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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

«Faça-se!»

por Amato, em 31.07.20

1. O parlamento, inspirado numa certa ideologia animalista em voga, aprova uma lei que proíbe o abate de animais em canis municipais. Poucas serão as pessoas que não concordarão com a bondade desta lei. Na madrugada de 19 de julho um incêndio em Santo Tirso mata dezenas de animais em dois canis locais onde os mesmos viviam, ao que tudo indica, em péssimas condições.

 

2. O governo decide reabrir as escolas para aulas presenciais no novo ano letivo obrigando os espaços educativos a imporem uma ética reforçada de higienização e desinfeção e os alunos a manterem um distanciamento entre um e dois metros. Ao mesmo tempo, o governo anunciou a intenção de proceder a um reforço no pessoal docente que, todavia, parece não se vir a concretizar, pelo menos em número suficiente. O número de alunos por turma não será alterado. O número de funcionários mantém-se. Não se percebe como se poderá levar a cabo as diretivas governamentais.

 

3. Centros de Saúde, hospitais, maternidades operam diariamente sem médicos, enfermeiros ou pessoal auxiliar em número suficiente, particularmente em tempos de pandemia.

 

4. O governo ou o parlamento diz «Faça-se!» e a coisa fica-se por isso mesmo. Não há verdadeiro escrutínio. Aprovam-se demasiadas leis, tomam-se demasiadas medidas neste país quando não há vontade política para disponibilizar os recursos para que essas leis e medidas sejam levadas à prática. O processo legislativo está convertido numa farsa.

 

5. Este governo é particularmente hábil no ardil que envolve este modo de atuar. Em particular, ficará para a história como o governo que elevou a infâmia das cativações orçamentais a um estatuto próprio e intocável no que diz respeito à norma de governação do país.

 

6. Sublinhe-se também a facilidade com que António Costa sacrifica os seus subordinados governativos, os presidentes ou diretores das instituições várias que polvilham o tecido das responsabilidades do estado na governação deste país. Nos tempos que correm, demitir uma destas figuras equivale ao sacrifício de um cordeiro ou de um par de pombas brancas pela paz ou pela remissão dos pecados do homem.

 

7. O governo diz «Faça-se!». Não se faz. Ou, se se faz, alguma outra coisa deixará de ser feita. A otimização de recursos tem um limite para lá do qual só existem fábulas, histórias de encantar e universos mágicos.

Problemas no paraíso

por Amato, em 29.07.20

 

Já tínhamos tido conhecimento de que a administração do Novo Banco, acumulando prejuízos atrás de prejuízos, havia decidido distribuir prémios e dividendos pela administração e acionistas. O que não sabíamos era deste outro roubo: o Novo Banco vendeu a metade do preço o seu vastíssimo património imobiliário a um fundo com sede num paraíso fiscal, aparentemente ligado aos donos do Novo Banco, com dinheiro emprestado pelo Novo Banco. Confusos? Não há problema, o estado cá esteve, cá está e cá estará para injetar dinheiro diretamente na veia desta gente que este mesmo governo foi chamar à América para gerir brilhantemente o Novo Banco.

 

Há algo de poético em todo o processo, algo que atravessa dezenas de páginas carregadas de instituições de supervisão, desde as finanças, operações avultadas, transferências de imobiliário, passando, claro, pela banca. Tudo se passa com uma delicadeza e uma elegância tais que ninguém dá por nada, ninguém desconfia, nenhum alarme dispara, nenhuma campainha toca, até que a notícia rebenta nos media, meses depois da coisa estar mais do que feita e encerrada como, aliás, é da mais elementar das conveniências.

 

(Ai, se ao menos fossem tão eficazes como relativamente ao cidadão comum que não se pode enganar num cêntimo que seja na sua declaração de rendimentos e tem logo que ir justificar divergências aos serviços...)

 

Nada disto é surpreendente. Tudo isto constitui evidência das melhores práticas, do estado da arte da coisa, sem vestígio de ilegalidade, sem ponta por onde se lhe pegue.

 

O Novo Banco constitui-se, pois, como um exemplo académico para o futuro, um exemplo categórico de como o capitalismo, esse pico da evolução da humanidade, funciona, da sua estrutura moral e ética, de como conceitos como o «mercado livre» ou a «livre concorrência» são meras referências teóricas sem substância prática. O que o capitalismo produz é isto: promiscuidade, desigualdade, acumulação, exploração dos povos. E se na universidade não vos ensinam isto, então estão, seguramente, a estudar no sítio errado.

A deusa

por Amato, em 24.07.20

Ontem fui ao Pireu com Gláucon, filho de Aríston, a fim de dirigir as minhas preces à deusa e, ao mesmo tempo, com o desejo de ver de que maneira celebravam a festa (...)

— A República, início do Livro I, Platão

 

As derradeiras semanas do ano político de 2019-2020 trouxeram consigo o anúncio de mais um dos milagres da deífica União Europeia que, omnipresente, preenche cada recanto do nosso espaço político e, omnisciente, controla cada um dos passos que podemos dar. É verdade que esta divindade não preza o valor da novidade, manifestando-se sempre, repetitivamente, do mesmo modo. Os seus sopros sobre a nossa mortal poeira fazem-se sempre nos mesmos moldes, ou seja, através de muitos milhões de milhares de euros. Não há surpresa, nem é preciso. O que faz, faz bem e é eficaz para maravilhar as massas ínscias e admiradas.

 

Para o governo português, o anúncio de nova aparição da deusa nas nossas desgraçadas vidas vem no momento certo. A fé é forte entre nós, mas convém não perder o ânimo, pois a divindade mantém-se, por vezes, tempo demais afastada dos fiéis ou adota em demasia aquela atitude castigadora tão à moda do Antigo Testamento. O milagre era exatamente o que o povo, que se volvia eurocético em demasia, precisava como um bálsamo refrescante e renovador das almas.

 

A deusa é, também, generosa para com os seus presbíteros. António Costa, por exemplo, desesperava por este favor, como de água para matar a sua sede. Foi mais um ano marcado por uma inépcia assustadora para antecipar e lidar com problemas anunciados, mas o governo lá sobreviveu, dançando entre os pingos da chuva, escapando a qualquer responsabilidade, o que parece ser a sua principal “qualidade”. O desgaste, todavia, é real e, não obstante a inexistência de oposição política, começava a notar-se. Quantos meses mais de consultas e cirurgias adiadas, de serviços públicos congelados, de lay-offs e desemprego poderão os portugueses aguentar afinal? Nada como um conjunto alargado de investimentos e obras públicas para mitigar a crise económica em que estamos metidos e ainda não percebemos, injetar dinheiro fresco na economia, cerrar os olhos com força e imaginar que isto tudo se resolve com consumo interno e medidas Keynesianas que, em boa verdade, nunca resultaram em parte nenhuma do globo.

 

Até aqui a história tem muito de belo e de idílico e um viveram felizes para sempre deveria-se-lhe seguir, pelo menos para a maioria de nós, porque quando a coisa rebentar nas nossas caras — e rebentará — contentar-nos-emos com um qualquer bode expiatório para carregar de culpas e sacrificar para mal dos nossos pecados.

 

É fastidioso escrever sobre uma realidade tantas e tantas vezes repetida. Os milagres da deusa revelam-se sempre truques de ilusionismo barato e os seus presentes — quais Cavalos de Troia — provam ser sempre envenenados. Se o passado fosse, para nós, um mestre, a primeira pergunta seria: a troco de quê? Muitos foguetes seriam poupados, muitas garrafas de espumante permaneceriam invioladas, muitas celebrações — perigosas e desaconselhadas em tempos de pandemia — seriam evitadas, fosse essa importante pergunta produzida. Mas não é. E talvez esteja bem assim: para a maioria de nós vale mais festejar em antecipação do que não festejar nunca.

 

Comecemos pelo facto de que, por cada euro dado pela União Europeia, Portugal ter que se endividar para adicionar igual quantia ao investimento. Em tempos em que os juros são praticamente inexistentes, vem-me à memória a velha fábula em forma de poema da aranha que convida a mosca para a sua sala. Endividemo-nos, pois, e rezemos à deusa e aos santos mercados para que estes não se lembrem de, do dia para a noite, começar a cobrar juros incomportáveis para o nosso país. Este filme não é original: é um remake do que vimos em 2011 onde, então, uma crise da dívida seguiu-se a um incentivo, vindo da União Europeia, ao endividamento e ao investimento públicos.

 

O que vem depois também não é inédito. Aliás, todas as dádivas da deusa foram acompanhadas de exigências de fé resoluta, que é como quem diz de renúncia absoluta do nosso livre-arbítrio, da nossa autonomia e soberania. Desta feita, novamente nos subjugamos em toda a linha aos planos económicos da Alemanha — a predileta da deusa, porque não somos todos iguais perante Ela. Chamam-se de “economia verde” e é preciso realmente muita fé para crer que deles brotará, nas nossas praias, qualquer coisa que seja bondosa e sumarenta, pelo menos para nós.

 

Há também o pacote de impostos, de taxas e de taxinhas que se pretende implementar no plano europeu, mas não sei se também serão verdes ou de uma outra cor qualquer. A história repete-se. A União Europeia tem sido muito boa para isto: líderes nacionais incapazes fazerem brilharetes com os seus povos ao mesmo tempo que os enterram em dívidas e vendem as suas almas a troco de uns euros. Seria uma boa altura para os velhos, que já conhecem o filme de cor, chegarem-se à frente e falar. Caso contrário, continuaremos a ser guiados por uma certa juventude para a qual tudo é novo e promissor, tudo é anúncio de um amanhã de esperança. E o ciclo continuará.

 

Uma ilusão que se esfuma

por Amato, em 15.07.20

No final da semana passada fomos surpreendidos com a escolha de Rita Rato no concurso público para a direção do Museu do Aljube — Resistência e Liberdade. Aqui o uso do verbo surpreender é inexato e algo abusivo.

 

O que é surpreendente é ainda existir alguém que se surpreenda com concursos públicos de fachada, de faz-de-conta, com critérios desrespeitados, outros feitos à medida, entrevistas verdadeiramente geniais capazes de anular e suplantar currículos medíocres ou inadequados, que resultam em escolhas inesperadas e extraordinárias. Quem isto desconhece ou quem acha que o que acabei de escrever é irreal deve continuar assim, mudar de página, não deve investigar nem fazer nada: essa inocência pura é o seu passaporte mais seguro para a felicidade.

 

Acho que o que é mais agressivo à alma é esta perceção da hipocrisia. Será a hipocrisia, acima de tudo, o que mais fere, porque qualquer cidadão médio tem plena consciência de que todas as instituições têm uma inclinação política, uma orientação enviesada, mesmo aquelas que se financiam com dinheiros públicos, mesmo que se construam os mais diversificados crivos democráticos. E o que dizer de um museu com cinco anos de vida, “dedicado à história e à memória do combate à ditadura e ao reconhecimento da resistência em prol da liberdade e da democracia”? O que dizer de um projeto de vocação eminentemente política cuja origem, desenvolvimento e história estarão umbilicalmente ligados ao PCP? E seria natural, invertendo a questão, que a direção de um museu com estas premissas, dedicado à memória da resistência antifascista em Portugal, fosse entregue a um não comunista? Mas voltamos à hipocrisia, a esta hipocrisia visceral, este querer parecer o que não se é, esta obstinação por uma imagem, que não é a nossa, de aparência nívea, imaculada, escondendo uma realidade de compadrios e de jogos de interesses.

 

Dito isto, é evidente que o PCP sai chamuscado deste processo.

 

Primeiro, porque é o ator principal de uma peça que coloca numa instituição financiada com fundos públicos um quadro seu sem nenhuma qualificação académica para a função e cuja escolha se baseia simplesmente no facto de ter sido deputada, e deputada do PCP, na Assembleia da República. O critério político sobrepôs-se, portanto, ao critério académico e profissional. Saem igualmente melindrados a classe política como um todo e a imagem dos cargos nas instituições públicas ou com funções públicas.

 

Segundo, porque fica também aqui patente aquela deriva autista, para a qual venho alertando, que tomou o PCP desde o seu interior. Repare-se como teria sido fácil ao PCP ter construído um projeto de direção do Museu a partir de um dos seus muitos quadros na área da História. Teria sido fácil, mas não o fez.

 

Há uma sensação assustadora de que o partido não quer saber do que a sociedade pensa, no que lhe fica bem ou mal e prossegue um processo de conspurcação irrevogável de uma certa imagem que lhe era atribuída com propriedade, conquistada ao longo de muitos anos com muito sacrifício, de coerência, de honestidade, de integridade, de correção e de dignidade no desempenho de funções públicas, de defesa dos trabalhadores e do povo.

 

Neste particular, são deprimentes as defesas ensaiadas pelo PCP e pelos seus canais não oficiais a todo este processo. Não se trata sequer de aferir se as justificações são válidas ou não: é o constatar de que os comunistas se veem reduzidos a um argumentário próprio da direita política e das suas promiscuidades endémicas com o poder e os interesses económicos. A isto não estávamos habituados.

 

Quebra-se aqui uma ideia que os comunistas guardavam com cuidado, esfuma-se uma ilusão nutrida com afeto, de que o PCP era um partido diferente, que seguia as normas, as da ética e da moral antes das convenções sociais ou legais, um partido de gente séria no qual era possível confiar. Depois da gestão que foi feita da “geringonça”, depois das incoerências e das traições ao ideário marxista, das inéditas polémicas na gestão das autarquias, da questão da Festa do Avante! a realizar de qualquer forma e em contraponto com o que se passa no resto do país, esta escolha de Rita Rato para a direção do Museu do Aljube foi, talvez, a gota de água que faltava neste legado de destruição da imagem de um partido, um legado que Jerónimo de Sousa indelevelmente deixa enquanto secretário geral.

 

O tempo é, pois, de expetativa e desespero para marxistas e revolucionários. Desespera-se por uma inversão de políticas internas. Desespera-se pelo congresso. Questiona-se se o partido lá chegará com alguma coisa de si ainda intacta ou se dele sairá, definitivamente, como um partido aburguesado e igual a todos os outros.

 

A TAP como um barómetro sobre o movimento sindical e a luta de massas

por Amato, em 10.07.20

http://fav.me/d1amoql

image: http://fav.me/d1amoql

 

Na antecâmara de uma violenta ofensiva sobre os trabalhadores da TAP, ofensiva essa que vem sendo preparada com cuidado nos jornais, nas televisões, por jornalistas, comentadores e membros do governo, é interessante olhar para o terreno e analisar como é que os trabalhadores se preparam para enfrentar a onda de despedimentos que se avizinha, bem como o processo de abatimento da empresa onde trabalham.

 

Neste particular, foi elucidativo escutar o que tinham a dizer os representantes de alguns sindicatos setoriais de trabalhadores da TAP. Um deles afirmava não estar muito preocupado, pois o seu setor já trabalhava há muito em permanente défice de mão de obra, logo os despedimentos deveriam incidir sobretudo sobre outros trabalhadores. Outro, de outro sindicato, também aparentava calma e descontração, pois, no seu setor, a dispensa de pessoal subcontratado ou de trabalho temporário deveria ser suficiente para impedir despedimentos. E assim foi, um depois do outro, nesta mesma toada. Todos concordavam com o princípio da discussão elevando-o à condição de axioma: a TAP crescera demais e tinha que reduzir rotas e pessoal.

 

A situação presente da TAP apresenta-se, pois, como um barómetro sobre o movimento sindical e, mais geralmente, sobre a luta de massas. No momento em que os trabalhadores deveriam estar unidos como um todo, como um corpo só, “unidos como os dedos da mão” como canta o poeta, falando alto a uma só voz, é quando se acovardam e apontam os seus dedos uns aos outros como quem diz “leve-o a ele e não a mim”. No fundo, é visível, muitos dos sindicatos assumiram nos últimos anos o individualismo crescente na sociedade e dos seus associados, preocupando-se em lutar pela conquista individual ou de um restrito grupo em detrimento de um luta coletiva pelos direitos de todos. O sindicalismo está individualizado e egoísta. Nestes moldes, não existe luta de massas, nem luta de classes. Ideologicamente, é um sindicalismo sem base, que assume a narrativa patronal e não questiona ou contrapõe, concentrando-se na minoração de perdas entendidas como inevitáveis e na obtenção de migalhas das negociações que possam ser usadas como bandeiras.

 

Este tipo de discurso que ouvi de alguns dos sindicatos de trabalhadores da TAP seria impensável há uns anos. Os sindicatos costumavam ser promotores de uma certa consciência de classe, formadores de uma certa ideologia. Hoje, o panorama do sindicalismo está severamente transformado para pior, altamente fragmentado, ideologicamente desinvestido e desorientado, descomprometido socialmente, inspirado em ideias peregrinas de diálogo e de paridade com o patronato que nunca na história produziram resultados em favor dos trabalhadores e do progresso do bem estar da humanidade. Costumava-se dizer que “a união faz a força”. A TAP mostra que, nos dias de hoje, tal união é manifestamente impossível.

TAP: cronologia de um roubo

por Amato, em 03.07.20

https://guiaviajarmelhor.com.br/wp-content/uploads/2019/12/como-%C3%A9-voar-com-a-TAP-para-Portugal-4.jpg

image: guiaviajarmelhor.com.br

 

Sensivelmente a meio de 2015 ficava decidido o processo de privatização da TAP. O processo foi longo e levou décadas de apurada preparação da empresa para a sua entrega ao mercado privado, atravessou múltiplos governos, num roteiro que incluiu a condução de uma empresa lucrativa e dominadora de uma quota importante do mercado aéreo da influência da lusofonia a transformar-se, através de catastróficas operações de mercado e ruinosos negócios jamais explicados ou explicáveis, numa empresa de crónicos e avultados prejuízos operacionais.

 

A entrega da empresa aos ávidos abutres do mercado privado viria a ser feita, servida em bandeja de prata, a meias entre uma decisão de um fugaz governo de faz de conta de Passos e Portas, que até parece ter tomado posse para assinar à pressa meia dúzia de despachos do género deste da TAP, e um governo socialista que, geringonçado ou não, pôs em prática o seu característico e inesgotável engenho em baralhar, baralhar, baralhar para, no fim de contas, distribuir mãos iguais a todos os jogadores em redor da mesa.

 

A troco da empresa, o consórcio congeminado pelo estado a propósito da operação de privatização, terá depositado uma soma de 10 milhões de euros, valor risível, mas leoninamente defendido pelo governo devido à situação catastrófica que a empresa de aviação vivia na altura do negócio e com base no dinheiro que seria necessário lá colocar para tapar buracos financeiros.

 

Volvidos quatro anos de desastrosa gestão que enterrou a empresa a um nível de praticamente não retorno acompanhados, como é prática habitual, de chorudas distribuições de dividendos pelos acionistas, o estado vê-se forçado a intervir na TAP para que esta não deixe, pura e simplesmente, de existir.

 

Agora, assinale-se, o estado elabora manifestos impressionantes e tocantes no que diz respeito à importância estratégica da TAP para a economia nacional. É pena que não os tivesse elaborado, em coerência, no início de todo este processo quando já era governo. Em todo o caso, o estado procede a uma nacionalização encapotada, de acordo com as regras do mercado, adquirindo uma participação maioritária na empresa.

 

Para isso — pasme-se! — o estado desembolsará uma soma de cerca de 55 milhões de euros. Queira o leitor fazer-me o favor de recuar umas linhas neste texto e comparar com o valor que o estado terá recebido há cerca de quatro anos. Adicionalmente, também desta feita o estado não amortizará o valor de compra com o buraco financeiro da TAP tal como foi feito no processo de privatização. Bem entendido, o estado paga 55 milhões, paga o buraco financeiro da empresa e ainda outras tecnicalidades da treta, disfarçadas de empréstimos obrigacionistas ou outras coisas que tais, que são o mesmo que dizer que quem destruiu a TAP nestes anos, para além da choruda indemnização, vai continuar a receber uma renda do estado. Tudo legal. Tudo no estrito cumprimento da letra dos contratos e da lei. Tudo isto para que daqui por um certo tempo, necessário para que a poeira deste escândalo assente, se volte a entregar a empresa a privados em novo processo de privatização carregado de boas intenções.

 

Seremos sortudos, talvez, por podermos assistir, desde a primeira fila, ao mais maravilhoso do capitalismo em ação, como os estados burgueses se ajoelham, de pés descalços, aos interesses omnipotentes do capital. Isto é o que é o capitalismo de estado. Esqueçam as entradas enciclopédicas. Isto é o que é uma população a trabalhar para entregar integralmente o fruto do seu trabalho nas mãos de uma meia dúzia de senhores. Não é preciso ler Rousseau, Marx ou Proudhon: aí está, diante de nós, tão viva, pulsante, a natureza do sistema, não carece de explicação. Chega, por isso, de desculpas.

 

Chegam-nos notícias de que algo de parecido também se prepara na Efacec. Depois de se ter entregado a empresa a interesses angolanos e de ela ter sido abandonada a uma espécie de limbo com origem nas lutas pelo poder nesse país às quais nós, Portugal, enquanto menino bem comportado, de bem com deus e com o diabo, nunca nos opusemos, prepara-se uma nacionalização da empresa, que deve ser entendida como um não se preocupem: aqui estamos nós para pagar o que se deve, já com a promessa antecipada de reprivatizar a empresa o mais depressa possível.

 

É por estas e por outras que, quando nos dizem que um liberal abomina as nacionalizações ou essa pérola do “não há almoços grátis”, não nos devemos acreditar. É que é exatamente ao contrário: os liberais adoram as nacionalizações. As nacionalizações são os almoços, os jantares, os lanches, os carros, os aviões, os cartões de crédito, os plafonds ilimitados, tudo grátis. Tudo grátis. Só que é só para alguns.

 

O dever de qualquer força revolucionária deveria ser, pois, a total oposição e recusa em participar nesta encenação, neste roubo descarado, eternamente perpetrado pelos governos burgueses ao seu povo e não fazer parte deste ciclo vicioso golpista, nem que por mera inocência ideológica, como é o que normalmente acontece.

 

E nós, enquanto povo, devemos dar-nos por satisfeitos e orgulhosos: em todo este processo estamos mais pobres, mais endividados e patrimonialmente delapidados, de futuro eternamente adiado, embora tenhamos a maioria na TAP. O estado, esse, fez exatamente o que lhe competia nesta economia de mercado global que tanto adoramos: prepara-se para pegar no dinheiro do povo e em contrair dívida em nome do povo para sustentar as fortunas da burguesia.

 

 

Se tudo é, então nada é

por Amato, em 02.07.20

No início de uma madrugada igual a tantas outras, entretive o espírito com um poema que me chegou ao olhar. Era um conjunto de frases elegantes, construídas com belas palavras. Falava de amor — claro, o omnipresente amor! —, dois amores, em verdade, que se confundiam: um amor carnal e um amor mais abstrato do que o primeiro, incorpóreo, por ter como objeto de afeição, nada mais, nada menos, que uma cidade. Isso mesmo: dois amores que se misturavam num só numa efervescência de palavras belas.

 

A leitura deste poema produziu em mim aquele sentimento de satisfação incompleta, um certo contentamento imperfeito, tão familiar, tão banal nos dias de hoje. Deem-me um desconto: já sou suficientemente velho para habitar em mim uma permanente impressão de que nada é novo e que tudo são variações mais ou menos descaradas de temas já amplamente tratados no passado.

 

A minha curiosidade prendeu-se, pois, não no conteúdo mas na forma do poema, mais precisamente na ausência de forma ou estrutura, sem métrica ou qualquer tipo de regularidade silábica ou a nível da rima. Aquele poema seria, assim, uma espécie de construção em verso livre. Sim: desta maneira não nos comprometemos e estamos sempre certos.

 

O que é certo é que a coisa fez germinar em mim uma dúvida fundamental: deste modo, sem regularidade que me valesse, sem estrutura para me dar um chão, como poderia eu, um leigo, qualificar o que havia lido como poesia? É que hoje em dia já ninguém escreve sonetos ou odes, ninguém perde tempo a contar sílabas, a acomodar rimas interpoladas ou cruzadas, nem a submeter-se a qualquer tipo de estrutura ou forma. O verso livre é a expressão, na poesia, desta filosofia de liberdade que alcança todas os braços da arte e se liberta com violência das restrições da forma, num culminar de toda uma evolução iniciada desde o Renascimento. Expressões similares encontramos também na pintura, na escultura, no bailado ou na música.

 

Liberdade, liberdade, liberdade! Liberdade! Foi este o caminho.

 

Ou não?

 

O problema é este: se tudo é passível de ser considerado como poesia, se tudo é poesia, se tudo é poema, então… nada é. Pensem nisto.

 

Quase tudo é definido por negação. Sabemos o que as coisas são, não através de uma epifania qualquer que nos bate nos sentidos da alma mas através do que não é. O que não é define o que é. Se tudo é poesia, então nada é poesia, esvazia-se o conceito, deixa de ser relevante a qualificação. Se qualquer sarrabisco numa tela é pintura enquanto arte, então nada é pintura. Se qualquer conjunto aleatório de sons é qualificado como música contemporânea, então até o barulho produzido pelos automóveis na hora de ponta pode ser qualificado como música e, portanto, nada mais é música porque tudo o é. Se qualquer aglomerado de pedras é escultura, então nada mais é, nada mais é escultura. É tudo uma expressão subjetiva da atividade humana de valor relativo às impressões e não à técnica que, mais não é que o domínio da forma que perece, que deixa de existir.

 

A forma é, pois, importante. As regras são importantes. As restrições à liberdade, também na arte, são determinantes para dotar o ser humano de liberdade, precisamente, na criação. A arte mostra-nos como a liberdade sem limites é um método infalível para coartar a própria liberdade, por paradoxal que isto possa soar. Se quisermos matar a criação humana, basta dar-lhe toda a liberdade, destruir as estruturas, matar as formas. Veja-se como é infértil a arte contemporânea, sobrevivendo, envergonhada, sem o assumir, à custa das formas célebres do passado. O verso livre é infértil, assim como as expressões contemporâneas da música, da pintura ou da escultura, perfeitamente incompreendidas por um público sem norte. Porque sem forma, não há arte. Sem restrições à liberdade, não há liberdade. Porque se tudo é, então nada é.

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