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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

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Consciência de si no final de 2019

por Amato, em 27.12.19

O final do ano de 2019 fica marcado por várias notícias que esboçam bem o quadro de profundo surrealismo em que a humanidade se vai mergulhando.

 

A primeira, sobre a qual gostava de me debruçar hoje, é a que diz respeito ao orçamento de estado já apresentado para o próximo ano. Há vários aspetos pertinentes no documento. Por exemplo, perspetiva-se aumentos de salários e de pensões que não acompanham o aumento da inflação o que resultará numa perda efetiva do poder de compra de funcionários públicos e pensionistas. Dentro destes, a esmagadora maioria que dedicou o seu voto ao PS nas últimas eleições e, em simultâneo, menosprezou Bloco de Esquerda e PCP, deve dar-se por satisfeita: tem exatamente aquilo em que votou. Há que ter consciência do que se faz, ser-se crescido e assumir responsabilidade. Isto é a democracia a funcionar no seu esplendor. Parabéns para todos eles.

 

Outra questão interessante é a anunciada dotação extra para o Serviço Nacional de Saúde que, ao que parece, depois de tanto alarido e de tantos foguetes lançados, mais não é do que o valor em dívida que o SNS carrega às costas do ano anterior. Anuncia-se também uma alegórica contratação de novos profissionais mas, nem as contas parecem bater certo para o efeito, nem isso será suficiente para estancar a sangria contínua de profissionais para o estrangeiro a que temos assistido. Portugal parece continuar seriamente dedicado em investir na formação de quadros altamente qualificados para dotar os países mais necessitados como a Alemanha, a Inglaterra, a França, a Suíça, o Luxemburgo ou a Bélgica.

 

No final, com pompa e circunstância, quais arautos da sapiência, foi anunciado também que, para o próximo ano, o país passará a dar lucro com um superavit de 0,2%. Este anúncio foi recebido com entusiasmo, claro. A burguesia rejubila: sabe bem que aqueles milhões têm como destino os seus bolsos, de um modo ou de outro, haja resgates ou antecipações de pagamentos. O povo ignorante, coitado, pensa que o estado é a mercearia da esquina e também rejubila: «se está a dar lucro é porque estará a ser bem gerido». Qual será o seu espanto quando a próxima crise chegar e bater com estrondo, talvez a bordo da bolha imobiliária que cresce a cada dia ou talvez da turística, quem sabe, e verificar que aqueles 0,2% que o estado poupou de nada servem e que o estado, afinal, está ainda mais desprotegido e impreparado para lidar com os sacanas dos bancos e das empresas que dão cabo da economia e fogem daqui com o nosso dinheiro. Qual será o seu espanto? Por ventura, nenhum. Nessa altura arranjar-se-á um qualquer bode expiatório conveniente. Nós somos um povo muito judaico. Arranjamos um bode, carregamo-lo com todos os nossos pecados, matamo-lo e lavamos a consciência. Somos muito judaicos, somos. E também muito estúpidos.

 

É preciso não ter um pingo de vergonha na cara para anunciar a um povo como o nosso que o país vai dar lucro. O regresso ao tempo do fascismo das contas certas de Salazar está inteiramente consumado. É irónico que tenha regressado com uma mão dos partidos mais à esquerda. O povo que trabalha mal tem dinheiro para pôr comida na mesa depois de pagar a renda da casa,  não liga o aquecedor no pino do inverno porque não pode sobrecarregar mais a fatura da luz e anda de carro às pinguinhas por causa do escandaloso preço da gasolina; o povo que trabalha cada vez mais, cada vez com piores condições e até mais tarde, que até pela reforma a que tem direito tem que esperar mais de um ano, que morre devagarinho a desesperar por uma consulta ou por uma operação constantemente remarcada e adiada. A este povo o governo vem anunciar que o país vai dar lucro. O país vai dar lucro à custa do seu povo que trabalha, à custa literalmente do seu sangue. É isso. É desse sangue que são feitos esses 0,2% de lucro que o país vai dar. Não é uma coisa no ar, abstrata. É feita de sangue, do sangue dos trabalhadores que pagam impostos e sustentam este país. E todos achamos bem e rimos de contentamento.

 

O que seria natural era que o povo exigisse que aqueles 0,2% de lucro fossem aplicados no país, na melhoria da saúde e da educação e dos serviços públicos. Ou, para quem tem opinião diversa, que o estado procedesse a imediata redução na tributação dos seus salários, porque os seus impostos não são para o estado andar a lançar foguetes ou dar espetáculo. Devíamo-nos perguntar: para que serve um estado afinal? Para que serve?

 

Claro que é sempre possível contrapor o que escrevi com o aumento do consumo que tem sido verificado e que atingiu o seu clímax com os massivos gastos recorde desta época festiva. Claro que sim. Mas grande parte disso é crédito. Não se enganem. É cartões de crédito para pagar cartões de crédito e o governo tem fomentado essa mentalidade. Diz, por exemplo, aos seus trabalhadores que vão ficar muito melhor com os aumentos que vão ter quando, na realidade, vão perder poder de compra. O que é isso se não um engodo? O que é isso se não dizer às pessoas que continuem a gastar ou que gastem ainda mais por conta de um aumento virtual, irreal, dos seus rendimentos? O que tem sido grande parte da política deste governo se não um incentivo mais ou menos declarado ao crédito? O que é um incentivo ao consumo alicerçado em baixos salários e trabalhos precários?

 

Mas nada do que se passa é muito normal, pois não? A realidade morreu. O que existe agora é a surrealidade. Bem-vindos! Pedir às pessoas que tenham consciência de si, que tenham consciência do que fazem, do chão em que pisam, do mundo que as rodeia é pedir demais, sobretudo quando todos andamos de ombros encolhidos e cabeça baixa enterrada em algum ecrã a emprenhar pelos ouvidos, pelos olhos sonâmbulos adentro.

Obrigado, Que Fazer?

por Amato, em 20.12.19

Uma das melhores coisas que me aconteceram este ano foi ter tomado conhecimento deste blog: Que Fazer?.

 

Trata-se de um blog de opinião, revolucionário, que foca a sua análise no dramático impasse ideológico que se vive no nosso país, desde a saída dos tempos da troika aos acordos parlamentares que originaram a chamada “geringonça”.

 

Identifico-me amplamente com o conteúdo das opiniões expressas e das análises realizadas e acompanho cada nova publicação com muito interesse. Mas mais do que qualquer outra coisa, é a esperança que me dá ao ler cada novo post, é ler e reconhecer verdade em cada palavra e, com isso, purgar, ver-me livre desta solidão ideológica que se vinha adensando em mim.

 

Por tudo isto, mas também pela coragem, pelo desassombro, pela coerência e pela verticalidade, obrigado, Que Fazer?.

À sombra do brexit

por Amato, em 15.12.19

O resultado das eleições britânicas não merece grande discussão ideológica. A ideologia está ausente tanto das ilhas britânicas como fora delas. A época dos ideais já passou, ficou para trás. Não se esqueçam disso. O resultado não merece discussão porque venceu o único candidato que colocou como prioridade a resolução do brexit e isso foi suficiente já que foi diferenciador relativamente aos restantes candidatos e partidos políticos e também porque, ao contrário do que os jornais nos impingiam, o povo britânico tem sido inflexível, de facto, na sua decisão de sair da União Europeia. O brexit venceu esta semana, como já havia vencido nas eleições europeias deste ano, confirmando o resultado inicial do referendo de 2016. Ponto final.

 

Boris é, em si mesmo, uma péssima notícia. Trata-se de um inveterado mentiroso, propriedade que estima desde os seus tempos como jornalista falhado e à qual acrescenta uma índole grosseira e inculta. A reboque da sua reles personalidade e muito mais relevante do que a patetice do brexit, que acabará por ter um efeito frívolo nas economias britânica e europeia, parece que se prepara, sobre a égide de Boris, um desmantelamento em larga escala dos serviços públicos britânicos, uma liberalização massiva do país com particular incidência no seu serviço nacional de saúde.

 

Devia ser sobre isto que as ilustres personalidades que dirigem o nosso país deviam dissertar e mover as suas influências ao invés de estarem sempre tão preocupadas com os grandes interesses económicos e com as negociatas da alta burguesia internacional. É que uma boa parte dos emigrantes portugueses em terras de sua majestade são precisamente enfermeiros e médicos, mas também professores, que, durante a última década, emigraram em abundância para as ilhas britânicas e que arriscam-se a perder o emprego ou a verem as suas condições ainda mais agravadas quando comparadas com as condições dos trabalhadores equiparados nativos. Mas adiante, adiante, porque, sem passaportes ao barulho, isto é conversa que não interessa a ninguém.

 

Discutir a atuação política dúbia de Corbyn e do partido trabalhista é, por isso, absolutamente irrelevante. Nem o partido trabalhista, ou qualquer um da família “socialista”, merece qualquer tipo de ensaio de desculpabilização, nem isto quer dizer que, noutras circunstâncias, o partido trabalhista não pudesse ter tido um melhor resultado. Mas as circunstâncias foram estas e não outras. O povo queria o brexit e o brexit será, finalmente, concretizado. O pior será, todavia, o que se está a preparar à sua sombra.

Aviso

por Amato, em 13.12.19

O prato que se está a cozinhar na política portuguesa é perigoso. Preocupa-me que a extrema direita esteja a marcar o ritmo mediático da política. Preocupa-me que esteja constantemente nas primeiras páginas e a abrir os noticiários — e não é só nos órgãos da trupe do Correio da Manhã. Preocupa-me que o parlamento esteja convertido num palco para um conjunto de partidos sem ética nem espinha dar espetáculo, conspurcar o debate e denegrir a república. Do modo que as coisas se apresentam, parece que o que quer que se possa fazer para combater André Ventura e o Chega é virado do avesso e usado em seu favor. Devemo-nos começar a preparar para o que virá a seguir a isto.

O escape de que precisamos para continuarmos a viver como vivemos

por Amato, em 06.12.19

Guardarei para sempre as palavras de Greta Thunberg à chegada a Lisboa, vinda das Américas, depois de atravessar o Atlântico de barco:

 

Queremos que as pessoas no poder façam o que tem que ser feito.

 

Foi qualquer coisa assim, perdoem qualquer coisa na minha tosca tradução. A sua natureza rudimentar não impede, todavia, a compreensão do seu conteúdo: queremos que as pessoas no poder (the people in power) façam o que tem que ser feito (do what has to be done).

 

São palavras que compõem e se destacam num discurso redondo, que se justifica a si próprio e que não contém rigorosamente nada. Exige-se às “pessoas no poder” que “façam o que tem que ser feito”, seja lá o que isso for, porque alguma coisa tem que ser feita e porque as “pessoas no poder” podem fazê-lo, porque estão no poder, provavelmente. “O que tem que ser feito” não é dito. “As pessoas no poder” são tantas e tantas que confere à afirmação uma generalidade ainda maior. Muitas — das “pessoas no poder” — abraçam Greta e discursam com ela nas muitas ocasiões em que Greta fala. Também vimos isso em Lisboa.

 

Por não dizer nada, este discurso é extremamente poderoso. São palavras que representam milhões e milhões, uma sociedade de inconsequentes, de ignorantes, de gente que fala simplesmente porque pode mas que não acompanha o discurso com qualquer vestígio de conhecimento, de inspeção ou raciocínio lógico. Se o fizessem, havia muita coisa para pôr em causa, muitos inimigos reais ganhariam forma e deixar-se-ia de falar nas “pessoas no poder”. Falar-se-ia deste modo de vida, do consumismo, na sobre produção e sobre exploração dos recursos do planeta, nesta economia de acumulação de lucros e onde as pessoas são apenas ferramentas descartáveis e, enfim, de um momento para o outro, houvesse, repito, um mínimo de células cinzentas a trabalhar em conjunto, e todo o sistema capitalista mundial que governa as sociedades seria posto em causa.

 

Infelizmente, pedir às massas populares que façam um melhor uso do seu intelecto do que o que é exigido para jogar joguinhos repetitivos no smartphone ou no tablet é pedir demais, é almejar a utopia. E, deste modo, Greta Thunberg, em vez de ser o símbolo de uma juventude mais interveniente e que exige fazer parte do pulsar das sociedades, reduz-se simplesmente a uma advertiser, a uma vendedora — uma excelente vendedora — de carros elétricos, ao serviço dos interesses momentâneos do capitalismo, esse mesmo que destrói diariamente os nossos recursos e o nosso planeta.

 

Não tenho nada contra Greta Thunberg. Absolutamente nada. Aliás, ao contrário de alguns que começam agora a desiludir-se com o percurso da jovem, eu nunca esperei nada de uma rapariga de 16 anos que já não frequenta uma escola há sabe-se lá quanto tempo. Eu não espero que uma rapariga de 16 anos, que tem absolutamente tudo a aprender, me ensine a viver a vida, me dê princípios e me diga o que fazer ou o que é certo ou errado. Não. Desculpem lá. Bem sei que isto de pôr a juventude a mandar nos adultos, os filhos a dizer aos pais o que fazer está muito na moda, mas não, não compro. Isto está tudo ao contrário.

 

Mas a aclamação da Greta não se explicará com apenas um argumento, será, antes, uma mistura de duas ou mais coisas. Porque se a Greta gritasse algo muito mais consequente como «Abaixo o capitalismo», a sua epopeia terminaria ainda antes de começar, porque ninguém quer esse tipo de conversa, porque todos gostamos muito do capitalismo, de um telemóvel novo por ano e de todas as outras gadgets e das Black Fridays, das febres de comprar necessidades que não tínhamos ontem. A Greta, no fundo, é aquele escape de que precisamos para nos sentirmos melhor. É completamente segura, não ofende, nada de mal acontecerá, nenhuma revolução a sério surgirá dali, mas faz-nos sentir bem, limpa-nos a consciência, dormimos melhor à noite. Afinal, é uma menina que está a tentar salvar o mundo, não é?

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