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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

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A classe que sempre se espezinhou

por Amato, em 20.06.18

Neste país, de mentalidade vincadamente burguesa e de inspiração católica bafienta, o caminho por uma mais justa distribuição da riqueza tem sido muito lento e muito penoso. As pequenas conquistas são sempre custosas e raramente se sustentam numa real transferência de capital entre classes económicas, assentando antes em processos redistributivos no seio das classes mais desfavorecidas e à boleia de vagas de crescimento macroeconómico.

 

De entre todas as classes profissionais do país — de entre todas elas — aquela que mais perdeu no que diz respeito ao seu nível sócio-económico, aquela que sempre se espezinhou, que se fez hábito calcar e perseguir, foi a classe dos professores. Puxe-se pela memória, eu sei que é difícil!, mas lembremo-nos de um professor no início dos anos noventa.

 

Não existe um aspeto da profissão de professor que não esteja radicalmente pior: salário, horário de trabalho, condições de trabalho, burocracia, estabilidade, progressão e perspetivas de carreira. Há outras profissões que se podem rever nesta descrição, de acordo, mas nenhuma perdeu tanto e em tantos domínios simultâneos quanto os professores perderam. No início dos anos noventa um professor auferia um salário que o colocava claramente na parte de cima da hierarquia da sociedade. Hoje rivaliza, em termos de preço-hora, com os funcionários de limpeza doméstica. Tinha um horário de trabalho de vinte e duas horas, com eventual redução com a idade. Hoje tem um horário de trinta e cinco horas e ainda leva trabalho para casa. Tinha turmas, em geral, pequenas e era respeitado socialmente. Hoje tem turmas entre trinta a quarenta alunos que o desrespeitam e cujos pais o desrespeitam. A burocracia associada ao seu trabalho era uma ínfima parte da que tem que produzir nos dias de hoje. O processo de obtenção de um vínculo efetivo de trabalho era mais rápido e tinha perspetivas de chegar ao topo da carreira em tempo útil se cumprisse com o seu trabalho, coisa que hoje não tem porque se criaram cotas e esta surrealidade da “avaliação de professores” que toda a gente, professores incluídos, acha muito bem.

 

Por ventura, dirão alguns, os professores partiram de uma posição mais privilegiada do que as outras classes e, por isso, perderam mais num processo de nivelamento por baixo. Talvez. Olhemos para outras classes, então, que também partiram de um nível elevado. Olhemos para os médicos. Apesar de todos os ataques a esta profissão, de toda a degradação da mesma, os médicos não perderam tanto quanto os professores perderam. Porquê? Porque razão os professores sempre se deixaram espezinhar pelos sucessivos governos?

 

A razão encontra-se no facto de os professores nunca terem feito greves, isto é, greves a sério. Ao longo destas últimas três décadas, as greves dos professores foram sempre frouxas, com medíocres adesões e/ou às cavalitas das greves dos funcionários das escolas. Quando se ensaiava qualquer coisa mais séria, a classe era facilmente difamada e insultada pelo governo, pela comunicação social e forças reacionárias. Eram “as criancinhas” e os alunos que não poderiam ficar sem ter aulas ou sem fazer exame. Nos últimos trinta anos, a melhor coisa que os professores conseguiram fazer foi aquela manifestação enorme de 2008 no Terreiro do Paço em Lisboa. Quer isto dizer que, de um modo ou de outro, nenhum governo teve uma real oposição por parte desta classe e é por isto mesmo que esta classe se deu tão bem ao espezinho. Foi fácil espezinhar os professores: primeiro, havia o que roubar; segundo, era fácil roubar porque não havia resposta veemente ao roubo. Para os governos, foi juntar o útil ao agradável.

 

Parece que, desta vez, os professores estão a levar a cabo uma ação de luta concertada e séria, quer dizer, decidida. O governo já encetou ações fora da lei, como tem sido seu apanágio sublinhe-se, para condicionar esta greve às reuniões de avaliação. Decretaram serviços máximos para serviços que não têm urgência nenhuma, à semelhança do que também têm feito com as greves nos setores da energia e outros.

 

Espero que os professores não desmobilizem. A história e a história dos professores portugueses, em particular, diz-nos que se não lutarmos, perdemos definitivamente tudo. E os professores... já não têm muito a perder.

Isto é capitalismo!

por Amato, em 01.05.18

De todos os partidos com assento parlamentar, o único que produziu uma reação com um mínimo de interesse ao caso de Manuel Pinho foi o PCP. O caso de Manuel Pinho, dos quinze mil euros que, enquanto ministro, recebia da banca privada e dos favores que recebeu por parte da EDP, é, sobretudo, um caso de polícia e de justiça. É passado. Não é pelo facto de estar na ordem do dia, hiperventilado pelos media, que deixa de o ser. Amanhã, à semelhança de tantas outras notícias do género, tudo estará esquecido nesta nossa sociedade de brandos costumes.

 

Mais importante é averiguar o presente. Fundamental seria, em minha opinião, mobilizar todos os meios disponíveis para investigar o estado atual do presente governo, dos seus ministros e secretários de estado e também de cada elemento do parlamento português, das avenças que cada um usufrui, enfim, expor claramente a teia de promiscuidade que existe — não tenham dúvidas de que existe — entre governo e burguesia, plasmar nestes mesmos ecrãs de computador, de tablet, de televisão, o lobismo não declarado, não assumido, que governa o país. Vá, procurem! De certeza que encontrarão, sem muita dificuldade, quem anda agora a fazer os pagamentos. Uma dica: se calhar vêm de Espanha. Não se concentrem no passado! Foquem-se no presente!

 

Isto, sim!, seria interessante. O grotesco da coisa devia ser exposto com tamanha clareza que até fosse capaz de ser martelado adentro das mais néscias cabeças. Caso contrário, é apenas mais um caso para descredibilizar o sistema ao mesmo tempo que se mantém tudo como está.

 

Isto é capitalismo! É assim aqui e é assim em todo o lado! Mas vocês que leem estas palavras sabem bem disto, não sabem? Uma boa parte do país, atrevo-me a especular, ao mesmo tempo que critica Manuel Pinho não se coíbe de pensar: “Este é que a sabia bem! Estivesse eu no lugar dele e não faria melhor!”. Não procurem mais longe: aqui está a razão de ser do tamanho sucesso deste sistema económico-social que governa os povos. Não é liberdade, não é justiça, não é democracia. Não é, sequer, riqueza ou abundância. Com efeito, o sistema capitalista confere-nos muito pouco de tudo isto e muito em desigualdade. A razão de ser do seu sucesso é reduzir os povos humanos à sua natureza mais primária e retrógrada. Não somos mais que bestas selvagens em luta pela sobrevivência, sem ética, sem moral e sem princípios. E gostamos de viver assim.

Por lá e por cá

por Amato, em 14.04.18

Acho incrível como é que subsiste tanta gente que, depois de décadas de intervenções vergonhosas, indecentes e oportunistas no Médio Oriente, ainda atribui algum crédito aos Estados Unidos da América e aos seus lacaios patéticos, Reino Unido e França. É coisa que, sinceramente, nunca hei de entender!

 

Portugal assumir-se como um país sem espinha dorsal, isso já é fácil de entender. Sempre assim foi. O contrário constituiria novidade. E António Guterres, enquanto presidente das Nações Unidas, comportar-se como um verme vulgar com voz de sacristão que rouba o cesto das esmolas? Isso também é fácil de aceitar. É a natureza de cada um.

 

Agora, todavia, as coisas estão um pouco diferentes. Há um certo respeito que será receio, talvez, que se sente no ar. Um respeito por uma Rússia que se reergueu sem se dar por ela e que faz questão de não participar na fantochada diplomática do costume. Desengane-se quem procura adivinhar uma terceira guerra mundial: estes bombardeamentos são mero fogo de artifício para o mundo ver e, ainda assim, com aviso prévio aos russos porque isto do respeitinho... é coisa que é muito bonita.

 

Por cá, assistimos ao princípio do fim do mito a que se convencionou chamar de “geringonça”. Bloco de Esquerda e Partido Comunista Português fazem-me lembrar, com efeito, aquelas esposas continuamente traídas e mal tratadas num mau casamento que se mantêm na relação por amor aos filhos — os trabalhadores e o povo, no léxico comunista. Agora, parece que o marido, o PS, prepara-se para trocar em definitivo as esposas pela amante de sempre, a direita, corporizada no PSD. Esta história do “ir mais além que as metas europeias do défice” não tem nada de novo. O que aconteceu repetidamente no passado com as cativações é de idêntica natureza. A diferença é que, agora, o PSD apresenta-se solícito para tudo aprovar em matéria de política interna, sobretudo porque esta assim vai de encontro harmonioso aos interesses da burguesia que PS e PSD tão bem representam.

 

O PS conseguiu — facto assinalável —, ao longo de todo este mandato, fazer uso de BE e de PCP a seu bel prazer até ao preciso momento em que os seus pobres parceiros se esgotaram em préstimo e serventia. Um acordo mínimo foi suficiente para agarrar BE e PCP a uma prossecução de uma governação formalmente e em toda a linha de direita — contado desta forma, ninguém acredita!

 

É sem qualquer vestígio de satisfação que reconheço que este lamentável desenlace dos acontecimentos foi aqui, neste blog, repetidamente previsto e anunciado. BE e PCP ficam muito mal na fotografia e sofrerão — acredito, esperando estar errado — sérias consequências eleitorais.

 

É, por tudo isto que foi dito, que este apoio de Portugal ao mais recente bombardeamento americano à Síria me causou uma suplementar revolta. É que, e dirigindo-me concretamente ao PCP neste ponto, tendo-se revelado incapaz de forçar as reversões que realmente importavam ao país, como o Código de Trabalho, como a Segurança Social, os direitos, os salários e as reformas, não para alguns mas para todos, tendo sido incapaz de diminuir os impostos sobre quem vive do seu trabalho, tendo, enfim, deixado cair as suas principais bandeiras ideológicas em nome de uma travagem meramente simbólica da direita e da sua austeridade, deixa agora, também, cair a sua bandeira mais identitária que é a sua matriz anti-imperialista.

 

Ano após ano, no comício da Festa do Avante!, o secretário-geral do PCP estende a sua solidariedade aos povos que resistem ao imperialismo e dirige-se, concretamente, aos povos do médio-oriente. Como é que Jerónimo de Sousa conseguirá dizer isso este ano, tendo suportado parlamentarmente um governo que se aliou a uma agressão imperialista? Como? Não será possível. Não será mais possível.

 

É verdade que o PCP distanciou-se do governo e criticou-o por esta posição, mas caramba! Exigia-se mais! Estaremos a brincar às coligações? Ou para o PCP isto do imperialismo é conversa fiada que serve apenas para encher discursos e entreter as massas?

 

Não! Isto é muito sério. E, se o PCP fosse fiel à sua própria história e ideário, António Costa, depois da sua miserável intervenção de quinta-feira, caía durante esta mesma semana do seu pedestal de poder a menos que se retratasse e retirasse o nome do país desta abjeta lama onde o mergulhou.

 

O PCP, todavia, parece permanecer fiel a este medíocre papel de esposa desonrada de que falava acima. Queixa-se do governo que tem apoiado. Queixa-se num contínuo pranto. Mas não faz nada. Não faz nada.

 

Não faz nada.

 

Liga para o apoio à vítima, PCP. Liga. O número é o 116 006. Liga: é grátis. Pode ser que te ajudem.

Dizem que este governo virou a página

por Amato, em 30.03.18

Dos mesmos produtores de Dizem que este governo é de esquerda, chega-nos agora Dizem que este governo virou a página... da governação, da austeridade, do que quer que seja: aceitam-se sugestões!

 

Se as evidências do embuste não se acumulassem já em quantidades insuportavelmente obscenas, a realidade teima em adicionar mais capítulos à sórdida novela.

 

Desta feita, o mais recente capítulo chama-se Novo Banco. Adivinha-se e anuncia-se a injeção de mais oitocentos milhões de euros para prosseguir o resgate de mais um campo de jogos burguês, porque é exatamente isso que um banco é no quadro económico capitalista: uma plataforma de especulação e de jogo económico.

 

O povo paga a fatura.

 

O povo aceita este escândalo.

 

À parte de uma conjuntura favorável e de uma forma diferente de comunicar e de fazer exatamente as mesmas coisas que eram feitas pelo governo anterior, não há, com efeito, nada de substantivamente novo neste governo. Dizem que este governo virou a página... pois dizem! Aguardamos com entusiasmo as cenas dos próximos capítulos.

 

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O agitar hipócrita de bandeiras

por Amato, em 29.03.18

Hoje o pessoal de cabine da Ryanair está em greve e prolongará a sua luta por três dias. Podia ser mais uma greve, legítima, como tantas outras, mas é mais do que isso. As greves são sempre legítimas, sublinhe-se. Saem do bolso de quem trabalha e de quem precisa do dinheiro para sobreviver. Não é mais dia menos dia. Não é como beber um copo de água, como tantos comentaristas serventuários do poder burguês gostam de apregoar aos microfones que sempre lhes colocam à frente de suas bocarras nestas alturas. E, por isto mesmo, por esta natureza da coisa que é factual, as greves são sempre legítimas. Esta greve, todavia, é dotada de um simbolismo que é dramático.

 

A nossa sociedade adora agitar bandeiras. Ergue-as, agita-as, pousa-as. Nada acontece. Nada se passa. Por exemplo, a nossa sociedade indigna-se perante a falta de tempo para a parentalidade, revolta-se perante a apatia das leis, exige mais tempo e mais direitos para pais e mães. As televisões fazem programas dedicados ao tema. Os jornais publicam secções separáveis. As fundações da “sociedade civil” fazem conferências, às vezes, sobre o assunto.

 

Em simultâneo, acontece esta greve da Ryanair.

 

Os trabalhadores revoltaram-se contra a empresa que se recusa a cumprir a lei no que aos direitos de mães e de pais diz respeito. A Ryanair não só não cumpre a lei como persegue os trabalhadores que tentam fazer uso dos seus direitos, mudando-lhes mesmo o posto de trabalho contra a sua vontade. Mais: perante isto, a transportadora ainda ameaça o país em reduzir o seu negócio nos aeroportos portugueses.

 

Ora, a mesma sociedade que se indigna com o tema da parentalidade e dos direitos de pais e mães, coloca-se do lado da Ryanair nesta questão. Veja-se o que passa nas notícias, a cobertura indigna que este tema tem tido, a falta de solidariedade para com os trabalhadores. Erguer e agitar a bandeira é fácil. O que é difícil é ser consequente. O que é difícil é ser coerente.

 

E, sendo coerente, sendo consequente, impõem-se as seguintes perguntas:

 

  1. Para que precisamos nós de um ministério do trabalho, solidariedade e segurança social?

 

  1. Para que serves tu, José António Vieira da Silva?

 

As respostas são evidentes mas estas perguntas devem ser repetidas várias vezes. No fundo, representam a verdadeira natureza do sistema: um estado que existe para suportar o poder económico e que cria ministérios da treta para entreter e distrair a população, como se de oráculos ou circos se tratassem.

 

Aproveito também para relembrar o caso Autoeuropa: sociedade unida em peso contra a luta dos trabalhadores por um horário digno que lhes permitisse passar tempo de qualidade com as suas famílias e, ao mesmo tempo, preocupada com as indecentes ameaças de deslocalização da empresa. Aí, Vieira da Silva mostrou-se preocupado. Aí, Vieira da Silva falou e apelou ao bom senso dos trabalhadores. Ninguém se indignou com a imposição dos horários aos trabalhadores por parte da Autoreuropa que se seguiu. Agora, toda a gente acha natural que a Autoeuropa esteja parada, pela segunda vez, por falta de peças. Agora, Vieira da Silva não fala. Agora, Vieira da Silva não pede bom senso.

 

Esta hipocrisia é chocante. Mas nós gostamos.

A falácia do "novo mercado de trabalho"

por Amato, em 20.02.18

Ontem de manhã ouvia uma tal de Manuela Ferreira Leite falar na rádio. Entoava uma ladainha morna e rouca sobre o código de trabalho. “O trabalho de hoje em dia não é como antigamente”, dizia, “é dinâmico, as pessoas trabalham à tarefa e a partir de casa”. “O código de trabalho tem que refletir este dinamismo”, este “novo mercado de trabalho” que existe.

 

Sobre este assunto e sobre esta argumentação queria expressar duas notas breves.

 

A primeira é que, invariavelmente, é-nos impingida a falácia de que o trabalho com direitos e com regras é coisa velha e antiga ao passo que o trabalho desregulado e liberalizado é coisa genuinamente nova. Não há nada de mais rigorosamente falso. Antes da revolução, portanto, há coisa de quarenta e quatro anos, amontoavam-se os camponeses, todos os dias, nas chamadas praças de jorna, à espera que o capataz os viesse buscar para trabalhar ao dia. Todos os dias repetia-se a mesma cena. Não havia fixação de salários, não havia horários de trabalho, não havia direitos. Repare-se que estamos a falar de um tempo muito próximo, de um passado muito recente, mas que o discurso da gente da estirpe de Manuela Ferreira Leite faz parecer distante e a nossa memória coletiva de peixe de aquário também promove esta ideia.

 

O natural desde sempre na história do Homem é o trabalho sem direitos, é o trabalho liberalizado. O trabalho com direitos e estabilidade é uma exceção que foi muito recente e, malogradamente, efémera.

 

A segunda nota que queria deixar é a seguinte. A necessidade de estabilidade e de segurança é uma das necessidades hierarquicamente mais importantes para o ser humano. Segurança no trabalho, como na habitação, como na alimentação, segurança física e segurança emocional, são condições fundamentais para a felicidade do ser humano, já dizia Maslow. Pensar que, apenas porque hoje em dia usamos computadores mais avançados, tablets e smartphones, essa necessidade deixou, por artes mágicas, de existir, é, mais que uma ilusão, um engodo. O truque para perceber bem isto é pensar em nós próprios, no que queremos e não no que queremos para os outros.

 

O que acontece é algo diferente. As gerações estão a estupidificar-se naquilo a que chamaria de celebração da juventude ignorante. Nas sociedades, tudo é dirigido aos jovens que crescem a pensar que são os reis do universo, ao mesmo tempo que os seus estilos de vida vão sendo sustentados pelas gerações mais velhas que também contribuem para o alimentar desta mistificação. Por não pensarem no dia de amanhã, os mais jovens deixam que as sociedades se desregulem, abraçam a selva e a lei do mais forte que vigora. Vai chegar o dia em que estes balões de oxigénio que vão carregando a nossa sociedade se vão, inevitavelmente, esvaziar. Aí, quando as gerações mais jovens deixarem de poder comer na casa dos pais, nesse momento, poderemos observar a verdadeira face do novo mundo do trabalho. Aí, diremos à gente da estirpe de Manuela Ferreira Leite para ir pregar para outra freguesia.

Depois da geringonça

por Amato, em 04.02.18

A sucessão de eventos da política nacional tem concorrido para suportar aquela tese que tem vindo a ser defendida neste blog: o PCP rendeu-se definitivamente a uma posição ora de indisfarçável embaraço, ora de humilhação declarada. É uma humilhação de quem perdeu o pé na estrutura ideológica onde caminha, de quem já não sabe muito bem distinguir entre o essencial e o acessório, confundindo constantemente o último com o primeiro. O essencial é o património ideológico. O essencial é o revolucionar da sociedade burguesa. O acessório é este fogacho de poder e as esmolas que se conseguem conquistar ao poder burguês.

 

Aprovado mais um orçamento de estado, mesmo depois de ter sido enganado pelo governo, em orçamentos anteriores, com a patifaria das cativações, o PCP propôs medidas concretas para regulamentar o código de trabalho. Esta semana, o governo rejeitou todas as medidas apresentadas votando ao lado da direita parlamentar, como aliás tem sido seu apanágio. O mesmo governo que precisa do apoio do PCP para aprovar orçamentos, vota com a direita em tudo o que é política essencial e estrutural, nomeadamente no que diz respeito ao código de trabalho e à segurança social tão essenciais que são para qualquer política séria de redistribuição de riqueza, seja ela qual for. Precisamente por saber disto mesmo, o governo joga à direita. E o PCP encolhe os ombros.

 

Perante isto — que é uma verdadeira afronta política reiterada — o PCP encolhe os ombros; e coloca cartazes que dizem “Nós propusemos, o governo rejeitou”; e põe o Jerónimo em comícios a choramingar as traições da companheira política adúltera. É este o ridículo a que está votado o PCP. É esta a camisa de sete forças na qual o partido voluntariamente enfiou os seus braços. É este o embaraço. É esta a humilhação de um partido que se arrisca a perder tudo, o pouco ou o muito, consoante o ponto de vista, que lhe restava: a sua espinha dorsal.

 

Nas ruas os trabalhadores lutam sozinhos. Na Autoeuropa, na Galp, na Triumph, na Gant e em tantos outros locais, os trabalhadores e trabalhadoras lutam sozinhos. Os sindicatos permanecem adormecidos, inoperantes, paralisados de movimentos. Na Assembleia da República ninguém vale aos trabalhadores. Nenhuma palavra inconsequente lhes vale. Nenhum projeto de lei condenado desde a nascença ao fracasso lhes vale. Eles lutam sozinhos. Nunca conseguirei compreender como esta posição minoritária do PS se transformou numa posição de força inabalável. Nunca conseguirei compreender como uma força real — a força de fazer cair um governo de um momento para o outro — se transformou em fraqueza tão evidente que até soa a cobardia. E acho que muitos outros, como eu, também não.

 

Não sei o que será do PCP depois da geringonça e isso preocupa-me, porque não sei o que será do país sem a força deste pilar ideológico que tanta falta lhe faz. A força de ser diferente, em coerência e em exemplo, esbateu-se. Esbateu-se a frase “estamos ao serviço do povo e dos trabalhadores”. Esbateu-se a frase “nunca tivemos oportunidade de governar”. Esbateu-se até mesmo a frase “somos diferentes”. A oportunidade de ser diferente é agora. A oportunidade de influenciar a governação é agora. A possibilidade de mostrar serviço ao povo trabalhador é agora. É agora e foi ontem e será amanhã num amanhã que se abrevia rapidamente com o passar dos dias.

 

Ao PCP sobrará apenas a esperança de que o eleitorado lhe reconheça alguma influência positiva nesta geringonça que está para acabar e que isso lhe possa valer para voltar mais tarde, mais forte. O PCP, em suma, joga toda a sua mão na memória do eleitorado, coisa peculiar que nunca lhe valeu antes e que não consta que tenha valido alguma vez a alguma força política. Não consta, sequer, que essa massa informe a que se chama de “eleitorado” seja dotada dessa importante faculdade quando, pelo contrário, nas suas ações e dinâmicas se aparenta mais a um peixe de aquário do que a outro animal qualquer.

 

Quando a geringonça acabar o país que restará será um gémeo apalermado e algariado do Portugal de Passos e de Portas. A diferença essencial é esta mesma: um clima económico expansionista, que se vê na concessão desenfreada de crédito — a qual já faz soar campainhas de alarme no Banco de Portugal —, alicerçado numa bolha turística que se agiganta a cada dia que passa, ou seja, alicerçado em coisa nenhuma. A par disto, há as reposições de direitos a reformados e a funcionários públicos. Isto é anedótico para ilustrar uma política socialista séria, para dizer o mínimo. Também é alarmante enquanto política e estratégia económicas a médio e longo prazo. Já este ano começaremos a aferir da consistência desta política quando o Banco Central Europeu começar a cortar na compra de títulos de dívida pública. Também aqui, exigia-se ao PCP uma outra resposta. Acreditar que reposições de salários — ainda por cima setoriais — resolvem, por si só, problemas económicos estruturais é coisa para partidos irresponsáveis e demagogos.

 

Mas a resposta do PCP é outra, é a mesma desde o princípio da geringonça: é ter um pé dentro e outro fora, é dar o aval com uma mão e apontar o dedo com a outra, para tentar passar a ideia desesperada de que tudo o que é positivo a ele se deve, ao mesmo tempo que tudo o que é negativo ao governo deve ser assacado. Tristes figuras, estas que têm os destinos do PCP nas mãos... não percebem que o resultado final será aquele que é rigorosamente simétrico ao que pretendem.

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