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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

A ditadura perfeita, segundo Huxley

por Amato, em 02.05.16

Aldous Huxley

 

A ditadura perfeita terá a aparência da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão.

 — Aldous Huxley

O tempo dos “pais do regime”

por Amato, em 19.11.15

Olhando de passagem para a realidade, como se por entre ela, por entre os seus sinuosos caminhos, viajássemos a bordo de uma carruagem de um comboio temporal, diríamos que estamos a passar por paisagens repetidas. Olhando pela janela da carruagem, o que vemos não é novo, já foi visto antes do dobrar do século, ou seja, há cerca de cinco horas atrás.

http://www.drawingsomeone.com/wp-content/uploads/2015/05/Train-Pencil-Drawing-4.jpg

 

Vemos um tempo funesto, um tempo de “senhores engravatados e de aparência muito séria” a debitarem o que o povo deve pensar, enquanto trabalha, e repetir, enquanto toma um café ou uma cerveja na tasca que o acolhe depois da labuta. O tempo dos “pais do regime” já devia ter sido enterrado. Devia ter ficado para trás sobejando na memória apenas em quantidade suficiente para não ser esquecido e não ser repetido no futuro. O tempo que calcorreamos hoje, hoje mesmo, agora!, devia ser o tempo da cultura, do conhecimento, da consciência ativa, do povo. Este tempo, este que se seguiu a todas as conturbações sociais, a todas as revoluções, a todas as emancipações, a todas as conquistas, devia ser o tempo em que o povo todo, desde o mais humilde ao mais letrado, tomasse em mãos as ferramentas que lhe foram concedidas pela instrução da democracia e lhe desse boa utilidade na consciencialização e intelectualização das problemáticas que o envolve e, ativamente, tomasse decisão oportuna no seu interesse coletivo.

 

Todavia, a realidade choca com o ideal com uma crueza violenta. O povo que temos, a geração saída da instrução da democracia, prefere o “conhecimento” injetado pela televisão, ao conhecimento dos livros e das escolas, voltando-se para estas últimas e dizendo enormidades como: “eu odeio Matemática” e “não preciso disto para nada”. Esta geração, devemos reconhecê-lo, não é muito melhor do que a dos seus pais e a dos seus avós. Em alguns casos podemos até observar uma certa inversão geracional. No fim de contas, permanecemos como o rebanho de ovelhas, que sempre fomos, à procura de um pastor para seguir.

 

É natural, portanto, que esta geração de povo se constitua como o mais propício solo para o germinar dos tais “senhores engravatados e de aparência muito séria” de que falava acima. É tristemente irónico verificar que a democracia não conseguiu libertar o povo da sua apetência natural por líderes autocráticos e mais: o cidadão médio rejeita resolutamente (e bem) conceitos como ditadura mas aceita-os placidamente desde que enfeitados com outros nomes.

 

Os tempos que se vivem na Europa não auguram nada de muito virtuoso. O tratamento que é feito dos acontecimentos que se sucedem é, em geral, medíocre e parcial e contribui para um estado de alma dos povos propenso aos regimes mais retrógrados e reacionários. Verifica-se que, sejam quais forem as circunstâncias, a comunicação social também não se consegue libertar dos seus pastores. Dela não emerge um grito que seja. Pelo contrário, os jornais, as televisões, as agências de comunicação, recitam a mesma ladainha, a mesma homilia de condicionamento do pensamento. Em Portugal a situação não é distinta. Todos os sinais descritos são bem percetíveis. Também sentimos uma usurpação clara de poderes e tentativas de bloqueio de ação entre os órgãos do poder. A tudo isto assistimos serenamente. Veremos qual a próxima estação onde o nosso comboio temporal parará.

Serviços mínimos

por Amato, em 20.05.15

Justamente no seguimento do post publicado no dia de ontem, fiquei a saber que o nosso governo aprontou mais uma das suas malfeitorias. Agindo descaradamente contra a lei vigente, emitiu um despacho governamental decretando serviços mínimos aos trabalhadores da Petrogal/GALP Energia que haviam anunciado uma greve.

 

A ilegalidade desta ação não é discutível por ser demasiadamente grosseira. Nesse sentido, já foram iniciados os procedimentos legais para levar o governo a responder pela sua ação. Note-se que o despacho em causa não apenas viola a Constituição como afronta a autoridade dos tribunais, únicos responsáveis pela definição de serviços mínimos em situação de preparação de greve.

 

Não obstante, o governo consegue o seu intento: intimidou os trabalhadores com serviços máximos disfarçados de mínimos. Veremos se em Portugal o crime vai compensar.

 

O conceito de serviços mínimos é frequentemente utilizado de forma completamente idiota. Com efeito, os serviços mínimos dizem respeito a necessidades sociais impreteríveis e apenas a estas. Transportes em situação de emergência, questões de segurança e afins. Não há muito mais do que isto que alguém com um mínimo de decência intelectual possa incluir no pacote. Todavia torna-se claro que quanto mais lata for a interpretação do que são necessidades sociais impreteríveis mais restrito se torna o direito à greve.

 

Não causa qualquer tipo de espanto, contudo, que este tipo de interpretações abusivas da lei emirja de certos protagonistas da vida política nacional, nomeadamente de alguns que descendem em linha direta de altas figuras do antigo regime. O espírito do fascismo está no meio de nós...

Regresso aos tempos da ditadura

por Amato, em 19.05.15

Desenhos da prisão - Álvaro Cunhal

 

A ditadura está a chegar em galope veloz à sociedade em que vivemos e hoje, à hora em que escrevo, manifesta-se densamente no meio de nós, naquilo que fazemos, na forma como pensamos.

 

É errado identificar a ditadura com um ditador. O ditador é apenas um fantoche de um poder sem rosto. A ditadura deve ser identificada com um estado de espírito geral, um estado de espírito que é inveja e falta de solidariedade. É esse estado de espírito, e não outra coisa qualquer, que permite que as políticas repressivas e exploradoras do Homem se possam manifestar. E como se têm manifestado!

 

A ditadura vê-se numa comunicação social monocórdica e hipnotizante, não plural, “fazedora de opinião”, da sua opinião, da opinião do dono.

 

A ditadura vê-se numa tentativa de esvaziamento argumentativo da política, onde se força a ideia da inexistência de diferentes posições, de diferentes lados da mesma questão, ao mesmo tempo que se diabolizam os poucos que os têm, excluindo-os do debate. Tudo é feito porque sim. Tudo é inevitável. Só existe um caminho e esse é o caminho bom.

 

A ditadura vê-se na falta de solidariedade e na inveja do cidadão em geral para com o seu semelhante. Não existe, com efeito, uma ideia de semelhança entre cidadãos semelhantes, pois o forte espírito de competição que os assola torna-se como uma pala negra disposta sobre a fronte. Não existe, portanto, uma visão de conjunto que se traduza, no fundo, em ver nos problemas dos outros os nossos próprios problemas. É a ideia de que os nossos problemas são sempre mais especiais do que os dos outros ou, por outra, de que nós merecemos melhor mas os outros não.

 

A ditadura vê-se em tudo isto e vê-se em muito mais. Vê-se numa aceitação acéfala de uma hegemonia da economia sobre tudo o resto, sem se saber o que é propriamente isso de economia. Uma aceitação do que o patrão, o padre ou o comentador, diz sem um qualquer questionamento. A ditadura é uma subordinação total a poderes externos por uma simples questão de fé.

 

A ditadura vê-se numa existência simples e medíocre, numa existência de manutenção de poderes. Trabalhamos porque a isso somos obrigados, porque é necessário produzir e fabricar lucros que nunca vemos, porque é necessário encher os bolsos de alguém. E devemos trabalhar cada vez mais, mais tempo e por menos dinheiro. Sem parar. E todas as estruturas da sociedade concorrem para esta manutenção de poderes: o fisco, a polícia, a lei...

 

O cidadão médio passa toda a sua vida sem se questionar sobre a sua condição. Acha-a natural. É promotor ativo da mesma. E os seus filhos e os filhos dos seus filhos continuam a rotina, esta rotina de não pensar. Eternamente.

 

A ditadura vê-se até mesmo nos velhos símbolos que retornam: no fado, no futebol. Em fátima.

 

A ditadura está a chegar em galope veloz. Vem a cavalo de uma égua branca chamada de democracia. Quando chegar, ninguém dará por ela.

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Amato

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