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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Presidenciais 2016: uma analepse

por Amato, em 09.01.16

Em março do ano passado, quando se começavam a agitar as águas destas eleições presidenciais que estão agora a chegar, escrevi, a propósito de declarações do atual Presidente, sobre o que para mim seria um bom perfil para o próximo Presidente da República Portuguesa. Resgato aqui esse texto porque nele me revejo e também para trazer para o debate a lente particular com a qual avalio e analiso objetivamente cada um dos candidatos.

 

Note-se como o terceiro ponto voltou a ser violentamente pontapeado no último discurso do Presidente, com o seu recorrente “cidadões”, terminologia que ficará para a história, e muito justamente, como a sua imagem de marca.

 

No mais, reforço a importância do primeiro ponto. É que a Constituição da República não é, contrariamente ao que querem fazer crer, como um “texto sagrado” que cada um interpreta como quer, ora à letra ora figurativamente. A Constituição é muito clara e seria até extraordinariamente pertinente que fosse ensinada aos jovens no seu percurso escolar para que estes pudessem aprender em que sociedade é suposto que vivam e, assim, melhor avaliar o que os rodeia.

Uma reflexão matutina sobre arte e cultura

por Amato, em 12.12.15

Aos sábados de manhã dá-me para pensar em coisas que me surgem do nada. Hoje pus-me a pensar em cinema e em livros.

 

No que ao cinema diz respeito assalta-me a atenção o número crescente de filmes europeus que se intrometem nos cartazes semanais de Hollywood. Gosto de acreditar que esse facto deve-se a um certo enjoo geracional, desta geração mais velha, relativamente a um formato gasto, sem ideias e vazio de conteúdo, vazio de história, que o cinema americano oferece e não parece conseguir oferecer nada mais do que isso, com exceção dos filmes de autor que fogem ao mainstream. Veja-se a quantidade de patéticos remakes e de reruns de sucessos antigos e que atestam o que acabei de dizer.

 

O cinema europeu, sobretudo o francês, também tem um formato cristalizado mas traz consigo algo que será sempre novo: procura contar histórias, foca-se na história e fá-lo numa economia de meios que até tem o condão de se tornar pitoresca. Depois, o processo narrativo é menos presunçoso e mais sensato que o americano, coisa que, segundo julgo, a minha geração agradece e acolhe com satisfação. Estamos um pouco fartos que nos tentem impingir o que pensar. Só nos interessa a viagem.

 

Relativamente a livros, o momento é de contraposição aos pessimistas. Não embarco na corrente que diz que as novas gerações leem menos. Não tenho dados objetivos e, em verdade, ninguém os terá para tecer afirmações categóricas numa ou noutra direção. Como em tudo o resto apoio-me na minha própria experiência e num ou noutro dado objetivo palpável. A minha experiência diz-me que nunca li tanto como hoje. Nunca o acesso a todos os tipos de literatura esteve tão fácil, tão célere e tão barato. Mais: nunca, como hoje, o ato de ler foi tão necessário à vida quotidiana. Claro que podemos argumentar com a qualidade da escrita, com a qualidade da leitura e com a qualidade da oferta literário, argumentos que acolho e reconheço. Mas esses argumentos pertencem a uma discussão distinta desta.

 

A verdade, resulta para mim clara, é que nunca se leu tanto como na atualidade. Nunca se editaram e venderam tantos livros como nos dias correntes. E quando pensamos, quais velhos do restelo, nos dias passados, temos a tendência para valorizar certas minorias que nos são caras nesses tempos idos sem sermos capazes de reter uma imagem global de época mais fidedigna. Se fossemos capazes de o fazer, isto é, se fossemos capazes de comparar fotografias de época com rigor, facilmente constataríamos o óbvio: hoje em dia há muitíssimo mais gente a ler, em muitíssimos mais formatos, de variadíssimas formas diferentes, mas ainda assim a ler. E se quisermos comparar a literatura de qualidade e a leitura de qualidade, seja qual for o nosso referencial nessa matéria, a verdade é que também aí os tempos modernos batem os tempos antigos por goleada. É pelo menos essa a minha convicção.

O tempo dos “pais do regime”

por Amato, em 19.11.15

Olhando de passagem para a realidade, como se por entre ela, por entre os seus sinuosos caminhos, viajássemos a bordo de uma carruagem de um comboio temporal, diríamos que estamos a passar por paisagens repetidas. Olhando pela janela da carruagem, o que vemos não é novo, já foi visto antes do dobrar do século, ou seja, há cerca de cinco horas atrás.

http://www.drawingsomeone.com/wp-content/uploads/2015/05/Train-Pencil-Drawing-4.jpg

 

Vemos um tempo funesto, um tempo de “senhores engravatados e de aparência muito séria” a debitarem o que o povo deve pensar, enquanto trabalha, e repetir, enquanto toma um café ou uma cerveja na tasca que o acolhe depois da labuta. O tempo dos “pais do regime” já devia ter sido enterrado. Devia ter ficado para trás sobejando na memória apenas em quantidade suficiente para não ser esquecido e não ser repetido no futuro. O tempo que calcorreamos hoje, hoje mesmo, agora!, devia ser o tempo da cultura, do conhecimento, da consciência ativa, do povo. Este tempo, este que se seguiu a todas as conturbações sociais, a todas as revoluções, a todas as emancipações, a todas as conquistas, devia ser o tempo em que o povo todo, desde o mais humilde ao mais letrado, tomasse em mãos as ferramentas que lhe foram concedidas pela instrução da democracia e lhe desse boa utilidade na consciencialização e intelectualização das problemáticas que o envolve e, ativamente, tomasse decisão oportuna no seu interesse coletivo.

 

Todavia, a realidade choca com o ideal com uma crueza violenta. O povo que temos, a geração saída da instrução da democracia, prefere o “conhecimento” injetado pela televisão, ao conhecimento dos livros e das escolas, voltando-se para estas últimas e dizendo enormidades como: “eu odeio Matemática” e “não preciso disto para nada”. Esta geração, devemos reconhecê-lo, não é muito melhor do que a dos seus pais e a dos seus avós. Em alguns casos podemos até observar uma certa inversão geracional. No fim de contas, permanecemos como o rebanho de ovelhas, que sempre fomos, à procura de um pastor para seguir.

 

É natural, portanto, que esta geração de povo se constitua como o mais propício solo para o germinar dos tais “senhores engravatados e de aparência muito séria” de que falava acima. É tristemente irónico verificar que a democracia não conseguiu libertar o povo da sua apetência natural por líderes autocráticos e mais: o cidadão médio rejeita resolutamente (e bem) conceitos como ditadura mas aceita-os placidamente desde que enfeitados com outros nomes.

 

Os tempos que se vivem na Europa não auguram nada de muito virtuoso. O tratamento que é feito dos acontecimentos que se sucedem é, em geral, medíocre e parcial e contribui para um estado de alma dos povos propenso aos regimes mais retrógrados e reacionários. Verifica-se que, sejam quais forem as circunstâncias, a comunicação social também não se consegue libertar dos seus pastores. Dela não emerge um grito que seja. Pelo contrário, os jornais, as televisões, as agências de comunicação, recitam a mesma ladainha, a mesma homilia de condicionamento do pensamento. Em Portugal a situação não é distinta. Todos os sinais descritos são bem percetíveis. Também sentimos uma usurpação clara de poderes e tentativas de bloqueio de ação entre os órgãos do poder. A tudo isto assistimos serenamente. Veremos qual a próxima estação onde o nosso comboio temporal parará.

Televisão pública

por Amato, em 13.10.15

A televisão pública é um daqueles temas em que se torna fundamental a separação entre “o que deve ser” e “o que é”, entre a teoria e a aplicação, entre o potencial e o mecânico, entre o virtual e o real.

 

A televisão pública tem a potencialidade de constituir um veículo de transmissão de informação, de cultura e de entretenimento para todos, tem a possibilidade de ser uma referência de qualidade de conteúdos. Não quer dizer que haja uma obrigatoriedade de ser a melhor, mas podia constituir-se como o referencial segundo o qual essa qualidade fosse medida.

 

A prática, contudo, é outra. A televisão pública é um disparate de uma ponta à outra.

 

Em termos de informação o que nos oferece é parcial e opinativo estando repleta de profissionais que tão pouco se dão ao trabalho de esconder a sua parcialidade e posicionamento. Os debates promovidos refletem essa falta de pluralidade envolvendo em redor da mesma mesa indivíduos que fazem a apologia do pensamento dominante, frequentemente vindos dos mesmos partidos políticos.

 

Em termos culturais a televisão pública é um zero. Findo o “Acontece” que poucos já se recordarão não existe um programa cultural nem decente nem indecente. Não existe nenhum! Mas também não existem programas musicais, entrevistas, programas sobre ciência, não existe nada. Existem arraiais ordinários, programas brejeiros e concursos completamente desinteressantes cujo único interesse é saber quem leva o dinheiro. É este tipo de escória que a televisão pública serve a pás cheias ao povo. É isto mais futebol de manhã à noite.

 

Todavia, como disse no início, há que distinguir a teoria da prática. Por esta prática a televisão pública deveria acabar já hoje: nada do que nos oferece é importante e tudo o que nos oferece é-nos já oferecido pelos canais privados, especialistas no pensamento único parcial, no culturalmente menor e no brejeiro. Pela teoria, contudo, por aquilo que a televisão pública poderia ser... vale a pena aguentar com este literal peso sobre as nossas costas na esperança de que um dia quem de direito que nos governa faça da televisão pública aquilo que a televisão pública deveria de ser.

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