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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

A normalização do Chega. Uma sociedade que sai do armário.

Desde a nova reconfiguração política no panorama nacional que se esperava o que se tem visto nos últimos tempos: a normalização do Chega. Se ainda antes do último ato eleitoral o Chega era já presenteado com uma cobertura mediática perfeitamente desproporcionada em relação ao seu real peso político — o que, aliás, concorreu para o seu crescimento eleitoral —, a verdade é que agora há algo mais profundo a decorrer por entre as camadas mediáticas.

Há uma normalização em curso desse partido, uma valorização do seu argumentário, dos seus posicionamentos e das suas ações políticas. Isto tudo vem adicionar a uma cada vez mais robusta projeção mediática: constantemente a abrir telejornais e em entrevistas. Os meios de informação portugueses têm, ao que parece, uma grande curiosidade e interesse em ouvir o Chega, uma curiosidade e interesse que nunca tiveram por outras forças políticas. A este respeito, a moção de censura apresentada na semana passada foi uma espécie de orgasmo para uma comunicação social cada vez mais enviesada à direita.

É claro que o dedo acusador da história nunca se voltará em direção aos próprios jornalistas. Quando isto der para o torto, quando começarmos a sofrer na pele a ascensão do Chega (e não falta muito para que isso se comece a sentir), ninguém irá perguntar a estes mesmos jornalistas que expliquem as suas “opções editoriais”. E é claro, também, que isto é mais que algo que se possa imputar unicamente aos media. É toda uma sociedade que se revela, que sai do armário, juntamente com os seus ansiosos e impacientes esqueletos guardados desde a primavera de 74.

publicado às 09:14

O estado das sociedades contemporâneas

Não obstante todas as ajudas estatais, todos os layoffs pagos a 100%, o setor privado aproveitou a oportunidade que a pandemia lhe proporcionou para efetuar uma redução de gastos com pessoal sem precedentes. O setor da aviação foi exemplar neste particular, cortando tanto em pessoal de terra como em pessoal de ar. O caso português ainda é mais extraordinário, tendo sido o próprio governo a liderar esse processo, reduzindo a TAP a uma companhia irrelevante, vendendo aeronaves e slots, suprimindo rotas, cortando despesas e comprometendo qualquer futuro minimamente viável para a companhia. O estado como o pior e o mais oportunista dos patrões.

Como seria expectável, a superação ou normalização da pandemia fez retomar, em força, toda a atividade aeroportuária. E como qualquer idiota poderia prever com facilidade, deu-se o caos, Europa fora, com o setor perfeitamente diminuído e incapaz de lidar com a demanda. O que importa refletir neste momento é sobre a responsabilidade.

Os estados, os povos, que efetivamente foram os responsáveis históricos pela criação da aviação comercial, porque foram eles que avançaram com o dinheiro (como em tudo o mais, aliás), resolveram, ao longo dos tempos, delegar esses serviços, concessioná-los a privados. Os privados têm a responsabilidade de gerir todo um setor. Falham redondamente e inadmissivelmente. É que eles até podiam ter recontratado o pessoal que despediram durante a pandemia, mas cederam à tentação de tentar fazer o serviço de 100 com 10. O que acontece agora? Quem lhes exige as suas responsabilidades? Quem paga por isto? Onde está a democracia?

A situação dos aeroportos é paradigmática: ela mostra o estado a que as sociedades contemporâneas chegaram, os povos tocando o fundo do poço em termos de participação do espaço público e político. O que acontecerá em seguida? O que é que o futuro nos reserva? Vamos ficar sem luz? Sem água? E vamos ver as companhias privadas que gerem esses bens, sempre a acumular lucros sobre lucros, a encolher os ombros, a dizer que nada podem fazer?

publicado às 08:59

O governo que pode tudo

Mais uma semana, mais um “evento”, incompetência, incapacidade, falta de senso, o que quer que se queira chamar, mais um objetivo cumprido no rol “a fazer” do governo mais incapaz de que há memória. Faça o que fizer, nada lhe acontece. Não é que devesse suceder alguma coisa, bem entendido. É uma maioria absoluta. O que faz, o grotesco que é, apenas reflete de volta, qual espelho cristalino, ao povo que o elegeu e o suporta. Não tenhamos ilusões: houvesse eleições já amanhã e este governo ganharia de novo ou... outro da mesma “qualidade”. O povo escolhe. O povo tem.

publicado às 08:08

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