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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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Sobrestimar o povo

por Amato, em 22.09.16

De vez em quando caio na real. Acontece. É importante cair na real.

 

O meu problema é sobrestimar o povo.

 

Hoje, na viagem de regresso, vinha a ouvir na Antena 2 um dos seus interessantíssimos programas. O de hoje à tarde versava a Inquisição. A Inquisição foi um movimento repressivo e reacionário da Igreja Católica que perseguiu todos aqueles que poderiam ameaçar a manutenção do seu poder sobre os estados, sobretudo os europeus. Neste sentido, perseguiu, torturou e executou, para além de membros de outras religiões, muitas das mais brilhantes mentes, homens e mulheres das ciências, das artes e da cultura, mas também defensores de um quadro de direitos e de liberdades mais avançados, humanistas e progressistas. A ação da Inquisição perdurou durante toda a Idade Média, atravessou o Renascimento e cada outro período até meados do século XIX. Disse bem, século XIX.

 

No programa de rádio, o locutor dizia que apenas uma pequena parte das denúncias populares conduziram a processos inquisitórios. Com efeito, o povo constituiu-se sempre como o principal aliado da barbárie, denunciando vizinhos e amigos, com ou sem justificação, e rejubilando com as queimadas públicas. Fazendo fast forward no tempo, vamos encontrar semelhante comportamento nos bufos da PIDE, no fascismo português. Não era preciso muito para alguém denunciar um companheiro por uma conversa de café. Não era o fascismo, nem era a PIDE. Era o povo que o fazia de bom grado.

 

O meu problema, repito, é sobrestimar o povo. Distraio-me muitas vezes e acredito que o povo pode ser capaz de muito mais do que aquilo que realmente pode. A Inquisição foi há menos de duzentos anos. O fascismo nem cinquenta anos de distância tem. Esperamos demais deste povo. Duzentos anos, cinquenta anos, não são nada em termos históricos. E o problema é que no interior do povo ainda estão bem vivas as mesmas motivações, o mesmo tipo de justificações coletivas, que conduziram às experiências reacionárias do passado.

Se o abstrato fosse concreto: um exercício ficcional

por Amato, em 02.03.15

Se este governo fosse uma pessoa, se tivesse braços e pernas e uma cara que pudéssemos ver, olhar nos olhos a cada atitude sua, seria seguramente alguém a quem me recusaria cumprimentar.

 

Seria uma pessoa mesquinha, sem vestígio algum de caráter, de espinha dorsal, alguém sem respeito ou consideração por quem quer que fosse com a exceção dos seus patrões, como fiel lacaio que seria. Forte com os mais fracos e fraco com os mais fortes. Sem respeito inclusivamente pela lei procurando forçar a sua vontade contra tribunais constitucionais ou meramente civis, recurso após recurso, chumbo após chumbo, advertência após advertência. Como que se julgando superior aos demais.

 

Seria uma pessoa que me revoltaria as entranhas a cada encontro ocasional. Com aquele ar petulante com que se apresenta após cada malfeitoria, aquele esgar hipócrita de quem procura fingir ser extremamente sério. Seria uma pessoa de escassa cultura, sem saber estar, sem saber viver, de boçais modos, de sorriso mentiroso.

 

E seria mais: seria o típico vizinho invejoso, ativo no seu desejo de rebaixar os seus pares ao seu próprio nível, ao invés de procurar, com eles, crescer também. Se os governos fossem pessoas, se os países fossem pessoas, como Portugal, como a Espanha, como a Grécia... que triste cena seria esta... Como poderiam certos governos, como pessoas que seriam, olhar-se ao espelho a cada manhã depois do que tentaram fazer nas costas dos outros em seu prejuízo?

 

Mas este governo não é uma pessoa. É uma entidade abstrata sem braços ou pernas, sem cara ou olhos. Quanto muito, são muitos milhares de pessoas. Ou essas pessoas, em geral, admitem que uma entidade abstrata faça aquilo que, por outro lado, consideram moralmente reprovável a um indivíduo de facto, ou então sou eu que não faço parte, que não me enquadro. São os meus valores que estão ultrapassados.

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Amato

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