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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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CGD: sinopse de uma novela

por Amato, em 26.02.17

O caso Caixa Geral de Depósitos (CGD) tem que forçosamente ser contemplado desde longe. De perto, com o nariz colado ao plasma ou ao LCD, as notícias que se sucedem afogam-nos num enredo burlesco, de conteúdo pouco relevante, que nos afasta do essencial, não nos permitindo obter um entendimento claro sobre os acontecimentos. A sequência dos eventos impinge-nos uma opinião genérica de genuína repulsa por todos os intervenientes sem distinção. Na verdade, não conseguimos distinguir este, daquele ou daqueloutro e a todos condenamos segundo os mesmos genéricos princípios e isso é, na realidade, não condenar ninguém, é deixar tudo na mesma.

 

Se dermos uns passos atrás, todavia, o caso CGD reveste-se todo ele de um simbolismo sinistro relativamente a um retrato mais apurado da sociedade em que vivemos, daquilo que coletivamente somos, como que um diagnóstico cabal do estado doente em que nos encontramos.

 

Damos, portanto, dois passos atrás sobre a sucessão dos episódios da novela para produzirmos um melhor entendimento.

 

Vamos ao princípio: o caso começa com o anterior governo, o qual se empenhou em liquidar o banco público. PSD e CDS tudo fizeram em termos de influência em gestão danosa para depauperar a Caixa — em tempo oportuno, alertei para este facto — num misto de ações injustificáveis de suporte à banca privada e a outros intervenientes do setor. O objetivo era claro: deixar a Caixa num tal lastimável estado que não pudesse subsistir hipótese alguma para além de a entregar de mão beijada nas mãos do capital privado. O objetivo da privatização da CGD era tão claro que o guião seguido pelo governo anterior foi precisamente o mesmo que foi aplicado a outras empresas entretanto privatizadas, das quais a transportadora aérea TAP é exemplo último.

 

Quando o atual executivo assume funções vê-se confrontado com esta situação de quase não retorno. Podemos especular que, acaso o governo não tivesse que responder perante os partidos que, à sua esquerda, o suportam parlamentarmente e para os quais a banca pública assume capital importância, talvez não tivesse sido tão enérgico e profícuo em resolver o imbróglio e, por esta altura, já a CGD não seria mais um banco público.

 

Foi neste contexto que o atual governo chamou António Domingues para desenhar um plano de recapitalização da CGD e recuperar o banco. António Domingues, vindo da banca privada — sempre esta relação suja de promiscuidade entre o estado e o setor privado —, exigiu — qual eleito pelos deuses —, contrapartidas muito curiosas para assumir funções, as quais incluíam um estatuto diferente dos demais gestores públicos que lhe permitisse, a si e à sua equipa, evitar uma declaração pública de rendimentos. Ao que tudo indica, o Ministro das Finanças terá concordado com tais exigências sob o pressuposto de conseguir aprovar no parlamento essa alteração à lei, facto que não veio a suceder.

 

Neste ponto, observe-se a moralidade decadente dos intervenientes, ainda que agindo dentro das fronteiras da lei.

 

Todavia, PSD e CDS, os mesmos partidos responsáveis pelo criminoso processo que conduziu a este lamentável estado contemporâneo da banca pública, têm alimentado uma ordinária ofensiva ao Ministro das Finanças com base numa interpretação de que este terá mentido numa comissão de inquérito. O festival protagonizado inclui a falta de respeito ao parlamento e ao Presidente da Assembleia da República, segunda figura do Estado, o obstar aos trabalhos da comissão de inquérito e a inusitada demissão do presidente da referida comissão.

 

Observe-se — palavra que isto nunca me deixa de espantar — o tempo de antena, a voz, que é dada pela comunicação social tanto a PSD como a CDS em todo este processo. É o mesmo que uma igreja fazer de um criminoso o seu novo pastor para pregar moralidade aos demais.

 

Ao mesmo tempo, António Domingues vai fornecendo informações avulsas sobre as comunicações que terá trocado com o Ministro das Finanças. Por que razão não as forneceu à comissão de inquérito em que foi ouvido, ninguém percebe.

 

O que para mim resulta de mais extraordinário depois de tudo isto é o facto de que nenhuma estrutura do país parecer estar preocupada com o facto de António Domingues não querer revelar a extensão do seu património. Não há vivalma que se interesse por isso. O que será que os bens de Domingues poderão revelar? Que “benfeitores” estará Domingues a proteger? Que sórdidas relações com os poderes do mercado de capitais poderão ser reveladas com a sua declaração de bens?

 

Uma coisa é certa: se acaso se tratasse de um cidadão comum a exibir um padrão comportamental deste tipo seguramente que a sua vida estaria já completamente escalpelizada na praça pública.

Sobre o PEC, o mundo real e as abstrações idílicas

por Amato, em 29.01.17

Coloco-me, uma vez mais, contra este governo e contra este estado de coisas e colocar-me-ei as vezes que forem precisas para acalmar a fúria que sinto dentro de mim, para poder, enfim, dormir um sono pesado à noite, em paz comigo mesmo.

 

Em tudo o que é estrutural neste país, não houve nenhuma reversão. Vieira da Silva diz que “mexer no Código de Trabalho não é prioritário”, como não poderia deixar de dizer, pois claro. Esta novela em torno do aumento do salário mínimo, então, é absolutamente dramática, pois desmascara as verdadeiras intenções do governo: fingir que dá ao povo, para o roubar pelas costas.

 

Nunca se viu um governo subsidiar os patrões deste país para que se aumente o salário mínimo. Nunca! É nojento. Derrotada a benesse da TSU no Parlamento, por intermédio de inesperados protagonistas, é certo, já se prepara uma diminuição do Pagamento Especial por Conta e comunistas e bloquistas aplaudem, desta feita, a medida!

 

Comunistas e bloquistas acham bem que uma porção considerável das empresas deste país subsistam ano após ano apresentando prejuízos e consideram que o PEC é injusto. É nestas coisas que apetece gritar aos ouvidos de PCP e Bloco, sobretudo aos do PCP por ser mais coerente e politicamente experiente, «Caiam na real! Este não é o mundo perfeito que imaginam e estas pessoas que aqui vivem não são as virgens impolutas que vocês imaginam que são!».

 

As leis têm também que ir ao encontro do mundo real e não apenas de uma qualquer abstração idílica. Devemos caminhar em direção à utopia, é certo, mas com os pés bem assentes na terra. Não devemos legislar por desconfiança, mas devemos encarar o mundo de frente, observar com sabedoria, e não fingir que não se vê.

 

Quanto menos estas empresas tiverem de pagar, menos pagarão, não porque não podem ou porque não é justo, mas porque faz parte da sua natureza e está ao seu alcance a evasão a essa responsabilidade. Não querer ver isso apoiando a diminuição ao PEC é uma estupidez e seguramente sairá muito caro ao país, não apenas em termos de receita fiscal, mas sobretudo a nível de equilíbrio social.

Sobre a “feira de gado”

por Amato, em 01.01.17

É interessante que as pessoas, sobretudo as que dão a voz por este entendimento parlamentar de suporte ao governo PS, se surpreendam com episódios como o de Augusto Santos Silva e a sua já célebre comparação da concertação social com uma feira de gado.

 

Augusto Santos Silva sempre foi um político rude, mal educado, prepotente, dono de uma arrogância visceral que advém não se percebe muito bem de onde, de que superioridade moral ou intelectual, pois não decorre nem da prática, nem da teoria, apenas escorre de uma verve que é tão somente puramente venenosa. A sua escola é a mesma de tantos, tantos outros, que hoje pululam, ora no PS, ora no PSD: é a escola da extrema-esquerda do pós vinte e cinco de abril, anticomunista de gema, trotskista, talvez, por vezes, sabe-se lá. Talvez pudesse ser, em boa verdade, o que quer que parecesse mais conveniente na ocasião e que concorresse para a sua escalada política. E como Augusto Santos Silva soube escalar bem!

 

Isto de se ter uma boa memória é um problema sério. É que não permite apagar com uma borracha o percurso das pessoas, o que se disse e o que se fez, só porque agora parece que convém porque há uma coligação à esquerda no parlamento e cuja redoma de vidro é imperioso proteger.

 

Lembro-me bem do percurso de Augusto Santos Silva, do que defendia e do que apoiava enquanto militante da esquerda radical nos anos setenta e oitenta, como também me lembro bem da sua transição para o PS e dos insultos que cuspia para a sua esquerda no parlamento, do alto dos seus múltiplos cargos. Destaco particularmente as suas vergonhosas intervenções, verdadeiramente inenarráveis, enquanto Ministro dos Assuntos Parlamentares de José Sócrates. Mas o povo já não se lembra. Eu lembro-me bem. E quando me apercebi que este executivo de Costa iria ter nomes como o de Augusto Santos Silva, entre outros, compreendi na perfeição o engodo das promessas deste governo.

 

Mas não dispersemos do essencial. Em Augusto Santos Silva não há novidade absolutamente nenhuma. Pelo contrário, há coerência na insolência e na descortesia. A única novidade é a cândida complacência com que é tratado por parte de certos setores. Questiono-me até quando irá a esquerda parlamentar continuar a proteger este governo, até quando manterá a sua hipócrita amnésia sobre a verdade histórica deste e de outros personagens. Questiono-me se estas migalhas sociais conquistadas, absolutamente insubstanciais, iníquas, efemeramente inconsistentes, valerão a pena quando vislumbradas daqui por dez, vinte anos. Espero sinceramente que valham.

Ainda sobre os colégios privados

por Amato, em 27.05.16
  1. Escrevo este post ainda sobre esta temática asquerosa porque a asquerosa temática persiste em inundar a ordem do dia, não obstante não possuir um pingo de sustentabilidade lógica ou de legitimidade.

 

  1. Noto, com sentimento de profunda repulsa, o facto que concorre para o anterior de que diversos pivots/jornalistas da televisão pública e privada se associarem de modo mais ou menos não declarado a tão absurda contenda usando blusas ou gravatas de cor amarela.

 

  1. O movimento dos colégios privados acha bem fazer uso de jovens e crianças nas suas manifestações.

 

  1. Alguns encarregados de educação já denunciaram que os seus filhos são obrigados a participar das encenações e que perdem aulas por causa da fantochada.

 

  1. Com o ponto (3.) e com o ponto (4.) ninguém parece verdadeiramente importar-se.

 

  1. Ao contrário do que se diz, é importante sublinhar que as condições materiais e estruturais dos colégios privados são, em regra, muitíssimo piores do que nos estabelecimentos públicos.

 

  1. Muita gente mostra-se preocupada com o futuro de professores e funcionários dos colégios privados.

 

  1. Coincidentemente, nunca se preocuparam com a legião de professores que foram afastados do ensino público no início desta crise.

 

  1. Uma nota: foram muitos, muitos mais, do que estes de que agora se fala.

 

  1. Também ninguém se preocupa com as condições laborais dos trabalhadores dos colégios privados.

 

  1. Na maior parte dos casos, os vencimentos são inferiores e os vínculos precários.

 

  1. Os colégios privados preparam agora uma enorme manifestação em frente ao parlamento.

 

  1. Diz-se que já estão a fretar camionetas.

 

  1. Parece que o ato de fretar camionetas, na cabeça de muita gente, só é indecente nas manifestações dos sindicatos.

 

  1. Esperemos para ver a atuação da polícia de intervenção nesta manifestação, sempre tão lesta para aplicar bastonadas em manifestações pacíficas e ordeiras de trabalhadores a lutarem pelos seus direitos.

 

  1. Esperemos — acima de tudo! — que o primeiro-ministro não vacile face ao lobby, face ao irracional, face ao disparate.

 

  1. Não ponho as mãos no fogo pelo número anterior (16.).

Os tempos difíceis do governo

por Amato, em 16.04.16

Já era expectável um cenário semelhante àquele que experimentamos para os anos que durar este executivo governativo. Os dados já tinham sido lançados ainda antes, muito antes, do processo de formação do governo, processo esse que, se outra coisa não lograr, serviu pelo menos para o extremar de posições à direita.

 

As forças de direita traduzem-se na atualidade por forças de um bloqueio que extravasa em muito a sua condição de oposicionistas. Com efeito, não há que temer pronunciar a verdade, as forças de direita assumem um caráter extremista radical, manifestando a sua incapacidade de aceitação do desenrolar democrático através de atentados bombistas mediáticos que vão ocorrendo a um ritmo diário, sem precedentes, numa ação concertada com os poderes económicos e os seus instrumentos propagandistas, os jornais, as rádios e as televisões.

 

O precedente aberto com este modus operandi da direita revela o seu desespero pela perda do poder mas, mais do que isso, demonstra uma fúria descontrolada por parte da burguesia portuguesa pela ideia de ter perdido os seus mais fervorosos servos apóstolos dos locais de decisão. Se refletirmos por um momento, é difícil encontrar sólidas justificações para esta ação. De facto, a alternância PS-PSD foi sempre, historicamente, o inabalável eixo de salvaguarda e de amparo a cada um dos mais íntimos desejos dos capitalistas deste país e este governo, até ver, não tem beliscado excecionalmente os seus interesses. O que será então?

 

O que será que justifica a sucessão de notícias que têm aparecido? Esta semana acordámos numa gritaria histérica em redor do caso Diogo Lacerda Machado. O país acordou em peso para a inaceitável realidade de haver um intermediário não oficial do Estado a negociar em seu nome e de este também ter os seus próprios interesses profissionais e particulares. Lamentavelmente, os meios de comunicação como um todo foram atingidos de amnésia aguda. Esqueceram-se, por exemplo, de casos como o do falecido António Borges que, no tempo do anterior executivo, era tido como o Ministro Sombra. Esqueceram-se e, subitamente, o caso Diogo Lacerda Machado assumiu contornos de escandaloso. Creio que “escandaloso” seria melhor aplicado a esta falta de vergonha que assola a ação da direita portuguesa e que se sobrepõe, como sempre, a qualquer tipo de ética jornalística. Aliás, parece já não existirem jornalistas a habitar os jornais: parece que apenas existe e se multiplica essa massa informe de vida a que se dá o nome de opinantes.

 

Frequentemente, dou comigo a pensar que quem mais critica atualmente o governo é quem menos legitimidade tem para o fazer e o inverso também é verdadeiro. As pessoas que criticam ferozmente o governo por este não lhes conceder aquilo que esperavam são, por ventura, as mesmas que votaram à direita, nas políticas de austeridade e de carestia. Seria bom que também aqui houvesse um pouco menos de hipocrisia.

 

Este desespero da direita não é exclusivo de Portugal, longe disso. Vemo-lo claramente noutros países da Europa, na América Latina, em África. Tenho amigos que acreditam que é fruto de um outro desespero mais profundo, um desespero do sistema. O capitalismo encontra-se numa situação aflitiva, embora invisível ao olhar comum. Os seus mercados de outrora estão a fechar-lhe as portas. A China, sobretudo, e a Índia ocupam muito daquele que era o seu sacrossanto espaço de exploração de recursos humanos e materiais. O mesmo se começa a experimentar na América Latina e em África, embora noutros moldes e a outras velocidades. E é neste contexto que se pode perceber melhor esta deriva antidemocrática e autoritária, de pensamento único, que assola os partidos do regime um pouco por todo o mundo. É uma questão de sobrevivência. É a sobrevivência do capitalismo que está em causa.

 

É claro que, retornando ao caso português, nem governo, nem maioria parlamentar, concorrem para uma perspetiva de legislatura serena. O governo multiplica-se em questiúnculas patéticas, de natureza distintamente paralela ou superficial que, não obstante a sua insignificância, consegue magnificar assinalavelmente através da sua inabilidade e uma certa obstinação pelo politicamente correto. São exemplos o caso do Ministro da Cultura, do novo e do velho, do secretário de Estado da Juventude e Desporto e do Colégio Militar. Por seu turno, a maioria parlamentar de sustentação governativa, concretamente o Bloco de Esquerda, parece querer navegar a onda das primeiras páginas de que falava nos primeiros parágrafos e, desse modo, fazer o papel da direita confrontando o governo com pseudoproblemas e erguendo disputas que, objetivamente, não são as suas. Assim foi o caso da agressiva exigência da demissão do Governador do Banco de Portugal. A deriva febril por mediatismo do Bloco não possui um vislumbre de término e não cessa em surpreender-me. Apenas justifico tal ação, de mim para mim, como uma estratégia precipitada de distração das massas daquela picaresca proposta do Cartão de Cidadania.

 

Em todo o caso, o governo vive tempos muito difíceis que não parecem dever o que quer que seja ao circunstancial. Existe ainda o Presidente Marcelo que poderá ter uma palavra a dizer. A minha dúvida, por ora, é saber se essa palavra que o Presidente eventualmente dirá não será imposta pela força das circunstâncias com que este governo se rodeia, sobrepondo-se à declarada e descrita estratégia da direita. Para já, nestes preliminares tempos de presidência, a ação do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa suscita-me apenas palavras de aprovação que pronuncio sob um composto de surpresa, de reconhecimento e uma ponta de desconfiança. Poderá até ser que sejam as “qualidades” do seu antecessor que o valorizem, mas Marcelo Rebelo de Sousa apresenta atributos, a oratória, o bom-senso, a sua capacidade diligente, e também uma certa transparência no trato e na comunicação, que acrescentam e elevam o cargo, como aliás o cargo, desesperadamente, precisava.

Debruçando o olhar sobre a situação espanhola

por Amato, em 04.03.16

Entretenho-me a debruçar o olhar sobre a cena política espanhola. É mesmo isso: não lhe dispenso uma atenção desmesurada, nem tenho os números de cabeça. Diverte-me, simplesmente, o imbróglio, o que se diz sobre o imbróglio e o que o povo, o espanhol e o português, pensa sobre o assunto.

 

Os comentadores dizem que o caso espanhol é muito diferente do caso português e talvez tenham razão. Depende sempre do ponto de vista. Na minha perspetiva, há mais do que os une do que o que os separa, sendo que o que os separa reduz-se aos resultados eleitorais. Com efeito, é na correlação de forças do Parlamento que resultou das eleições onde reside a única, mas substancial, diferença.

 

De resto, é tudo semelhante: o PP espanhol é tão conservador e retrógrado quanto o PSD-CDS português; o Mariano Rajoy é um ser tão ignorante e sinistro quanto o Passos Coelho; o PSOE é tão simultaneamente liberal, capitalista e demagogo quanto o PS português; o Podemos e o Bloco de Esquerda são gémeos paridos do mesmíssimo lugar, uma espécie de refundação da social democracia, anticomunista, mas inspirada na verve e na propaganda da extrema-esquerda, a que eu chamo ironicamente de “nova esquerda”, e os seus líderes são paladinos empáticos e bem-falantes; existe a Esquerda Unida em Espanha, irmã da CDU de Portugal; e pelo meio, há um novo partido conservador chamado de “Cidadãos” que é, de facto, como aquelas abjeções popularuchas, que nós também temos por aqui aos magotes, cujas bandeiras são a luta contra a corrupção, a refundação do sistema e o reavivar dos bons costumes com laivos de modernidade. Talvez os representantes do Ciudadanos se vistam melhor e sejam menos brejeiros do que por aqui. Ou talvez nem isso os diferencie.

 

A diferença, como dizia no início, reside na sentença decretada pelos verdadeiros juízes da democracia: os votos das populações. Enquanto que em Portugal, o PS pôde formar maioria parlamentar com duas forças à sua esquerda, tal não é possível em Espanha. O Ciudadanos obteve suficiente força eleitoral para se tornar peça-chave em qualquer solução governativa sem o PP e, então, disso resultou uma equação governativa envolvendo variáveis inversas não conciliáveis.

 

Tal como em Portugal com o Bloco, o Podemos cavalga sobre a onda do seu resultado eleitoral e joga o jogo político como um louco, sem bom senso e sem equilíbrio. A sua estratégia é o tudo ou nada. A diferença aqui reside no peso diferenciado entre os movimentos comunistas. Em Portugal, a CDU obteve suficiente peso para poder influenciar as decisões e equilibrar a estratégia kamikaze do Bloco. Em Espanha o mesmo não se verificou com a Esquerda Unida, pelo que o Podemos prossegue à vontade o seu extasiado foguetório sem qualquer tipo de contraponto.

 

Bastaria que em Portugal se trocasse a votação da CDU pela votação do partido de Marinho Pinto, por exemplo, para estarmos a viver a mesmíssima situação de ingovernabilidade que Espanha experiencia de momento.

 

É por isso que, enquanto outros procuram diferenças, eu encontro semelhanças. O povo português e o povo espanhol são muito parecidos, no seu conservadorismo essencial, nas suas ortodoxia e devoção religiosas, na forma como compreendem o mundo. As diferenças que vão ocorrendo são meros acasos, meros requintes da aleatoriedade.

 

É verdade que em Espanha há uma monarquia e um rei e em Portugal há uma república e um presidente, mas mesmo isso é uma questão meramente formal, é uma questão de estilo e de apresentação do regime. A maioria dos portugueses olha para a sua república como uma monarquia. A maioria dos portugueses entende o seu presidente, o seu primeiro-ministro e demais governantes, como se de tipos de sangue azul se tratassem. E ficam sempre muito admirados quando constatam que, afinal, assim não é.

As “pequenas” coisas e a base dos entendimentos

por Amato, em 31.12.15

Num destes dias de dois mil e dezasseis é possível que o PS se veja sozinho, isolado, débil. Então, assistiremos a um golpe de misericórdia que se materializará na decapitação deste executivo governamental. Esse golpe virá pelas costas e será dirimido pelas mãos juntas dos partidos da grotesca PaF, por ora defunta fingida. Nesse momento, a sociedade em peso apontará os seus dedos hipócritas aos partidos da esquerda, acusando-os de tudo e de mais qualquer coisa e responsabilizando-os, com a sua voz de escárnio costumeira, pela queda do governo.

 

O cenário hipotético mas plausível deve ser desmontado desde já. Deve-se dizer o que está mal, o que se está a plantar, como se está a fazer a cama onde nos deitaremos. Há coisas que se fazem e que ninguém presta atenção, mas que se colocam na base dos entendimentos como argamassa que une ou desune boas vontades e esforços.

 

Neste particular, sublinho uma situação pertinente ocorrida no final deste ano civil. Perante uma ameaça de greve pelos trabalhadores da Petrogal, este governo, tal como o anterior o havia feito, emitiu um despacho “fora-da-lei” que deliberava serviços mínimos (leia-se: máximos) afrontando a Constituição no que o direito à greve diz respeito e desmobizando a ação de luta dos trabalhadores da empresa. Podia não o ter feito. Mas fê-lo. Decidiu sair célere em defesa do patronato, buscando, deste modo, o seu patrocínio. Não pesou mais os interesses dos trabalhadores: pesou mais os interesses do patronato. Não quis o patrocínio dos trabalhadores: quis o patrocínio do patronato. É uma opção legítima, descontando o “pormenor” Constituição.

 

São estas “pequenas” atitudes que minam um relacionamento. É este tipo de postura perante a vida real, perante os problemas concretos, que influem em decisões mais amplas e mais substantivas e que estão na base dos acordos parlamentares. Quando o PS cair não será por acaso. Quando o PS se vir sozinho, isolado e débil muitos não o compreenderão. Muitos não serão capazes de entender por que razão a esquerda não lhe estende uma mão. Não será pelas “grandes” coisas. Não será pelas estrelas do céu ou por aquela outra que pontifica, brilhante, no topo do pinheiro de Natal. Será antes pelas “pequenas” coisas, pelo que se encontra na base e que sustenta, todos os dias, o tronco desse pinheiro.

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