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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Uma questão de respeito e de caráter

por Amato, em 15.05.15

Há sensivelmente uma década, havia um pequeno terreno na posse da minha família. Havia sido legado pelos meus avós paternos e estava, em partes iguais, nas mãos dos seus filhos. Ninguém tinha um interesse objetivo no aproveitamento daquele terreno e, por isso, surgiu a natural possibilidade de o vender e repartir o dinheiro obtido.

 

Hoje, lembro-me de duas frases proferidas na altura do negócio. Ficaram-me gravadas na memória. Houve alguém que disse “Desde que seja suficiente para eu comprar um carro...”, ao que alguém, mais velho, respondeu com o dito popular “Se queres comprar bom e barato, compra a quem herdou que nunca lhe custou”.

 

Lembro-me desta história a propósito da privatização da TAP. As declarações do primeiro-ministro e do seu secretário de estado são inadmissíveis. “A TAP será vendida pelo que valer”, “A TAP será privatizada a qualquer custo”, são exemplos de quem vende fácil porque vende o que herdou, porque vende o que não lhe custou. São exemplos de falta de educação e respeito (para com os seus), de falta de caráter.

 

Nestas questões económicas as discussões nascem, por norma, inquinadas. Nascem de falsas premissas, de axiomas impostos como leis ou inevitabilidades indiscutíveis. “A TAP está falida”, “é um caso impossível”, “é um poço de prejuízos”, etc., como se acaso não fosse responsabilidade governativa, não apenas deste governo é certo, a gestão ruinosa que foi feita na companhia e como se o setor privado fosse composto por uns iluminados capazes daquilo que o setor público não consegue. É muito triste e deprimente mas esta é a argumentação que está em cima da mesa.

 

Este governo, aliás, vai ficar para a história como o governo das inevitabilidades. Nada do que faz é sua opção própria. Não existem opções. Tudo é feito porque tem que ser feito. Vivemos a era política mais absurda e surreal de que há memória.

 

Não sei, pensando bem, se este governo ficará na história. É demasiado medíocre. Mas nós, a nossa geração, ficaremos seguramente na história como a geração mais inerte e apolítica da democracia.

Portugal em lei marcial, não um acidente de percurso, mas um ponto de controlo para a meta

por Amato, em 10.10.14

Portugal encontra-se em estado de sítio onde impera a lei marcial. É já claro que o estado se vê incapaz de providenciar os serviços mais básicos e essenciais ao funcionamento da sociedade, sendo os mais visíveis a justiça e a educação, não constituindo casos únicos. Com efeito, a desorganização estende-se transversalmente a todos os outros setores, incluindo a saúde, a organização do trabalho e do sistema de apoio social. Os dois primeiros são, sem prejuízo para os demais, as capas de cartaz desta lamentável peça governativa de não menos lamentáveis intervenientes. Relativamente ao primeiro, a justiça, devemo-nos contentar por ela se encontrar vendada, incapaz de ver, por exemplo, aquele decreto-lei que suspende todos os prazos processuais, assim como o funcionamento das estruturas da justiça em tristes caixotes ou até o transporte de materiais processuais em condições surreais. Fala-se no comprometimento de imensos processos. Já no caso da educação não existe memória efetiva de um ano de tanta falta de competência e de vergonha no processo de colocação de professores. Passa-se um mês após o início do ano letivo e é esmagadora, e arrebatadora até, a quantidade de escolas que não funcionam em pleno, de alunos sem aulas e sem acompanhamento.

 

Tirado o negro e vil retrato do estado a que o país chegou seria importante perceber o fenómeno não como um acidente de percurso, como alguns querem fazer passar, ou como um problema de competência dos ministros em causa, como muitos mais pretendem pintar, mas como um um checkpoint, ou ponto de controlo, que opaís está a atravessar, no caminho para a meta final pretendida. De facto, esta situação é uma consequência das políticas traçadas, do desinvestimento contínuo e sustentado, ano após ano, atravessando todos os setores. É uma consequência e uma estratégia, um passo determinante na desvalorização dos serviços de justiça e de educação, e machadada efetiva na descredibilização do estado enquanto prestador de serviços, passando a imagem de ser uma entidade incapaz de gerir o que quer que seja. Esse é o objetivo intermédio fundamental para, então, desimpedir o caminho para aquela meta que está e esteve presente desde o princípio: a privatização generalizada de todos os setores, leia-se, a venda de garagem do próprio estado em peças soltas.

 

Nota: Não se confunda o desinvestimento operado com poupança. Uma coisa não corresponde à outra. O que se tem passado é o transporte de verbas dos serviços públicos para outras alocações.

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Amato

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