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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

É de ironia que este género de muros é feito

por Amato, em 29.01.17

Esta construção anunciada e já iniciada do muro entre os Estados Unidos da América e o México é muito irónica. Acho mesmo que, mais que argamassa e tijolos, mais que rede e arame farpado, é de ironia que este género de muros é feito.

 

No vídeo que se segue, o filósofo brasileiro Mário Sérgio Cortella expõe superiormente o ridículo da questão.

 

Que falta nos faz a Filosofia! Que falta nos faz saber pensar!

 

 

Sublinhe-se também que a taxa anunciada sobre os produtos mexicanos para financiar a construção do muro incidirá, não sobre o México, mas sobre o povo americano que, desse modo, pagará mais pelos mesmos. Para lá da propaganda, quem pagará a construção do muro será, de modo inexorável, o povo americano.

Uma outra educação

por Amato, em 21.01.17

Se amanhã acontecer uma catástrofe à escala global, uma espécie de Apocalipse bíblico, e sobrarem apenas umas parcas dezenas de exemplares da nossa espécie, o que seríamos capazes de recuperar da nossa civilização? O que seríamos capazes de reconstruir?

 

Quando pensei pela primeira vez nesta questão fiquei um pouco assustado. A resposta é: muitíssimo pouco. A perspetiva seria a de nos reduzirmos a pouco mais que homens das cavernas. É assustador, mas é a verdade.

 

Na realidade, o cidadão médio vive o seu dia-a-dia envolto numa estrutura social e tecnológica que o transcende de tal forma que, nem que se dedicasse ao estudo até ao final da sua vida, conseguiria compreender minimamente o seu modo de funcionamento. Mesmo o cidadão letrado acima da média não mais é que um especialista numa determinada área, num determinado segmento de uma área, pelo que sozinho não seria capaz de reproduzir sequer o processo em que se insere laboralmente.

 

A via de especialização dos saberes pode ser considerada como natural com o progresso da humanidade, pois decorre da impossibilidade potencial de um indivíduo conseguir dominar todo o conhecimento acumulado ao longo dos séculos. Todavia, há mais do que isto.

 

Há toda uma filosofia inspiradora no ocidente que tem conduzido à especialização do indivíduo não por ser uma inevitabilidade mas por ser uma conveniência. Podemos recuperar os passos dessa tendência desde os primórdios da revolução industrial, ainda antes da “linha de montagem”.

 

Com efeito, é conveniente que os peões da sociedade, os que constituem a força do trabalho, não saibam tudo e não saibam de tudo, porque, se soubessem, poderiam emitir opinião e poderiam influenciar o processo. Se fossem dotados de alguma cultura geral, poderiam emitir juízos de valor sobre o poder que os governa e convém que o proletariado não tenha poder. Daí a especialização. Daí o privilegiar de uma formação específica relativamente a uma formação geral, abrangente. A ideia é: especializar para limitar.

 

Entretanto, é mais fácil usar um automóvel, um eletrodoméstico, um telemóvel, e não fazer ideia de como funciona. Sentimo-nos importantes simplesmente pelo ato de usar e por possuir. Se avaria, compra-se outro. Nem vale a pena tentar arranjar. As sociedades humanas abraçaram o projeto de serem conjuntos de ignorantes. Ignorantes com uma formação, ignorantes diferentes dos ignorantes do passado, é certo, mas, não obstante, ignorantes, totalmente incapazes de sobreviverem sozinhos, sem que alguém lhes diga o que fazer, como fazer.

 

Não acreditam no que vos escrevo? Experimentem fazer a um recém licenciado alguma pergunta sobre uma área diferente da sua. Perguntem-lhe alguma coisa básica sobre animais ou plantas, ou sobre astronomia. Perguntem-lhe sobre a história do país, sobre o 25 de abril de 74. Perguntem-lhe sobre a história da localidade de onde vêm. Vão ficar espantados com as respostas. Ainda noutro dia, um jovem licenciado em Economia com quem falei estava convencidíssimo que a revolução dos cravos tinha sido o fim da monarquia em Portugal.

 

Por ventura, o mais modesto cidadão do século XIX saberia responder a estas perguntas. Hoje, todavia, os que mais estudos têm não o conseguem fazer.

 

Resulta, portanto, claro que uma outra educação é a única alternativa para os povos do mundo serem livres, isto é, para deterem os seus destinos nas suas mãos e não passarem pelas suas vidas guiados como animais de carga. Sim, é verdade: não basta viver no ocidente para se ser livre. Não basta haver eleições para se ser livre.

"Cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis"

por Amato, em 29.09.16

Depois de publicar a parte da citação de Almeida Garrett que é mais conhecida, mais popular, digamos, dei comigo a revisitar o Viagens na Minha Terra. A citação em causa vem logo no terceiro capítulo e pareceu-me insuficiente. Com efeito, tanto o texto que a precede, como aquele que a ela se segue, são de uma riqueza tão assinalável que me parece indesculpável que não se lhes dê iguais honras de destaque.

 

Todo o parágrafo, que transcrevo em seguida, é de uma beleza muito rara no universo dos livros escritos em português, normalmente abundantes de um provincianismo que não permite reflexões deste género. Saliente-se antes ainda a incontornável pergunta que ecoa por entre as linhas do texto:

 

“No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana?”

 

Bravo, Garrett!

 

Não: plantai batatas, ó geração de vapor e de pó-de-pedra, macadamizai estradas, fazei caminhos-de-ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa, como tendes feito esta que Deus nos deu, tão diferente do que a que hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai: reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. — No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico. — Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já deve de andar orçado o número de almas que é preciso vender ao Diabo, o número de corpos que se têm de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro — seja o que for; cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.

 

— Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra

 

Viagens na Minha Terra, Livros de Bolso Europa América

 

A revolução educativa que é mais necessária

por Amato, em 05.01.16

Cada vez me convenço mais da imbecilidade superlativa dos indivíduos apologistas da superioridade das ciências exatas face às demais ciências ou áreas do saber.

 

Cada vez percebo mais claramente da importância do domínio da língua e da dialética para o saber pensar e para o saber imaginar.

 

Cada vez mais observo claramente como grandezas diretamente relacionadas e diretamente proporcionais: a Filosofia e a Sociedade. O declínio da primeira relaciona-se diretamente com o declínio da segunda, nos seus princípios, na sua estrutura e nos seus valores.

 

Antes de começarmos a espingardar com o método científico convinha sabermos expor argumentos, pensar sobre o que expomos, saber falar, saber escrever, saber... pensar. E, resulta para mim muito claro, esta sociedade parece usar com destreza de gráficos e de ferramentas estatísticas, de testes de hipóteses e de grupos de controlo para provar isto e aquilo e não pensa, muitas vezes não sabendo o que faz. O que devia vir primeiro não vem nunca. Não existe a reflexão sobre o que se faz ou sobre o que se pretende fazer e essa reflexão quando existe é reprimida porque ameaça colocar em causa mais um batalhão de testes. Mais vale fazer os testes, então.

http://energybrokerplus.com/wp-content/uploads/2011/11/thinker-monkey.jpg

Pensa-se pouco, raciocina-se pouco, reflete-se pouco. Faz-nos falta. Estuda-se Matemática, Física, Biologia e Química a mais e estuda-se Português e Filosofia a menos. As ciências exatas têm feito de nós, direta ou indiretamente, robôs, macacos treinados, animais de circo amestrados.

 

Esta é a revolução educativa que é mais necessária: uma revolução sobre o objeto de ensino. O que é determinante é “letrar” os cidadãos, isto é, dotá-los das ferramentas da leitura e escrita com destreza, do saber pensar e refletir. O resto também é importante mas não é o mais importante. O resto, para quem sabe ler, escrever e pensar... encontra-se ao alcance de uma mão.

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