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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Se eu fosse francês, não votaria Macron

por Amato, em 24.04.17

Corria o ano de 1986 e, volvida a primeira volta das terceiras eleições presidenciais portuguesas após o vinte e cinco de abril de 1974, Diogo Freitas do Amaral e Mário Soares apresentaram-se para disputar uma segunda volta. É curioso notar as semelhanças entre essas eleições e as eleições francesas deste ano.

 

Na altura, doze anos depois da revolução, o CDS era um partido que metia medo. Hoje não é assim, hoje o CDS não passa de um gabinete de advogados promíscuos com o poder. Mas em 1986, o fascismo sobrevivia em democracia através desse partido, os fascistas tinham encontrado no CDS o seu abrigo primordial e Freitas do Amaral corporizava num temor as memórias do antigo regime. Quando aquela segunda volta das eleições aconteceu todas as pessoas minimamente progressistas e todas aquelas que não queriam o fascismo de volta não tiveram dúvidas em cerrar fileiras em torno de Soares e de lhe dar a vitória, o que veio a suceder. Estava em causa a democracia. Estava em causa a liberdade.

 

Se já na altura, depois das governações imediatamente anteriores de Soares, que trataram de destruir qualquer vestígio de socialismo do país, já o era evidente, a história tratou de mostrar o quão enganados estávamos. Soares foi um péssimo presidente quase tanto quanto o Primeiro-ministro que tinha sido. Da sua ação não frutificaram quaisquer evidências de progresso, pelo contrário: abriu Portugal ao regresso da burguesia salazarenta, retomando uma espécie de capitalismo de estado no país, alicerçou-o a uma corrupção endémica, enraizada, e lançou Portugal numa eterna vassalagem pela dívida — que tanto discutimos hoje — perante a banca e as potências europeias, simbolizadas pela entrada serventual de Portugal na União Europeia. Pelo contrário e apesar de nunca o podermos saber, Freitas do Amaral poderia ter sido um presidente mais sério, é certo que com as suas retrógradas ideias, mas mais sério e mais culto e sábio, seguramente. Pergunto-me, portanto, se Portugal terá tomado a opção correta, então.

 

Depois há outro ponto que não é de somenos. Em política é normalmente mais perigoso escolher um assim-assim do que alguém que é declaradamente posicionado ideologicamente. É que um governante apenas pode fazer o que o povo permite e, usualmente, um povo adormecido é a melhor receita para se governar à vontade. Veja-se o que se passa em Portugal: as maiores transformações legislativas acontecem com o PS no governo e não — como seria expectável — com o PSD. É verdade: olhe-se para o código de trabalho e para a segurança social, só para dar dois exemplos. É que o PSD, mesmo em contexto de maioria absoluta, tem que enfrentar as forças sociais para aprovar o que quer que seja. Com o PS, por esta ou aquela razão, o mesmo não acontece.

 

É por estas razões que, se eu fosse francês, não votaria Macron. Le Pen é xenófoba, fascista e tudo o mais que lhe queiram chamar. Macron é igual a Le Pen, adicionado de muita falsidade e hipocrisia. As políticas preconizadas por Macron conduzem à divisão social, ao empobrecimento da população, à concentração de riqueza. Macron diz que gosta muito das minorias só para as atrair, com as suas políticas — qual canto de sereia —, para guetos de baixos salários, de indigência e de indignidade. Macron é a lei do lucro a qualquer custo. Macron é a razão de ser da França ser o absurdo de sociedade que é hoje, dos seus lemas, Liberdade, Igualdade, Fraternidade, serem autênticas anedotas e é a razão de ser da existência de Le Pen e da Frente Nacional.

 

Os franceses votaram em dois cancros sociais e agora querem que tome posição? Não. Não farei essa escolha. Se eu fosse francês, votaria em branco. Se Le Pen ganhasse, não sentiria remorsos: podia ser que os franceses juntassem juízo e passassem a ser mais atentos à política e à governação. E podia ser que se unissem em torno daquilo que realmente deviam considerar precioso, Igualdade, Liberdade, Fraternidade, mas não em texto, não como ladainha para adormecer ou como medalhas em lapela bolorenta. Como realidade social, como prática diária, nos empregos, nas famílias, em cada canto do país.

Democracia é escutar e debater

por Amato, em 09.03.17

Sobre o caso da proibição da intervenção de Jaime Nogueira Pinto na Universidade Nova de Lisboa apraz-me dizer o seguinte.

 

Tenho sempre muito gosto em ouvir alguém com um mínimo de cultura e de inteligência, convicção e coerência nos seus ideais, por muito que deles discorde. Este tipo de pessoas são um caso raro na nossa sociedade. Quando as encontramos, devemos aproveitar, porque a maioria das que pululam pelos espaços opinativos são caricaturas de cata-ventos ideológicos, movidos apenas pelos seus próprios interesses, culturalmente medíocres e intelectualmente menores.

 

Repito: quando as encontramos, por muito que delas discordemos, devemos aproveitar. Pode ser que aprendamos alguma coisa.

 

E, também, se não por mais nada, porque democracia é isso mesmo, é escutar e é debater.

Ser "de esquerda" III

por Amato, em 08.02.17

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Há coisas que não se compram, não têm preço. Não se pode ir ao supermercado e pedir mais cinco anos de vida. Assim como o afeto das pessoas, isso não é subornável.

 

Temos que dar conteúdo à nossa vida. Ou seremos apenas consumidores de supermercados, trabalhadores que perdem três horas por dia para ir e vir do emprego e vivem para pagar contas. É preciso ter uma causa e essa é se preocupar pela sorte dos demais.

 

Nós que lutamos pela igualdade no direito de navegar na aventura da vida, nas oportunidades. Isso define a posição filosófica perante a vida, na qual prima a solidariedade sobre o egoísmo.


Sou um homem feliz e vou morrer feliz porque vivo, sonho e caminho como penso para o que penso.

— Pepe Mujica em entrevista.

Uma outra educação

por Amato, em 21.01.17

Se amanhã acontecer uma catástrofe à escala global, uma espécie de Apocalipse bíblico, e sobrarem apenas umas parcas dezenas de exemplares da nossa espécie, o que seríamos capazes de recuperar da nossa civilização? O que seríamos capazes de reconstruir?

 

Quando pensei pela primeira vez nesta questão fiquei um pouco assustado. A resposta é: muitíssimo pouco. A perspetiva seria a de nos reduzirmos a pouco mais que homens das cavernas. É assustador, mas é a verdade.

 

Na realidade, o cidadão médio vive o seu dia-a-dia envolto numa estrutura social e tecnológica que o transcende de tal forma que, nem que se dedicasse ao estudo até ao final da sua vida, conseguiria compreender minimamente o seu modo de funcionamento. Mesmo o cidadão letrado acima da média não mais é que um especialista numa determinada área, num determinado segmento de uma área, pelo que sozinho não seria capaz de reproduzir sequer o processo em que se insere laboralmente.

 

A via de especialização dos saberes pode ser considerada como natural com o progresso da humanidade, pois decorre da impossibilidade potencial de um indivíduo conseguir dominar todo o conhecimento acumulado ao longo dos séculos. Todavia, há mais do que isto.

 

Há toda uma filosofia inspiradora no ocidente que tem conduzido à especialização do indivíduo não por ser uma inevitabilidade mas por ser uma conveniência. Podemos recuperar os passos dessa tendência desde os primórdios da revolução industrial, ainda antes da “linha de montagem”.

 

Com efeito, é conveniente que os peões da sociedade, os que constituem a força do trabalho, não saibam tudo e não saibam de tudo, porque, se soubessem, poderiam emitir opinião e poderiam influenciar o processo. Se fossem dotados de alguma cultura geral, poderiam emitir juízos de valor sobre o poder que os governa e convém que o proletariado não tenha poder. Daí a especialização. Daí o privilegiar de uma formação específica relativamente a uma formação geral, abrangente. A ideia é: especializar para limitar.

 

Entretanto, é mais fácil usar um automóvel, um eletrodoméstico, um telemóvel, e não fazer ideia de como funciona. Sentimo-nos importantes simplesmente pelo ato de usar e por possuir. Se avaria, compra-se outro. Nem vale a pena tentar arranjar. As sociedades humanas abraçaram o projeto de serem conjuntos de ignorantes. Ignorantes com uma formação, ignorantes diferentes dos ignorantes do passado, é certo, mas, não obstante, ignorantes, totalmente incapazes de sobreviverem sozinhos, sem que alguém lhes diga o que fazer, como fazer.

 

Não acreditam no que vos escrevo? Experimentem fazer a um recém licenciado alguma pergunta sobre uma área diferente da sua. Perguntem-lhe alguma coisa básica sobre animais ou plantas, ou sobre astronomia. Perguntem-lhe sobre a história do país, sobre o 25 de abril de 74. Perguntem-lhe sobre a história da localidade de onde vêm. Vão ficar espantados com as respostas. Ainda noutro dia, um jovem licenciado em Economia com quem falei estava convencidíssimo que a revolução dos cravos tinha sido o fim da monarquia em Portugal.

 

Por ventura, o mais modesto cidadão do século XIX saberia responder a estas perguntas. Hoje, todavia, os que mais estudos têm não o conseguem fazer.

 

Resulta, portanto, claro que uma outra educação é a única alternativa para os povos do mundo serem livres, isto é, para deterem os seus destinos nas suas mãos e não passarem pelas suas vidas guiados como animais de carga. Sim, é verdade: não basta viver no ocidente para se ser livre. Não basta haver eleições para se ser livre.

Sobre o episódio do Bloco sentado

por Amato, em 01.12.16

Por vezes, parece ser necessário encontrar alguém de direita para reconhecer o óbvio:

 

“Esta é a diferença: o PCP não bate palmas mas demonstra respeito pelo interesse nacional e sentido de Estado. O BE é apenas mal educado.”

 

A frase é do improvável, pela sagacidade, Duarte Marques, deputado do PSD.

 

http://images-cdn.impresa.pt/sicnot/2016-11-30-BE-sentado-PCP.BMP/original/mw-860

 

O Bloco de Esquerda está no seu direito em não concordar com o regime monárquico e seus princípios como, aliás, nenhum republicano concordará. Já não está no seu direito em desrespeitar o representante máximo de um povo que, não havendo indicação em contrário, mantém intacto o seu direito à autodeterminação. O povo espanhol decide o que melhor lhe convém em termos de organização e de representatividade política e nós, podendo não concordar com as suas escolhas diretas ou indiretas não temos o direito de desrespeitar essas suas escolhas.

 

E para que fique bem claro, eu não concordo e rejeito qualquer monarquia e qualquer rei. Considero a monarquia um sistema político abjeto. Considero impensável que um ser humano livre se submeta a um tal regime, a uma tal sociedade de castas. Mas quem disse que os seres humanos querem ser livres? Os seres humanos querem é ler revistas cor-de-rosa... Cabe-nos respeitar.

Festa do Avante!

por Amato, em 29.08.16

É uma pena a Festa do Avante! durar apenas três dias. É uma pena que o seu espírito não se propague pelo país e pelo mundo como um indomável fogo.

 

Quem passa a vida a articular conceitos como liberdade ou democracia, igualdade ou fraternidade, devia passar por lá, pela Quinta da Atalaia, pelo menos uma vez em vida. Toda a artificialidade dos seus conceitos cairia por terra e, então, seriam capazes de ter uma ideia mais clara, um pouco mais aproximada, do que realmente é isso de liberdade, democracia, igualdade ou fraternidade.

 

Pela minha parte, não tenho certezas nenhumas sobre as definições, mas sei que os conceitos estão lá e encontram-se por toda a parte, sinto-os à flor da pele, na Festa do Avante!.

 

 

Timshel: tu podes

por Amato, em 12.08.16

— Então não compreende? — perguntou em voz alta. — De acordo com a tradução da Bíblia americana, ordena-se ao homem que triunfe sobre o pecado, a que se pode chamar ignorância. A tradução de King James com o seu tu dominarás sobre ela promete ao homem uma vitória certa sobre o pecado. Mas a palavra hebraica timshel — tu podes — deixa a escolha. Talvez seja a palavra mais importante do mundo. Significa que o caminho está aberto. A responsabilidade incumbe ao homem, pois, se tu podes, também é verdade que tu não podes, compreendem?

— John Steinbeck, A Leste do Paraíso

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