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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

PS quintessencial

por Amato, em 13.07.17

Eu acho que notícias como esta que aparece nos jornais de hoje sobre as escandalosas benesses que este governo está a conceder à grande burguesia portuguesa é que deviam ser analisadas com cuidado.

 

Isto é o PS quintessencial: mais do que a promoção de um regime tributário desequilibrado entre trabalhadores e patrões a favor destes últimos, é o entregar de mão beijada da riqueza de todos nas mãos da burguesia. Vem-me à memória as parcerias público-privadas e os estágios gratuitos. Recordo-me também dos postos de trabalho precários pagos dos bolsos da enferma segurança-social aos grandes capitalistas deste país apenas com o objetivo de lhes engordar os seus já morbidamente obesos proveitos. Trata-se de inovação e de repetição da mesma repugnante fórmula.

 

Adicionalmente, todos percebem bem ou, pelo menos, desconfiavam de patranhas desta estirpe para sustentar os resultados económicos apresentados por este governo. Esta, pelo menos, já se conhece. Outras estarão, seguramente, para vir à tona.

 

A esquerda devia preocupar-se com isto e não com mais esta ou aquela migalha concedida a esta ou aqueloutra classe. As migalhas tanto se dão como se tiram, de um dia para o outro. O que fica para a posterioridade, a corroer o país por dentro como um cancro invasor, são políticas deste género. Este tipo de notícias é que devia de exigir de PCP e BE posições de força irredutíveis. Caso contrário, serão sempre considerados como coniventes parceiros inferiores destas mesmas políticas.

"Como não sou mulher, não me preocupa"

por Amato, em 26.04.17

entrevista que saiu hoje no Público a Rui Moreira é muito boa. Aliás, aproveito para saudar os jornalistas envolvidos, Manuel Carvalho e David Dinis, dois nomes que já critiquei neste blog, pela qualidade das perguntas endereçadas a Rui Moreira. Outras ficaram, seguramente, por fazer, mas algumas das que foram feitas foram de natureza absolutamente preciosa. Refiro-me particularmente à parte relativa ao escandaloso caso Selminho.

 

Por que afirmo isto? Porque tiveram o condão de desvendar a natureza do caráter de Rui Moreira para qualquer leitor minimamente atento. A entrevista merece ser lida com atenção para se poder perceber bem alguns dos meandros deste caso. Destaco, contudo, os seguintes trechos.

 

Público: Há três nomeados para esse Tribunal Arbitral. De um lado está a Câmara a que Rui Moreira preside, do outro lado está a empresa de que Rui Moreira é accionista e há um terceiro elemento estabelecido por comum acordo entre a Câmara a que Rui Moreira preside e a empresa da qual Rui Moreira é accionista. Não é, politicamente falando, uma formulação que o expõe a qualquer acordo que saia desse tribunal?

Rui Moreira: Não, como não intervenho no processo, não serei eu… (...)

 

Note-se como se fazem as vigarices neste país. Como é possível que se possa resolver um diferendo desta natureza desta forma?! Como pode um tribunal autorizar uma tal solução?! Como é possível que Rui Moreira não sinta um pingo vergonha ou embaraço por esta situação?!

 

Público: (...) Não receia que o princípio da mulher de César lhe dificulte a campanha?

Rui Moreira: Como não sou mulher, não me preocupa. (...)

 

A resposta continua, é certo, mas esta primeira frase atesta a arrogância do personagem. Como não é mulher, não o preocupa. Porque no seu entender o dito popular apenas é aplicável ao outro género.

 

Fico-me por aqui. O povo escolhe os seus representantes conforme bem entende. Normalmente, escolhe-os à sua imagem e semelhança. Não tenho dúvidas de que Rui Moreira vencerá as próximas autárquicas, facto que lamento profundamente por antecipação. É que não me sinto bem por saber que uma autarquia, ainda que não a minha, tenha um indivíduo desta estirpe de caráter na sua presidência.

 

O caso Selminho não é grave, porque o caso Selminho é evidente, não dá para esconder. Graves serão todos os outros casos tratados de modo semelhante, todos os casos de promiscuidade sórdida entre o poder local e os interesses económicos privados — de alguns já vamos ouvindo notas soltas aqui e ali —, casos de que teremos conhecimento, seguramente, quando Rui Moreira estiver já longe do Porto, talvez nalgum governo do país.

Uma pergunta sobre as offshores

por Amato, em 02.03.17

Será que se Passos Coelho e seus compinchas se tivessem calado um bocadinho com os fait divers sobre o Ministro das Finanças ter ou não ter mentido, estaríamos hoje a debater o caso dos dez mil milhões nas offshores?

 

A minha intuição diz-me que não.

 

Este assunto não tem interesse nenhum a não ser como uma bofetada na face dos apóstolos do antigo governo PSD-CDS e é usado apenas na justa medida de uma retaliação. Mais: nada de substantivo será produzido a partir desta questiúncula. Lembram-se? Não era esse o objetivo.

 

Retire-se, portanto, o dramatismo à coisa. Trata-se de jogatana política pura e dura. Os milhares de milhões não param nem pararão de fluir deste país, seja para o Panamá, seja para uma ilha qualquer do Pacífico. E sempre, sempre, com a benção sentida quer de PSD-CDS, quer de PS. Isto é o capitalismo no seu esplendor!

 

http://editorialcartoonists.com/cartoons/ZygliA/2016/ZygliA20160406A_low.jpg

 

Até fazer ferida

por Amato, em 22.01.17

Ontem dei-me conta de que o estado anda a pagar principescamente a um tal de Sérgio Monteiro — trinta mil euros brutos por mês — para que este venda o Novo Banco. É verdade: é esta a única missão de Sérgio Monteiro enquanto assalariado do governo português.

 

A produtividade de Sérgio Monteiro tem sido, todavia, miserável: em mais de um ano de atividade, catorze meses a auferir trinta mil euros, mais de quatrocentos mil euros depois — para ser mais preciso —, Sérgio Monteiro não só não logrou cumprir a sua única missão, como as propostas que angaria são cada vez mais insatisfatórias. Dizia José de Pina no Irritações, e com toda a argúcia, que pelo andar da carruagem Sérgio Monteiro poderá comprar a breve trecho, ele próprio, o Novo Banco com o dinheiro que o Estado lhe está a pagar. Irónico? Repugnante?

 

A este respeito, duas notas breves.

 

A primeira é, uma vez mais, a simbologia repulsiva da coisa. O Estado emprega e paga a uma figura de proa da austeridade e do executivo anterior, um indivíduo responsável pelo vilipendiar da coisa pública, do dar ao desbarato de empresas como a REN, a EDP, os CTT ou a TAP. Até parece, tal como no caso de Paulo Macedo, que não existe mais ninguém capaz de levar a cabo a tarefa. Mas não é verdade. A verdade é que este governo é farinha do mesmíssimo saco que o anterior. Deixemo-nos de coisas, portanto.

 

A segunda nota é a seguinte. As pessoas que tanto gostam de apregoar a equiparação do público ao privado, mesmo quando o que é público não tem termo de comparação no setor privado, deviam defender para Sérgio Monteiro um estatuto precisamente igual aos vendedores de imóveis do setor privado, como os da RE/MAX ou da ERA, que apenas ganham as comissões daquilo que vendem. Também aqui se vê a falta de coerência, particularmente dos setores mais à direita. Quando estão em questão trabalhadores comuns, a opinião é uma. Quando estão em causa gestores de topo, o referencial é outro. Neste último caso, a lei é chupar a teta estatal até fazer ferida.

 

http://www.transportesemrevista.com/Portals/6/Entrevistas/SET_sergioMonteiro/SERGIO-MONTEIRO-3.jpg

 

A maior crise de sempre do jornalismo

por Amato, em 15.01.17

Abri hoje o Público para dar de caras com um editorial, assinado pelo diretor do jornal, no qual se ensaia um muito pouco convincente contraponto àquela tese que tem vindo a ser veiculada de que o jornalismo viverá atualmente a sua maior crise de sempre. Pode parecer estranho chamar-se de tese a uma afirmação que aparenta não carecer de demonstração, mas mantem-se a terminologia por respeito a uma abordagem minimamente científica.

 

Se o jornalismo vive ou não a sua maior crise de sempre, não é realmente muito relevante. O que interessa mesmo é constatar que a maior parte do jornalismo atual é uma espécie de escória, uma amálgama de sujidade desprovida de princípios ou de caráter. Veja-se o sucesso que a página do Facebook Os Truques da Imprensa Portuguesa tem tido, denunciando a forma como as notícias são criadas, a parcialidade com que a realidade é descrita, clarificando, no fundo, o papel de lavagem cerebral ao qual a generalidade dos media se devota no seu dia-a-dia. Questionar se é pior agora do que há cinquenta anos, se agora fede mais a mediocridade intelectual do que antes, até pode constituir uma discussão interessante, mas não será, seguramente, a mais relevante das discussões.

 

É que a realidade é esta e é indesmentível. A realidade é que os jornalistas fazem o papel, mais ou menos voluntário, de escrever o que lhes é ditado superiormente e aquela ideia inocente do jornalismo enquanto sinónimo de informação não é mais que uma ilusão, uma quimera que nos é semeada no subconsciente desde tenra idade. E é aqui que é importante que se diga que o problema do jornalismo é justamente a existência de diretores de jornais, de diretores editoriais, de chefes de redação sem competência, sem currículo para ocuparem os lugares que ocupam e que só os ocupam por serem excelentes yes man's, excelentes vozes do dono. O parco currículo que detêm, construído precisamente do modo descrito, denuncia o seu papel em todo este processo que resulta neste tipo de jornalismo e no seu estado atual.

 

Poupem-nos, portanto, à habitual linha argumentativa dos Velhos do Restelo. Não cola.

 

http://brutalgamer.com/wp-content/uploads/2014/09/175862-header.jpg

 

Sobre a mediocridade à venda nos CTT

por Amato, em 19.07.16

Hoje aconteceu ver a minha rotina quebrada com uma visita a um posto dos correios. Fiquei deveras espantado: é incrível a mediocridade em forma de livro que lá é vendida. Há de tudo: romances de cordel, biografias patéticas e autobajulantes, manuais de autoajuda... escolha-se o que seja de melhor agrado.

 

https://silverbirchpress.files.wordpress.com/2013/08/mick-stevens-i-m-looking-for-a-book-by-t-what-s-his-face-boyle-new-yorker-cartoon.jpg

Assim, é fácil perceber como certos autores são tão bem sucedidos nas vendas: até nos CTT estão lá, arreganhados com a tag “sugestão da semana” em cima. Já não chegava os continentes e os pingo doces a colocá-los junto às promoções do dia, já não bastava que as livrarias comerciais também não tivessem um pouco de ética nas suas escolhas de montras e expositores, já não bastava, enfim, a fossa em que a qualidade literária média caiu na sociedade contemporânea. É assim que se constrói o unanimismo. É assim que se constroem os falsos ídolos no que à literatura diz respeito.

 

Estes autores — não interessa estar aqui a discriminar — são literalmente enfiados pela goela abaixo dos leitores menos avisados culturalmente, que, por não lhes ser dado a conhecer nada de melhor, confundem o que leem com qualquer coisa parecida com destreza artística. A História, porém, como crivo de mediocridade que é e que nunca deixará de ser, não deixará registo de um único exemplar daqueles que pontificam nas prateleiras dos CTT. É pena é que ninguém seja responsabilizado por isso.

Uma nota de rodapé sobre o “Jogo Duplo”

por Amato, em 17.05.16

É interessante notar que a Operação Jogo Duplo visa desmontar um esquema de viciação de resultados envolvendo apenas as equipas da segunda divisão de futebol portuguesa. Os montantes em causa deverão estar na ordem das centenas de euros, vá, que sejam milhares. Quanto à primeira divisão, ou primeira liga como se lhe quiser chamar, onde os montantes movimentados seriam sempre multiplicados por dez ou por cem, pelo menos, nem uma suspeita! É deveras interessante constatar este facto!

 

Parece que, para quem de direito, quanto mais dinheiro se movimenta, mais sérias são as pessoas! Qual mundo de fantasia em que vivemos... Por mim, desconfio que uma investigação séria e transversal, a ser feita, faria com que o caso Calciocaos, que abalou o futebol italiano há cerca de sete anos, fosse visto como uma brincadeira de crianças.

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