Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Acabou-se o novo ópio do povo... por agora!

por Amato, em 30.06.18

Eh pá... Portugal foi eliminado!

 

Como vai ser agora?

 

O que vai comentar o senhor Presidente da República e o senhor Primeiro-ministro?

 

Acabou-se o novo ópio do povo!

 

Pois é... vai ser um problema! Agora o pessoal vai começar a reparar no preço da gasolina! Está quase a um euro e setenta! E outras coisas, talvez... Portugal foi eliminado!

 

Acabou-se a distração! Que tristeza...

Um ano após a tragédia dos incêndios

por Amato, em 18.06.18

Sensivelmente um ano após a tragédia dos incêndios no nosso país, governo e Presidente da República desdobraram-se em ações evocativas, inaugurações de monumentos, discursos emotivos e, claro, aquela distribuição abundante de “afetos” que parece ter vindo para ficar.

 

https://www.noticiasmagazine.pt/files/2018/02/GI14092017RUIOLIVEIRA000003-960x566_c.jpg

 

Passou um ano dos sessenta e quatro mortos de Pedrógão Grande. Ali mesmo, nas encostas negras já crescem a passo acelerado os jovens rebentos de eucalipto plantados indiscriminadamente. A espécie mais nociva para as terras, drenando-as até à última gota de água, desertificando os solos, a espécie mais inflamável que, aliás, se propaga mais rapidamente pelo fogo, espalha-se já que nem uma praga. Representantes governativos defendem a opção. Dizem que é a única espécie cuja plantação dá lucro. É esta a lógica do país: o lucro.

 

A pretexto do lucro, sublinhe-se que a madeira queimada foi bem vendida e deu um bom negócio; os meios aéreos, de eficácia duvidosa e não comprovada, viram os seus contratos de aluguer revistos bem como as suas margens de lucro ampliadas. Neste contexto, as medidas que o estado propôs para resolver o problema não são mais que anedóticas, como não poderiam deixar de ser.

 

Não existe estado, sobretudo no interior abandonado do país. Não existe estado, ponto. Aquilo que existe, a que chamamos estado, é uma estrutura mal organizada, mas altamente burocrática, dirigida para os fins mais errados e mesmo moralmente discutíveis. O estado, sejamos sérios, não serve para fazer rigorosamente nada que não seja a cobrança de multas ou coimas a quem não tem meios para as poder contestar ou delas fugir.

 

Mas não adianta prolongar muito mais este texto. A realidade está aí, à vista de todos. Cresce pelas encostas queimadas de Pedrógão e de modo igual por todo o país. Aqueles que estiveram por detrás dos fogos florestais, dos de 2017 e dos outros, fizeram o seu lucro e continuam por aí, de cabeça erguida, passeando-se pelas mais altas esferas sociais. O resto é conversa, abraços e beijinhos.

Eles dizem descentralização. Eu ouço condenação.

por Amato, em 22.04.18

Em meados do novo milénio iniciou-se um processo célere no nosso país que se consumou numa alteração de estatuto das universidades públicas. Artificialmente constituídas como fundações, as universidades cortaram, mais ou menos conscientemente, com maior ou menor lucidez dos seus reitores, o seu cordão umbilical com o estado que suportava o seu normal funcionamento desde sempre. As dotações diminuíram quase que instantaneamente e as instituições de ensino superior passaram a ter que sobreviver num estado de constante penúria e, sem fundos para sequer suportar a sua própria limpeza, a recorrer ao aumento exponencial de propinas e a outros subterfúgios no limiar da própria lei para garantir serviços e quadros docentes cada vez mais precários.

 

O meu ponto neste artigo não é o reavivar de páginas da história como mero exercício de domingo de manhã. O meu ponto é abordar de uma forma meramente racional esta história da descentralização que o governo PS de mãos dadas com o PSD nos anda a vender ad nauseam ao longo das últimas semanas.

 

É que a história que contava da transformação das universidades públicas em fundações que ocorreu nos primeiros anos de dois mil, não nos foi apresentada inicialmente da forma como eu a descrevi. Não. Surpreendentemente, ou talvez não, o processo foi-nos vendido como uma forma, não de diminuir o financiamento público do ensino superior como se veio a verificar, mas como uma forma de tornar as universidades mais autónomas, mais independentes, capazes de obterem outras e mais formas de financiamento próprio. Esse foi o conto de fadas que os governos da altura nos apresentaram. Já não sei se a palavra descentralização terá sido usada nessa altura, no contexto académico, mas se não foi, bem que poderia ter sido. O conceito de descentralização dos governos burgueses é sempre este: descartar responsabilidades; diminuir o financiamento.

 

Cerca de quinze anos depois, o que está na base deste propalado processo de descentralização que nos tem sido vendido é exatamente isto: o governo central desfaz-se de competências que são suas e que são essenciais às populações e entrega-as às autarquias. Fá-lo com a maior das boas vontades, com uma promessa de autonomização na boca. Mas nós já sabemos o que vai acontecer (lembram-se das universidades?): numa primeira fase, dotará as autarquias das verbas indispensáveis para que estas possam ser capazes de fazer face às suas novas responsabilidades; numa segunda fase, tão breve quanto possível, iniciará uma drástica diminuição das dotações necessárias; finalmente, as autarquias, incapazes de sustentar as suas novas responsabilidades, entregarão, por necessidade ou mesmo por convicção ideológica dos seus líderes de ocasião, essas responsabilidades, esses serviços democráticos, à exploração privada e aos desvarios do lucro empresarial; no final, de um modo ou de outro, ao povo, não restará nada. Se, então, o povo quiser educação, saúde ou transportes, que pague!

 

Os meus leitores que me desculpem, mas isto não é descentralização, nem aqui nem na China, independentemente da perspetiva que se tenha, seja deitado, seja a fazer-se o pino. Descentralização é pegar nos ministérios e nas secretarias de estado e sedia-las no interior e no litoral desabitado. Descentralização é não fechar escolas, centros de saúde, tribunais e correios. Descentralização é levar a cultura a todos os cantos do país e não se contentar apenas com os teatros da capital e com o Centro Cultural de Belém. Descentralização é isto e é muito mais: é, precisamente, o contrário do que todos os governos democráticos têm feito neste país.

 

Pelo contrário, o acordo entre governo e PSD não é mais que a história a repetir-se. É a mais pura baixeza política e sordidez de caráter. Eles dizem descentralização. Eu ouço condenação. Condenação dos serviços públicos, do país e da democracia. Ou do que resta dela.

Há mais receita fiscal, mas continuamos a pagar o mesmo

por Amato, em 20.04.18

Mais um dia e mais uma excelente marca batida pela economia portuguesa: pela primeira vez em dez anos, o número de desempregados ficou abaixo dos quatrocentos mil (393 335, nos dados do IEFP), confirmando uma tendência de descida que vem desde o final da legislatura anterior e que, em certa medida, se tem acentuado. Esta tendência segue à boleia de uma conjuntura internacional de crescimento e de consumo e, muito concretamente, do setor do turismo que se encontra em franca e descontrolada expansão no nosso país. Será, pois, no exato momento em que estes dois fatores se inverterem — e esse momento chegará, acreditem, a história assim nos conta que a economia é feita de ciclos — que, então, se verá a verdadeira robustez da nossa economia assim como o material de que é feita. Até que esse momento chegue, todavia, prossegue a procissão com os maiores e mais brilhantes fogos de artifício feitos de bazófia das mais diversas cores.

 

É óbvio que não interessa aqui averiguar a qualidade dos empregos criados. Não. Isso não é para aqui chamado e até pode ter o condão de estragar a festa. Precariedade é palavra que já começa a ficar gasta nos ouvidos da população para a qual a palavra é representante do seu presente e anunciadora do seu amanhã. Não. Não falemos disto.

 

Falemos de uma outra coisa. É que — dei comigo a pensar na coisa desta forma que ainda não me tinha ocorrido! — tanta gente a trabalhar, tanta gente que não trabalhava e que agora trabalha — só desde o ano passado são quase cem mil! — é muita gente nova a descontar e a pagar impostos! Impostos que não eram pagos e que correspondem a uma eliminação de prestações sociais que o estado não precisa mais de pagar. Já repararam nisso? O que se faz a esse dinheiro? O que se faz?

 

Quer dizer, continuamos todos na mesma, como estávamos, a pagar os mesmos impostos que pagávamos? Como é isto?

 

É que estas marcas económicas que se atingem e que, per si, são louváveis, têm que ter consequências na vida de todos nós. No mínimo, devíamos exigir que a carga fiscal, que penosamente suportamos, diminuísse visivelmente. No entanto, continua tudo como dantes. E parece que o mundo todo neste nosso Portugal está muito contente.

 

Há mais receita fiscal, mas continuamos a pagar o mesmo.

A inenarrável questão russa

por Amato, em 27.03.18

Por que razão é que o presidente russo havia de ordenar o homicídio de um duplo espião libertado por si próprio há sete anos e há sete anos a viver em solo britânico?

 

Será que subsistia algum segredo russo que, ao longo destes sete anos, este espião ainda não havia revelado aos serviços secretos britânicos?

 

E por que razão é que a Rússia havia de escolher como método um gás tóxico perigosíssimo — a mais pequena quantidade é capaz de exterminar vilas inteiras — para assassinar um só indivíduo e que podia ser associado a si própria?

 

Não me sabem dizer? Não interessa, pois não?

 

A questão é tão inenarrável, de tão absurda que é, que nem vale a pena prosseguir.

 

As sociedades estão convertidas nisto, nesta massa de distraídos e de alheados que comem tudo o que lhes é dado, por mais absurdo que seja. Somos uma massa, no fundo, de vulgares preconceituosos e ignorantes. Que assim seja: os russos é que são maus, são um perigo para a paz mundial! Os ocidentais são uns santos que nos protegem! Carreguem, jornais “de referência”. Carreguem, televisões e rádios. Carreguem, opinion makers! Lavagem cerebral da melhor!

Notas sobre o mundo do trabalho contemporâneo ­— networking

por Amato, em 09.03.18

Durante esta semana tive conhecimento do conteúdo de uma destas ações de formação que se fazem nas grandes empresas mundo fora. Sabem? Aquelas ações de formação que são mais ações de formatação de trabalhadores, lavagens cerebrais encapotadas, para que os trabalhadores não pensem e apenas repitam o que se considera aceitável que repitam.

 

Mas esta ação de formação de que tive conhecimento é muito diferente de tantas outras: é excecionalmente autêntica e genuína. Nesta ação de formação, fazia-se a resenha das características essenciais para se conseguir o emprego que se quer e para progredir no emprego que se tem. Dizia-se: 80% do sucesso depende de uma característica chamada de networking, que em português podemos traduzir como capacidade de sociabilização ou obtenção de conhecimentos; 15% do sucesso tem que ver com a atitude positiva e proativa; os remanescentes 5% ficam votados às reais capacidades e conhecimentos para a função. Não tenho absoluta certeza das percentagens exatas, mas os números são aproximadamente estes, acreditem.

 

Nada disto constitui verdadeira novidade. Todos nós sabemos como se conseguem empregos e como se progride na carreira, pelo menos em Portugal. Se eu disser que esta ação de formação teve lugar no estrangeiro e num país do norte da Europa, se calhar muitos dos meus leitores torcerão os seus respetivos narizes. Mas sinceramente, ganhem juízo! Para estes últimos deixo o seguinte conselho: deixem-se dessas tretas de que os do norte são honestos e os do sul são malandros; façam a mala e vão conhecer o mundo antes de repetir os disparates que ouvem.

 

O que nunca deixa de ser chocante é constatar que esta realidade é já tão indisfarçável que já nem decoro sobeja e que já nem vergonha há de a anunciar à boca cheia. O que devia de ser determinante para se conseguir um emprego, isto é, os conhecimentos, a capacidade, a competência, a cultura, é, afinal, praticamente desprezável em todo o processo. O que devia de ser vergonhoso e, portanto, desprezível, mais do que desprezável, isto é, os amiguismos, a graxisse, a corrupção, é, afinal, a característica fundamental para se ter sucesso nesta sociedade doente, enferma de desonestidade até ao tutano dos seus ossos.

 

Não deixa de ser curioso que tenha tido conhecimento destes dados na mesma semana em que se fez saber que Pedro Passos Coelho vai lecionar cursos de mestrado e de doutoramento no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Tal como no caso anterior, não constitui novidade na cena académica portuguesa. Podemos elencar rapidamente meia centena, pelo menos, de indivíduos que, como Passos Coelho, nada têm para partilhar sobre as suas carreiras, dos seus conhecimentos sobre a ciência ou a arte, nada que valha a pena a não ser, claro, as suas indeléveis capacidades enquanto oportunistas, mentirosos, desonestos, amorais e sem caráter e, todavia, assumem postos de relevo na academia portuguesa.

 

Nada disto é novidade. É apenas chocante. É chocante quando a face desta sociedade adúltera e putrefacta nos bate de frente e somos forçados a vê-la. E não podemos desviar o olhar.

A era da pseudociência

por Amato, em 21.01.18

É muito comum referirmo-nos à era moderna como sendo a era do primado da ciência sobre tudo o resto. Mas o que o homem comum desde há muito se habituou a identificar como ciência está mais longe de o ser do que a velhinha alquimia que se praticava nos tempos antigos.

 

Aquilo a que convencionámos chamar de ciência não é mais que um ritual pouco sério e pouco credível. Chamam-lhe método científico e a sua criação foi, no seu tempo, revolucionária. Estabeleceu os princípios para se analisar fenómenos, para se isolar fatores e condicionantes e se poder extrair relações de causalidade efetivas. Nasceu das ciências abstratas e puras e o seu sucesso rapidamente alastrou a todas as áreas do saber, inclusivamente às chamadas ciências sociais e humanas que, por isso mesmo, passaram a exibir orgulhosamente o epíteto “ciência” nunca antes a elas aplicado.

 

A questão é que o método científico não garante nem confere rigorosamente nada a nenhum estudo: não garante qualidade, nem causalidade, nem confere autoridade a nenhuma conclusão que deles se retire. O que faz é estabelecer critérios que mais não são do que bases de aplicação teóricas apenas verificáveis e aplicáveis em trabalhos teóricos de ciência pura. Nas ciências práticas e, sobretudo, nas ciências sociais e humanas, o isolamento de qualquer variável ou a escolha de uma amostra equilibrada é manifestamente impossível o que invalida o método e as conclusões de todo e qualquer estudo. Em bom rigor, estes estudos apenas poderão servir para apontar um caminho ou uma tendência. As suas conclusões reduzem-se a meras sugestões. Isso mesmo: sugestões, não leis.

 

Não é por acaso que a sociedade atual vive assolada por estudos frequentemente contraditórios. Não é por acaso que todos os dias surgem conclusões “científicas” que contrariam as que foram retiradas no estudo anterior. Isto é fruto de um uso errado natural mas também abusivo de um método desadequado. Na era atual governada pela burguesia e pelos seus interesses, a ciência é também uma refém natural. Não só faz um uso do método científico para produzir os resultados esperados pelos seus mecenas como, dentro das suas próprias fronteiras, a competitividade desenfreada e obcecada por resultados rápidos resulta normalmente numa manipulação forçada do método, da escolha enviesada das amostras e num tratamento estatístico abusivo da informação recolhida.

 

Na base de todo o processo reside um objetivo fundamental: o controlo e a manipulação das massas e do seus pensamento. A ciência está reduzida a isto na era moderna: uma pseudociência, uma ferramenta para uma tarefa, um meio para se atingir um fim, longe do conhecimento e da verdade onde a verdadeira ciência deveria residir. Muito longe.

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Amato

foto do autor

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D

Mensagens