria coletiva, a verdade é que a figura do Padre António Vieira não pode ser colocada no mesmo saco que generais esclavagistas do sul na guerra civil americana, colonialistas ingleses ou, até mesmo, o próprio Cristóvão Colombo.

 

Missionário português do século XVII, o Padre António Vieira foi um revolucionário que se destacou, naquele tempo, como o maior defensor dos povos indígenas do Brasil, lutou contra a escravatura, a sociedade de classes e contra a inquisição da “sua” igreja, entre muitas outras injustiças a meias entre a monarquia e a religião. O Sermão de Santo António aos Peixes destaca-se entre a sua vasta produção escrita como uma obra-prima fundamental da história das letras portuguesas, uma obra revolucionária que regista muito daquele que era o pensamento avançado e progressista do autor.

 

Ao espanto inicial dos meus interlocutores seguiu-se a natural exclamação: «quem fez aquilo à estátua do Padre com os três meninos indígenas seguramente que desconhece, seguramente que ignora!». Pois, pois, pois ignora. Ignoravam eles, os meus amigos, que o Sermão de Santo António aos Peixes é obra de estudo obrigatório no ensino secundário. Pois é. Mas aqueles, os que fizeram aquilo à estátua, não sabiam.

 

O que ensinamos nós aos nossos jovens? O que é que eles aprendem? De que adiantam as médias, os rankings, os números, as metas europeias, os “sucessos” escolares, os aproveitamentos, os acessos à universidade? O sucesso escolar está aqui, esteve esta semana no Chiado quando um certo conjunto de pessoas, as quais, provavelmente, tiveram contacto com a obra e a figura do Padre António Vieira, mostrou tudo aquilo que (não) aprendeu na escola. A vida real, nas ruas, a forma como nos comportamos, como nos relacionamos uns com os outros, como pensamos e questionamos o mundo, o que exigimos desta nossa sociedade, o que ousamos sonhar, tudo isto constitui o nosso verdadeiro diploma, são as verdadeiras linhas do nosso certificado de estudos. De que adiantam os outros, os pedaços de papel, se, na realidade, quando a realidade vem ter connosco e somos chamados a agir, nos comportamos como um conjunto de ignorantes, pouco mais que animais selvagens que exigem a satisfação imediata das suas necessidades aos seus donos?

 

O nosso sistema de ensino devia estar de luto, envergonhado como um todo, porque tal como no célebre Sermão do Padre António Vieira, mais lhe valia que andasse a pregar aos peixes já que os jovens, homens e mulheres, cidadãos em potência, pouco lhe ligam, pouco ou nada se interessam, apenas se interessam por “sucessos” e notas e entradas em faculdades que, em boa verdade, não significam nada.

Amazónia, imperialismo e PAN

por Amato, em 31.08.19

O governo português, na pessoa dos seus mais altos representantes, é, em certos domínios, rápido e assertivo, contundente mesmo, no conteúdo e na forma como aborda determinadas situações internacionais. Ao ouvir as palavras que o seu ministro dos negócios estrangeiros proferiu, por exemplo, aquando dos momentos mais quentes, entretanto esfriados, da tentativa de golpe de estado na Venezuela, fica-se com a ideia de estarmos perante um representante de um país relevante no quadro internacional, tamanha foi a contundência empregue e o tom que até soava a ameaça. Presentemente, é pena que o governo português não estenda a sua eloquência ao drama que se vive no Brasil, país irmão de Portugal, onde um dos maiores patrimónios naturais mundiais é, neste momento em que escrevo, irremediavelmente destruído e, pelo contrário, escolha remeter-se ao mais gutural silêncio.

 

Podemos ser levados a pensar que esta diferença de comportamentos se deve à própria experiência deste governo de Portugal no que concerne a fogos florestais. Afinal, neste escasso período de quatro anos, sob o olhar e a responsabilidade deste governo, arderam tantos hectares de floresta quantos os que havia para arder, incluindo alguns de floresta milenar como o pinhal de Leiria, o que, à nossa escala, terá representado, não sei, talvez duas ou três Amazónias juntas. Mas desengane-se o leitor. A razão não é mera vergonha na cara ainda que essa seja mais que justificada.

 

A razão de ser deste comportamento dúbio é simples. O governo não serve em primeiro lugar o estado, o país ou o seu povo: serve prioritariamente os interesses do capitalismo mundial e do imperialismo. É o imperialismo que alimenta a revolta na Venezuela tentando colocar as suas unhas no petróleo daquele país. É o imperialismo que arma as populações, que forma e paga milícias populares. Por isso, o governo português apoia a revolta contra um estado soberano e um governo democraticamente eleito. Por isso, reconhece à margem de qualquer lei ou direito internacionais autoproclamados presidentes da Venezuela.

 

Do mesmo modo, é o imperialismo que, por ora, incendeia a Amazónia para expandir o seu negócio de exploração de gado e de plantações de cereais geneticamente manipulados. É o imperialismo que suporta e alimenta este governo absurdo, este presidente absurdo que desgoverna o Brasil, porque têm a promessa de altos dividendos económicos futuros. Por isso, o governo português, neste caso, mantém-se calado.

 

Bolsonaro foi eleito à custa de um golpe de estado descarado e sem vergonha movido pelo sistema judicial brasileiro e apoiado pelos media que derrubou um governo democraticamente eleito sob pretextos dúbios e absolutamente irrelevantes no contexto do país. Bolsonaro foi eleito tendo por base um programa político que se podia reduzir à frase “privatizar tudo”. O tudo incluía, evidentemente, a Amazónia. O mundo assistiu a tudo isto e achou piada. Agora lançam-se umas bocas para o ar e nada se faz. Porquê? Porque o mundo está, em geral, ao serviço dos interesses do imperialismo e é o imperialismo que está a queimar a Amazónia. Deixem-se de tretas e de hipocrisias.

 

Ai se isto estivesse a acontecer na Venezuela...

 

É por isso que me dá vontade de rir quando ouço André Silva, do PAN, os “ecologistas progressistas”, dizer que não é de esquerda nem de direita, que esses conceitos estão ultrapassados. Só há duas possibilidades para este André Silva: ou faz parte desta nova vaga de políticos que pretende enganar o povo com esta conversa de chacha “apartidária” ou trata-se, simplesmente, de um triste ignorante. Por ventura, será uma mistura dos dois. Infelizmente, parece ser essa a receita que o nosso povo mais gosta.

O primeiro dia do Messias brasileiro

por Amato, em 01.01.19

O ano de 2019 começa, no seu primeiro dia, com a tomada de posse do novo presidente do Brasil, um indivíduo chamado de Jair Messias Bolsonaro. O discurso de tomada de posse do Messias foi a mais horrenda oratória que já ouvi em toda a minha vida. O maior país da América Latina elegeu, de facto, um ignorante, um boçal que não sabe falar, nem tem uma ideia madura no cérebro. O que tem é apenas uma mistura de infantilidade e de egoísmo sobre uma base de baixeza de caráter e de ignorância do espírito. E por isso repete, repete, titubeia, titubeia, os mesmos chavões, os mesmos preconceitos e, claro, invoca o nome de Deus em vão uma, duas, três dezenas de vezes no mesmo parágrafo. O que diz não é nada, mas é tudo.

 

Acho importante sublinhar que este indivíduo não chegou ao poder sozinho. O processo foi dúbio, pejado de ilegalidades e de artimanhas tecidas em conjunto pelo poder judicial e pelo poder político e cantado pelos media, tudo isto é certo e claro. Mas no fim de contas, foi o povo brasileiro, a maior massa popular de entre todas da América latina, que elegeu e legitimou este novo presidente do Brasil. A democracia tem isto. O povo é chamado a votar, vota, escolhe e elege. É limpinho. Uma parte desse povo lá estava, hoje, a bater palmas, sem um pingo de embaraço com aquela boçalidade que jorrava sem controlo da boca de Bolsonaro. Palavra que não sei como é possível não sentir vergonha por se ter elegido um presidente deste calibre. Eu sinto, muita, e não é nada comigo.

 

Isto ainda é o princípio. Foi apenas o primeiro dia do Messias brasileiro. Messias... que nome tão tristemente providencial. O que vem aí será horrível, sobretudo para os brasileiros. Não acreditam? Basta esperar para ver. Lembrem-se do dia de hoje.

Consciência de si

por Amato, em 23.10.18

Desde muito cedo, quando este blog ainda mal tinha acabado de ser lançado, criei a tag “consciência de si” para classificar as temáticas de alguns dos primeiros posts que ia escrevendo. Volvidos mais de quatro anos sobre esses posts, a tag “consciência de si” é uma das mais usadas neste blog. Parece que quase tudo quanto escrevo acaba por levar esta etiqueta. Não se trata de uma questão estilística, no entanto.

 

Uma das coisas que mais me fascina na humanidade é a frequente falta evidente desta qualidade. Não temos consciência do que somos. Não conseguimos observar a nossa condição desde fora, desde longe. Fruto talvez da nossa ilimitada imaginação, somos capazes de criar qualquer mundo fantástico, qualquer história ficcional, de imaginarmos o que quer que queiramos ser, e, nesse processo, perdemos a noção do chão que pisamos, de onde estamos, do que somos e de para onde vamos.

 

Paralelamente, julgamo-nos sempre de outro modo diverso do que aos outros. Somos diferentes e especiais. O que se diz dos outros não se aplica à nossa pessoa. Porque a nossa pessoa é diferente. Porque a nossa pessoa é especial.

 

Escrevo estas palavras a propósito de umas declarações que li de Bolsonaro, o energúmeno que se prepara para ascender ao poder no Brasil. Disse ele, com todas as palavras, que “vamos fuzilar a pretalhada”, “acabar com os subsídios” [da pretalhada] e que vai imperar “a lei do lombo” [para a pretalhada].

 

Esqueçamos, por ora, para não arruinar a prosa, o caráter ofensivo e racista da palavra. O que mais me fascina no meio disto tudo é pensar que Bolsonaro vai ganhar as eleições num país onde a esmagadora maioria da população é mulata ou negra, o que me leva a admitir o óbvio: quando os negros ou mulatos ouvem a palavra “pretalhada”, devem pensar que é para os outros, para o amigo do lado. Deve haver sempre alguém com a tez mais escura, afinal. Os brasileiros acham que “pretalhada” é para os outros. Cada brasileiro deve considerar-se branco, caucasiano até. Os outros todos é que são negros!

 

Vem-me à memória aquela frase de John Steinbeck:

 

“O socialismo nunca formou raízes na América porque os pobres vêem-se a si próprios não como proletários explorados mas como milionários atravessando um período difícil.”

 

E vem-me também à memória aquele poema de Bertold Brecht:

 

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

 

O ser humano é assim mesmo. Nunca é connosco. É sempre com os outros. Quando reparamos que é connosco é sempre tarde demais. Não temos consciência do que somos.

Regina, memórias de uma atriz

por Amato, em 11.10.18

Uma das atrizes brasileiras pela qual desenvolvi um maior apreço ao longo dos anos foi, indubitavelmente, Regina Duarte. Na sua época dourada, Regina desempenhou múltiplos excecionais papéis em novelas como Rainha da Sucata ou Roque Santeiro. As suas novelas chegavam a Portugal em abundância, sobretudo nos anos oitenta e noventa, e, naturalmente, a atriz criou profundas raízes junto dos portugueses e eu não constituo aqui exceção.

 

De entre todos os papéis da atriz, guardo no coração um em particular: o papel de Chiquinha Gonzaga, personagem principal de uma minissérie homónima que contava a vida da compositora e maestrina Francisca Edwiges Neves Gonzaga. “Chiquinha”, como ficou conhecida, dedicou a sua vida à música brasileira, desenvolvendo e solidificando estilos musicais característicos do Brasil, como o samba ou o choro. Deste último estilo, Chiquinha Gonzaga pode ser considerada como criadora e pioneira, tendo sido a primeira pianista de choro de que há registo.

 

Simultaneamente, Chiquinha Gonzaga foi uma lutadora corajosa e obstinada contra o conservadorismo da sociedade em que vivia, tendo colocado a sua música ao serviço do ativismo pelo abolicionismo da escravatura, pelos direitos das mulheres, pela liberdade cultural.

 

Esta minissérie marcou-me tanto, tocou-me tão profundamente, que me levou a associar Regina, a atriz, pelo excelente papel que aqui desempenhou, às tendências políticas mais progressistas. Não poderia estar mais afastado da realidade.

 

Há uns anos, aquando de uma eleição, já não sei se de Lula ou se de Dilma, ouvi de Regina umas declarações sinistras, de conservadorismo provinciano e bafiento, que me deixaram entre a surpresa e a perplexidade. Dizia, então, Regina, que estava com muito medo da vitória do PT. Agora, Regina sai definitivamente do armário, assim como muitos outros seus conterrâneos, e apoia declaradamente, abertamente, essa figura grotesca que abana o mundo de cada vez que abre a boca e que chamam de Bolsonaro.

 

É preciso que se enfrente a realidade conforme ela se nos é apresentada: há uma grande parte da população brasileira que é a favor da pena de morte, da liberalização do porte de armas, da desigualdade de género, da homofobia, dos baixos salários, da precariedade ou terceirização como se diz no Brasil, da perseguição das pessoas pela sua opção sexual, política ou religiosa. Bolsonaro afirma cada uma destas coisas sem rodeios, sem metaforização. Trata-se de um indivíduo tão reacionário, tão abjeto, que é difícil encontrar justificações ou eufemismos para a coisa ou para quem o está a carregar em ombros até ao poder no Palácio do Planalto.

 

Descansem, todavia, irmãos brasileiros, pois não vos considero espécie única. Por todo o lado se vê uma admiração, mais ou menos disfarçada, pelo personagem. Os chamados media de referência, nomeadamente os portugueses, já têm dificuldade em disfarçar o fascínio que nutrem por Bolsonaro e dedicam-lhe uma redobrada atenção que não dedicam a mais nenhum político brasileiro.

 

Ainda tenho dentro de mim a imagem de Regina desempenhando o papel de Chiquinha Gonzaga e a forma heroica como, com a sua música, com os seus “chorinhos” ao piano, combatia o conservadorismo que impedia o divórcio, o aborto e legitimava a violência doméstica sobre as mulheres. Ainda tenho isso dentro de mim. Agora, volvidas décadas, Regina, a atriz, apoia um indivíduo que personifica o que de mais retrógrado existe na humanidade e no que, em particular, aos direitos das mulheres diz respeito.

 

Se Chiquinha Gonzaga fosse viva, tocaria contra Bolsonaro.

 

Lembro-me do verso de Pessoa: O poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente.

 

Que tolo que sou. Julgava eu, na minha ignorância, que o verso servia apenas para poetas...

Descobrindo os antidemocratas

por Amato, em 16.05.16

A propósito da golpada que decorre no Brasil, nota-se que há uma maioria de pessoas que interpreta a política como se de uma paixão futebolística se tratasse. O chamado processo de impeachment movido contra a Presidente do Brasil mostra como as pessoas que se posicionam a favor do mesmo, mas também boa parte das que se posicionam contra, o fazem sem qualquer correspondência com a realidade, sem qualquer noção dos conceitos. Defendem a bandeira que escolheram apesar de tudo, por cima de tudo e acima de tudo.

 

A figura do impeachment visa a destituição de chefes de estado que tenham de alguma forma quebrado a Lei e, que se saiba, Dilma Rousseff não o fez. Resulta, portanto, de todo este processo, mais do que a destituição da Presidente, uma apologia nutrida a uma lógica de “os fins justificam os meios” que tem tanto de primário como de contraditório com qualquer definição que possamos interiorizar do conceito de democracia.

 

Para estas pessoas que apoiam o golpe, fica claro que o que interessa é o resultado final por elas pretendido independentemente de todos os meios usados, independentemente de se pontapear a Lei, a justiça ou de se passar por cima da vontade popular.

 

Imaginemos se em Portugal o Presidente da República decidisse dissolver o parlamento sem fundamentação adequada? E se, no seguimento da sua decisão, se recusasse a convocar novas eleições e forçasse uma composição governativa não sufragada?

 

O que o Brasil está a viver é qualquer coisa deste género no contexto das idiossincrasias do seu próprio sistema republicano. Quem apoia tal solução pode puxar bem pela melhor retórica que trouxer na algibeira, pode engendrar as melhores justificações, pode falar de economia e de “mercados” com a mais robusta propriedade — parece que todo o processo terá, afinal, sido patrocinado e feito para o agrado desses mesmos “mercados” — pode falar do que quiser, só não pode falar de democracia ou dizer-se democrata.

 

Se não servir para mais nada, este processo serviu pelo menos para descobrir o quão elevada é a percentagem de antidemocratas no Brasil e, por generalização estatística grosseira, do resto do mundo.

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