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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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Apriorismo de opinião

por Amato, em 11.02.16

No que à formação de opinião diz respeito, confesso-me apriorista. Nem racionalista, nem empirista: apriorista.

 

Ainda antes de observar o problema ou diferendo em detalhe, muito antes de conhecer os factos que o rodeiam, a pessoa humana contém dentro de si a sua resposta que não é mais do que o resultado de um posicionamento político a priori. É verdade que essa resposta pode sofrer alterações com a experiência e com a influência do meio, todavia cabe a algo que reside no lugar mais íntimo e reservado do indivíduo a primazia no momento da formação de opinião. Nada é tão marcante ou duradouro quanto a bagagem sentimental, não racional, de que o indivíduo é dotado no momento da sua conceção.

 

E é por esta acurada razão que toda a transformação social, política ou, simplesmente antropológica, é tão morosa, tão árdua, em que cada passo lançado em diante parece preceder dois passos dados à retaguarda. Por vezes, parece que cada revolução resulta da indução massiva de um certo estado de ebriedade, findo o qual as massas rejeitam o processo e retomam o estado de equilíbrio anterior, aquele que mais vai de encontro ao seu posicionamento político apriorístico.

 

Por feliz e virtuoso acaso, entre uma e outra revolução permanecem resquícios, como que sementes revolucionárias, que se agarram ao solo e ganham raízes e a Humanidade assim evolui, lentamente, semente a semente, entre cada descuido da sua própria essência.

Evidência da semana

por Amato, em 20.12.15

Há um aspecto do comportamento dos portugueses que muito me desagrada. (...) Trata-se da tendência para ser subserviente face ao poder, ter muito respeitinho face aos poderosos, nalguns casos ter medo, e, depois de estes caírem do seu pedestal, ir lá a correr atirar a enésima pedra.

— José Pacheco Pereira, in Público, 19/12/2015

 

Todas as generalizações são injustas. Todas as generalizações são incorretas. Não olhemos para a citação acima como uma generalização, portanto. Salvaguardemos sempre o caso particular do caso geral. Antes, olhemos para a citação apresentada como um padrão comportamental obtido através de um processo de abstração, porque é exatamente isso mesmo que é: um padrão comportamental. E se existe alguma coisa de errado ou de impreciso no que foi escrito, é apenas a palavra “portugueses”. Não devia estar escrito “portugueses”, mas sim, “pessoas” ou, quanto muito, “pessoas do mundo ocidental”. E esta correção devia ser feita em razão da natureza superlativa deste padrão extraído especificamente da sociedade portuguesa, já que se estende por decalque a sensivelmente todas as pessoas das sociedades que se regem pela lei da selva a que chamamos de capitalismo. Podíamos ir, com efeito, mais longe ainda, já que relatos de comportamentos similares surgem plasmados em textos mais antigos, nomeadamente na Bíblia. Podíamos, mas não é preciso. José Pacheco Pereira escreveu-o a propósito do tratamento social dado a José Sócrates e tem toda a razão. Fez bem em destacar esta evidência comportamental que apenas nos desclassifica no plano intelectual e, mais importante, humano. Agora, para um domingo de manhã, creio que já chega de discorrer sobre o que é evidente.

A alma de um povo

por Amato, em 04.11.14

No meio de tudo isto, de toda a tempestade que se ergueu e permanece ainda mais forte do que nunca, apesar do vendaval de mentiras semeado pelos dirigentes e erguido pelos meios de comunicação, apesar de tudo, o que para mim é importante é a evidência cabal de que uma grande parte do país perdeu uma boa parte da sua alma, daquilo que nos define não apenas como portugueses, mas como povo soberano e orgulhoso. Não restam dúvidas acerca disto.

 

A questão da dívida é paradigmática. Perante evidências claras sobre uma influência externa direta e determinante, o povo escolheu a oratória bacoca e provinciana da auto-culpabilização corporizada no atual governo, bem como no principal partido da oposição. O povo escolhe acreditar que é o culpado da situação e aceita a auto-punição ditada pela austeridade dita “necessária”. O povo admite a sua desonestidade, confirma que viveu muito acima das suas possibilidades e entrega-se voluntariamente às autoridades justiceiras estrangeiras, muito sérias e honestas. Isto é uma questão muito importante pois não encontra paralelo em mais nenhum povo do mundo que se encontrou, em algum momento da sua história, numa situação semelhante.

 

A atitude de Portugal durante estes anos passados valer-lhe-á, com efeito, a entrada para os anais de história antropológica mas inevitavelmente ver-se-á retratado como o povo que um dia deixou de o ser sem um único conflito, o disparo de uma qualquer bala ou a efervescência de uma qualquer revolução. Deixou de o ser, simplesmente, democraticamente.

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