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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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Ventania, nestes dias

por Amato, em 31.08.18

Há dias em que tudo parece correr mal, tudo parece cinzento e desprovido de esperança, para, no fim da jornada, recebermos um sinal que nos enche de motivação e que nos diz que, afinal, não devemos perder o nosso rumo, nem a nossa persistência.

 

Obrigado à Ventania pelas generosas palavras que salvaram o meu dia. Aproveito também para retribuir e aconselhar o seu blog e as leituras interessantes que lá podemos encontrar.

A política e a batata frita

por Amato, em 26.08.18

Há três tipos de pessoas, no que às batatas fritas diz estrito respeito.

 

Há aquelas que gostam de batatas fritas e só comem batatas fritas, pois, mesmo que eventualmente não morram de amores por elas, consideram que não há melhor forma de confecionar a batata do que fritando e nenhum outro alimento fornecerá níveis de satisfação e saciedade semelhantes. Assim, passam uma vida inteira a ingerir convictamente batatas, e apenas batatas, na sua variante frita.

 

Depois, há aquelas que gostam de batatas fritas e consideram os seus méritos, mas apreciam também outras formas de confeção da batata, isto é, conferem algum relevo à batata assada, a murro, à batata cozida e até mesmo ao puré de batata. Bem vistas as coisas, são pessoas que, tais como as do primeiro grupo, também só comem batatas, fazendo, todavia, questão de variar a forma como as ingerem.

 

Finalmente, consideremos as pessoas, verdadeiramente revolucionárias no que à batata frita diz respeito, que creem que a batata frita e a batata per si são extremamente redutoras no contexto do hidrato de carbono de uma alimentação saudável. Com efeito, consideram também o arroz, a massa, assim como leguminosas importantes como o feijão, a lentilha, a ervilha e o grão de bico.

 

Assim como relativamente à batata frita, também a política pode gerar semelhante divisão da população. Na minha ótica, o nosso problema assenta no facto de termos demasiados indivíduos pertencentes ao primeiro e ao segundo grupo de pessoas. Normalmente, ao primeiro grupo chamamos de “direita” e ao segundo de “esquerda”, mas isto são apenas meras designações. São pessoas que concordam com o essencial que é comer batata e comer batata a vida inteira, seja ela frita ou de outra forma qualquer, e não consideram alternativas. Perdão: na frase anterior troque “batata” por “capitalismo” e “frita” por “selvagem” ou “liberal”, que é menos agressivo. Assim, compreende-se melhor.

 

Faltam pessoas do terceiro grupo, verdadeiros revolucionários, que ousem imaginar, sonhar com outras formas, com outros modelos políticos! E que não temam fazê-lo! É fundamental fazê-lo. A estes por convenção chamamos de “radicais” ou “comunistas”. Sem estes, estamos condenados à estagnação, à autofagia e à implosão da humanidade.

Génova e Entre-os-Rios

por Amato, em 18.08.18

Olhar para a tragédia ocorrida em Génova — sim, para variar, esta é uma verdadeira tragédia — com a queda de uma ponte que fazia parte do trajeto quotidiano de largos milhares de italianos, usada por muitos outros turistas europeus e mundiais para iniciarem a sua exploração do país por terra, pela Ligúria, Toscana, Piemonte, Lombardia, tem, como consequência imediata, acordar a minha escassa memória. Lembro-me de uma outra ponte que caiu, de uma outra tragédia que se abateu, entretanto esquecida.

 

Corria o terceiro mês do primeiro ano do novo milénio do calendário gregoriano. Ao quarto dia desse mês, um dos pilares da ponte Hintze-Ribeiro, que ligava Castelo de Paiva a Penafiel, na região de Entre-os-Rios, desabou levando ao colapso de um dos tabuleiros da ponte e, por consequência, à morte de cinquenta e nove pessoas que faziam, na altura, a travessia.

 

Há sempre o perigo da injustiça, da falta de bom senso, do oportunismo, até, quando se procura esboçar paralelismos rápidos entre situações com semelhanças imediatas e evidentes mas com contextos necessariamente diferentes. Sinto-me, todavia, forçado a fazê-lo. Ainda disponho de alguma memória e, por isso mesmo, a escrita destas palavras resulta inevitável.

 

Vou começar por contar o que aconteceu em Portugal nos tempos que se seguiram à tragédia. Salto aquela parte de mediatização da dor e de histeria dos meios de informação que durou o que tinha a durar mas não merece ficar na história. O governo passou incólume pela tragédia através da oportuna demissão voluntária do então Ministro do Equipamento Social de seu nome Jorge Coelho. Isto da responsabilidade política é coisa de natureza singular e sinistra. O ministro demitiu-se, o governo passou incólume, nenhuma consequência efetiva do ponto de vista da lei foi extraída disso, ninguém, por parte do governo, pagou pelo que aconteceu. Pelo contrário, algum tempo depois, o mesmo Jorge Coelho viria a ser contratado para um alto cargo na Mota-Engil, uma das maiores empresas de... construção civil e obras públicas.

 

Não é isto verdadeiramente incrível? Um governante responsável político pela queda de uma ponte é contratado para uma posição de destaque numa empresa de construção civil e obras públicas, que por acaso é a campeã dos concursos públicos e das adjudicações diretas neste país. Imagine-se se a mesma lógica fosse aplicada aos outros setores do país? Um professor que não dá a matéria e falta às aulas promovido a diretor da escola? Um médico que, por negligência profissional, prejudica a saúde dos seus pacientes promovido a diretor de um hospital?

 

Ao mesmo tempo, aventou-se que a razão da queda da ponte, há muito tempo sinalizada pelas sucessivas inspeções, ficou a dever-se à excessiva atividade de extração de areias do rio que conduziu a uma debilitação do suporte de um dos seus pilares que cedeu com o aumento do caudal do rio originado pelas chuvas daqueles dias. Moveram-se processos contra as empresas de extração de areia. Ninguém — absolutamente ninguém! — foi condenado. O governo pagou indemnizações aos familiares das vítimas, participou em homenagens e erigiu um monumento perto do local da tragédia. Os corpos de algumas das vítimas nunca chegaram a aparecer.

 

Não sei o que se vai passar agora em Itália, não sei como vai ser a sequência dos eventos após a queda da ponte de Génova. No fim de contas, pode até ser que tudo seja muito parecido com o caso português. De momento, gostava de salientar algumas diferenças.

 

O governo italiano parece ter assumido uma atitude muito diferente para com a empresa privada que geria a Ponte Morandi imputando-lhe responsabilidades claras e exigindo consequências legais e criminais. Aqui, em Portugal, ainda hoje as coisas são distintas. As empresas privadas recolhem os dividendos da exploração das estradas e das pontes através das portagens e ainda recebem complementos estatais para garantir lucros, para além das obras das pontes serem asseguradas pelo estado. É o caso, por exemplo, das obras que se avizinham na Ponte 25 de Abril. São as vantagens das privatizações no seu mais brilhante esplendor.

 

O povo italiano também parece ser feito de uma outra massa do que o povo português. De Itália, chegam notícias de que diversas famílias rejeitaram participar no funeral coletivo promovido pelo governo italiano e fazer parte do que consideram ser uma farsa, pelo facto do governo ser o último e principal responsável pelo ocorrido. Em Portugal não foi assim. Parece que não há nada que uma indemnização e um monumento não resolvam.

 

Entretanto, ainda me recordo de especialistas que, na altura da queda da ponte portuguesa, em 2001, diziam que outras pontes portuguesas corriam idênticos riscos. Em dezoito anos nada aconteceu. Não há-de ser nada, portanto.

A era da pseudociência II

por Amato, em 12.08.18

Temos que ter plena consciência disto: vivemos numa era em que os lideres conseguem justificar, categoricamente, que o problema dos incêndios se deve a alterações climáticas sem que haja qualquer voz que se erga para dizer o contrário. Por ventura, será verdade? Sejam, pois, bem vindos à era da pseudociência que serve de suporte para se levar a cabo a destruição de qualquer conceito de bom senso nas sociedades em que vivemos.

 

Patrocinados pela classe burguesa e com o intuito do exercício do controlo global das massas, a pseudociência estende os seus tentáculos a todas as áreas humanas. Baseia-se em estudos encomendados e pouco sérios, interpretados pelos media de uma forma ainda menos séria, e cujas conclusões enviesadas colhem os frutos desejados na histeria mediática com que são lançadas e na incapacidade de compreensão das massas, que sempre se deixam conduzir mais pela emoção do que pela razão.

 

Nestas matérias, repare-se, os cientistas nunca são ouvidos. Quanto muito, vai-se buscar um qualquer chefe de laboratório, muito versado em comunicação e diplomacia político-económica, que, por vezes até, colhe os louros de toda a equipa que lidera, mas com conhecimento medíocre dos temas. Há uma razão para isto. A pseudociência funciona ao contrário da verdadeira ciência. A ciência procura a verdade das coisas, do funcionamento do mundo, seja ela qual for. Elabora as suas experiências nesse sentido. Já a pseudociência procede exatamente ao contrário: procura as experiências que, de algum modo, conduzam às conclusões que pretende anunciar à partida.

 

Se há área do conhecimento humano onde é mais visível este processo de charlatanice, a ação clara da pseudociência, é a área da climatologia. É que nós vamos sendo conduzidos a conclusões com base numa análise do clima quase ano a ano quando — qualquer cientista da área nos dirá — conclusões sobre o clima têm que ser baseadas em dezenas de séculos, milénios de dados! As alterações climáticas são muito lentas! Simplesmente não existem alterações radicais de um ano para o outro!

 

Serve isto para apontar o dedo à situação. Não, os incêndios em Portugal não se devem a alterações climáticas. Nem estes, nem os do passado, porque os incêndios têm sido uma marca neste país há décadas a esta parte. Se os incêndios fossem resultado de alterações climáticas, então também aconteceriam em Lisboa, nas grandes cidades, nos parques e nos espaços verdes. Mas não acontecem, pois não? Pensemos nisto. E pensemos também nos eucaliptos que crescem aos milhares em Pedrógão, nas terras queimadas, em Monchique e ao longo de todo o país. Lembremo-nos que os incêndios começaram a ser uma constante no nosso país quando aderimos à União Europeia, então Comunidade Económica Europeia. Já lá vai o tempo! Pode ser uma coincidência, eu sei. Nem me atrevo a referir as empresas de pasta de papel que tão importantes são para o nosso querido produto interno bruto. Tenho consciência disto. Vinha já alguém aí do governo defender a honra dessas e doutras empresas, porque são as empresas e os empresários que importam neste país. O PS sabe-o bem, como sabia o PSD. Pode ser que juntem os trapinhos no futuro. Há tanto o que os une... Agora, o que seria positivo era parar de usar as alterações climáticas como desculpa para os incêndios. Agradecia.

 

Nesta problemática, o que é grave é a verdadeira ciência estar a ser engolida, em largas colheradas, pela pseudociência. Não há, neste particular, propriamente grande motivo para espanto. Se retirarmos a liberdade à ciência para explorar o mundo, investigar os seus processos, chegar às suas conclusões livres de pressões e de constrangimentos, e a sujeitarmos, cada vez mais e cada vez mais aceleradamente, ao condicionamento do poder económico e dos seus interesses, então é perfeitamente natural que a verdadeira ciência deixe de existir, pelo menos na sua plenitude, e se converta em pseudociência. É natural: no final de cada dia, todos nós precisamos de pôr comida em cima da mesa.

A apologia do pecado

por Amato, em 05.08.18

O que é mais traumatizante no caso Robles não é o facto de se constatar que há um político no Bloco de Esquerda que não tem um pingo de vergonha na cara, nem de escrúpulos, nem de caráter. Com efeito, nem o Bloco de Esquerda é um partido de santos, nem a esquerda, em geral, é composta, apenas e em exclusivo, destes seres imaginários sem sexo.

 

O Bloco de Esquerda, em particular, parece ser profícuo em nos brindar com figuras muito mediáticas, nomeadamente no que concerne à autarquia da capital, que, uma vez conquistado o poder, tratam de arranjar a sua vidinha e esquecer a cartilha que levavam no bolso durante a campanha. Ou já se esqueceram de um tal de José Sá Fernandes? À terceira, isto é, ao terceiro eleito para a Câmara de Lisboa, será de vez. Acreditemos.

 

O que é, de facto, consternador, é a direita ter capitalizado com o fenómeno que teve assim o condão de difamar e descredibilizar o discurso da esquerda como um todo e de, ao mesmo tempo, encher o peito da abjeta direita política e da sua práxis mundana de promiscuidade com o mundo dos negócios. Em linguagem religiosa, foi como se tivesse resultado uma apologia definitiva do pecado que se deduziu diretamente do apontar do dedo aos defeitos de caráter dos evangelistas.

 

Não. Não é assim. Não aceito esta lógica. Não aceito que Assunção Cristas e seus acólitos malfeitores possam sair disto por cima, como se toda a patifaria que aprontaram durante largos anos no governo, no domínio do mercado de arrendamento e noutros, pudesse ser apagada simplesmente porque do outro lado havia uma pessoa pouco séria. Que apague aquele sorrisinho prepotente que leva, por estes dias, nos lábios!

 

Não deixo de sublinhar, todavia, a forma patética com que o Bloco de Esquerda lidou com todo este caso. Justifica, desculpa, não se demite, demite-se, não se desculpa, não se justifica, admite-se um erro. Afinal houve um erro. Ficam na memória as tristes figuras de Mariana Mortágua, Catarina Martins e Francisco Louçã procurando, no mais exclusivo espaço mediático, justificar o injustificável. O Bloco de Esquerda é isto, infelizmente. Não se nota evolução.

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