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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

A situação brasileira vista sob o contexto da histeria da direita

por Amato, em 18.03.16

O Brasil vive um momento difícil mas que não lhe é particular. Aquilo que o Brasil vive é o mesmo que vive a Venezuela e outros estados sul-americanos em escalas diferentes. Também é algo aparentado ao que se passa agora na Síria e que também se passou na Líbia. Sob um certo ponto de vista, também encontramos semelhanças com o processo recente de formação do governo português. Chama-se terrorismo político, perpetrado pelas forças reacionárias e conservadoras.

 

A resposta que a direita capitalista encontra para fazer face a derrotas eleitorais-democráticas é a histeria sob pretextos artificialmente criados e amplificados pelos meios de comunicação social a soldo do poder económico. Não há qualquer tipo de dúvida de que membros do PT estarão envolvidos em processos de corrupção, mas casos piores verificam-se com os membros da oposição, nomeadamente com o PSDB, cujos membros se encontram enterrados até ao pescoço em cada um dos casos que vieram a público. O caso “mensalão” é, para mim, bastante paradigmático, porque todos tinham conhecimento das malas de dinheiro que serviam para comprar congressistas, mas o mundo apenas acordou para a situação e ficou chocado quando o PT fez uso do mesmo esquema. Adicionalmente, as forças de direita unem-se e compram apoios em toda a parte, juntando-se ao sistema de justiça para levar a cabo golpes de estado.

 

A direita, as forças conservadoras e retrógradas protetoras dos interesses dos poderosos, daqueles 5% que detêm 95% da riqueza do mundo, está histérica e cheia de medo. A direita está histérica não por estar a perder particular influência no mundo, mas porque não se pode dar ao luxo de perder qualquer tipo de influência no mundo contemporâneo que lhe escorrega por entre as mãos a olhos vistos. A ascensão da China e da Índia concorrem para uma diminuição substancial da área de exploração potencial do diretório de potências capitalistas ocidental e atribuem a mercados como o sul-americano uma condição de imprescindível para a sua sobrevivência.

 

A razão de ser da crise brasileira é esta. O contexto para a crise brasileira é este. Não é a corrupção, nem a crise económica. É este.

Falta de contexto

por Amato, em 16.03.15

Há um par de anos visitei pela primeira vez o Brasil, mais concretamente a Cidade Maravilhosa: o Rio de Janeiro. Lembro-me de me encontrar bastante receoso antes de partir.

 

A palavra Brasil é sinónimo de muitos estados de espírito belíssimos, mas para mim também era sinónimo de crime fácil e de violência barata, daquela que advém da necessidade e da fome. Essa ideia preconcebida estava muito impregnada em mim, decalcada pelas notícias recorrentes que nos chegavam durante anos do outro lado do Atlântico. Assim sendo, não arrumei nenhuma roupa com qualquer tipo de marca visível. Não levei comigo câmara fotográfica ou outros equipamentos. Tentei ir como o mais disfarçado turista que poderia ser.

 

Devo dizer que passei umas extraordinárias férias a trabalho. O povo foi simpaticíssimo. Caminhei livremente por todas as ruas, as avenidas principais e as mais escondidas, de dia e de noite. Havia uma forte presença policial, incluindo militar, mas noutros tempos, nem essa mesma presença dissuadiria o pequeno furto ou o crime de circunstância.

 

A verdade é que a melhor medida contra o crime não é a repressão policial, é o aumento salarial. São as melhores condições de vida para a população. A europa ensinou-nos isso no pós-guerra. O Brasil ensina-nos isso hoje. O povo que encontrei estava a viver melhor. Tinha dinheiro para gastar. Havia mais emprego, melhores salários e mais tempo para os gastar. Havia investimento industrial e cultural. Fui encontrar um Brasil que já não era aquele país socialmente miserável, mas antes um país a trilhar um caminho próprio de crescimento económico, social e cultural.

 

Infelizmente, pois trata-se de uma inevitabilidade pelo caráter finito do capital, quando uns ganham mais um pouco, outros deixam de engordar tanto com os seus lucros e o problema que existe hoje no Brasil é exatamente esse: uma luta de classes à moda antiga. Tudo o resto é um mero pretexto.

 

Termino com duas breves notas.

 

Em primeiro lugar, é fundamental sublinhar a atitude vergonhosa da comunicação social em Portugal. Independentemente das posições de cada um, é inadmissível que não se tenha destacado, na passada sexta-feira, a manifestação de apoio ao governo brasileiro para, volvidos dois dias, dar o maior enfoque na manifestação contra o mesmo governo. Quando se fala em liberdade na comunicação social devemos olhar para estes exemplos para sabermos do que estamos a falar, pois parece que a liberdade para certas pessoas é apenas para eles, é apenas a defesa da sua opinião sendo a noção de imparcialidade uma mera decoração linguística.

 

Em segundo lugar, destacar o simbolismo grotesco da manifestação anti-governamental. É que, mais do que anti-governamental, aquela manifestação foi anti-democracia, visto opor-se a um governo democraticamente sufragado há não tanto tempo quanto isso e, portanto, opor-se ao processo democrático em si próprio, pretendendo derrubar nas ruas um governo popularmente legitimado sem que, objetivamente, nada tenha sucedido que o justifique. Suásticas à parte, com gritados apelos à ditadura militar pelo meio, algumas forças anti-esquerda mostram bem do que são feitas, mostram claramente quais são os seus conceitos de democracia e de liberdade, quais são os seus modelos de país. Serve esta aberração de exemplo ao nosso próprio país, pois por aqui também não faltam saudosistas da velha senhora, do energúmeno casal Salazar-Cerejeira a entoar cantigas de embalar ao povo.

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Amato

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