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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Uma boa oportunidade para se começar a acabar com a Concordata

por Amato, em 30.08.16

Seria deveras interessante que esta recente altercação entre Igreja Católica e Estado a propósito da cobrança de IMI a edifícios pertencentes à Igreja resultasse num pouco mais do que no habitual “recuar e meter o rabinho entre as pernas”, que, aliás, já se antecipa, por parte do Estado, cedendo a todas as pretensões da Igreja. Seria interessante que este caso pudesse constituir o princípio de algo belo e justo, o princípio do fim da Concordata, esse tratado de tratamento de favor, esse acordo de privilégio, que um Estado formalmente laico como o nosso concede e persiste em conceder a uma igreja em particular.

 

É interessante notar, contudo, que o nosso povo, sempre tão lesto em apontar o dedo aos privilegiados deste país, sobretudo aos seus vizinhos, aos seus amigos, ou àqueles que usufruem de apoios sociais, é, ao mesmo tempo, tão torpe em erguer esse mesmo dedo na direção dos verdadeiramente poderosos, daqueles que verdadeiramente recebem a fatia de leão dos rendimentos do país, nos quais podemos incluir, de modo absolutamente inexorável, a Igreja Católica.

 

É caso para escrever que para que isto acontecesse, para que o governo começasse a beliscar os escandalosos privilégios da Igreja, seria necessário bem mais do que a força dos homens, os quais não estão para aí virados, nem daqui a um milhão de anos. Seria necessário um verdadeiro milagre.

 

Jesus expulsa os vendilhões do templo

 

O estado a que chegámos

por Amato, em 08.07.16

Não sei se será melhor escrever “O estado a que chegámos!” ou “O Estado a que chegámos”. Não sei. Vou refletir sobre o assunto.

 

A comunicação social, braço armado do poder burguês, estende a sua influência a todos os domínios da sociedade. Não é uma influência à primeira vista descarada ou evidente. Trata-se antes de um sussurrar permanente, um condicionamento subliminar que procura chegar e chega a cada vez mais cidadãos.

 

É condição essencial para o sucesso desta operação a montagem de um cenário com uma infinidade de intervenientes que opinam aparentemente de forma independente. Se os lermos na diagonal, até parece que cada um acrescenta algum pormenor diferente que o seu antecessor. O mecanismo ilusório resulta, portanto, eficaz. O ouvinte ou o leitor passa por todas aquelas vozes e, no final, está a repetir aquela mesma mensagem que une todas elas sem dar por isso. A coisa acontece, o que é mais grave, com a perceção de livre arbítrio na formação de opinião.

 

O braço mediático burguês não conhece fronteiras: interfere ativamente na política, tanto na parte legislativa como na parte executiva, mas também coloca o seu dedo na justiça. É indesmentível que o julgamento mediático hoje em dia é mais valioso e determinante que o julgamento nos tribunais; os juízes podem ser facilmente atacados indiretamente por um qualquer órgão de comunicação social; os tribunais vêm a sua ação constantemente posta em causa. A questão das constantes fugas de informação assume aqui um papel relevante para analisarmos esta problemática globalmente.

 

O caso de Carlos Cruz, condenado e a cumprir pena em liberdade condicional, é paradigmático. A forma como se coloca em causa a decisão do tribunal de o condenar chega a ser chocante. Conceda-se todos os recursos que a lei permite ao condenado, mas no fim de contas calem-se! No fim de contas aceitem e respeitem o tribunal! Isto não devia ser como um jogo de futebol em que cada qual assume o papel de treinador de bancada. A justiça devia ser algo sério. Já estou a imaginar a sucessão de entrevistas a reclamar inocência e os programas de televisão que lhe vão conceder. É uma vergonha e é nojento. Atingimos um estado lastimável que, na prática, concretiza os piores receios sugeridos por uma espécie de estado anarquico.

 

Não há independência. Não há democracia. Não há liberdade. Não há lei. Não há justiça. Só há um pensamento único. Só há fomento do caos e da desconfiança como tronos sociais para a burguesia poder reinar.

Uma espécie de proxenetismo democrático

por Amato, em 26.05.16

Se o sistema fosse justo, se o conceito de democracia fosse autêntico e se se refletisse com plenitude e com lisura na vida real, então hoje seria um dia em que apenas uma parte da população, a que não votou na PAF, aquela confluência sinistra entre PSD e CDS, usufruiria de dia feriado. Quanto aos outros, iriam trabalhar como se de um qualquer outro dia se tratasse por ser essa a sua genuína convicção. Agora, gozar o feriado tendo votado a favor da sua extinção... é baixo, é sórdido, é uma espécie de proxenetismo democrático e não devia de ser admitido.

 

Claro que não há nada a fazer relativamente ao problema, o qual resulta insolúvel devido à axiomatização democrática incluir o conceito de voto secreto, cujas virtudes para o sistema, aliás, ultrapassam em muito as infâmias. Serve simplesmente para observarmos a verdadeira natureza oportunista de uma boa parte dos votantes. Com este tipo de princípios será sempre muito difícil edificar uma sociedade melhor.

Uma nota de rodapé sobre o “Jogo Duplo”

por Amato, em 17.05.16

É interessante notar que a Operação Jogo Duplo visa desmontar um esquema de viciação de resultados envolvendo apenas as equipas da segunda divisão de futebol portuguesa. Os montantes em causa deverão estar na ordem das centenas de euros, vá, que sejam milhares. Quanto à primeira divisão, ou primeira liga como se lhe quiser chamar, onde os montantes movimentados seriam sempre multiplicados por dez ou por cem, pelo menos, nem uma suspeita! É deveras interessante constatar este facto!

 

Parece que, para quem de direito, quanto mais dinheiro se movimenta, mais sérias são as pessoas! Qual mundo de fantasia em que vivemos... Por mim, desconfio que uma investigação séria e transversal, a ser feita, faria com que o caso Calciocaos, que abalou o futebol italiano há cerca de sete anos, fosse visto como uma brincadeira de crianças.

A máquina retrógrada

por Amato, em 07.05.16

O processo de metamorfose que conduziu a primordial RTP N, “N” de notícias, à atual RTP 3, passando também pela RTP Informação, uma espécie de estádio de girino, antecâmara para a sua forma final, não consistiu numa mera operação de cosmética no visual do meio de comunicação em causa. Foi mais do que isso: foi uma transformação de conteúdo.

 

Com efeito, para a composição dos quadros de “jornalistas” e “editores”, assim como para os painéis de “comentadores”, foi elaborada uma rigorosa e criteriosa escolha de personalidades. Repare-se quão ténue é hoje a diferença entre as designações jornalista, editor e comentador. A nomenclatura é usada aqui, portanto, com função de mera decoração linguística. A escolha, dizia eu, por obedecer a tão rigorosos critérios, resultou num grupo de personalidades que constitui hoje, atrevo-me a escrever, possivelmente não o mais reacionário canal de informação televisiva, mas seguramente o mais descarado, o mais desbocado e o mais petulante. Isto mesmo havia sublinhado neste blog, em jeito de nota de rodapé, aquando do início da carburação da dita máquina retrógrada.

 

Mas como qualquer “equipa vencedora”, o “plantel” da RTP 3 não é apenas constituído por caras novas e contratações sonantes, leia-se gente a quem o Capital decidiu premiar e estender a sua caridosa mão por tão devotamente saberem defendê-lo. Alguns dos que compõem a espinha dorsal do “onze titular” da estação já pontificavam naquela casa e, como toda a gente sabe, são sempre os “homens da casa” os que controlam o “balneário” e sabem unir a equipa.

 

É o caso de José Rodrigues dos Santos ao qual foi dada renovada liberdade no seio desta nova equipa para poder explanar o seu jogo a seu bel-prazer. Muitas pessoas têm ficado escandalizadas com o inexato gráfico que o senhor “jornalista” apresentou para explicar a evolução da dívida portuguesa e essa mesma revolta têm exprimido nas redes sociais.

 

https://1.bp.blogspot.com/-69bxbGmtgnI/VysqC-ZXvfI/AAAAAAAAEnc/3Sm-DL6uGiEs0n_1xKiZu02Bv22LoWkfQCLcB/s1600/JRS-Divida-publica-original.jpg

 

Este é simplesmente o episódio último da máquina retrógrada que é a RTP 3 ou, digamos, a por ora última jogada ou última finta, do “jornalista” em causa, e é verdade: o gráfico constitui efetivamente uma grosseira manipulação matemática na apresentação dos dados que supostamente o sustentam através de um processo de adulteração das escalas de ambos os eixos do gráfico. Este facto, facilmente comprovável, teve como objetivo hiperbolizar as conclusões que se pretendiam retirar e passar aos espectadores. Por outras palavras: o objetivo era condicionar e enganar o público.

 

Houvesse lei e justiça e este “jornalista” responderia e pagaria pelo que fez. Houvesse decência e ética profissional e o mesmo estaria já demitido das suas funções. Mas tudo isto é efetivamente natural, nem tão pouco o “jornalista” faria o que fez sem ter, nas suas costas, um “treinador” que dá a tática e o suporta.

Isto muda devagar

por Amato, em 28.04.16

“Tu, que és professor, tens que ajudar a mudar isto”.

“Mudar? A que te referes?”

“Esta juventude... Só se fores tu a incutir-lhes os bons valores.”

“Faço o que posso.”

“Só se fores tu... para isto ir mudando... devagarinho...”

“Mas sabes?”

“O quê?”

“Isto dos bons valores não é coisa que se ensine.”

“Explica?”

“Ajuda, claro, mas não é coisa que se ensine. Quer dizer: com o Português e a Matemática.”

“Hum?”

“O sentido de solidariedade, de justiça, de igualdade, vêm de cá de dentro, daqui... do coração. Ou os tens ou não os tens.”

“Mas ajuda saber umas coisas...”

“Claro! Mas olha: o vinte e cinco de abril de setenta e quatro parece que foi ontem, mas já passaram quarenta e dois anos!”

“É verdade.”

“E nestes anos o que aconteceu? Acaso consideras que esta nova geração, a mais e melhor formada de todas as gerações, é mais solidária, mais justa e mais igualitária?”

“Não me parece.”

“A mim também não.”

“O que fazer, então?”

“Continuarei a fazer o meu trabalho, a minha parte.”

“Isto muda devagar.”

“Devagarinho.”

“Tão devagar que às vezes até parece que anda para trás.”

“Mas não anda.”

“Não, não anda.”

 

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Os Papéis como sintoma

por Amato, em 07.04.16

Hoje fui à Autoridade para as Condições de Trabalho. Cheguei cedo, ainda era muito cedo, o sol ainda espreitava tímido no céu azul e os seus raios finos e tenros mal conseguiam perfurar as paredes de prédios cinzentos que ladeavam a avenida. Mas o meu conceito de cedo revelou-se desajustado com a realidade daquela sala de espera.

 

Encontrei uma vintena de pessoas que, como eu, esperavam, ansiosas por resolver os seus problemas laborais ou, no máximo, colher um feixe de esperança que, ainda que ténue, os guiasse para uma luz ao fundo do túnel.

 

Isto é o reflexo do estado do país, do estado lastimável da sociedade. Não são nem Panamá Papers nem outros mega processos jornalístico-judiciais que o mostram. O estado do país vê-se aqui. O resto é foguetório para entreter a malta.

 

A raiz dos problemas revela-se aqui, no ACT, onde cada sala de espera apinhada devia envergonhar cada governante sobre o estado do trabalho, sobre o desequilíbrio de forças que existe no nosso país e sobre as consequências nefastas que se multiplicam na distribuição da riqueza e na justiça social.

 

Nada disto é genuinamente surpreendente. Estas salas abarrotadas são o resultado de vários anos de políticas que forçaram o desequilíbrio de forças entre o patronato e o operariado, com vantagem evidente para o primeiro, ainda que com o obséquio ativo do segundo. E é precisamente aqui que radica tudo o resto, a acumulação obscena de riqueza e, consequentemente, casos como este que agora preenche todas as primeiras páginas, os Papéis do Panamá.

 

Os Papéis não são causa de nenhum problema, são apenas sintoma. Simplesmente é-nos conveniente pensar o contrário.

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