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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Cristas estava bem era em Fátima, a vender figurinhas

por Amato, em 12.03.17

Vale a pena escutar com atenção as declarações do CDS a propósito deste escândalo dos offshores. Em particular, vale a pena atentar nas reações da impoluta líder daquele partido, Assunção Cristas, que, aliás, por tão católica ser, faz questão de alumiar por aí que batizou todos os seus filhos de “Maria” por sentida devoção a Nossa Senhora.

 

Vamos a elas (notícia completa aqui).

 

Sobre o facto de Paulo Núncio ter trabalhado para empresas com negócios em offshores, diz a Sra. Dona Assunção Cristas:

 

Creio que também aí há ruído e uma coisa não tem nada a ver com a outra. E eu penso que isso ficou bastante esclarecido e não vale a pena estar a tentar criar nexos que não existem.

 

Não há nexos, diz ela. É uma daquelas coincidências... É só ruído. Vê-se bem que se trata de uma mente brilhante, letrada. Vejam como ela desmonta a falácia que nos impuseram:

 

No limite se nós acharmos que ninguém pode ter uma vida profissional antes de cargos governativos, então vamos ter um problema muito grande porque só podem ser governantes professores, académicos, professores de liceu e gente que não tem uma vida privada. Vale a pena perguntar se é o sistema que nós queremos e se é essa democracia que queremos construir.

 

Pois é... ninguém quer um sistema desse género... E entregar o país a professores de liceu?! Essa gentinha?! Ui... Deus nos livre. Ah, queira a Sra. Dona Assunção perdoar a invocação do nome de Deus em vão. Caros leitores, estejam todavia descansados, pois a impoluta líder do CDS diz estar muito empenhada no apuramento da verdade:

 

Do lado do CDS há todo o empenho em que tudo seja esclarecido, doa a quem doer. E estamos muito tranquilos nesta matéria. O próprio doutor Paulo Núncio sempre se disponibilizou e não tem nenhum problema em prestar qualquer esclarecimento ao parlamento.

 

Ufa! Que alívio! É que eu já estava a pensar que a Sra. Dona Assunção estava para aqui a defender o gatun... o “doutor” Paulo Núncio, mas afinal está interessada no apuramento da verdade! Doa a quem doer!

 

Não?

 

Estou enganado?

 

Não é doa a quem doer?

 

É doa a quem doer desde que o “doutor” Paulo Núncio não sofra nenhum dói-dói?

 

Fiquei confuso... Já não percebo nada...

 

O que é triste é ver gente do meu país muito preocupada com Le Pens e Trumps além fronteiras e, por cá, adorar peças destas. Até dizem que está muito bem colocada para atacar a Câmara Municipal da capital!

 

Assunção Cristas estava bem era em Fátima, por estes dias, junto dos outros “vendilhões do templo” a vender figurinhas dos pastorinhos. É para isso que tem talento e... caráter.

Democracia é escutar e debater

por Amato, em 09.03.17

Sobre o caso da proibição da intervenção de Jaime Nogueira Pinto na Universidade Nova de Lisboa apraz-me dizer o seguinte.

 

Tenho sempre muito gosto em ouvir alguém com um mínimo de cultura e de inteligência, convicção e coerência nos seus ideais, por muito que deles discorde. Este tipo de pessoas são um caso raro na nossa sociedade. Quando as encontramos, devemos aproveitar, porque a maioria das que pululam pelos espaços opinativos são caricaturas de cata-ventos ideológicos, movidos apenas pelos seus próprios interesses, culturalmente medíocres e intelectualmente menores.

 

Repito: quando as encontramos, por muito que delas discordemos, devemos aproveitar. Pode ser que aprendamos alguma coisa.

 

E, também, se não por mais nada, porque democracia é isso mesmo, é escutar e é debater.

Já chega de ruído

por Amato, em 28.02.17

Já não há paciência para estas novelas tipo offshores. Não há. Para que foram criados os dito cujos senão para isto mesmo? Estavam à espera de quê? De que não fossem usados?!

 

http://davegranlund.com/cartoons/wp-content/uploads/color-offshore-tax-cht.jpg

 

Todos querem capitalismo, todos querem o poder económico nas mãos de privados, todos querem esta sociedade de salve-se quem puder, de sobrevivência do mais forte, mas depois parece que todos esperam um superlativo sentido de altruísmo, um superior sentido de moralidade inerente a cada um destes indivíduos, não obstante o seu único objetivo, a sua íntima natureza, ser o ampliar e magnificar dos seus lucros.

 

Falta honestidade a esta sociedade. Falta franqueza e lealdade e genuinidade. Falta verdade. Assumamos o que somos e o que queremos ser. Já chega de ruído.

CGD: sinopse de uma novela

por Amato, em 26.02.17

O caso Caixa Geral de Depósitos (CGD) tem que forçosamente ser contemplado desde longe. De perto, com o nariz colado ao plasma ou ao LCD, as notícias que se sucedem afogam-nos num enredo burlesco, de conteúdo pouco relevante, que nos afasta do essencial, não nos permitindo obter um entendimento claro sobre os acontecimentos. A sequência dos eventos impinge-nos uma opinião genérica de genuína repulsa por todos os intervenientes sem distinção. Na verdade, não conseguimos distinguir este, daquele ou daqueloutro e a todos condenamos segundo os mesmos genéricos princípios e isso é, na realidade, não condenar ninguém, é deixar tudo na mesma.

 

Se dermos uns passos atrás, todavia, o caso CGD reveste-se todo ele de um simbolismo sinistro relativamente a um retrato mais apurado da sociedade em que vivemos, daquilo que coletivamente somos, como que um diagnóstico cabal do estado doente em que nos encontramos.

 

Damos, portanto, dois passos atrás sobre a sucessão dos episódios da novela para produzirmos um melhor entendimento.

 

Vamos ao princípio: o caso começa com o anterior governo, o qual se empenhou em liquidar o banco público. PSD e CDS tudo fizeram em termos de influência em gestão danosa para depauperar a Caixa — em tempo oportuno, alertei para este facto — num misto de ações injustificáveis de suporte à banca privada e a outros intervenientes do setor. O objetivo era claro: deixar a Caixa num tal lastimável estado que não pudesse subsistir hipótese alguma para além de a entregar de mão beijada nas mãos do capital privado. O objetivo da privatização da CGD era tão claro que o guião seguido pelo governo anterior foi precisamente o mesmo que foi aplicado a outras empresas entretanto privatizadas, das quais a transportadora aérea TAP é exemplo último.

 

Quando o atual executivo assume funções vê-se confrontado com esta situação de quase não retorno. Podemos especular que, acaso o governo não tivesse que responder perante os partidos que, à sua esquerda, o suportam parlamentarmente e para os quais a banca pública assume capital importância, talvez não tivesse sido tão enérgico e profícuo em resolver o imbróglio e, por esta altura, já a CGD não seria mais um banco público.

 

Foi neste contexto que o atual governo chamou António Domingues para desenhar um plano de recapitalização da CGD e recuperar o banco. António Domingues, vindo da banca privada — sempre esta relação suja de promiscuidade entre o estado e o setor privado —, exigiu — qual eleito pelos deuses —, contrapartidas muito curiosas para assumir funções, as quais incluíam um estatuto diferente dos demais gestores públicos que lhe permitisse, a si e à sua equipa, evitar uma declaração pública de rendimentos. Ao que tudo indica, o Ministro das Finanças terá concordado com tais exigências sob o pressuposto de conseguir aprovar no parlamento essa alteração à lei, facto que não veio a suceder.

 

Neste ponto, observe-se a moralidade decadente dos intervenientes, ainda que agindo dentro das fronteiras da lei.

 

Todavia, PSD e CDS, os mesmos partidos responsáveis pelo criminoso processo que conduziu a este lamentável estado contemporâneo da banca pública, têm alimentado uma ordinária ofensiva ao Ministro das Finanças com base numa interpretação de que este terá mentido numa comissão de inquérito. O festival protagonizado inclui a falta de respeito ao parlamento e ao Presidente da Assembleia da República, segunda figura do Estado, o obstar aos trabalhos da comissão de inquérito e a inusitada demissão do presidente da referida comissão.

 

Observe-se — palavra que isto nunca me deixa de espantar — o tempo de antena, a voz, que é dada pela comunicação social tanto a PSD como a CDS em todo este processo. É o mesmo que uma igreja fazer de um criminoso o seu novo pastor para pregar moralidade aos demais.

 

Ao mesmo tempo, António Domingues vai fornecendo informações avulsas sobre as comunicações que terá trocado com o Ministro das Finanças. Por que razão não as forneceu à comissão de inquérito em que foi ouvido, ninguém percebe.

 

O que para mim resulta de mais extraordinário depois de tudo isto é o facto de que nenhuma estrutura do país parecer estar preocupada com o facto de António Domingues não querer revelar a extensão do seu património. Não há vivalma que se interesse por isso. O que será que os bens de Domingues poderão revelar? Que “benfeitores” estará Domingues a proteger? Que sórdidas relações com os poderes do mercado de capitais poderão ser reveladas com a sua declaração de bens?

 

Uma coisa é certa: se acaso se tratasse de um cidadão comum a exibir um padrão comportamental deste tipo seguramente que a sua vida estaria já completamente escalpelizada na praça pública.

"i" de imbecil

por Amato, em 24.02.17

Ontem, no dia do aniversário da morte de Zeca Afonso, o jornal i decidiu colocar em letras gordas de primeira página o título: “30 anos sem Zeca Afonso, o cantor revolucionário que nunca quis ser comunista”.

 

Este título corporiza uma certa linha argumentativa que tenho ouvido repetida amiúde — normalmente vinda de malta de direita que descobriu que é cool ouvir Zeca Afonso mas que não quer ser conotada com cenas esquerdalhas — de que Zeca Afonso era revolucionário mas não tinha nada a ver com comunismos.

 

Até é capaz de ser verdade: o Grândola Vila Morena será mesmo, em verdade, uma canção sobre o sucesso do modelo capitalista no governo de uma vila do litoral alentejano...

 

É verdade que Zeca Afonso nunca foi um militante comunista, mas será que isso faz dele um não comunista? Para um i(mbecil), claramente, faz.

O guião que já se conhece de cor

por Amato, em 05.02.17

A ministra da Presidência veio dar uma entrevista com o primordial propósito, todavia em jeito de mensagem subliminar, de começar a tornar públicas e declaradas as intenções do governo em vender o Novo Banco por um baixo valor.

 

Note-se que a escolha desta figura secundária do executivo para efetuar tal declaração não é de todo inocente. Este governo, aliás, usa e abusa desta estratégia: vai preparando a opinião pública para o que pretende fazer, com declarações um pouco inesperadas, um pouco a despropósito, feitas por personagens suficientemente secundárias para se poder descolar delas se assim o entender, ao mesmo tempo que ausculta atentamente as reações resultantes.

 

Este governo é como aquele menino que prefere entrar aos bocadinhos na água fria do mar, em vez de entrar de mergulho. Primeiro um pezinho, depois um joelho, um saltinho, um passo atrás e tenta novamente. Não vou dizer que o resultado é exatamente o mesmo, antes pelo contrário. Mais que uma questão de estilo, é uma questão de estratégia.

 

Em boa verdade, as declarações de Maria Manuel Leitão Marques, de seu nome — o nome lembra-me a outra Maria, a Luís, mas é apenas casualidade —, são de todo em todo redundantes. O guião deste filme está escrito desde o princípio, todos o sabemos. Já vimos a cena repetida por tantas vezes que apenas um imbecil esperará um desfecho diferente: o banco vai à falência, o estado injeta dinheiro no banco e paga as dívidas assumindo o seu controlo, o estado põe à venda, o estado entrega de graça (a troco de simbólico valor) de volta ao controlo privado. O que o estado pagou, pago está, perdido está e o seu papel na sociedade cumprido em plenitude: salvou a burguesia aflita. Sejamos claros: o estado apenas serve para acudir a burguesia e salvaguardar os seus interesses.

 

Também aqui, vemos claramente o quão semelhante é este governo relativamente ao governo anterior, o quão empenhado está no seu papel servil relativamente aos senhores deste país, a burguesia que domina sobre o povo. Partido Comunista e Bloco de Esquerda: é um jogo perigoso este que jogam. Não consigo vislumbrar que ganhos para o país esperam dele e espero que estejam à altura do balanço final quando ele estiver aí para ser feito. Por ora, a imagem que estão a construir é a de coniventes menores com este estado de coisas.

Sobre o PEC, o mundo real e as abstrações idílicas

por Amato, em 29.01.17

Coloco-me, uma vez mais, contra este governo e contra este estado de coisas e colocar-me-ei as vezes que forem precisas para acalmar a fúria que sinto dentro de mim, para poder, enfim, dormir um sono pesado à noite, em paz comigo mesmo.

 

Em tudo o que é estrutural neste país, não houve nenhuma reversão. Vieira da Silva diz que “mexer no Código de Trabalho não é prioritário”, como não poderia deixar de dizer, pois claro. Esta novela em torno do aumento do salário mínimo, então, é absolutamente dramática, pois desmascara as verdadeiras intenções do governo: fingir que dá ao povo, para o roubar pelas costas.

 

Nunca se viu um governo subsidiar os patrões deste país para que se aumente o salário mínimo. Nunca! É nojento. Derrotada a benesse da TSU no Parlamento, por intermédio de inesperados protagonistas, é certo, já se prepara uma diminuição do Pagamento Especial por Conta e comunistas e bloquistas aplaudem, desta feita, a medida!

 

Comunistas e bloquistas acham bem que uma porção considerável das empresas deste país subsistam ano após ano apresentando prejuízos e consideram que o PEC é injusto. É nestas coisas que apetece gritar aos ouvidos de PCP e Bloco, sobretudo aos do PCP por ser mais coerente e politicamente experiente, «Caiam na real! Este não é o mundo perfeito que imaginam e estas pessoas que aqui vivem não são as virgens impolutas que vocês imaginam que são!».

 

As leis têm também que ir ao encontro do mundo real e não apenas de uma qualquer abstração idílica. Devemos caminhar em direção à utopia, é certo, mas com os pés bem assentes na terra. Não devemos legislar por desconfiança, mas devemos encarar o mundo de frente, observar com sabedoria, e não fingir que não se vê.

 

Quanto menos estas empresas tiverem de pagar, menos pagarão, não porque não podem ou porque não é justo, mas porque faz parte da sua natureza e está ao seu alcance a evasão a essa responsabilidade. Não querer ver isso apoiando a diminuição ao PEC é uma estupidez e seguramente sairá muito caro ao país, não apenas em termos de receita fiscal, mas sobretudo a nível de equilíbrio social.

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