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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Proposta de reflexão em tempos de veraneio

por Amato, em 29.07.18

Todos os anos, em Portugal, durante os meses de julho e agosto, sobretudo agosto, assistimos a uma sazonal migração das populações para sul do país. As massas deslocam-se para sul para se dedicarem exclusivamente ao veraneio no tempo ameno e nas águas quentes da região do Algarve. Durante estes meses, as estradas que rasgam o país de ponta a ponta, polvilham-se de automóveis coloridos. O asfalto, em algumas zonas, quase não se vê devido ao elevado tráfego.

 

De uma ponta a outra do país e, muito particularmente, nas zonas a sul mais secas e em sério risco de desertificação dos solos, o caminho faz-se ladeado por florestas de eucaliptos sem fim. Nas zonas ardidas do último ano crescem já fortes os jovens rebentos dessa espécie de árvore.

 

O eucalipto é uma das espécies mais nocivas para o nosso território, porque drena os solos de toda a água, promovendo a desertificação dos terrenos e condenando espécies endémicas. Para além disso, é uma espécie curiosa que se propaga mais rapidamente através do fogo. É dramático ver o nosso país, sobretudo mais a sul, completamente contaminado por esta árvore parasita.

                

Há uma razão para isto, é claro que há. O eucalipto cresce a uma velocidade incomparavelmente superior a qualquer outra espécie arbórea. Por isso, trata-se da espécie de eleição das empresas de pasta de papel que laboram em Portugal e que fazem da madeira a sua matéria prima. Por seu turno, os nossos governos, que apenas existem para servir o grande capital e em nada se preocupam com a sustentabilidade dos recursos do país, promovem com toda a força esta situação. Durante o governo PSD-CDS, Assunção Cristas liderou a aprovação de legislação para dar carta branca ao negócio do eucalipto. Já este governo PS, nada fez, como aliás é costume nas questões realmente importantes, para reverter a situação.

 

Desejo, por isso, umas boas férias a todos os que farão, por estes dias, as suas viagens rumo a sul. Observem bem as florestas de eucaliptos que, de ambos os lados, vos fazem guarda até ao vosso destino. Tomem nota, porque é exatamente aí que radica o problema dos fogos florestais, da desertificação dos solos, e da escassez de água doce. Lembrem-se disso quando começarem as periódicas histerias coletivas, promovidas pelos meios de informação, a propósito de cada um destes temas.

 

Retirado de jornaldascaldas.com

 

O estado da arte em 2018

por Amato, em 15.07.18

Hoje de manhã, ainda mal tinha acordado, dei por mim a percorrer a entrevista do Público ao novo diretor do Museu de Serralves, João Ribas. Foi curiosidade pura para colmatar a minha falta de conhecimento do personagem, mas também para desvendar um pouco, aspirava, do véu da direção artística do museu de arte contemporânea, o que, para a maioria de nós, é sempre de difícil acessibilidade.

 

Não cheguei ao fim da dita entrevista, confesso. Não tive estômago para continuar. Fiquei a saber que, para as entrevistadoras, Inês Nadais e Isabel Salema, as prementes questões sobre o museu, a sua oferta e a sua direção artística, são, por esta ordem, o facto do museu não ter na sua agenda a exibição de obras da Joana Vasconcelos; o facto de não existir paridade na promoção de artistas homens e artistas mulheres em Serralves; e o facto de haver pouca representatividade de corpos negros ou figuras negras.

 

Para mim, é cada vez mais difícil digerir esta realidade em que tudo é reduzido a números perfeitamente artificiais, em que tudo é avaliado por um sistema de quotas que pouca ou nenhuma relação com a realidade tem. Cada vez mais, ao que parece, perde-se o valor intrínseco das coisas. Na arte, em particular, que devia ser o espaço máximo de liberdade, as obras são sujeitas a um escrutínio a montante que nada tem a ver com o seu valor enquanto obra, enquanto objeto artístico.

 

Há tantas obras de mulheres quanto as de homens? As raças estão representadas equitativamente? A obra não é sexualmente ou religiosamente ofensiva, de algum modo? Já agora, o Cristiano Ronaldo está representado no museu? E a obra, é da Joana Vasconcelos?

 

Mas em que é que isto é relevante em termos artísticos? Em quê?!

 

Em nada.

 

Novamente, trata-se da manifestação de um politicamente correto mesquinho e profundamente ignorante que parece invadir todos os domínios da atividade humana. Mas não se enganem: este politicamente correto é parcial, é controlador dos conteúdos, inquina o pensamento e a reflexão das sociedades. É feroz opositor da liberdade. Este politicamente correto é detergente eficaz de lavagem cerebral.

 

É isto que temos. Quem diria que as sociedades ocidentais, apregoadas baluartes da democracia e da liberdade, se revelassem tão eficientemente castradoras da arte e das suas manifestações.

"Um comunista deve ser um santo, um não comunista pode ser o que quiser"

por Amato, em 11.07.18

Estava a pensar escrever umas linhas sobre este anedótico assunto do deputado comunista António Filipe ter sido fotografado na sala de espera de um hospital privado lisboeta. Mas estava a custar-me apontar o óbvio: uma parte do nosso povo tem tanta falta de caráter e de ideias coerentes dentro da cabeça que até dói. Felizmente descobri este artigo excelente de Pedro Tadeu sobre o assunto. Obrigado ao autor por me poupar ao aborrecimento da tarefa.

 

Alguns excertos que me parecem preciosos:

 

  • “Esta inferência, se for aceite como verdadeira, leva, dedutivamente, a outras conclusões: um comunista pode lutar toda a vida pelo que acha ser melhor para a sociedade, por melhores salários para os trabalhadores, por mais direitos para os desprotegidos, por serviços de saúde gratuitos e bons para todos. No entanto, o comunista, para respeitar os seus princípios políticos, só pode ter um salário decente, usufruir de direitos básicos ou, simplesmente, escolher o que é melhor para si quando toda a sociedade poder beneficiar dos resultados da sua luta - até lá, em solidariedade para com os mais desfavorecidos, o comunista não pode usufruir do que a sociedade tem disponível...”

 

  • “Com tanta fome no mundo, imagino que um comunista a comer bife da vazia já seja, para esta moral distorcida, um pecado mortal.”

 

  • “Um comunista, pelos princípios desta teoria, é, portanto, um mártir e se não se portar na sua vida privada como um mártir, é um hipócrita.”

 

  • “Claro que ninguém pergunta se um defensor da privatização da saúde deve ir a um hospital público, se um defensor dos PPR privados pode receber pensões do Estado ou se quem quer destruir o ensino público pode meter os filhos nas melhores universidades do país (que, não por acaso e muito graças aos comunistas, são as públicas).”

 

Mais poderia ser acrescentado, claro, mas é desnecessário. Há, todavia, esta ideia recorrente sistematicamente veiculada no mundo capitalista desde os primeiros tempos da propaganda anticomunista da guerra fria: a um comunista deve-se exigir tudo — princípios, moral, prática, coerência, até mesmo santidade —, ao passo que a um não comunista não se tem que exigir rigorosamente nada. “Um comunista deve ser um santo, um não comunista pode ser o que quiser”. As redes sociais só acrescentam esta valência inquestionável: magnificam a estupidez humana, mostram-nos o que temos de mais medíocre.

Os afetos não são neutros

por Amato, em 05.07.18

No próximo dia 9 de julho cumprir-se-ão dois anos e quatro meses da presidência dos afetos de Marcelo Rebelo de Sousa, mas parece não ter sido tempo bastante para o povo entender bem o alcance da coisa. Isto dos afetos, dos beijinhos óbvios e dos abraços fáceis, tem o condão de entreter as massas e traz consigo, dentro de cada abraço, aquela ideia da política apartidária, acima de qualquer disputa e controvérsia, da política da razão e da verdade que toda a gente considera, mas ninguém o admite frontalmente, ser só uma. Que belos animais democráticos que nós somos! A política dos afetos é, bem entendido, a expressão máxima do populismo mais vil, porque é a política do é e não é, quando, de facto, é.

 

Veja-se bem o que se passa hoje. O Marcelo dos afetos, dos beijos e dos abraços, não tem um minuto da sua agenda sem fim para falar com os professores deste país que estão em greve há um mês. Marcelo, que se diz professor, não demonstra um pingo de preocupação, ou simplesmente empatia, pelos problemas da classe à qual tem sempre tanto orgulho em dizer que pertence.

 

Mas o mesmo se tem passado em cada greve deste país, dos têxteis, dos transportes, do setor da saúde ou da energia. Marcelo, que se vai desmultiplicando em viagens, em aparições e comentários públicos a tudo o que acontece, por mais despropositado que seja — incluindo os jogos da seleção de futebol —, em selfies parolas, abraços e beijinhos superficiais, nunca, até ao momento, teve um ato de genuína preocupação para com os problemas e angústias dos trabalhadores deste país, dos verdadeiros responsáveis por se diminuir os défices e por se aumentar as exportações ou outros índices económicos.

 

Por ventura, um mandato inteiro não será suficiente, nem dois, nem três, se acaso existisse a possibilidade, para que o povo compreenda isto: os afetos não são neutros. Têm cor. Assumem posição. E essa posição é a do poder económico burguês. Os beijinhos e os abraços, esses, servem apenas para embalar as massas, condenadas a uma condição de servidão sem fim à vista.

Acabou-se o novo ópio do povo... por agora!

por Amato, em 30.06.18

Eh pá... Portugal foi eliminado!

 

Como vai ser agora?

 

O que vai comentar o senhor Presidente da República e o senhor Primeiro-ministro?

 

Acabou-se o novo ópio do povo!

 

Pois é... vai ser um problema! Agora o pessoal vai começar a reparar no preço da gasolina! Está quase a um euro e setenta! E outras coisas, talvez... Portugal foi eliminado!

 

Acabou-se a distração! Que tristeza...

Um ano após a tragédia dos incêndios

por Amato, em 18.06.18

Sensivelmente um ano após a tragédia dos incêndios no nosso país, governo e Presidente da República desdobraram-se em ações evocativas, inaugurações de monumentos, discursos emotivos e, claro, aquela distribuição abundante de “afetos” que parece ter vindo para ficar.

 

https://www.noticiasmagazine.pt/files/2018/02/GI14092017RUIOLIVEIRA000003-960x566_c.jpg

 

Passou um ano dos sessenta e quatro mortos de Pedrógão Grande. Ali mesmo, nas encostas negras já crescem a passo acelerado os jovens rebentos de eucalipto plantados indiscriminadamente. A espécie mais nociva para as terras, drenando-as até à última gota de água, desertificando os solos, a espécie mais inflamável que, aliás, se propaga mais rapidamente pelo fogo, espalha-se já que nem uma praga. Representantes governativos defendem a opção. Dizem que é a única espécie cuja plantação dá lucro. É esta a lógica do país: o lucro.

 

A pretexto do lucro, sublinhe-se que a madeira queimada foi bem vendida e deu um bom negócio; os meios aéreos, de eficácia duvidosa e não comprovada, viram os seus contratos de aluguer revistos bem como as suas margens de lucro ampliadas. Neste contexto, as medidas que o estado propôs para resolver o problema não são mais que anedóticas, como não poderiam deixar de ser.

 

Não existe estado, sobretudo no interior abandonado do país. Não existe estado, ponto. Aquilo que existe, a que chamamos estado, é uma estrutura mal organizada, mas altamente burocrática, dirigida para os fins mais errados e mesmo moralmente discutíveis. O estado, sejamos sérios, não serve para fazer rigorosamente nada que não seja a cobrança de multas ou coimas a quem não tem meios para as poder contestar ou delas fugir.

 

Mas não adianta prolongar muito mais este texto. A realidade está aí, à vista de todos. Cresce pelas encostas queimadas de Pedrógão e de modo igual por todo o país. Aqueles que estiveram por detrás dos fogos florestais, dos de 2017 e dos outros, fizeram o seu lucro e continuam por aí, de cabeça erguida, passeando-se pelas mais altas esferas sociais. O resto é conversa, abraços e beijinhos.

Eles dizem descentralização. Eu ouço condenação.

por Amato, em 22.04.18

Em meados do novo milénio iniciou-se um processo célere no nosso país que se consumou numa alteração de estatuto das universidades públicas. Artificialmente constituídas como fundações, as universidades cortaram, mais ou menos conscientemente, com maior ou menor lucidez dos seus reitores, o seu cordão umbilical com o estado que suportava o seu normal funcionamento desde sempre. As dotações diminuíram quase que instantaneamente e as instituições de ensino superior passaram a ter que sobreviver num estado de constante penúria e, sem fundos para sequer suportar a sua própria limpeza, a recorrer ao aumento exponencial de propinas e a outros subterfúgios no limiar da própria lei para garantir serviços e quadros docentes cada vez mais precários.

 

O meu ponto neste artigo não é o reavivar de páginas da história como mero exercício de domingo de manhã. O meu ponto é abordar de uma forma meramente racional esta história da descentralização que o governo PS de mãos dadas com o PSD nos anda a vender ad nauseam ao longo das últimas semanas.

 

É que a história que contava da transformação das universidades públicas em fundações que ocorreu nos primeiros anos de dois mil, não nos foi apresentada inicialmente da forma como eu a descrevi. Não. Surpreendentemente, ou talvez não, o processo foi-nos vendido como uma forma, não de diminuir o financiamento público do ensino superior como se veio a verificar, mas como uma forma de tornar as universidades mais autónomas, mais independentes, capazes de obterem outras e mais formas de financiamento próprio. Esse foi o conto de fadas que os governos da altura nos apresentaram. Já não sei se a palavra descentralização terá sido usada nessa altura, no contexto académico, mas se não foi, bem que poderia ter sido. O conceito de descentralização dos governos burgueses é sempre este: descartar responsabilidades; diminuir o financiamento.

 

Cerca de quinze anos depois, o que está na base deste propalado processo de descentralização que nos tem sido vendido é exatamente isto: o governo central desfaz-se de competências que são suas e que são essenciais às populações e entrega-as às autarquias. Fá-lo com a maior das boas vontades, com uma promessa de autonomização na boca. Mas nós já sabemos o que vai acontecer (lembram-se das universidades?): numa primeira fase, dotará as autarquias das verbas indispensáveis para que estas possam ser capazes de fazer face às suas novas responsabilidades; numa segunda fase, tão breve quanto possível, iniciará uma drástica diminuição das dotações necessárias; finalmente, as autarquias, incapazes de sustentar as suas novas responsabilidades, entregarão, por necessidade ou mesmo por convicção ideológica dos seus líderes de ocasião, essas responsabilidades, esses serviços democráticos, à exploração privada e aos desvarios do lucro empresarial; no final, de um modo ou de outro, ao povo, não restará nada. Se, então, o povo quiser educação, saúde ou transportes, que pague!

 

Os meus leitores que me desculpem, mas isto não é descentralização, nem aqui nem na China, independentemente da perspetiva que se tenha, seja deitado, seja a fazer-se o pino. Descentralização é pegar nos ministérios e nas secretarias de estado e sedia-las no interior e no litoral desabitado. Descentralização é não fechar escolas, centros de saúde, tribunais e correios. Descentralização é levar a cultura a todos os cantos do país e não se contentar apenas com os teatros da capital e com o Centro Cultural de Belém. Descentralização é isto e é muito mais: é, precisamente, o contrário do que todos os governos democráticos têm feito neste país.

 

Pelo contrário, o acordo entre governo e PSD não é mais que a história a repetir-se. É a mais pura baixeza política e sordidez de caráter. Eles dizem descentralização. Eu ouço condenação. Condenação dos serviços públicos, do país e da democracia. Ou do que resta dela.

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