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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

A razão de ser da vontade das massas é perfeitamente insondável

por Amato, em 29.04.18

No seu último artigo de opinião no Público, Pacheco Pereira defende, uma vez mais, a tese de que as eleições em Portugal se ganham ao centro. Esta é uma tese com a qual é fácil concordarmos se, por centro, entendermos algo que aparenta não ser nem muito quente, nem muito frio, algo que, na verdade, nem aqueça, nem arrefeça. É isso que o povo, em geral, quer: uma política que mantenha as coisas como estão, as relações de poderes, e promovendo uma pueril rotatividade de caras, ora acrescentando um D ao PS, ora retirando um D ao PSD. Não há nada de novo na apresentação desta “ideia de estimação” do autor. A novidade está na argumentação utilizada.

 

Diz Pacheco Pereira que isto — o “facto” das eleições se ganharem ao centro — se deve a um “eleitorado urbano politicamente mais qualificado e informado” que vota ao centro. Este argumento, repetido duas vezes ao longo do texto, não encontra qualquer evidência prática que não seja aquela que advém de um preconceito a priori do autor. Em bom rigor, não existe qualquer dado objetivo que nos permita distinguir o eleitorado rural do eleitorado urbano. Não há nenhuma análise de resultados eleitorais que aponte nesse sentido e, se acaso assim não fosse, as agendas dos partidos políticos durante as campanhas eleitorais seriam sobretudo centradas em Lisboa e no Porto, o que não acontece. Também não existem indicadores culturais que diferenciem os dois eleitorados ao ponto de podermos identificar um subconjunto de um deles como “mais qualificado e informado”.

 

Empiricamente, se nos dermos ao trabalho de trocar duas palavras com elementos de um e de outro eleitorado, o rural e o urbano, somos facilmente conduzidos à conclusão de que as diferenças não são muitas e os elementos do subconjunto “politicamente qualificado e informado” difíceis de encontrar num e noutro lado. Por isso, dizer que o “eleitorado urbano politicamente mais qualificado e informado” justifica o que quer que seja na macro política nacional constitui uma conclusão no mínimo arriscada.

 

Há diferenças entre um e outro eleitorado, claro que há. Mas essas diferenças não são suficientes para justificar o que quer que seja. Por exemplo, o eleitorado rural está mais próximo das estruturas políticas locais do que o eleitorado urbano, em geral. Mas isso não traduz, sabemo-lo muito bem, qualquer implicação em termos de eleições nacionais. Por outro lado, a diferença entre urbano e rural está, muitas vezes, a menos de meia centena de quilómetros do centro das cidades: saímos do centro do Porto ou de Lisboa e em pouco tempo estamos numa aldeia qualquer que mais parece não ter evoluído desde o século XIX em termos de costumes. E é precisamente para esses locais que a população das cidades está a ser paulatinamente empurrada, por força das altas rendas e especulação turística.

 

Em termos de inclinação política, é muito mais relevante, por exemplo, a diferença norte-sul do que a diferença urbano-rural e, mesmo assim, todas as diferenças tendem a esbater-se, as populações locais são cada vez menos estáveis e cada vez mais móveis, o que torna qualquer correlação de dados mais ou menos irrelevante. Todavia, confesso que estas tentativas de ensaiar justificações para resultados políticos ou comportamentos de eleitorado sempre me divertiram. Esta, de Pacheco Pereira, foi completamente ao lado. A razão de ser da vontade das massas é, em bom rigor, perfeitamente insondável.

Cavaco Silva, sem comentários

por Amato, em 06.10.17

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Acontece, até, que eu não votei, porque estava num casamento de um familiar muito próximo na Escócia no próprio dia e por isso só acompanhei já na segunda-feira o que tinha aqui ocorrido.

— Cavaco Silva, 4 de outubro de 2017.

 

Nunca serei capaz de entender perfeitamente como o povo foi capaz de conceder a este personagem vinte anos de poder. Um péssimo exemplo, um horrível exemplo para a nossa “democracia”.

 

Os milhões de portugueses que, eleição após eleição, lhe entregaram o seu voto deviam ser intimados a pedir desculpas públicas ao país pelo que fizeram. Houvesse vergonha...

Donzela de dia, meretriz de noite

por Amato, em 14.05.17

O que mais me revolta na humanidade é a hipocrisia, a dissimulação, a farsa, a imposturice. O que mais me revolta é a tentativa em fazer-me crer em algo que não é, com o singular propósito em daí extrair algum tipo de vantagem.

 

Na última semana, antes da visita do Papa a Fátima, uma das notícias mais destacadas, a mais destacada na região norte, sem dúvida, foi o desentendimento entre Rui Moreira, o atual Presidente da Câmara do Porto e o PS, que acabou com o primeiro a rejeitar ou prescindir do apoio do segundo à sua candidatura para um segundo mandato à frente da Câmara. Esse apoio seria de todo em todo natural, já que Rui Moreira tem governado a cidade desde o primeiro dia com o apoio declarado, assumido e formalíssimo do PS e dos seus vereadores. A razão para o desentendimento teriam sido as pressões do PS para incluir determinados nomes nas listas da candidatura de Moreira, o que poria em causa a independência da mesma e que teriam sido consubstanciadas nas declarações públicas da secretária-geral adjunta do PS, Ana Catarina Mendes. Rui Moreira chega mesmo a dizer que, na sua candidatura, os lugares são atribuídos apenas pela competência das pessoas e não por qualquer outro tipo de razão.

 

Porque eu sei que esta intrujice imunda passa para as pessoas e que muitas delas a aceitam assim mesmo sem pensar, vou dedicar o resto deste post para tentar desmascarar esta farsa.

 

Vou começar pelo fim. Se Rui Moreira apenas escolhe as pessoas do seu movimento pela competência, porque governou ao lado do PS durante estes quatro anos? Em particular, porque é que escolheu para seu braço direito e lhe atribuiu importantes pelouros um personagem como Manuel Pizarro, um puro aparelhista do PS e um perfeito incapaz fora desse estrito contexto?

 

Em segundo lugar, escolher a palavra independência para a defesa da candidatura de Rui Moreira é mais que uma mentira: chega a ser uma infâmia, um insulto! Rui Moreira é independente porque não tem filiação partidária? É isso?! Só quem não quer é que não sabe, porque é público, que a candidatura de Rui Moreira foi pensada por Paulo Portas, corria o ano de 2012, em reuniões com militantes do CDS nas quais Rui Moreira esteve presente. A candidatura de Rui Moreira, apresentada trapaceiramente como independente, foi apoiada formalmente, desde o primeiro momento, pelo CDS e, informalmente, por setores do PSD que, na altura, se opunham à candidatura de Luís Filipe Menezes à Câmara do Porto. Toda a gente sabe disto. Toda a gente sabe que Rui Moreira, não sendo militante do CDS, sempre foi íntimo desse partido e que frequentava (e frequenta...) as suas reuniões.

 

Porquê esta farsa? Porquê o embuste? Ah, é para se dizer de independente, porque está na moda e porque fica bem, as pessoas gostam, principalmente os idiotas úteis apartidários que se reproduzem como coelhos na nossa sociedade.

 

Chego deste modo ao último ponto ainda com esta dúvida no ar: qual a razão para este desaguisado entre Moreira e o PS, afinal? As declarações de Ana Catarina Mendes são, parece-me, de todo em todo expectáveis e naturais: se o PS apoia oficialmente a candidatura de Moreira à Câmara, é natural que festeje a sua vitória e que a interprete como também sua e também é natural que esteja representado na composição da lista de Moreira. Estranho seria o contrário. O problema, especulo eu, é que a lista em preparação de Moreira já deve ter os seus lugares bem atribuídos entre gente do CDS e “independentes”, como o próprio Moreira, afetuosos ao CDS ou ao próprio PSD. E, na verdade, sobretudo nesta fase de crispação política entre a antiga PaF e a nova Geringonça, Rui Moreira não quererá ver a sua candidatura “independente” como putativa plataforma de entendimentos entre PSD, CDS e o PS. Imagine-se: a candidatura de Moreira apresentar-se a eleições — como o foi até à semana passada — como uma pândega, vitoriosa por antecipação, entre CDS, PSD e PS!

 

É a candidatura “independente” de Rui Moreira, transparente e cristalina aos olhos de todos: pela frente, durante o dia, uma donzela impoluta, independente, que não se mistura com ninguém, dona apenas dos mais nobres preceitos de caráter; por trás, de noite, uma mulher da vida, uma meretriz que a todos se dá pela troca de favores e pela conquista de poder. Perdão, a todos exceto a CDU, cujos vereadores são a única força que resiste e que denuncia a patranha no seio da autarquia.

A França de hoje em dia

por Amato, em 28.04.17

Compreender a vontade dos povos é um exercício que exige uma boa dose de honestidade, mais do que qualquer outra coisa.

 

Todos os analistas dizem que os franceses estão muito desiludidos com o governo do invertebrado Hollande e, por isso penalizaram o PS francês. Têm razão em estar desiludidos. Têm razão para penalizar o PS francês com uma humilhante derrota eleitoral. Hollande prometeu uma política “à esquerda” e tornou-se no lambe-botas primordial da Alemanha de Merkel, bem como o seu principal imediato na propaganda da austeridade por toda a Europa. Mas, então, perante o exposto, os franceses escolhem Macron?! Um ex-ministro da economia de... Hollande?! O mesmo indivíduo que fez campanha eleitoral pela liberalização do mercado laboral e da sociedade francesa?!

 

“Ah, Macron é independente e tal...”, antes de se dizer disparates olhe-se para a forma como Macron tem subido na carreira política e profissional, veja-se aí a sua independência política e não noutro lado qualquer.

 

A única explicação plausível para esta escolha — ainda mais grave quando verificamos que a segunda candidata foi a da extrema direita e não um candidato moderado ou de esquerda — é que os franceses penalizam o PS francês de Hollande por não ter sido suficientemente “à direita” na sua ação, por não ter sido suficientemente liberalizador da sociedade, por não ter sido mais nacionalista, por não ter vedado suficientemente a entrada de emigrantes, etc.

 

É importante que tenhamos plena consciência desta conclusão. Esqueça-se a França das revoluções e transformações sociais. Esqueça-se a França da Liberté, égalité, fraternité. A França de hoje em dia é muito diferente desses ideais mais ou menos intangíveis. A França de hoje em dia é maioritariamente de direita extrema, da falta de solidariedade, da desigualdade e, talvez — veremos —, da falta de liberdade também.

 

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O PCP e a cultura do miserabilismo político

por Amato, em 26.03.17

Acho que devemos ser exigentes na política, sobretudo nas áreas de que somos mais próximos. Percebo todos aqueles que assobiam para o ar e que preferem não apontar o dedo ao que é óbvio. Entendo bem. A política é uma batalha de ideais e as críticas devem-se reservar para os momentos de reflexão interna para não dar armas ao adversário. Tudo isto é verdade, mas tudo isto é inútil e contraproducente quando parece que se perde a razão ou o sentido das coisas. Repito: devemos ser ainda mais exigentes com o que nos é querido, precisamente porque para o que nos é querido queremos o melhor.

 

Há uns tempos, aquando da recondução de Jerónimo de Sousa no PCP, escrevi um artigo criticando a opção que, aos meus olhos, pareceu inconcebível. Volvidos alguns meses, todas as razões que fundamentaram a minha opinião permanecem intactas. O PCP escolheu reconduzir um secretário geral que se apresenta demasiadamente cansado e velho, que repete um discurso gasto, pejado de graçolas que já não têm graça nenhuma, uma presença infeliz e lastimável em todos os palcos que pisa, de onde se destaca negativamente o parlamento.

 

Malogradamente, esta lamentável condição do líder do PCP estende-se, quase que por contágio, a quase todos os parlamentares e políticos que representam o partido. Não sendo, muitos deles, demasiadamente velhos, a verdade é que o seu discurso parece ser escrito pela mesma pena, tamanha é a coleção de palavras comuns a todos eles. Não é isto de somenos, visto estarmos a falar da riquíssima língua de Camões, repleta de palavras sinónimas e de diferentes recursos estilísticos. Não obstante, desde os mais novos até aos mais velhos, parece que os papéis que leem são cópias de um mesmo original e o que dizem parece ter sido decorado numa espécie de ladainha de uma qualquer agregação religiosa. Novamente, entendo perfeitamente que alguma organização é necessária nestas matérias e que também é importante falar-se a uma só voz, mas isto... é demais. Todos os limites da decência intelectual são ultrapassados.

 

Enquanto que o Bloco de Esquerda, mesmo ali ao lado, exibe eloquentes vozes, discursos bem preparados e apelativos, parlamentares bem-apessoados, o PCP parece abdicar por completo dessa potencialidade fundamental no processo comunicacional. Ao fazê-lo de forma tão convicta, cria uma espécie de um culto do miserabilismo político, um culto do coitadinho. O PCP perde todos os debates? Não há problema, trata-se de um partido muito honesto, incapaz de passar a sua mensagem, mas honesto. As pessoas mudam de canal quando um comunista começa a falar? Não há problema, há de cair uma luz qualquer que as fará ouvir o que se tem para dizer.

 

Não interessa que o Bloco de Esquerda seja a conglomeração política mais incerta que existe em Portugal. Uma coisa não tem nada que ver com a outra. O Partido Comunista Português devia começar a olhar-se ao espelho e ver bem a figura que tem e a imagem que transmite.

 

Escrevo estas palavras motivado pelo conhecimento que tive de alguns dos candidatos do PCP a algumas das maiores autarquias da região do Porto. Ilda Figueiredo, por exemplo, é a candidata à Câmara Municipal do Porto. Ilda surge na mesma lógica da recondução de Jerónimo de Sousa: é uma figura histórica, de valor incomensurável para o PCP, mas com evidente falta de energia para tamanhas responsabilidades que o cargo exige. Mas por toda a região do grande Porto, os exemplos sucedem-se. Fosse esta situação o resultado da falta de quadros válidos e eu não estaria a escrever estas linhas. O problema é outro e é muito mais grave. É esta cultura de miserabilismo político, este fechamento interno, esta filosofia de seita religiosa, de organização piramidal, esta relação de pastor com as suas ovelhas.

 

Custa-me muito escrever estas palavras, mas acho que já chega de me tomarem por parvo, a mim e a tantos como eu, progressistas, marxistas, intelectuais altruístas sem qualquer interesse pessoal na política que não seja o de servir a comunidade.

 

Quando o PCP não faz do povo parvo, como por exemplo com Bernardino Soares em Loures, o povo responde afirmativamente. Quando o PCP começa a jogar o jogo do coitadinho, o povo responde de acordo, sempre. Esta parece ser uma lição difícil de aprender para o Partido Comunista Português.

A propósito de Trump: um ensaio sobre como o mundo muda de opinião... do dia para a noite

por Amato, em 08.11.16

https://saimg-a.akamaihd.net/saatchi/384677/art/3285361/2355248-RNLCPGPW-7.jpg

 

Donald Trump tem setenta anos de vida. Durante os últimos quarenta anos, pelo menos, foi uma estrela americana. Não me refiro à estrela no passeio da fama de Hollywood com o seu nome. Não, refiro-me à identificação que sempre existiu entre a sua pessoa e aquilo que a América é e aquilo que a América representa.

 

O arranha-céus de Donald Trump, chamado de Torre Trump, é considerado como um símbolo do sonho americano, um símbolo do estilo de vida americano, um símbolo do sucesso e um símbolo do capitalismo. Trump, o self made billionaire, que de self made não tinha nada, era entrevistado por todos — todos queriam descobrir o seu segredo para o sucesso — e pontificava em todos os programas de todos os canais.

 

Durante os últimos quarenta anos ninguém foi capaz de apontar o dedo a Donald Trump, nem àquilo que Donald Trump representa. Nem que era um depravado, nem que era um malcriado, nem que era um xenófobo ou racista, nem que não olhava a meios para atingir os seus fins, nem... nada.

 

Trump, o símbolo, era isso mesmo, como uma luz que encandeava a vista de quem quer que para ele dirigisse o olhar. Quase todos elogiavam a audácia do homem, o seu saber fazer, o seu saber mandar. Quase todos queriam seguir o seu exemplo. Quase todos queriam ser como ele. No “quase todos”, incluo a maioria dos americanos, dos emigrantes, dos integrantes de minorias étnicas ou sociais, uma boa parte da Europa, a direita, os capitalistas, os liberais.

 

A abjeção de programa de entretenimento que Trump criou, o reality show The Apprentice, bateu máximos de audiência ao longo das suas catorze temporadas. Também aqui, as pessoas adoravam Trump, rejubilando a cada “You're fired!”. Durante quarenta anos, “Trump” e “América” foram palavras sinónimas.

 

É interessante verificar como quase todos, os mesmos “quase todos” dos parágrafos pretéritos, parecem ter invertido a sua opinião relativamente ao homem, de tal modo que na maioria dos círculos mediáticos nem sequer há lugar a discussão. Devemos desconfiar sempre de todos aqueles que mudam de opinião do dia para a noite.

 

É nesta conjuntura que Trump aparece nestas eleições como o candidato antissistema. E é notável que alguém totalmente ligado ao sistema, alguém que é um claro produto do sistema, alguém que é um conservador puro, como Trump o é, tenha conseguido tal denominação.

 

Por mim, não consigo observar estas eleições americanas com o dramatismo que a comunicação social as está a vender. De acordo, se Trump vencer teremos um ser humano perigoso no “poder” americano, mas não mais perigoso do que a alternativa Hillary Clinton. Trump é simplesmente mais rude, mais verbal e menos hipócrita. Seguramente, não teremos menos guerra, menos expansionismo, menos condicionamento económico e político sobre os povos com Clinton do que com Trump. Quem advoga o contrário está rotundamente equivocado. Aliás, basta observar a total ausência de diferenças substantivas entre as políticas de Bush e Obama.

 

Por outro lado, só quem anda distraído é que acredita que o Presidente dos Estados Unidos da América manda alguma coisa sobre as grandes diretivas do país. Quem manda é quem sempre mandou. Quem manda são as corporações. Quem tem uma palavra a dizer é a burguesia.

 

Para mim, Trump é o que sempre foi, isto é, uma escória da humanidade, um produto deste sistema selvagem a que se chama de capitalismo. Discordo dele visceralmente. Mas o que me faz discordar dele sempre existiu. Os princípios e o caráter de Trump não nasceram ontem com a sua candidatura à Casa Branca. Por isso, esta mudança de opinião relativamente a Trump operada nas massas tem muito de falso, sobretudo quando a comparação é... Hillary Clinton, farinha feminina do mesmo saco político de Trump. Por ventura, para a maioria das pessoas, a política será uma mera questão de formalismo e não de substância.

 

De notar ainda o patético apelo ao voto feminino por parte de Hillary Clinton. Obama também o fez, por duas vezes, relativamente ao eleitorado afro-americano. A política americana está reduzida a esta fantochada. A este propósito, relembro as sábias palavras de Susan Sarandon: “Não voto com a minha vagina”.

Colégio eleitoral vs comité central

por Amato, em 06.11.16

A maioria das pessoas não sabe que o sistema de eleição do Presidente dos Estados Unidos da América não é um sistema de eleição direta. Com efeito, não é a maioria dos votos dos americanos que decide quem será o seu Presidente. O que os seus votos decidem é a composição de um colégio eleitoral constituído, em cada estado, por um número de cidadãos igual ao número de congressistas desse estado. São esses cidadãos, que compõem o colégio eleitoral e que são convenientemente designados por “eleitores”, que escolhem através do seu voto o Presidente e o vice-Presidente dos Estados Unidos da América. Tem sido sempre assim e assim também será na eleição do próximo dia 8.

 

Este facto não deixa de ser surpreendente.

 

Que os Estados Unidos manipulam a democracia a seu bel prazer, não é propriamente novidade. Que interpretam este e outros conceitos, dos quais se julgam guardiões, da forma que mais lhes convém, também não. Observe-se o que os Estados Unidos procuram impor ao mundo e as justificações que encontram para invadir e bombardear estados soberanos — ao mesmo tempo que aceitam as maiores atrocidades de estados considerados como aliados —, em contraponto com as liberdades que simultaneamente sonegam aos seus próprios cidadãos a propósito de supostas “ameaças terroristas”, por exemplo.

 

Em plena guerra fria, os regimes comunistas de leste eram ferozmente criticados — e com razão — pelos seus sistemas “democráticos enviesados” a que chamavam de “centralismo democrático”: o sistema de partido único elegia um comité central que, então, elegia a figura do Presidente. Em tese, qualquer cidadão podia pertencer ao partido e eleger indiretamente os membros do comité central. Todavia, tratava-se de um sistema limitado e fechado. No ocidente, trilhava-se já o caminho das democracias representativas abertas, percebia-se já a cândida perfeição das eleições diretas, e uma tal conceção de partido único com eleição indireta não podia ser considerada como nada mais que algo de natureza completamente descabida e inaceitável.

 

O que é surpreendente é exatamente isto, é esta dualidade de critérios, estas avaliações parciais. Os Estados Unidos da América têm formalmente um sistema político idêntico ao que criticavam no bloco soviético. Na América não existe um partido único, é verdade, mas os dois partidos com acesso objetivo ao poder são essencialmente idênticos do ponto de vista político, sendo patrocinados pelas mesmas empresas e pelos mesmos interesses económicos. O sistema de votação é idêntico: um sistema de eleição indireto em que se elege um colégio eleitoral, em vez de um comité central. Aqui, há mesmo uma agravante: é que, ao contrário da escolha de um comité central, perfeitamente transparente, em que quem elege sabe quem está a eleger, os critérios para a escolha do colégio eleitoral são diferentes de estado para estado, podendo não ter qualquer relação com o voto pretérito dos cidadãos. Em Nova Iorque, por exemplo, o estado escolhe para o colégio eleitoral quem entende ser um “cidadão de destaque” no seio da comunidade, sendo esta escolha altamente subjetiva e potencialmente controversa.

 

No fim de contas, o objetivo é o mesmo e é evidente: limitar a democracia e proteger o poder instalado do escrutínio popular. Ao mesmo tempo que o mundo mediático se entretém com eleições de fachada, o poder real que governa a América mantem-se, não sofre alterações, cristaliza-se. É realmente uma pena que, no meio de tanta discussão sem sentido entre Clinton e Trump, não se chame a atenção para aquilo que importa e tenhamos que encontrar a informação relevante quase que por acaso. Trata-se de mais uma evidência de como a comunicação social é parcial e funciona basicamente como uma cadeia de transmissão do poder para condicionar a formação de opinião das massas.

 

https://1.bp.blogspot.com/-LuTuIJGZOBU/V6ZpSyk8GAI/AAAAAAAABPw/MPjybI2oAYI_EchCz0J7lKkFv2WsvLTiwCLcB/s1600/006.JPG

 

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