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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Isto muda devagar

por Amato, em 28.04.16

“Tu, que és professor, tens que ajudar a mudar isto”.

“Mudar? A que te referes?”

“Esta juventude... Só se fores tu a incutir-lhes os bons valores.”

“Faço o que posso.”

“Só se fores tu... para isto ir mudando... devagarinho...”

“Mas sabes?”

“O quê?”

“Isto dos bons valores não é coisa que se ensine.”

“Explica?”

“Ajuda, claro, mas não é coisa que se ensine. Quer dizer: com o Português e a Matemática.”

“Hum?”

“O sentido de solidariedade, de justiça, de igualdade, vêm de cá de dentro, daqui... do coração. Ou os tens ou não os tens.”

“Mas ajuda saber umas coisas...”

“Claro! Mas olha: o vinte e cinco de abril de setenta e quatro parece que foi ontem, mas já passaram quarenta e dois anos!”

“É verdade.”

“E nestes anos o que aconteceu? Acaso consideras que esta nova geração, a mais e melhor formada de todas as gerações, é mais solidária, mais justa e mais igualitária?”

“Não me parece.”

“A mim também não.”

“O que fazer, então?”

“Continuarei a fazer o meu trabalho, a minha parte.”

“Isto muda devagar.”

“Devagarinho.”

“Tão devagar que às vezes até parece que anda para trás.”

“Mas não anda.”

“Não, não anda.”

 

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Outra nota humorística do Bloco

por Amato, em 15.04.16

O Bloco de Esquerda propôs à Assembleia da República a alteração do nome do Cartão de Cidadão para Cartão de Cidadania. A justificação é de que a designação “de Cidadão” não é neutra, antes masculina, sendo “dever do estado promover a igualdade entre mulheres e homens”, bem como “a não descriminação em função do sexo ou da orientação sexual”.

 

Todavia, esta preocupação com a igualdade de género e sexual resulta curta à letra da nossa Constituição. Com efeito, reza o Artigo 13º, o chamado princípio da igualdade, no seu segundo ponto:

 

“Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.”

 

Após a leitura atenta deste estruturante princípio, fico extremamente apreensivo com a cor branca dos cartões de cidadão, cor essa que, simbolicamente, induz uma desigualdade entre mulheres e homens com cores de pele diferentes, com benefício claro para os brancos.

 

Creio que, por isso, o Bloco de Esquerda deveria acrescentar uma adenda à sua proposta pedindo que os seus novos Cartões de Cidadania passem a ser coloridos de roxo, por exemplo, que é uma cor sem conotação racial.

 

O que dizer mais sobre isto? Entretenimento à parte, é a ânsia febril pelo mediatismo e a demagogia barata do Bloco no seu esplendor.

Os Papéis como sintoma

por Amato, em 07.04.16

Hoje fui à Autoridade para as Condições de Trabalho. Cheguei cedo, ainda era muito cedo, o sol ainda espreitava tímido no céu azul e os seus raios finos e tenros mal conseguiam perfurar as paredes de prédios cinzentos que ladeavam a avenida. Mas o meu conceito de cedo revelou-se desajustado com a realidade daquela sala de espera.

 

Encontrei uma vintena de pessoas que, como eu, esperavam, ansiosas por resolver os seus problemas laborais ou, no máximo, colher um feixe de esperança que, ainda que ténue, os guiasse para uma luz ao fundo do túnel.

 

Isto é o reflexo do estado do país, do estado lastimável da sociedade. Não são nem Panamá Papers nem outros mega processos jornalístico-judiciais que o mostram. O estado do país vê-se aqui. O resto é foguetório para entreter a malta.

 

A raiz dos problemas revela-se aqui, no ACT, onde cada sala de espera apinhada devia envergonhar cada governante sobre o estado do trabalho, sobre o desequilíbrio de forças que existe no nosso país e sobre as consequências nefastas que se multiplicam na distribuição da riqueza e na justiça social.

 

Nada disto é genuinamente surpreendente. Estas salas abarrotadas são o resultado de vários anos de políticas que forçaram o desequilíbrio de forças entre o patronato e o operariado, com vantagem evidente para o primeiro, ainda que com o obséquio ativo do segundo. E é precisamente aqui que radica tudo o resto, a acumulação obscena de riqueza e, consequentemente, casos como este que agora preenche todas as primeiras páginas, os Papéis do Panamá.

 

Os Papéis não são causa de nenhum problema, são apenas sintoma. Simplesmente é-nos conveniente pensar o contrário.

Democracia: o direito à diferença

por Amato, em 27.03.16

Na semana passada teve lugar uma reunião da Assembleia Municipal da Câmara do Porto onde se discutiu sobre os destinos das recolhas e tratamento de resíduos no município.

 

Todas as forças políticas, exceto a CDU, apoiaram uma generalização a toda a cidade de um sistema de prestação de serviços (que exclui os recicláveis) secundado pela criação de mais uma empresa municipal para supervisionar e gerir o processo.

 

Perante tal decisão da CDU, democraticamente válida e inatacável, decidiu o Presidente da Câmara espalhar comentários irados e sarcásticos pela sua conta do Facebook e pelos jornais onde escreve, ao mesmo tempo que, juntamente, difundiu um vídeo cuidadosamente editado no qual o vereador da CDU mal se consegue explicar, ao passo que o Presidente, ele próprio, aparece imponente a despejar acusações despropositadas, infundadas e baseadas no seu próprio preconceito.

 

Antes de prosseguir, importa sublinhar este modo de agir avesso à democracia, intolerante à diferença, incapaz de conceber outras opiniões.

 

A posição da CDU até podia ser meramente oposicionista. Podia: ou será que esse papel apenas é lícito nas mãos de PSD e CDS atuais? A posição da CDU podia ser meramente oposicionista, mas não é. A saber.

 

A maioria das pessoas não sabe, mas esta solução de privatização da recolha de resíduos no município do Porto não caiu do céu. Houve um período, que vem já desde 2009, no qual a limpeza de 50% do município foi concessionada a entidades privadas. Este foi, portanto, um período extraordinariamente rico para se poder aferir das vantagens e desvantagens do sistema privado face ao sistema público.

 

O resultado destes oito anos de experiência foi assustador. Ao invés de um valor inicial previsto de 45,6 milhões de euros pelos oito anos de serviço em metade do município, a Câmara do Porto acabou por pagar 72 milhões de euros! Este valor de 9 milhões de euros por ano representa uma inflação gigantesca (quase uma duplicação de valores) face ao valor pago quando os serviços estavam totalmente centralizados na Câmara.

 

Perante a factualidade descrita dos eventos, é deveras surpreendente que o Presidente da Câmara do Porto tenha apresentado uma proposta, aprovada na passada semana, que concessiona a limpeza na totalidade da cidade por um valor de 10 milhões de euros por ano. Repare-se bem: quando antes se pagava em média 9 milhões por ano por metade da cidade, agora propõe-se pagar 10 milhões por ano pela totalidade da cidade!

 

Adicionalmente, decide-se criar mais uma empresa municipal para gerir os prestadores de serviços, ou seja, mais gestores para gerir os gestores. Esta parece constituir uma costumeira solução para retirar da esfera política o controlo e a supervisão que, realmente, lhe compete.

 

Em boa verdade, nada disto que escrevi interessa de muito. Nada do que foi escrito, por muito pertinente que seja, e é, tem muito interesse para a generalidade das pessoas. O processo difamatório é tão poderoso e tão eficaz que nada mais é necessário dizer sobre o assunto. Ao Presidente da Câmara basta começar as frases por “Os comunistas isto...” ou “Os comunistas aquilo...” que já venceu por KO a argumentação. Tão pouco precisava de ter apresentado um vídeo truncado a embelezar o seu elegante post no Facebook.

 

O ponto do meu post foi apenas um: mostrar que, pelo menos, existem razões concretas para se poder ter uma opinião divergente nesta matéria em particular.

 

Muito mais poderia ser escrito e, contudo, tudo o que foi escrito já foi demais. Vou terminar, também eu, com um vídeo, já antigo, que me traz memórias sobre uma certa personalidade que, na altura, comentava num programa sobre futebol. Este vídeo não é manipulado e traduz bem da capacidade dessa personalidade em aceitar as opiniões dos outros e a forma como as rebate.

 

 

Sentimento de mágoa pelos povos do mundo

por Amato, em 25.03.16

Sinto-me magoado. Falo de verdade: sinto-me magoado. Existe uma dor dentro de mim, que vive dentro de mim, dentro do meu corpo, que sinto como uma presença fria entre os pulmões, o coração e o estômago. Desliza por ali, fria, por vezes gelada, e eu sei que é tristeza em forma de desespero.

 

É um sentimento que, todavia, não é genuinamente meu, vem de fora, é-me impingido, injetado, de todos os lados, por toda a parte, aonde quer que eu vá, por todos com quem troco duas palavras. Explicar-me-ei melhor: esta tristeza é reação ao mundano que me agride.

 

Por muito que os acontecimentos se repitam, por muito que essa repetição seja recorrente e que essa recorrência seja mais e mais acelerada, parece que o mundo persiste num conjunto de reações acéfalas, incapaz delas evoluir. Parece que não há aprendizagem qualquer sobre a semelhança dos acontecimentos, sobre as suas causas, e persiste-se no abraço da ignorância plena, da cultura do medo, do estímulo ao racismo, à xenofobia, à intolerância. Para qualquer lado que nos viremos é isto que podemos observar, é disto que inspiramos, doses massivas disto, ferindo os pulmões como lâminas finas e afiadas.

 

É natural que assim seja, porque não querendo tratar das razões dos problemas, restam apenas o racismo, a xenofobia e a intolerância como armas derradeiras de conservação do poder. É apenas disso que se trata, bem entendido: perpetuar o mais possível os mecanismos de exploração dos povos, de escravização da mão de obra, continuando para isso a destruir socialmente sociedades inteiras, incitando e alimentando conflitos e guerras sempre que tal seja necessário.

 

O que não deveria ser natural perante a repetição de factos e de acontecimentos, não obstante, era esta aceitação popular generalizada, este acolher tenebroso da dialética do medo. Se pensarmos bem, todavia, também isto é compreensível. O povo está cada vez mais identificado com a cultura da posse, inspirado na avareza mais pura, educado a preceito e formado com honras na teologia do capital. A palavra solidariedade foi apagada do dicionário dos povos. E quão importante é esta palavra, não apenas para o remedeio dos problemas, mas sobretudo para a sua prevenção!

 

Não há nada de mais irónico do que constatar, para além de qualquer dúvida, que em nenhum momento da História como hoje o povo foi tão eficazmente manietado agindo em perfeito acordo com os mais íntimos interesses do poder vigente e contra os seus próprios interesses. Nem na idade média, a das trevas, nem nos negros tempos da inquisição ou da escravatura — o poder descobriu a forma perfeita e, sublinhe-se, inatacável de escravizar os povos do mundo: dar-lhes a liberdade de escolha sob o véu ilusório da igualdade.

Os radicais entre nós

por Amato, em 15.03.16

Para mim, o CDS está para Portugal como os partidos radicais islâmicos estão para os países do Médio-Oriente e de África. As diferenças que se percebem são produto na justa medida do contexto social europeu e não mais do que isso. Fossem as circunstâncias outras e o CDS defenderia abertamente a proibição do uso do preservativo, do divórcio, do aborto e da eutanásia, entre outros. Ah... os últimos dois são mesmo verdade... E, precisamente pelo facto do momento atual se presentear oportuno, porque não inquirir sobre a visão histórica que este partido tem sobre os direitos das mulheres e sobre o seu papel na sociedade?

Sociedade de classes

por Amato, em 14.03.16

O que é preciso para se ser nomeado conselheiro cultural do Presidente da República Portuguesa? Mais: o que é necessário para se ser subdiretor e diretor da Cinemateca Portuguesa? É melhor ficar por aqui. Podia continuar, tanto para norte como para oeste, mas não quero. Havia muito mais para escrever.

 

Ainda hoje, os meninos aprendem no sexto ano da sua escolaridade devida — e repetem — que os governos liberais do século XIX procuraram acabar com a sociedade de classes e colocar todos os homens iguais perante a lei. Que tamanha treta! Pois a única coisa que lograram foi a promoção de uma classe acima de todas as outras — a burguesia —, classe essa que via a sua ascensão amarrada por minudências como o sangue ou a tradição. Por outras palavras, estabeleceram as bases para que o poder do dinheiro pudesse substituir os poderes feudais instalados e cristalizados.

 

Agora... sociedade sem classes? Contem outra! E, já agora, reescrevam a História. É que, simplesmente, não tem lógica nenhuma.

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