Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Sobre a desonestidade intelectual que, como um espesso nevoeiro, envolve a sociedade

por Amato, em 02.06.16

Palavra de honra que não entendo esta sociedade! E que a não aceito e que a não reconheço e que a não suporto!

 

Um partido que teve responsabilidades governamentais repartidas nos últimos quatro anos, que inclusivamente teve a seu cargo a pasta da segurança social e do trabalho, entre outras, vem agora com pacotes de medidas para proteger os idosos e para promover o envelhecimento ativo, isto depois de, há menos de dois meses, ter apresentado também um conjunto de medidas para promover a natalidade. Refiro-me ao CDS, como é óbvio.

 

Não há vergonha na cara — simplesmente não há!

 

Em simultâneo, volvidos seis meses de governação deste governo, o CDS apresentou-se contra toda e qualquer medida de reposição salarial ou de alívio da austeridade. Para o CDS a natalidade é uma questão de humor, de incentivo motivacional, não de dinheiro. Por ventura, é como a sua visão económica: não interessa se o governo anterior quintuplicou a dívida, o que interessa é a confiança dos mercados! Do mesmo modo, não interessa o poder económico das famílias, o que interessa é a sua confiança para procriar e para parir.

 

Quanto aos idosos — é interessante verificar, neste ponto, que o partido dos idosos está de volta depois de lhes ter cortado as reformas — a questão é muito parecida. Neste particular, o CDS persiste em empurrar o problema social para um problema conflitual geracional, colocando o ónus da questão nos “filhos que não tratam bem os pais”. Estes, no entender do CDS, deviam ser privados de receber as heranças a que têm direito, caso o idoso fosse mal tratado em algum sentido. Esta visão da problemática é tão decadente, tão desumana, tão intelectualmente reles, que me vou abster de prosseguir na sua desconstrução, quedando-me no sublinhar do seu caráter absolutamente bizarro.

 

Mas o CDS é exatamente isto. É um partido que, enquanto oposição, alimenta-se dos medos e das revoltas mais primárias que afligem as populações. Não é por acaso que o CDS se diz da democracia cristã. Os seus porta-vozes fazem uso daquelas mesmas cartilhas retrógradas que os padres mais antigos usavam para assustar as populações. É a “extrema esquerda”, são “os comunistas” que “vos vão ao bolso”, quando — a realidade demonstra-o tão bem! — são eles próprios que vão ao bolso do povo para o entregar de mão beijada à banca e à burguesia em geral.

 

Mas a discussão particular é de todo em todo inútil. O CDS não apresentou pacotes de medidas: apresentou pacotes de fogo-de-artifício e foguetes. Se não é assim, então porque razão o seu ministro Mota Soares — o ministro que inicialmente ia de lambreta para o trabalho mas que depois passou a ir de Audi A7 — não tomou em tempo oportuno estas mesmas medidas?

 

Por que não?!

 

Para assinar protocolos e acordos à pressa no último ano de mandato com entidades privadas — incluindo os famigerados contratos de associação com os colégios, mas também todas as privatizações que se fizeram em cima do joelho — houve todo o tempo do mundo, mas pelos vistos, para a natalidade e para a velhice não sobrou tempo nenhum para se legislar.

 

Relativamente a esta situação de contrassenso, que é muito clara para a compreensão de todos, existe toda a cobertura dos jornais e da televisão. Nem há contraditório, nem ética profissional, nem formação especial na BBC ou noutro lado qualquer. Nem uma pergunta! Pelo contrário: Assunção Cristas passeia-se pelos meios de comunicação, concede entrevistas, faz a sua propaganda, com altivez, boa disposição e sentido de propriedade! Ela, afinal, parece que até tem quatro filhos e que cuida muito bem dos seus velhos e tudo! Fazer perguntas para quê?

 

Está na altura de alterarmos o dito popular: “à mulher de César não basta ser honesta, tem de parecer honesta” está perfeitamente ultrapassado. Devemos passar a dizer: “à mulher de César não é necessário que seja honesta, basta parecer honesta” — do ponto de vista intelectual, bem entendido.

 

É a comunicação social que temos e, inerentemente, é a democracia que temos!

Porque lhes convém que não ousemos imaginar

por Amato, em 01.06.16

Para todo aquele que possui alguma clarividência sobre o assunto ou alguma cultura histórica, a discussão em torno das palavras de José Rodrigues dos Santos não seriam, em momento algum, dignas de maior valorização do que, digamos, o ladrar irritado de um cão confinado à varanda de um apartamento ou do que a buzina persistente de um automóvel bloqueado no trânsito.

 

Dizer que o fascismo tem origem marxista é tão idiota, tão intelectualmente baixo, que não merece discussão. É procurar forçar conexões onde elas não existem para além do que é natural e do que ocorre, em boa verdade, entre qualquer par de conceitos humanos, sejam eles quais forem, sociais ou culturais. Porque este blog despreza o que é ignorante e o que é vestigial em bom-senso, passamos à frente, ignoramos o conteúdo da frase.

 

Mais grave do que o conteúdo da frase e que em boa verdade não é genuinamente novo — lembro que Miguel Sousa Tavares ensaiou uma tese análoga no seu medíocre segundo romance —, mais grave é a subliminar intenção que sustenta a frase. Essa intenção consiste em operar uma colagem do fascismo ao comunismo, quase como que por decalque, com intento claro de menorização do segundo, ao mesmo tempo que se procura limpar a memória histórica de íntima ligação, e de admiração dos métodos e do conceito, da burguesia e da igreja relativamente aos regimes fascistas onde quer que estes tenham medrado.

 

Comparar os regimes fascistas aos regimes comunistas é comparar o incomparável, é observar a realidade sob uma condição de miopia política aguda. Tal tentativa de comparação ganha fôlego apenas quando olhamos superficialmente para a natureza autoritária dos regimes. As similitudes, todavia, ficam-se apenas por aqui.

 

Comparar os regimes fascistas, regimes que oprimiam os seus povos, que os votavam às trevas da ignorância, à exploração burguesa declarada de um capitalismo de estado evidente — de uma burguesia que prosperava lado a lado com o poder, que era o poder verdadeiramente —, que mergulhavam as sociedades a um retrocesso generalizado em todas as áreas do saber e da cultura, com os regimes comunistas que, quer se queira, quer não, com maior ou menor sucesso, faziam precisamente o contrário, democratizando a educação, a cultura, o acesso à saúde, fazendo uma distribuição mais justa da riqueza produzida e dos recursos, só pode ser qualificado como desonesto e embusteiro.

 

O regime soviético, porque é este que se pretende atingir, não obstante os seus pecados que justamente devem ser apontados, pegou numa sociedade extremamente atrasada, quase que medieval — a sociedade russa czarista — e projetou-a para o topo do mundo em termos económicos, industriais e sociais, numa ascensão sem precedentes pelo curto espaço de tempo em que ocorreu — menos de meio século e tendo atravessado duas guerras mundiais!

 

A sociedade soviética foi pioneira em diversos domínios. Evidências disto mesmo podemos observar ainda hoje no nosso estado social europeu fortemente influenciado pelos ideais marxistas corporizadas a leste. Após a queda da União Soviética a esperança média de vida de um russo recuou quase vinte anos e apenas há poucos anos a Rússia contemporânea conseguiu recuperar essa esperança perdida.

 

Mesmo relativamente à natureza política do sistema, colar o fascismo ao comunismo soviético pelo facto de serem formalmente ditaduras é extraordinariamente redutor. No regime soviético ocorriam frequentemente eleições. Elegiam-se delegados e representantes que, por sua vez, elegiam os membros do comité central do partido único que, ultimamente, elegiam o líder. É verdade: não era uma democracia como a nossa e chamar-lhe democracia não deixa de ser forçado. Mas também não era uma monarquia absolutista. Teoricamente qualquer um poderia fazer parte do sistema eletivo. Aliás, por haver um certo grau de democracia no sistema soviético é que este foi capaz de ruir, isto é, foram capazes de penetrar no sistema e ascender ao topo gente cujo objetivo, revelou-se, era dinamitar a coisa.

 

Comparar regimes com objetivos e resultados tão distintos no que ao bem-estar da pessoa humana diz respeito é pouco profundo e pouco sério. É querer pintar tudo com as mesmas cores para esconder as diferenças relevantes entre eles. É por isso mesmo, no meu ponto de vista, que a sociedade alimenta a discussão sobre estas patetices sem pés nem cabeça. Interessa ofuscar a História. Interessa difamar e interessa impedir que se saiba. Interessa prevenir a todo o custo que se ouse imaginar que é possível um outro tipo de sociedade.

Ser “de esquerda”

por Amato, em 25.05.16

Hoje é um dia parlamentar particularmente importante pois discute-se a reposição das trinta e cinco horas de trabalho semanal na função pública, pelo menos. O PCP avançou, desde a primeira hora, com o alargamento desta redução do horário de trabalho a todos os trabalhadores, sejam eles abrangidos por contratação coletiva ou não e, ao que consta, terá o apoio do Bloco de Esquerda na pressão que está a ser exercida ao governo nesse sentido.

 

As trinta e cinco horas são uma excelente notícia. Traduzem, por si só e independentemente de quaisquer contrapartidas que poderão ser sorrateiramente concedidas ao patronato, uma mais justa distribuição da riqueza e são sinónimo de progresso social.

 

https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/736x/d7/e5/5d/d7e55da4ca6aae5a17cd6d58e1def6d6.jpg

 

Não é, todavia, uma medida de esquerda — não será a única — que fará deste governo um governo “de esquerda”. Ser um governo “de esquerda” é outra coisa. É, desde logo, tomar partido pelos trabalhadores, conhecer as suas angústias, envolver-se nas suas lutas e diferendos com o patronato. É fazer tudo isto de forma genuína. Porque o contrário está reservado para os governos “de direita”.

 

Ser “de esquerda” é interceder em favor dos estivadores, dos operários da Petrogal, e de tantos outros trabalhadores de tantas outras empresas que prolongam as suas justas lutas, que chegam até aos dias de hoje vindas desde o reinado do anterior governo, contra autênticas agressões e humilhações dos seus patrões contra os seus postos de trabalho, contra os seus direitos conquistados.

 

Este governo não só não intercede por eles, como — e isto é algo que simplesmente não passa na comunicação social — mantém exatamente a mesma conivência que o anterior executivo sustentava com o patronato, uma conivência corporizada em despachos ministeriais apontando serviços mínimos fora-da-lei, na canalização de ameaças subliminares de despedimentos coletivos, entre outros fretes lesa-Constituição concedidos à burguesia dominante, que permite ao patronato continuar a pisar a lei e a melhor coagir os seus trabalhadores a abdicarem dos seus direitos.

 

Visto deste prisma, este governo tem muito pouco “de esquerda”. O que tem, e o que permite criar a ilusão do contrário, são alguns compromissos que se vê forçado a cumprir por simples contingência parlamentar. Bendita coligação!

Os Papéis como sintoma

por Amato, em 07.04.16

Hoje fui à Autoridade para as Condições de Trabalho. Cheguei cedo, ainda era muito cedo, o sol ainda espreitava tímido no céu azul e os seus raios finos e tenros mal conseguiam perfurar as paredes de prédios cinzentos que ladeavam a avenida. Mas o meu conceito de cedo revelou-se desajustado com a realidade daquela sala de espera.

 

Encontrei uma vintena de pessoas que, como eu, esperavam, ansiosas por resolver os seus problemas laborais ou, no máximo, colher um feixe de esperança que, ainda que ténue, os guiasse para uma luz ao fundo do túnel.

 

Isto é o reflexo do estado do país, do estado lastimável da sociedade. Não são nem Panamá Papers nem outros mega processos jornalístico-judiciais que o mostram. O estado do país vê-se aqui. O resto é foguetório para entreter a malta.

 

A raiz dos problemas revela-se aqui, no ACT, onde cada sala de espera apinhada devia envergonhar cada governante sobre o estado do trabalho, sobre o desequilíbrio de forças que existe no nosso país e sobre as consequências nefastas que se multiplicam na distribuição da riqueza e na justiça social.

 

Nada disto é genuinamente surpreendente. Estas salas abarrotadas são o resultado de vários anos de políticas que forçaram o desequilíbrio de forças entre o patronato e o operariado, com vantagem evidente para o primeiro, ainda que com o obséquio ativo do segundo. E é precisamente aqui que radica tudo o resto, a acumulação obscena de riqueza e, consequentemente, casos como este que agora preenche todas as primeiras páginas, os Papéis do Panamá.

 

Os Papéis não são causa de nenhum problema, são apenas sintoma. Simplesmente é-nos conveniente pensar o contrário.

Os radicais entre nós

por Amato, em 15.03.16

Para mim, o CDS está para Portugal como os partidos radicais islâmicos estão para os países do Médio-Oriente e de África. As diferenças que se percebem são produto na justa medida do contexto social europeu e não mais do que isso. Fossem as circunstâncias outras e o CDS defenderia abertamente a proibição do uso do preservativo, do divórcio, do aborto e da eutanásia, entre outros. Ah... os últimos dois são mesmo verdade... E, precisamente pelo facto do momento atual se presentear oportuno, porque não inquirir sobre a visão histórica que este partido tem sobre os direitos das mulheres e sobre o seu papel na sociedade?

Virgínia Moura

por Amato, em 08.03.16

Virgínia Moura (1915-1998)

Não sei se por hoje ser o Dia Internacional da Mulher, mas lembrei-me de si. Lembro-me de estar a seu lado no banco de trás de um automóvel, já não sei se um fiat, se outro carro qualquer, numa viagem que se veio a revelar preciosa e, como tal, efémera. Acho que era outra marca, mas já não me recordo. Também não interessa. Mas recordo-me do seu sorriso. Adoro esta fotografia. Nela há o idealismo e o otimismo, a alegria e o crer. E há mais qualquer coisa, ainda. Há toda a esperança do mundo.

Serviços mínimos

por Amato, em 20.05.15

Justamente no seguimento do post publicado no dia de ontem, fiquei a saber que o nosso governo aprontou mais uma das suas malfeitorias. Agindo descaradamente contra a lei vigente, emitiu um despacho governamental decretando serviços mínimos aos trabalhadores da Petrogal/GALP Energia que haviam anunciado uma greve.

 

A ilegalidade desta ação não é discutível por ser demasiadamente grosseira. Nesse sentido, já foram iniciados os procedimentos legais para levar o governo a responder pela sua ação. Note-se que o despacho em causa não apenas viola a Constituição como afronta a autoridade dos tribunais, únicos responsáveis pela definição de serviços mínimos em situação de preparação de greve.

 

Não obstante, o governo consegue o seu intento: intimidou os trabalhadores com serviços máximos disfarçados de mínimos. Veremos se em Portugal o crime vai compensar.

 

O conceito de serviços mínimos é frequentemente utilizado de forma completamente idiota. Com efeito, os serviços mínimos dizem respeito a necessidades sociais impreteríveis e apenas a estas. Transportes em situação de emergência, questões de segurança e afins. Não há muito mais do que isto que alguém com um mínimo de decência intelectual possa incluir no pacote. Todavia torna-se claro que quanto mais lata for a interpretação do que são necessidades sociais impreteríveis mais restrito se torna o direito à greve.

 

Não causa qualquer tipo de espanto, contudo, que este tipo de interpretações abusivas da lei emirja de certos protagonistas da vida política nacional, nomeadamente de alguns que descendem em linha direta de altas figuras do antigo regime. O espírito do fascismo está no meio de nós...

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Amato

foto do autor

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D

Mensagens