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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

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Notas sobre o mundo do trabalho contemporâneo ­— networking

por Amato, em 09.03.18

Durante esta semana tive conhecimento do conteúdo de uma destas ações de formação que se fazem nas grandes empresas mundo fora. Sabem? Aquelas ações de formação que são mais ações de formatação de trabalhadores, lavagens cerebrais encapotadas, para que os trabalhadores não pensem e apenas repitam o que se considera aceitável que repitam.

 

Mas esta ação de formação de que tive conhecimento é muito diferente de tantas outras: é excecionalmente autêntica e genuína. Nesta ação de formação, fazia-se a resenha das características essenciais para se conseguir o emprego que se quer e para progredir no emprego que se tem. Dizia-se: 80% do sucesso depende de uma característica chamada de networking, que em português podemos traduzir como capacidade de sociabilização ou obtenção de conhecimentos; 15% do sucesso tem que ver com a atitude positiva e proativa; os remanescentes 5% ficam votados às reais capacidades e conhecimentos para a função. Não tenho absoluta certeza das percentagens exatas, mas os números são aproximadamente estes, acreditem.

 

Nada disto constitui verdadeira novidade. Todos nós sabemos como se conseguem empregos e como se progride na carreira, pelo menos em Portugal. Se eu disser que esta ação de formação teve lugar no estrangeiro e num país do norte da Europa, se calhar muitos dos meus leitores torcerão os seus respetivos narizes. Mas sinceramente, ganhem juízo! Para estes últimos deixo o seguinte conselho: deixem-se dessas tretas de que os do norte são honestos e os do sul são malandros; façam a mala e vão conhecer o mundo antes de repetir os disparates que ouvem.

 

O que nunca deixa de ser chocante é constatar que esta realidade é já tão indisfarçável que já nem decoro sobeja e que já nem vergonha há de a anunciar à boca cheia. O que devia de ser determinante para se conseguir um emprego, isto é, os conhecimentos, a capacidade, a competência, a cultura, é, afinal, praticamente desprezável em todo o processo. O que devia de ser vergonhoso e, portanto, desprezível, mais do que desprezável, isto é, os amiguismos, a graxisse, a corrupção, é, afinal, a característica fundamental para se ter sucesso nesta sociedade doente, enferma de desonestidade até ao tutano dos seus ossos.

 

Não deixa de ser curioso que tenha tido conhecimento destes dados na mesma semana em que se fez saber que Pedro Passos Coelho vai lecionar cursos de mestrado e de doutoramento no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Tal como no caso anterior, não constitui novidade na cena académica portuguesa. Podemos elencar rapidamente meia centena, pelo menos, de indivíduos que, como Passos Coelho, nada têm para partilhar sobre as suas carreiras, dos seus conhecimentos sobre a ciência ou a arte, nada que valha a pena a não ser, claro, as suas indeléveis capacidades enquanto oportunistas, mentirosos, desonestos, amorais e sem caráter e, todavia, assumem postos de relevo na academia portuguesa.

 

Nada disto é novidade. É apenas chocante. É chocante quando a face desta sociedade adúltera e putrefacta nos bate de frente e somos forçados a vê-la. E não podemos desviar o olhar.

“Toma este texto; lê-o em voz alta; diz-me o que compreendeste.”

por Amato, em 28.01.18

Sou da opinião que, em vez de se fazerem exames para seriar os alunos para o acesso ao ensino superior, deviam ser feitos exames para averiguar o que os alunos realmente sabem quando saem da escolaridade obrigatória. Deviam ser sujeitos a exercícios pragmáticos do género:

 

“Toma este texto; lê-o em voz alta; diz-me o que compreendeste.”

 

Com isto não tenho intenção em defender qualquer tese. Esqueçam qualquer controvérsia.

 

Há coisas para as quais não é necessário grandes ciências. Basta observar, ter olhos na cara e cabeça para pensar. No dia-a-dia, na prática quotidiana, as observações empíricas e o bom senso ganham de goleada a qualquer ciência e a qualquer pseudociência. Estas últimas escudam a sua incapacidade e inépcia gritantes em números mais ou menos manipulados e em interpretações estatísticas grosseiras e enviesadas. Nós não precisamos desses números, nem de qualquer estatística. Temos olhos na cara. Temos cabeça para pensar.

 

“Toma este texto; lê-o em voz alta; diz-me o que compreendeste.”

 

“Não sabes? Não consegues ler duas palavras seguidas sem titubear as sílabas, sem engasgar nessa palavra que nunca viste numa sms?”

 

“E diz-me, o que compreendeste? Sim, o que retiraste disso que te dei? Não sabes? Ah...”

 

“Tens 18 anos já, ou vais fazê-los antes que o ano acabe, e não sabes ler, nem sabes compreender um texto. Quer dizer: sabes gaguejar as letras, és proficiente na escrita de mensagens de texto e a comentar no facebook ou no twitter. Mas não sabes compreender um parágrafo de texto simples, escrito em português simples. Não é um poema de António Nobre. É uma prosa simples. Proficiente! Quer dizer: hábil ou capaz! Já consegues perceber com estas palavras? São mais fáceis de entender? Também não sabes quem é António Nobre? Pois não. Desculpa, foi erro meu pensar o contrário.”

 

“Sabes que já podes ou que poderás votar em breve? E que poderás escolher o governo e as políticas deste país? Sabes que o teu voto valerá tanto quanto o meu? E, todavia, não sabes ler este texto que te dei... Pelo menos já sabes o que significa a palavra proficiente. Eu sei, eu sei... Eu sei que a política é uma seca e não queres saber dela para nada. A questão é que a política é feita de pessoas como tu que se servem de pessoas como tu, que não sabem ler, nem conhecem António Nobre ou o significado da palavra proficiente, apesar de terem doze anos de escolaridade, ou mais...”

Transmissão de valores

por Amato, em 17.09.17

Hoje tomei conhecimento de que Fernando Medina, a maior esperança política do PS, é filho de Edgar Correia e de Helena Medina, dois destacadíssimos comunistas e intelectuais do final do século XX.

 

Não deixa nunca de me espantar como é possível que dois comunistas sejam capazes de educar um não comunista.

 

Bem entendido, é certo que o filho pensará pela sua própria cabeça e também é certo que deterá o seu próprio património genético. Neste particular, é possível que “ser comunista” esteja codificado num gene recessivo. Também há a possibilidade — ainda mais provável devido à clandestinidade e cárcere dos pais em tempos de ditadura — de que o filho tenha sido educado pela ama e não pelos progenitores como seria devido. Tudo é especulação neste ponto.

 

A questão é que ser comunista é uma questão de princípio, é uma questão moral mesmo. Ser comunista é ver o mundo de forma diametralmente diferente e é algo que, uma vez adquirido, faz parte do ser. É indissociável. Nunca me deixa de espantar, por conseguinte, quando vejo que tal tarefa de transmissão de valores tão singulares, digamos, de pais para filhos falha tão redondamente. E é aquela sensação recorrente de se ver alguém que podia ser melhor do que o que é não ser mais do que o que é comum, do que é vulgar, no contexto do pensamento dominante. Para Fernando Medina ser aquilo que é do ponto de vista dos valores, bem que podia ser filho de outro casal qualquer, não precisava de ser filho de Edgar Correia e de Helena Medina. É um sentimento de desperdício.

 

Depois continuei a ler sobre o resto da vida de Medina, o casamento e os sogros. Aqui a história começou a tornar-se mais interessante, porque é sempre tão interessante conhecer os passos e os degraus que levam, um após outro, os poderosos ao poder. Os requintes do processo assemelham-se aos requintes com que uma aranha tece a sua teia e aguarda pelo momento oportuno para colher os seus frutos. Não privarei, todavia, os meus leitores do gozo de descobrirem esta parte da história por eles próprios. A história está aí, na rede. É só pesquisar.

A Caixa está a morrer e ninguém quer saber disso

por Amato, em 25.08.17

O que está a acontecer à Caixa Geral de Depósitos é assustador mas também é revelador de uma assustadora fragilidade dos alicerces que sustentam a nossa sociedade.

 

Outrora o banco mais sólido e mais confiável do país, com uma credibilidade incrementada pelo estado que somos todos nós, a Caixa está a ser desmantelada peça por peça e no final deste mesmo ano civil já não restará nada a fazer sobre o caso.

 

Sobre este assunto escrevi no início deste mês um artigo algo inflamado que pouco ou nenhum eco teve.

 

A Caixa está a morrer, matam-na com plena consciência, e ninguém quer saber. Por ventura a Caixa teria para mim um significado que para os outros não tem ou nunca teve. Mas independentemente de sentimentalismos que, objetivamente, não têm lugar nesta economia de mercado de bestas selvagens, a morte da Caixa é o estado a dizer categoricamente e de uma vez por todas que a economia do país está entregue nas mãos da alta finança burguesa. Não é que informalmente isso já não fosse assim, mas agora não é mais informal, é formal mesmo, de papel passado e assinado por todos.

 

A Caixa está a morrer e ninguém quer saber disso. Espanta-me, em particular, o conjunto dos funcionários da Caixa e os seus movimentos sindicais. Vivendo o seu dia-a-dia sob o cutelo do encerramento dos seus postos de trabalho, da mobilidade e do despedimento, vendo claramente o que se está a passar in loco e melhor do que ninguém, todos eles com graus universitários em economia e finanças, encontram-se perfeitamente paralisados de movimentos. Todos eles percebem bem o que se está a passar. Alguns ensaiam justificações mais ou menos patéticas quando se lhes dirige alguma pergunta. Outros encolhem os ombros. Quando a Caixa fechar fechará para todos, independentemente das patetices das justificações. O tempo de agir foi ontem e é agora. Se calhar ainda vão a tempo.

 

Mas não me parece.

 

O que me parece é que só ensinam imbecilidades e patetices nestas faculdades de economia e finanças. E ensinam este pensamento único deste capitalismo obsoleto que apenas serve a concentração da riqueza e a exploração dos povos.

 

A Caixa está a morrer mas antes de darmos plenamente por isso ainda vamos conviver com ela em modo de cadáver por alguns anos. O cadáver da Caixa vai continuar, minimal, com número reduzido de balcões, a atender os reformados e os pensionistas pobres aos quais não são cobradas taxas de manutenção de conta. Depois, mesmo esses, tal como os outros, serão também corridos da Caixa e far-se-á o enterro do cadáver.

 

Custa-me muito descrever por palavras isto que a direita — da qual o governo é ator principal — está a fazer à Caixa. Custa-me muito que ninguém queira saber disto, nem povo, nem Partido Comunista Português, nem Bloco de Esquerda, nem sindicatos, nem ninguém. Todos assistem à morte da Caixa e ninguém diz nada, ninguém faz nada. Que tenham a dignidade de não verter uma única lágrima hipócrita quando a Caixa morrer.

 

PCP e Bloco apoiam o governo e, por inerência, o que o governo faz. Não há meio termo. Assumam-se! E, já agora, poupem o país às inúteis comissões de inquérito parlamentares do costume e à procura de bodes expiatórios para o assunto quando o assunto estiver concluído. Paulo Macedo está a matar a Caixa agora tal como o governo lhe pediu. É tirá-lo de lá agora enquanto é tempo. Amanhã será tarde. Preocupem-se com isto em vez desta ou daquela migalha no IRS na negociação do orçamento de estado. Preocupem-se não em garantir migalhas mas em obrigar o governo a não governar à direita em tudo o que realmente interessa.

Não há Páscoa que nos valha

por Amato, em 14.04.17

Há uns anos largos, quando as agressões dos Estados Unidos da América sobre o Iraque e Afeganistão já se prolongavam no tempo, mas ainda antes do início da invasão da Líbia — deve ter sido na viragem da primeira década deste milénio, creio —, conversava eu com dois altos quadros do país sobre temas vários e caí no erro de tocar neste assunto, na questão da política externa norte americana.

 

O primeiro, um médico destacado, disse-me isto que reproduzo textualmente: “Os americanos deviam lançar bombas em todas as zonas muçulmanas e terraplanar aquilo tudo”. E acrescentou: “Só assim se resolvia o problema”. A segunda, uma promissora cientista investigadora na área da microbiologia, concordou de forma efervescente com o seu par e acrescentou, de olhinhos brilhantes a espreitar por detrás de umas lentes grossas, uma outra imbecilidade qualquer da qual, com sinceridade, não me recordo. Como é óbvio, não prossegui com o tema.

 

Reparem que não estou a falar de duas pessoas quaisquer, não estou a falar de duas pessoas comuns, com pouca educação ou parca formação intelectual e cultural. À partida, tratavam-se de duas personalidades de relevo, com condições para maturar uma opinião equilibrada, contextualizada e com bom-senso. Mas não, notei com admiração: a opinião deste médico e desta cientista eram iguais à de tantos outros. Não precisavam eles, o médico e a cientista, de terem tido tanta formação, de se terem dedicado tanto aos estudos, para, com efeito, emitir uma tal opinião. Essa mesma opinião encontra-se em qualquer tasca ou café, em qualquer estádio de futebol, em qualquer canto mais esquecido e menos iluminado pela cultura neste país.

 

Mais não seria preciso para colocar a nu a evidência de que estas questões puramente políticas, a forma como vemos o nosso semelhante, a forma como encaramos os conflitos das sociedades e dos povos, pouco ou nada têm que ver com a educação do indivíduo. Nascem connosco. São parte de nós, como uma força que se manifesta no momento certo, quando devemos tomar partido. Acreditem, isto é mais genético do que de outra natureza.

 

Recordo-me muitas vezes desta história chocante. Lembrei-me hoje, particularmente, a propósito do lançamento da já famosa bomba americana sobre o Afeganistão, uma bomba capaz de destruir uma zona com um diâmetro de 1,4 km. Espanto-me por assistir às reações do mundo ocidental, o “mundo católico e cristão”, o “mundo da paz”. É vê-los a descrever em detalhe, regalados, as 8,4 toneladas de explosivos que compõem o engenho, o seu alcance e a sua profundidade. Pergunto-me: «Onde estão as reações de choque e de reprovação? Onde vivem as memórias de Hiroshima e Nagasaki?».

 

Mas o meu espanto é uma reação automática, não muito justificada, devo admitir. O mundo está repleto de gente como o médico e a cientista de que falava no princípio. Eles acham que isto resolve-se desta forma, lembram-se? Tivessem eles o poder, a motivação e a coragem, e seriam simetrias perfeitas dos mais abjetos terroristas que possamos encontrar do outro lado do mundo e que hoje abominamos em uníssono.

 

É uma época triste para a humanidade. Para alguns de nós, não há cordeiro expiatório, nem um qualquer homem na cruz, não há Páscoa, nem outro ritual diverso que nos possa valer. Estamos condenados, pela nossa própria natureza, a uma existência de mesquinhez, de desconfiança e de inimizade.

O caráter que é construído com base em desculpas

por Amato, em 10.04.17

O que considero mais relevante em todo este vergonhoso caso dos “estudantes” — vamos colocar aspas nesta palavra, a bem da correção linguística — expulsos de Espanha em viagem de finalistas e que acho importante sublinhar é a cada vez maior ausência de responsabilização quer do sentido dos próprios quer da exigência de terceiros, dos mais próximos, pelos atos cometidos.

 

A juventude de hoje em dia aprende cedo a dizer coisas como “não fui eu”, ou “foi ele” ou ainda “não sou o único a fazer isto”. Quase todos têm estas frases debaixo da língua. Com elas aprenderam a subir os degraus da vida sem assumirem uma responsabilidade que seja e com os pais a desculparem-nos e a defenderem-nos perante os outros. É todo um caráter construído assim, desculpa após desculpa, na família, na escola e na vida.

 

Há aqui um exercício de paternidade que é medíocre, mal formado, sem estrutura, sem regras e sem fronteiras. Já aflorei esta temática por mais que uma vez neste blog. Mas neste tipo de paternidade contemporânea que será motivada por um desejo bacoco de superproteção das crianças, e que se estende até à idade adulta rompendo todos os limites do ridículo, também existe uma ideia subjacente da nossa posição perante os outros, perante a comunidade. Esta ideia, que é muito própria do sistema capitalista, sugere que tudo vale para vingar, que os fins justificam os meios e que é lícita toda e qualquer ação que permita o lucro máximo seja em que contexto for. Isto implica, naturalmente, uma ausência de consciência de que nos devemos responsabilizar pelos nossos atos e, mais, se outro vier a assumir a culpa por nós, tanto melhor.

 

Este é o quadro de valores com que formatamos as gerações que se avizinham. Não é de estranhar que apareça tanta gente a desculpá-los. Os atos de vandalismo ocorreram efetivamente. Todavia, há que desculpar os meninos. Desconfio que o Hotel ainda vai ter que os indemnizar. Observemos com atenção as cenas dos próximos capítulos deste vergonhoso caso.

Quando o roto fala do janota

por Amato, em 26.02.17

Este último vómito de João Miguel Tavares é precioso.

 

Não sendo eu o maior fã do Dr. Francisco Louçã, reconheço como necessário que se diga isto: como é que alguém que é um verdadeiro incapaz, sem nenhuma qualidade particular que não seja o expelir de comentários imbecis, semana após semana, sem nenhum vestígio de carreira e de mérito ou até de formação académica que o sustente, se atreve a apontar o dedo a Francisco Louçã, um dos mais destacados e brilhantes parlamentares das últimas décadas e alguém com uma carreira na área económica académica absolutamente invejável?

 

Note-se bem: não estou a defender que a nomeação de Francisco Louçã para o Banco de Portugal não possa ser posta em causa. O que eu acho é que há um limite para a falta de decência no debate. E também acho que há matérias em que uma certa ideia de moralidade devia coibir certas pessoas em emitir opinião. Em Portugal, todavia, parece que quanto mais razões temos para nos abster, mais tendência temos para não o fazermos e para sermos mais deselegantes e ruidosos no processo.

 

Em circunstâncias deste género, é costume fazer-se uso daquele dito popular, o roto está a falar do esfarrapado, mas neste caso tão pouco se aplica. O roto está mesmo a falar do janota.

 

Mas leiam o artigo todo, não tomem as minhas palavras como definitivas: são dois minutos preciosos para se poder penetrar no mundo demente de João Miguel Tavares.

 

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