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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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Luaty Beirão para além do óbvio

por Amato, em 28.10.15

Demorei tempo demais a decidir-me em escrever algumas linhas sobre o caso Luaty Beirão que, nas últimas semanas, inundou a comunicação social. A minha demora deve-se, não o escondo, a sentimentos ambivalentes que este caso me sugere e, como é normal com sentimentos de natureza dupla, é mais difícil organizá-los no papel.

 

A primeira ideia que me vem à cabeça aponta para o grotesco, para o inadmissível, deste caso: em nenhum país do mundo deveria alguém ser encarcerado por aquilo que pensa ou acredita. Esta primeira ideia mantem-se forte e inabalável e, por isso mesmo, considero-a a mais digna para poder iniciar o meu discurso.

 

Todavia, há na natureza das ideias pioneiras, daqueles pensamentos que nos assaltam antes mesmo de nos debruçarmos pensativamente sobre os problemas, algo de ilusório e de perigosamente inocente. Com efeito, quando penso sobre este problema, deteto facilmente objetivos ocultos, não necessariamente por parte de Luaty Beirão, sobre o qual possuo aquele desconhecimento completo (que com quase todos os portugueses partilho) que é ideal para idolatrar e eternizar, mas claramente na parte maior que o envolve, na propaganda que rapidamente inundou os canais de um certo pensamento único de apoio ao jovem e de condenação do governo angolano. É que, bem vistas as coisas, o jovem foi preso, acusado e aguarda julgamento no contexto da lei angolana. Ao invés, pelo nosso Portugal temos visto inúmeros casos de cidadãos presos preventivamente sem formalização de acusação e sem julgamento marcado. É evidente que a greve de fome tem peso, tem um peso emotivo influenciador do nosso julgamento. Contudo, como nos podemos indignar com o formalismo de um caso e não nos indignarmos com o formalismo de outros casos que se passam mais perto de nós?

 

Por outro lado, parece-me claro que o caso Luaty Beirão foi um escape para aquela facção de portugueses que se posicionava do lado anti-MPLA no tempo da guerra civil e que, findada a mesma, deixou de ter uma justificação à mão de semear para dizer mal do que chamam “o regime angolano”. Por que razão não existe o mesmo alarido relativamente ao estado da democracia de Moçambique ou da Guiné, São Tomé ou Cabo Verde, para referir apenas nas nossas colónias? Em alguns casos, o paralelo político é muito semelhante. Existe apenas uma diferença: Angola é muito rica do ponto de vista dos seus recursos naturais e mexe com muitos interesses lusos. Talvez esteja aí a verdadeira razão de tanta indignação.

 

Com isto não estou a fazer a apologia do governo angolano nem tão pouco me colo às suas opções políticas, económicas ou sociais. Noto simplesmente a opção hipócrita patente em avaliar Angola por padrões europeus ao mesmo tempo que se ignora que Angola é o país africano que atualmente ocupa o topo de todos os rankings, de todos os indicadores de crescimento económico, de qualidade de vida, de crescimento social e, também, de índices democráticos... Ignorar isto e empregar o chavão de “democracia de papel” sobre Angola é, no mínimo, pouco sério.

Ou mentiroso ou ignorante

por Amato, em 23.10.15

Espanta-me esta sociedade em que vivemos onde frequentemente personalidades várias, proferindo falsidades facilmente verificáveis como tal, permanecem incólumes ao crivo da credibilidade social ou mediática. Pelo contrário, nada lhes sucede. O doutor permanece doutor, o senhor engenheiro continua senhor engenheiro e o senhor arquiteto mantém-se como senhor arquiteto, e todos eles mantêm as suas posições de destaque no espaço de opinião e de comentário social. Espanta-me que tal suceda desta forma. Para mim, alguém que diz uma falsidade ou é mentiroso ou ignorante. Não consigo vislumbrar sequer um meio termo, quanto mais uma terceira alternativa.

 

Nos dias que correm têm saltado, desde debaixo das pedras de onde vivem para a ribalta mediática, inúmeras personalidades, todas anticomunistas pejadas de um horror pela mera suposição do PS poder governar com o apoio parlamentar do Partido Comunista. Saltam com os chavões anticomunistas do costume, com as falsidades e as generalizações negativas que se conhecem. Uma destas personalidades foi António Barreto, a sinistra figura que dizem ser sociólogo. Na RTP3 disse o seguinte:

 

Em 100 anos, nunca vi um partido comunista no poder que governasse com eleições livres, com partidos políticos, com liberdade de expressão, sem exilados, sem presos políticos.

 

O jornal Público, honra lhe seja feita, publicou a prova dos factos que pode ser consultada aqui e que desmente cabalmente a afirmação caluniosa produzida.

 

Como referi no princípio, daqui só pode resultar uma de duas coisas: ou António Barreto é mentiroso ou é ignorante. Se é mentiroso, fá-lo com a intenção de poluir e de influenciar a opinião pública. Se é ignorante, então... simplesmente é. Mas uma das duas, reforço, será seguramente. As duas opções não abonam nem a favor do próprio, nem a favor dos canais de comunicação social que lhe dão voz, a ele e a outros como ele. Porque há muitos outros como ele.

 

Podemos constatar que este anticomunismo primário leva longe quem o adota. Por exemplo a Paulo Rangel, que também tem sido muito verbal neste particular, valeu-lhe o cargo de vice-presidente do partido popular europeu com a benção exclusiva de Angela Merkel.

Uma hierarquia de necessidades do ser humano

por Amato, em 26.03.15

No seu artigo de 1943, “A Theory of Human Motivation”, Abraham Maslow estabeleceu a chamada Pirâmide de Necessidades, construção que lhe concedeu a imortalidade no universo da psicologia moderna.

 

A pirâmide não era mais do que uma hierarquização de necessidades que, de uma maneira geral, abrangem todo o indivíduo social, começando com as necessidades mais básicas, na base, e subindo, camada a camada, até ao topo para necessidades secundárias ou mais sofisticadas. A ideia subjacente à idealização da pirâmide era de que existe uma lógica de priorização no universo de todas as necessidades do ser humano.

 

Inicialmente, Maslow elaborou uma pirâmide com apenas cinco tipos de necessidade.

 

Na base pontificavam as chamadas necessidades psicológicas que tinham a ver com o acesso a alimento, água, ar, roupa e abrigo e, também, com as necessidades sexuais. Estas eram, segundo o autor, as necessidades mais básicas que cada ser humano tinha que suprir para poder funcionar corretamente.

 

Seguidamente, na camada superior, surgiam as necessidades de segurança, cujo nome é suficientemente elucidativo (segurança pessoal, financeira, de saúde, ...).

 

A terceira camada da pirâmide designa-se por necessidades de amor ou de pertença. Tratam-se de necessidades de se sentir amado e importante num certo contexto micro-social.

 

Na penúltima camada observamos as necessidades de estima. É curiosa a criação desta camada separadamente da anterior. Falamos das necessidades em se ser reconhecido socialmente, em se sentir estimado no coletivo social em que se insere, de se sentir importante na função que desempenha na sociedade, em ter uma boa autoestima e um bom autoconceito.

 

No topo da pirâmide atingimos as necessidades de autoatualização que têm a ver com a necessidade do ser humano desafiar os seus limites, reformular objetivos de vida e superar as suas próprias metas.

 

Toda esta construção é bastante discutível e a hierarquização das necessidades foi fortemente atacada no mundo científico por diversas razões válidas. O próprio Maslow viria a reformular a sua pirâmide acrescentando mais dimensões para além das cinco apresentadas inicialmente e introduziu também um juízo crítico de contexto na sua análise. Todavia, a ideia sempre me pareceu assaz interessante e empiricamente comprovável. Como pode uma pessoa pensar em cultura, educação de estômago vazio? Como é que se pode suprir certas necessidades sem se suprir outras, mais prementes? Como podemos ter democracia perante uma população assimétrica em termos das suas necessidades?

 

A pirâmide de Maslow fez-me lembrar esta música do Sérgio Godinho, a qual já mencionei aqui.

 

 

Charlie ou hypocrite?

por Amato, em 12.01.15

Acabo de ver na televisão um personagem muito indignado com este “ataque violento à liberdade de expressão” quando, há um par de anos atrás, colocou em tribunal um humorista que fez uma inócua piadola sobre o género dele, feminino ou masculino.

 

Se se trata de liberdade de expressão, então são iguais os ataques à bala e os ataques com a ponta da caneta. Se se trata de liberdade de expressão é indiferente se se coloca uma bomba ou um processo em tribunal.

 

A questão é que não se trata de liberdade de expressão. Essa, aliás, anda pelas ruas da amargura independentemente de mais ataque menos ataque. Veja-se o estado do humor em Portugal, a projeção e a cultura que tem. Trata-se, sim, de um ataque à segurança dos povos e, é precisamente por isso, pelo pânico gerado pela insegurança, que o povo se move.

 

“Je suis charlie” é apenas mais um sound bite, daqueles que abafam tudo o resto. No final, quando a poeira pousar, ficará tudo igual, se não pior, no que à liberdade de expressão diz respeito. Com efeito, aproximam-se reuniões de ministros e de líderes europeus e mundiais que preparam mais restrições às liberdades individuais e à privacidade dos povos europeus, em decalque daquilo que foi feito nos estados unidos.

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Amato

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