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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Um deserto habitado por bestas selvagens

por Amato, em 18.09.16

http://www.livrariamachadodeassis.com.br/capas/782/9788575590782.jpg

 

A sociedade moderna é um deserto habitado por bestas selvagens. Cada indivíduo está isolado dos demais, é um entre milhões, numa espécie de solidão em massa. As pessoas agem entre si como estranhas, numa relação de hostilidade mútua: nessa sociedade de luta e competição impiedosas, de guerra de todos contra todos, somente resta ao indivíduo ser vítima ou carrasco. Eis, portanto, o contexto social que explica o desespero e o suicídio.

 

— in Sobre o Suicídio, Karl Marx

O homem que não tinha noção

por Amato, em 20.05.16

Hoje deparei-me com uma capa do Jornal I que me deixou francamente admirado.

 

https://scontent-mad1-1.xx.fbcdn.net/v/t1.0-9/13265905_1342510055775523_4420289954149764266_n.jpg?oh=7afa3aa7aaf40d555bb7a81195a1ca56&oe=57E58892

 

“Como não há os livros que gostaria de ler, escrevo-os eu”.

 

Para melhor podermos analisar a profundidade desta sentença e sem tecer qualquer tipo de consideração sobre a mesma, proponho o exercício seguinte. Peço encarecidamente ao leitor que:

  1. leia O Código de Da Vinci, de Dan Brown;
  2. leia o Codex 632, de José Rodrigues dos Santos;
  3. leia A Conspiração, de Dan Brown;
  4. leia O Sétimo Selo, de José Rodrigues dos Santos;
  5. leia A Fortaleza Digital, de Dan Brown;
  6. leia A Fórmula de Deus, de José Rodrigues dos Santos;
  7. reflita, então, sobre a frase de José Rodrigues dos Santos “Como não há os livros que gostaria de ler, escrevo-os eu”.

 

Para que fique claro, não há aqui qualquer tipo de insinuação subliminar sobre plágio. Não se vá por aí. Ao invés, preste-se atenção às temáticas, à construção dos personagens e dos enredos, de um e de outro autor. Então, cada um que retire as suas próprias conclusões sobre a validade e sobre a substância da afirmação da capa do Jornal I.

A igreja e o bordel...

por Amato, em 14.05.16

A igreja e o bordel chegaram ao mesmo tempo ao Oeste. E ambos teriam ficado horrizados se soubessem que não passavam de diferentes facetas da mesma necessidade.

— John Steinbeck, A Leste do Paraíso

Os fantasmas de Kafka revisitados à luz dos dias de hoje

por Amato, em 25.04.16

Em 1925 é editado pela primeira vez o romance O Processo (Der Process) do autor checo Franz Kafka, no ano imediatamente seguinte ao da sua morte. O livro, que teria sido escrito entre 1914 e 1915, constitui uma das obras primas de Kafka e reflete a sua obsessão com a máquina burocrática dos estados, monstros que oprimem a liberdade do cidadão anónimo e esmagam a sua individualidade.

 

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/87/Kafka_Der_Prozess_1925.jpg

 

Neste sentido, não é surpreendente que o personagem principal seja designado apenas por Joseph K., ou seja, por um nome próprio, Joseph — um nome, aliás, extraordinariamente comum no mundo cristão —, e uma inicial K. como indicadora de apelido, claramente subvalorizando-o desta forma. Para o autor, o personagem principal, que muitos consideram uma personificação do próprio Kafka, é importante sobretudo por constituir-se como um representante do cidadão anónimo e não pelas suas características particulares.

 

http://s10.postimg.org/a8mcjk8u1/RAFH.jpg

Kafka, que nasceu numa parte do império austro-húngaro, viveu durante o seu auge e assistiu à sua dissolução no pós primeira grande guerra, conta a história da perseguição surreal a um trabalhador de um banco, o tal Joseph K., que se vê, de um momento para o outro, alvo de um processo, desconhecendo por completo as razões para tal. Joseph K. luta desesperadamente e cegamente — pois tudo o que o rodeia escapa à sua compreensão e controlo — contra um autoritarismo burocrático que parece amordaçá-lo cada vez mais, envolvendo-o numa teia artificial de culpa que, qual areia movediça, por mais que resista, acaba por levar a melhor sobre ele, resultando ultimamente na sua execução.

 

Recentemente, surpreendeu-me ler semelhantes preocupações numa passagem de A Leste do Paraíso (East of Eden), de John Steinbeck, um autor que muito estimo:

 

A nossa espécie é a única criadora e dispõe de uma só faculdade criadora: o espírito individual do homem. Dois homens nunca criaram nada. Não existe colaboração eficaz em música, em poesia, nas matemáticas, na filosofia. Só depois de se ter dado o milagre da criação é que o grupo o pode explorar. O grupo nunca inventa nada. O bem mais precioso é o cérebro isolado do homem.

(...)

Eis o que penso: o espírito livre e curioso do homem é o que de mais valioso há no mundo. E por isto me baterei: a liberdade para o espírito de tomar a direção que lhe apetecer. E contra isto me baterei: qualquer ideia, religião ou governo que limitar ou destruir a noção de individualidade.

— John Steinbeck, A Leste do Paraíso

 

Quem tiver a curiosidade de ler a passagem completa percebe que estas palavras surgem no contexto dos princípios da Guerra Fria e expressam precisamente a mesma preocupação obsessiva de Kafka para com os estados burocráticos esmagadores das individualidades. Era uma altura de choque civilizacional, da ascensão de medos, do medo pelo desconhecido. Não deixa de ser, todavia, surpreendente. É absolutamente compreensível, bem entendido, mas é, para mim, surpreendente.

 

Surpreende-me ler estas preocupações escritas desta forma pelo autor de As Vinhas da Ira, entre outras magníficas obras. Surpreende-me que a valorização dos sentidos de camaradagem e de fraternidade, tão engradecidos nas suas primeiras obras, sejam tão negligenciados, tão colocados de lado, ao longo das linhas supracitadas, no que à elevação do indivíduo diz respeito. É que a passagem que citei é um bom exemplo de como podemos dizer algo de genuinamente verdadeiro — quem não concorda que o coletivo tem o potencial de esmagar as individualidades? — de uma forma desprovida de um mínimo bom senso.

 

https://portalivros.files.wordpress.com/2012/04/lb-lestep.jpg

 

Importa sublinhar, contudo, o facto do primeiro parágrafo da citação encontrar-se carregado de conclusões falsas. Podemo-lo comprovar facilmente. A ciência, em geral, nunca evoluiu tanto como nos dias de hoje, suportada numa colaboração cada vez mais ampla e generalizada de cientistas de diversas áreas. É, portanto, falso dizer-se o contrário. É claro que tudo tem origem, analisando de forma sintética, num só indivíduo, não em dois ou três, mas num apenas. A questão não está aí, mas antes em saber se essa ação individual de descoberta, que Steinbeck qualifica como “miraculosa”, poderia ocorrer por si só, sem o contacto com os outros que o rodeiam. É que o milagre está, em minha opinião, precisamente aí, nos outros, e não atrás, onde é mais óbvio, no indivíduo descobridor. Essa é a razão de ser do facto desta era contemporânea colocar-se a anos luz relativamente a todas as outras no que diz respeito a inovação científica e, até, artística. Os cientistas e os artistas não são mais os bichos isolados da Idade Média que faziam tudo por tudo para esconder a sua arte e as suas descobertas até que estivessem prontas e que delas pudessem extrair algum sustento. Pelo contrário, são antes a face visível de um todo criativo.

 

Não obstante o texto já ir longo, ainda não cheguei ao ponto que me fez principiar a sua escrita. É que há nestas preocupações com as máquinas burocráticas, tanto as de Kafka como as de Steinbeck, nas quais reconheço tanto de legitimidade quanto de transversalidade à generalidade das populações, uma ideia subliminar de que se trata de uma condição dos estados, como que um sintoma de uma doença de autoritarismo e controlo estatal, própria de governos com poder a mais, de sistemas de governação perversos e dominadores. Ainda hoje, parece-me transparente que esta ideia influencia determinantemente as opções democráticas das populações, condicionando as suas escolhas no sentido de limitação do poder aos estados e aos governos.

 

Ora, é contra esta ideia subliminar que me oponho. É contra esta ideia omnipresente que escrevo este texto.

 

Há uns tempos encomendei uma cozinha a uma grande empresa multinacional. Encomendei cada peça e a respetiva montagem. Os custos foram pagos previamente e na sua totalidade e ficou combinado a obra ficar pronta ainda antes da Páscoa. Pois acontece que faltou uma peça, o acabamento foi sendo sucessivamente adiado, foram perdidas manhãs de trabalho da minha parte em intermináveis esperas para que as equipas viessem fazer o serviço, serviço esse que ficou concluído apenas a meio desta semana que agora terminou. Não houve direito a nenhuma compensação pelo atraso. Todas as reclamações foram recebidas com superior escárnio e desinteresse: afinal, a grande companhia nada tinha que ver com a empresa de montagem subcontratada para o efeito...

 

Serve portanto este relato verídico pessoal como exemplo para o que deixámos que a nossa sociedade se tornasse, governados pela tal ideia subliminar de Kafka e de Steinbeck. É que, cegados por essa ideia, horrorizados com a possibilidade de que os estados se embriagassem de poder, entregámo-lo, ao poder, numa salva de prata, aos interesses privados que cresceram e proliferaram como grandes companhias internacionais. O poder reside por completo nas suas mãos. Encontra-se bem plasmado nos contratos de prestações de serviços que assinamos, seja para encomendar uma cozinha, serviço de televisão e internet, ou qualquer outra coisa. Basta proceder à sua leitura. Todos os interesses dos capitalistas, ao contrário dos nossos, encontram-se bem salvaguardados.

 

E em caso de conflito, e aqui reside a parte mais interessante, todos os fantasmas de Kafka são ressuscitados mais autênticos e concretos do que nunca: trata-se do indivíduo isolado contra a máquina burocrática, não a do estado, mas a das grandes corporações, com as suas equipas de advogados dedicadas, todo um estado a legislar em seu benefício, e todo um sistema judicial ajuizando, com jurisprudência adequada, em seu favor.

 

Ao crescer, as grandes corporações foram multiplicando o seu poder e tomaram o estado democrático para si próprias, detendo-o amarrado a uma trela curta segura pelo seu firme punho fechado. Os fantasmas de Kafka são, afinal, muito mais reais assim, em estados fracos manietados pelos interesses económicos burgueses, no que noutra configuração qualquer. A máquina burocrática esmagadora da individualidade do cidadão, a besta terrível que devora as liberdades individuais, nunca conheceu tamanho poder pois age sob a capa da democracia, escondendo-se atrás daquela ideia subliminar do “papão estatal”.

 

Com isto não advogo a tese de que a máquina burocrática estatal é melhor do que a máquina burocrática corporativa. Bem vistas as coisas, até poderão ser consideradas faces da mesma moeda. A diferença é outra: a primeira é subordinada ao nosso voto, à nossa escolha democrática. A segunda, não. A segunda é uma forma de fascismo não declarado.

Suponho que sim...

por Amato, em 22.04.15
“I suppose our capacity for self-delusion is boundless.”
― John Steinbeck, Viagens com o Charley
 
Por vezes será a capacidade para nos iludirmos com o que sabemos velho, enganador e vil. Por vezes será a necessidade endémica de tomar vantagem, aquele oportunismo decadente.

As contemporâneas vinhas da ira

por Amato, em 18.03.15

Todos os dias os sites de emprego inundam as caixas de correio daqueles que o procuram com dezenas de novas oportunidades, centenas de ofertas. Muitas delas não têm nada de novo. Muitas são recorrentes ou apresentadas de uma outra forma. Muitas oferecem-nos a oportunidade de pagar para trabalhar. E, por isso, lá permanecem muito tempo, à espera que algum desgraçado lhes pegue.

 

Os meios de propaganda evoluíram: são mais baratos, mais rápidos e eficazes, mas o processo permanece o mesmo, todavia aprimorado e otimizado.

 

Isto fez-me lembrar uma passagem particular de As Vinhas da Ira, de John Steinbeck, que reproduzo, em seguida, na íntegra. É assustador como nós, enquanto povo, evoluímos tão pouco em termos dos nossos princípios e da nossa inteligência. Somos as mesmas ovelhas de sempre, mais diploma, menos diploma, a lamber os pés dos mesmos pastores que nos governam.

 

      “O esfarrapado perguntou:

      — Vocês não têm para onde ir? Não podem voltar para casa?

      — Não — disse o pai. — Expulsaram-nos. Passaram um trator por cima da casa.

      — Então não podem voltar para trás?

      — Claro que não.

      — Então não vale a pena desencorajá-los — disse o esfarrapado.

      — Nem nos desencoraja. Pois se eu vi esse papel que dizia que eles precisavam de gente! Se eles não precisassem de gente, era um disparate gastarem dinheiro em impressos. Nem os distribuiriam se não precisassem de gente.

      — Está bem; não quero desencorajá-los.

      O pai gritou colérico:

      — Agora, que já começou a dizer asneiras, não fique calado, ouviu? Estava lá escrito: «Precisa-se de gente.» E você aí a rir-se e a dizer que é mentira. Quem é que mente, afinal de contas?

      O esfarrapado fixou bem os olhos irritados do pai. Parecia triste.

      — O papel diz a verdade — respondeu. — Lá precisar de gente, precisam.

      — Então porque é que você se ri tanto?

      — É porque vocês não sabem de que espécie de gente é que eles precisam.

      — Como, que espécie de gente?

      O esfarrapado tomou uma decisão:

      — Ouça, senhor. Quanta gente diz o papel que eles precisam?

      — Oitocentos e isto é só num sítio.

      — É um papel cor de laranja, não é?

      — É sim, porquê?

      — Tem o nome do tipo... fulano de tal... engajador?

      O pai meteu a mão no bolso e retirou o impresso dobrado.

      — Ouça — disse o homem. — Isso não faz sentido. Esse tipo quer oitocentos homens. Manda imprimir cinco mil desses papelinhos, que umas vinte mil pessoas lêem. Vão para lá pelo menos umas duas, três mil pessoas, por causa desse papel. Pessoas que já não sabem onde têm a cabeça com tanta preocupação.

      — Mas isso não se compreende — gritou o pai.

      — Mas vão compreender quando falarem com o tipo que mandou distribuir esses papéis. Com ele ou com qualquer outro que trabalhe para ele. Vocês vão pernoitar nas valas das estradas juntamente com outras cinquenta famílias mais. E ele vai procurar a vossa tenda, a ver se vocês ainda têm de comer. E quando vocês já não tiverem nada, pergunta-lhes assim: «Querem trabalhar?» E vocês respondem: «Queremos, sim, senhor. Que bom se o senhor nos arranjasse trabalho!» E ele dirá: «Talvez se possa arranjar alguma coisa.» E vocês perguntam: «Quando poderemos começar?» E ele então diz-lhes para onde devem ir e quando e depois vai-se embora. Talvez ele precise de umas duzentas pessoas, mas fala com quinhentas, pelo menos, que contam a coisa a outras, de modo que, quando vocês chegarem ao lugar marcado, já lá encontram umas mil pessoas. Aí, esse sujeito que falou com vocês, diz: «Eu pago vinte cents a hora.» E então, pelo menos metade das pessoas vai-se embora. Mas ainda ficam outras quinhentas que estão a morrer de fome e que querem trabalhar nem que seja para poderem comprar pão. [...] Compreende agora? Quanto mais gente esfomeada eles arranjam, menos precisam de pagar como salário.”

      in As Vinhas da Ira, John Steinbeck, trad. Virgínia Motta.

O castigo que é tudo

por Amato, em 13.02.15

“Ele ainda é peixe, e vi-lhe o anzol no canto da boca e ele tem andado de boca bem fechada. O castigo do anzol não é nada. Mas o da fome, e o de sentir-se contra o que não entende, isso é tudo.”

— Ernest Hemingway, O Velho e o Mar

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