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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

A época dos animais de estimação

por Amato, em 17.11.18

À hora a que escrevo este texto, testemunhamos o final do ano de 2018. Há duas centenas de anos, talvez menos, as ruas das cidades deste país eram partilhadas entre pessoas e animais. Os animais eram parte fundamental do sistema de transporte que permitia às pessoas deslocarem-se  e transportarem bens e mercadorias. Como resultado desta proveitosa simbiose, as vias de comunicação eram compostas de uma mistura de terra batida e excremento animal, uma combinação não muito favorável à salubridade pública.

 

A gradual substituição do animal pelos veículos motorizados teve esta vantagem indelével: as ruas passaram a ser mais limpas e o ambiente envolvente mais higiénico e saudável. Sendo certo que outras medidas, como a generalização do saneamento básico e a canalização de água potável, tiveram uma preponderância maior neste domínio, é absolutamente insofismável que a drástica redução de animais na via pública teve uma contribuição assinalável. Aliás, indo mais além, analisando o que constituía prática comum nas aldeias deste país onde a interação diária entre pessoas e animais era ainda mais promiscua, os ganhos em termos de saúde pública, de propagação de doenças, de longevidade da vida humana, foram determinantes.

 

Hoje, na passagem para o ano de 2019, assistimos a uma experiência diferente. Faltam sensivelmente dez minutos para as sete da manhã deste sábado e eu sei — tenho a certeza — que, quando sair para ir comprar o pão para o pequeno almoço na padaria ali da esquina, vou ter que suster a respiração numa boa parte do caminho e tomar muita atenção ao pavimento para manter as solas dos sapatos limpas. O passeio desta rua onde vivo, em pleno centro da cidade, encontra-se banhado a urina matinal de cão e são mais os metros quadrados contendo fezes de animal do que os que se encontram limpos.

 

Não é objetivo deste texto apresentar uma queixa. Longe disso. Trata-se apenas de uma constatação: tal como nos séculos anteriores ao décimo quarto se gritava “Água vai!” e se despejava “águas lixosas” pela janela diretamente na via pública, tal como até praticamente ao século XX cavalos, burros, parelhas de bois e outros animais partilhavam a via pública com o ser humano e nela deixavam os seus naturais dejetos incontidos, hoje, no século XXI, praticamente no ano de 2019, achamos normal fazer dos passeios públicos, dos jardins e espaços verdes, as retretes dos nossos animais.

 

Entretanto, criou-se a regra de etiqueta facultativa de se recolher os dejetos com um saco de plástico. Pouca gente o faz e, para não o fazer, levam os cães de noite ou madrugada para evitar testemunhas. Mas mesmo fazendo-o, isto é, mesmo recolhendo o dejeto do passeio com um saco de plástico, não deixa a coisa de ter sido feita, não é? O passeio não deixou de ter sido conspurcado com dejetos de animais e não deixou de estar sujo. Apenas está menos sujo. Agora suponham que uma criança que circula ali, naquele mesmo espaço, tropeça e cai, apoiando as mãos no pavimento meticulosamente emporcalhado por dejetos de animais. Não há problema, deve haver, afinal, algum antibiótico para estas coisas! A liberdade de um cão e do seu dono é mais importante do que a saúde e bem estar de uma criança. Dito desta forma, até custa a interiorizar.

 

Vivemos a era dos animais domésticos que, tendo as suas virtudes que não menosprezo, acarreta consequências muito sérias, pois vem associada a uma sociedade cada vez mais isolada, sozinha e antissocial. O animal parece adquirir mais direitos do que a pessoa humana, embora vivam frequentemente confinados em apartamentos minúsculos. Trata-se de uma ilusão, todavia: o animal continua a servir unicamente os interesses dos seres humanos. Hoje em dia, esses interesses já não são o puxar uma carroça ou outra coisa qualquer. São a simples necessidade de afeto que os seus donos não conseguem adquirir de outra forma, socializando, porque não podem, porque não querem ou porque já desistiram de o fazer.

Diz-me com que andas e dir-te-ei quem és

por Amato, em 11.11.18

Desculpem-me os meus amigos de esquerda. Desculpem-me particularmente aqueles, que muito prezo, que ainda se desmultiplicam em desculpas para este governo, em ensaios de defesa desta “geringonça” que logrou estabelecer neste país o que a direita que a precedeu tanto tentou, que continuam a desenrolar putativas boas intenções que só subsistem, ainda, nas suas próprias cabeças. Desculpem-me.

 

Este governo é um engodo tão grande que daria uma boa anedota se todos estivéssemos mais atentos. É que não há uma coisa que o executivo se proponha a fazer que efetivamente leve a cabo, assim, de forma limpa e transparente. Pelo contrário, depois de anunciar pomposamente as medidas, tudo faz para não as cumprir.

 

Não me canso de evocar, aqui, em todas as oportunidades que tenho, a baixeza das cativações orçamentais. Em todas as áreas, indiscriminadamente, o governo acorda com os seus interlocutores parlamentares determinados gastos orçamentais associados a objetivos negociados e bem definidos, para depois reter verbas e não autorizar os gastos acordados, faltando com a palavra dada. Foi assim em diversas áreas, ano após ano, orçamento após orçamento — na educação, na saúde, na justiça, nos serviços públicos em geral —, mas talvez a mais simbólica que tenha vindo ao espaço mediático tenha sido a questão da ala pediátrica do Hospital de S. João no Porto. A situação é tão inenarravelmente miserável que continua a ser discutida no orçamento de estado deste ano depois de já ter sido incluída no do ano passado. Continua a ser discutida, bem entendido, porque o governo não cumpriu com o que se comprometeu.

 

O azar dos utentes da ala pediátrica do S. João, bem o sabemos, é não se constituírem como banco ou fundo de investimentos. Se assim fosse, ninguém tenha dúvidas, quebrar-se-iam nesse mesmo momento todas as barreiras orçamentais, todos os limites do défice e investimentos extraordinários seriam autorizados com urgência. Também aqui se vê bem para quem é que este governo governa.

 

Mas as coisas não ficam por aqui. Parece não haver término para a vilania orçamental deste executivo. Viemos a saber no final desta semana que até mesmo aquela medida dos manuais escolares gratuitos — aquela singela medida de natureza frívola, de alcance pueril, que não aquece nem arrefece no contexto dos graves problemas estruturais que afetam a nossa débil sociedade, com vestigial impacto orçamental —, tem sido cumprida de forma impostora, com a generalidade das livrarias credoras de altos valores referentes aos livros trocados pelos vouchers. Muitas ameaçam não alinhar mais neste embuste já a partir do próximo ano letivo.

 

Não há nada que seja implementado por este governo de forma limpa e transparente. Ao longo desta legislatura, o governo tem-se comportado como uma pessoa falsa, de mau caráter e sem escrúpulos. Diz que faz uma coisa e não faz. Promete uma coisa e esquece-se, diz que não foi bem assim. Chegámos ao ponto de discutir posições de vírgulas no texto orçamental como reflexo inequívoco da má fé que está em jogo.

 

Palavra que não consigo entender como, à esquerda, tanto se defende uma pessoa (coletiva) desta baixeza moral, deste calibre humano. Não consigo entender como se continua a negociar, sequer a falar, com este governo. O maior problema é que, cada dia de vida a mais desta “geringonça”, cada dia mais que se passa a lidar com este governo, a esquerda vai-se conspurcando de um bafio, de um bolor, que não sairá com um simples banho. Já dizia Goethe, e o povo antes dele, Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és.

Como a História é uma coisa curiosa, hem?

por Amato, em 04.11.18

Como a História é uma coisa curiosa, hem? Via hoje as cerimónias dos cem anos do armistício da Primeira Grande Guerra, ouvia as palavras comprometidas do nosso Presidente, incomodado que anda nestes dias com a questão de Tancos e com a omnipresente ideia de nós sabermos que ele já sabia — acho que já não oferece beijinhos, nem se disponibiliza para selfies —, ao mesmo tempo que se assistia a uma parada militar mais ou menos caricata. Onde é que já se viu celebrar a paz com uma parada militar? Não sei. Já se deve ter visto, com certeza. A mim, não se me afigura com muito sentido.

 

Mas, como a História é uma coisa curiosa, hem? Vejam bem: celebramos um armistício de uma guerra como se fosse uma guerra qualquer, como se fossemos uns como os franceses ou os ingleses, como se nos pudéssemos chamar de “aliados”, assim, com propriedade! Celebramos com um sentimento de orgulho que até parece autêntico! Não lhe denoto, com efeito, vestígio algum de fingimento! Pergunto-me: de onde vem tal sentimento?!

 

Acaso não saberemos dos contornos desastrosos, trágicos mesmo, da nossa participação na Primeira Grande Guerra? Não ensinam isto às gerações mais jovens? Ou estas já não se lembram porque nunca lhe dedicaram especial atenção? O que somos nós, afinal, no meio disto tudo, desta sociedade feita feira de entretenimento? Verbos de encher? Carne para canhão?

 

Não exageremos, pois. Carne para canhão não seremos nós na justa interpretação da idiomática expressão. Esse papel foi dedicado aos nossos antepassados que participaram na Primeira Grande Guerra, homens de trabalho, pais de família, maridos, destacados e alinhavados às pressas, para serem enviados para França, para servirem como moeda de troca para favores de política internacional. Esse batalhão mal amanhado seria, esse sim, usado literalmente como carne para canhão em batalhas na região da Flandres, com destaque morbidamente particular para a Batalha de La Lys, em abril de 1918, com a perda desnecessária, evitável, dizem os entendidos, de milhares de vidas portuguesas, joguetes nas aprumadas mãos dos generais ingleses e franceses.

 

O Presidente da República faria bem em evocar esta desgraça, esta humilhação que nos foi infligida pelos nossos “eternos aliados” que nos usaram como carne para canhão, em vez de jogar conversa fora, em vez de recitar adjetivos sobre conceitos vagos e indeterminados como é tão seu apanágio. Podia aproveitar para o fazer quando visitar Paris, na próxima semana, para participar das celebrações que lá ocorrerão. Daria ao mundo, estou certo, uma imagem bem diferente do nosso país.

 

Adicionalmente, a participação portuguesa nesta guerra cujo fim se evocou hoje terá sido o princípio do fim da Primeira República que viria a ter o seu desenlace na ditadura militar. A guerra empurrou o país para a penúria, para a miséria e para as mãos do fascismo. É claro que o Presidente da República não falará nada sobre este assunto. Não é por desconhecer. Afinal, Marcelo é o afilhado do último ditador deste país. Ele sabe.

 

Como a História é uma coisa curiosa, hem? Desculpem a repetição. Cem anos parecem ser o suficiente para lavarmos completamente as memórias de um povo e para transformar o branco em preto e o preto em branco. Estou a exagerar: hoje em dia, as redes sociais e os smartphones fazem o mesmo numa questão de horas.

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