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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Haja imaginação

por Amato, em 09.06.19

É necessária uma dose generosa de imaginação para pensar que o governo, sendo acionista com metade do capital da TAP, nada sabia sobre os prémios obscenos distribuídos esta semana pela empresa aos seus “gestores de topo”.

 

Em boa verdade, é irrelevante aqui para o caso que o governo detenha 50%, ou 25%, ou 10% que sejam, do capital da empresa. Até poderia nem ser acionista. Por um lado, toda a gente conhece a substância de abjeta promiscuidade entre o mundo dos negócios e o governo. Ao longo dos tempos, temos assistido — vimo-lo, ninguém nos contou — a abundantes exemplos de nomeações, passagens diretas de membros de variados governos para as administrações de bancos e empresas que, em tese, nada teriam a ver com o estado. Mas aconteceram. Por outro lado, também é claro que esta reversão da privatização da TAP anunciada no início deste governo mais não consistiu do que uma encenação em que se fingiu que o governo continuaria a mandar na empresa através da nomeação de uma série de personagens para uma comissão executiva ou de gestão. Na prática — seria importante que disto tivéssemos plena consciência — a TAP, tal como a conhecíamos, foi desmantelada para sempre. Foi entregue a um grupo de cavalheiros de trémulo “prestígio” na “gestão” de empresas do género no continente americano, e este grupo de cavalheiros fará na TAP o que desta empresa bem entender. Tendo-lhe aberto a porta do negócio europeu, o governo terá uma próxima palavra a dizer quando — e apenas quando — for preciso avançar com o dinheiro para tapar os proverbiais buracos que hão de chegar. Até lá, e porque o capital recompensa sempre os seus servos, ei-los, os prémios de produtividade para os “gestores de topo” da TAP, responsáveis por supressão de rotas, concentração da atividade em Lisboa, definhamento dos serviços essenciais ao desenvolvimento do país e, claro, de um ano recorde em termos de prejuízos. Reparem que isto é obra: na Caixa Geral de Depósitos, por exemplo, Paulo Macedo reduziu o maior banco do país a metade e, com isso, apresentou lucros. Na TAP nem isso foi conseguido. Há que valorizar o facto!

 

Mas voltando ao princípio do texto, é extraordinário pensar que o governo, depois de ser acionista maioritário, depois de ter a “família” espalhada pelos conselhos de gestão ou administração da empresa, depois de terem sido lavrados os contratos que preveem precisamente estes prémios que foram pagos aos “gestores de topo”, venha agora, depois de o assunto vir a público — sublinhe-se este facto, porque é sempre depois, nunca é antes —, dizer-se muito chocado e muito contra.

 

Haja imaginação. Haja imaginação que é o que é preciso.

O PAN, a ecologia e a sociedade

por Amato, em 08.06.19

Nas últimas eleições europeias, cento e sessenta e oito mil e quinhentas e uma pessoas decidiram entregar o seu voto ao PAN, o partido chamado Pessoas-Animais-Natureza. Esta expressiva votação terá sido uma mistura entre o voto de protesto, tão costumeiro por altura das europeias, e o consubstanciar da moda do momento que são as alterações climáticas e as preocupações ambientalistas. No PAN, porém, a palavra natureza parece ser secundarizada relativamente à palavra animais e não se trata apenas duma questão de ordem na posição na sigla do partido, uma vez que a palavra pessoas, que aparece primeiro, não parece constar, nem vestigialmente, das preocupações do PAN. É, sobretudo, uma questão de prática e de prática populista.

 

O PAN procura, desde sempre, apelar a uma parte da população urbana, cada vez mais significativa, que vive mais ou menos isolada nos seus apartamentos, e que valoriza de forma exagerada, pouco saudável, a importância da companhia dos seus animais de estimação. Em regra antissociais, muitas vezes desligados da realidade que os rodeia, estas pessoas — que todos nós sabemos identificar — operam sobre os seus cães, gatos e outros uma espécie de humanização forçada, uma “gentificação” grotesca e este partido, o PAN, aproveita-se disto mesmo para medrar e crescer eleitoralmente através de propostas que, por muito irrealistas que sejam, vão de encontro a este eleitorado. Permitir que animais de estimação acedam a restaurantes, a título de exemplo, parece ser um descarado ataque aos padrões mínimos de higiene e salubridade que estruturam a sociedade moderna e que foram tão difíceis de implementar. Mas o PAN corporiza esta aparente erosão de bom senso daquela parte da sociedade que não percebe como nos empurra coletivamente com medidas como esta para as sociedades medievais de promiscuidade entre pessoas e animais.

 

Revelando-se arguto em todo este processo, os dirigentes do PAN não se arriscam a falar muito. Não se alongam nos discursos e nos problemas. Inteligentemente, agarram-se a uma ou duas palavras de ordem e não se comprometem politicamente. Com efeito, em quatro anos de mandato no parlamento português, não se conhece muito acerca do que o PAN e o seu deputado — que acho que é também líder ou porta-voz —, André Silva, pensa sobre o que quer que seja que não seja touradas ou afins.

 

Agora que o PAN vai para o Parlamento Europeu, começa-se a destapar um pouco do véu que o tem envolvido politicamente. Muitas mulheres, por exemplo, que votaram no PAN por causa dos seus Bolinhas, Snoopy ou Rex, têm, por ora, os seus cabelos em pé quando descobriram, pelos jornais, que o PAN quer pô-las a usar copos menstruais em vez dos habituais pensos e tampões. Diz André Silva: “Financeiramente, [o copo menstrual] é mais vantajoso, responde a uma necessidade cíclica feminina e minimiza os danos sobre o planeta”. Não, não responde. Qualquer mulher que tenha um mínimo de padrões de higiene e limpeza dir-lhe-á isso mesmo. Mas para as mulheres que não se acreditam no que escrevo há uma boa solução: experimentem o copo vaginal. É que só experimentarão uma vez. E essa vez que seja ao fim-de-semana, que é para não serem obrigadas a abandonar os trabalhos.

 

Há também as faturas em restaurantes de luxo que servem carne e peixe de categoria, mas isso é entrar numa área que não considero tão interessante. O que me interessa falar é sobre a parte ideológica do PAN. O problema da ecologia e dos perigos que ameaçam a sustentabilidade do nosso planeta não se reduz aos animais, nem se resolve com medidas particulares como copos menstruais. Pelo contrário, os problemas que nos afetam são problemas de fundo, são problemas estruturais que envolvem a organização das nossas sociedades, mas também do ponto de vista económico, e o nosso modo de vida que nos é incutido desde o berço. É irrealista, demagogo e populista pensar que a sobreprodução alimentar, a sobreprodução de plásticos, de bens, a hiperbolização do consumo, transversal em toda a sociedade, e a consequente produção estratosférica de resíduos, quantidades impossíveis de tratar e que vão poluir os nossos rios, mares, os solos e a atmosfera, possam ser controlados através da imposição de hábitos de reciclagem ou da utilização de sacos de papel ou copos menstruais.

 

Um partido ambientalista que seja sério tem, portanto, que tomar posição sobre estas matérias da organização social e económica do país. Porque se o capitalismo se baseia na sobreprodução e no incentivo ao consumo, se essa é a natureza desse sistema, então um partido ecologista tem que ser capaz de rejeitá-lo e de se assumir como antissistema e anticapitalista. Não o fazendo, reduzir-se-á a um partido demagogo e populista que acabará com o fim das febres mediáticas ambientalistas, com o fim das causas de algibeira ou com uma qualquer revelação de faturas em restaurantes de luxo de peixe ou de carne.

 

Mas também isto, de facto, vai de encontro ao eleitorado que vota PAN. O PAN oferece aos seus eleitores um voto livre de responsabilidade, livre de verdadeiras escolhas e repleto de boas e vãs intenções. Por isso mesmo dizia, no princípio deste texto, que o voto no PAN era uma mistura que incluía o voto de protesto, manifestação — acrescento — de uma sociedade repleta de perfeitos incapazes de exercer a cidadania e a democracia, através da educação, da cultura, da participação política e do voto. Em concordância, observe-se aquela tentativa aberrante de pôr os cidadãos a votar a partir dos dezasseis anos de idade. Só por ignorância, ou para tentar capitalizar politicamente dessa mesma ignorância, é que se pode propor algo tão surreal.

 

Neste sentido, mais do que a eleição de André Silva, há quatro anos, para o Parlamento português que, como disse, pouco ou nada acrescentou ao nosso conhecimento da ideologia do PAN, a eleição de um eurodeputado para o Parlamento Europeu tem uma vantagem imediata: vamos saber de que lado do parlamento e em que cadeira se senta esse parlamentar. Sentar-se-á à direita ou à esquerda? De que grupo parlamentar europeu fará parte? Mesmo continuando a dizer nada de nada sobre o essencial, poderemos pelo menos ver quem serão os seus amigos na Europa. E, segundo consta, os amigos europeus do PAN não serão os mais aconselháveis...

A farsa do dia d prossegue

por Amato, em 07.06.19

Chamo a atenção para um artigo que escrevi há três anos. Nada mudou. Permanece tudo tão na mesma que nem modesto proveito se poderá retirar em ensaiar um outro texto. Entusiasma-se o discurso. Erguem-se as vozes para imprimir nas consciências a mentira. Este ano até se juntou americanos a britânicos e franceses, com aquele triste personagem Macron a inflamar o discurso como é seu timbre. “Os americanos vieram e salvaram a Europa”. Que graça! Está para nascer coisa que os americanos hão de salvar. Mas a farsa do dia d prossegue, mais forte, entranha-se profundamente nas coisas que mexem e, para a maioria de nós, torna-se verdade. Coisa diversa nem sentido fará. A mim, pela minha sanidade mental, pelo respeito que tenho por mim próprio, por tudo o que considero digno e valioso, resta-me resistir.

Agustina e algumas reflexões

por Amato, em 04.06.19

Morreu Agustina Bessa-Luís e a sua morte suscitou em mim um conjunto de reflexões. Procurarei apresentá-las de forma clara.

 

De imediato, o mundo intelectual desfez-se num pranto de elogios. Alguns apontaram mesmo a pena de Agustina como transformadora do panorama literário português e eu dei por mim a pensar... Quem nunca leu Agustina nunca saberá se o que dela por estes dias dizem e escrevem é verdade ou, simplesmente, enfeite. Quem nunca leu Agustina — e, provavelmente, nem sequer se importa com isto de que escrevo — limitar-se-á a repetir ou a contrariar o que é dito, restringido, por uma de duas vias, à pobre condição de condenado: ou a crer numa espécie de religião imposta por sacerdotes externos ou a descrer por mera convicção infundada, num ato de rebeldia meramente ignorante.

 

A morte de Agustina é reveladora, por isso, da condição de grande parte da sociedade. No desenlace das últimas eleições europeias, recordistas em abstenção do povo português, de um povo que se queixa que todos são iguais e de que não há alternativa, mas que, indelevelmente, acaba sempre por eleger os mesmos, e que entrega parte caprichosa, mas relevante, dos seus votos a partidos políticos dos quais pouco sabe, quer-me parecer que na morte de Agustina não poderíamos encontrar melhor metáfora, melhor imagem, para esta sociedade de amblíopes culturais que ora aceitam o que lhes dizem acriticamente, ora rejeitam-no do mesmo analfabeto modo, porque não podem fazê-lo de outra forma, porque têm um espaço vazio onde a cultura e o conhecimento deviam estar.

 

Depois deste pensamento primeiro, aflorou-se-me um outro, sempre recorrente, que tem que ver com o sistema educativo, concretamente no que concerne a disciplina de Português. A falta de promoção da leitura ao nível desta disciplina é absolutamente evidente. A disciplina de Português prefere perder o seu tempo em vãs tentativas de ensinar uma gramática infértil de complementos oblíquos e predicativos de sujeito paridos não sei bem de onde, intercalados com resumos analíticos e secos de um punhado de obras nunca lidas pelos alunos que aprendem a repetir banalidades sobre o realismo e o existencialismo literários para passar nos testes. Aos alunos devia-se dizer, simplesmente, «leiam»! E apontar obras, algumas, relevantes, para que tivessem contacto com pelo menos uma de cada escritor importante. Este devia ser o precioso pretexto que a disciplina de Português devia deixar em cada aluno que tem. Que leiam. Que digam o que entenderam. Que expliquem de que forma é que a obra os transformou por dentro. Isto devia ser o mais importante. Mas não é. Deixo aqui um desafio aos meus leitores para que percam uns minutos do seu tempo para descarregar da internet o último exame de Português do derradeiro ano de escolaridade obrigatória dos nossos jovens aprendizes. Descarreguem e analisem por vós. É surreal: putativos especialistas em linguística que, na prática, não conhecem os autores, não sabem ler, nem escrever.

 

Eu nunca li Agustina. A escola nunca me deu o pretexto de a ler, aquele pretexto de que falava acima. Para além disso, por esta ou aquela razão, nunca segui um caminho que me levasse à sua leitura. Diria que o estilo e a temática da autora nunca me cativaram e preferi ler outros autores. Assim, faço parte daqueles que não podem e não têm o direito de ter opinião sobre a autora. Reparem que neste campo, a política é muito diferente. Quem nada sabe, quem desconhece até o nome dos governantes, tem opinião sobre tudo e de tudo reclama. Por isto mesmo, eu não sei dizer se Agustina foi ou não transformadora da literatura portuguesa. Não sei dizer se cada elogio foi adequado, se pecou por escasso ou por excesso. Não sei. De qualquer modo, se Agustina Bessa-Luís foi efetivamente tudo o que dela dizem hoje, sobre a data do seu falecimento, então uma coisa podemos concluir: trata-se de uma autora muito pouco estimada e valorizada pelo país — pelo estado e pelo povo, não a academia ­— que pouco ou nada a lê e pouco ou nada a conhece.

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